Poemas -> Amizade : 

O BEIJO IMPOSSÍVEL

 
 
I — O DESEJO

Quem amou, mas não podia
sabe a dor desta canção.
Ulisses ama Marina,
mas o mar não tem perdão.

Do fundo Marina canta,
a voz vem rasgando o ar.
A mão que toca e que espanta,
num beijo que não vai dar.

O canto rompe sem porta,
entra na carne e na vida.
O cordão prende, não corta,
o desejo abre a ferida.

II — A SENTENÇA

Ele mergulha ao seu mundo,
o sal lhe invade o pulmão.
Nos braços dela o segundo
é afago, e logo prisão.

Se ela sobe à claridade,
seu canto sangra no ar.
A pele estala em saudade
do ventre que quer voltar.

III — A RUPTURA

A corda cede. Ele desce.
Ela sobe ao mesmo instante.
Boca a boca — e parece
que a morte se fez amante.

Beijo de frio e brasa
no fio da vida e da morte.
Não dura por não ter casa:
por ser sem rumo, nem norte.

IV — O QUE RESTA

Ele segue. Ela mergulha,
cada qual na solidão.
Mas trazem na boca a marca
amarga desta canção.


Souza Cruz

 
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