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Sabado, 25/04/2026 (completo)

 
Sabado, 25
Manhã chuvosa. O sr. Com comprou os pães para o sr. Vince e pagou adiantado um mês (dois pães por dia) na Padaria Renascer da Praça Sete Palmeiras, Vila Embratel. O seu Robert sorriu agradecendo e o poeta ouvia com os fones “Era de Ouro” na Senado FM uma viagem musical com os clássicos dos anos 40/50 – Araci de Almeida, Aurora Miranda (irmã da grande diva) e outros – o programa fazia-o lembrar de seus pais na Casa Grande da Rua Afonso Pena, Desterro – o velho Bamba gostava de cantarolar para adoçar o ciúme de Mama Grande – Ele tinha uma amante fixa, Dona Maria. E no final dos tempos as duas tornaram-se amicíssimas até a morte de ambas.
No atelier, sempre temerário com o reboco da viga desabar, o poeta rezava antes de suspender a porta de rolo e suspirava aliviado ao constatar tudo normal, então agradecia novamente ao bom Deus.
Colocava ou melhor pendurada a antena de seu Jojó e seus heterônimos na fachada e mudava de roupa.
“Assistir o show de Elis e o bruxo Hermeto no Festival de Montreux” anotou o Sr. Com no seu caderno de capa amarela.
- Ei, Bonjour! – gritou Dezão interrompendo a entrevista de Nelsinho Mota com a pimentinha num almoço na casa do organizador Nobs, depois do apoteótico show da noite anterior. Todo de preto, vinha do café no Popular, um relojão colorido, um celular verde- “Vou lavar ao menos duas roupas, segunda vou buscar receita. Tá faltando Carbamazepina e meu cartão de transporte vence, mas tenho quinze dias, não diz pra ninguém” e saiu.
Na opacidade fugidia do sol atrás das nuvens plúmbeas que encobriam o céu, o poeta deixou Elis sobre a mesinha e rumou para a quitanda de Gordilho. Um gato gordo e pachorrento enrodilhado no assento da cadeira dormia, tal como o gato risonho de Alice nos Pais das Maravilhas anunciava a ausência do mestre atarefado nos seus afazeres domésticos nos confins da casa.
A visita surpresa de um velho conhecido, conversam de tudo de Trump a Vorcaro e a sabia citação de sua avó materna, neta de escravos: “Muita inteligência passa por cima da fortuna” – quando o poeta viu Gordilho colocando o saco de lixo na calçada, percebeu que era a hora – acompanhou o conhecido até o farto tabuleiro do verdureiro e esse ao ver a convidativa nudez das espigas de milho, aproveitou para compra-las.
- Olha agora é vinte reais – advertiu seriamente Gordilho por trás da grade fechada do portão da quitanda ao entregar o refrigerante e o resto de uns biscoitos de ontem. O gato gordo espantou-se pelo tom de voz do dono e abriu preguiçosamente um dos olhos – É pra tu não esquecer, certo.
“Assisti programa “Mulher 80” e o especial “Gente Nossa” com Elis na Tv Globo.
A fauna do Popular a caminho para pegar os bandecos – Feijoada.
- Pisissitinho puro! -gritou a morena musa dos bebuns do bar de Ed Paul do meio da calçada, num conjunto de lycra lilás – destacando o seu bubum acentuado e suas pernas cor de ébano.
Ultimamente de tanto ler o velho Buk, pegou a fixação pela aquela parte anatômica traseira das femeas e sempre admirava freneticamente ao ver um belo par de rabo – O velho e sacana Buk puro!
A musa dos bebuns estacionada na porta gradeada da quitanda de Gordilho que acabara de retornar da galetaria da esquina da 19street com o frango assado para seu velho pai Cardin. Impaciente ela esperava a sua discreta dose da pura babando de desejo. Um ônibus vindo do centro corta a cena parando em frente. Saciada, a musa morena dos bebuns do Bar do Ed apanhou a sacola e a pendurou no braço, gesticula e sobe puxando a saiota.
Um ônibus para abruptamente em frente ao atelier e abre a porta dianteira e o verdureiro correndo adentra nele.
Os pixixitinhos de volta do Popular com as sacolas abarrotadas de bandecos. Cena já comum no final das manhãs de sábado. E o poeta peidava e urinava em abundancia no fundo do atelier
- Onze e vinte – gritou com sua voz estridente e olhando o celular a vizinha do lado e o marido no eito cortando o cabelo de um senhor.
A mamãe sêria e com cara de poucos amigos com duas sacolas de bandecos seguida alegremente pela serelepe filhotinha. O poeta despendurou a antena jojoniana e a guardou no fundo.
Trabalho de engenharia sem o engenheiro apenas a perspicácia e a experiencia do velho mestre pedreiro armando e montando as vigas sobre a laje da farmácia do PM Beto na esquina da 21street com avenue Sarney Son. O encontro com seu Benedito Andrade, caboco de Cajapió e um dos habitué do Lasierra no começo da rua 19 – a fumaça cheirosa da galetaria
- E vai lá?
- Seu Benedito Andrade! Disse efusivamente o poeta apertando a mão dele.
- Pega aqui para o senhor tomar uma – meteu a mão no bolso dianteiro da bermuda, puxando um bolo amarfanhado de cédulas e pescou uma de dois reais e entregou para o poeta – Para o senhor tomar uma.
- Não pisa direito no chão para tu ver onde tu vai parar e fecha essa agua – ordenou a sra. Vince imperiosa para o marido doente que vomitava no banheiro, o genro pegou na farmácia um anti-inflamatório.
O poeta urinava atrás da casinha e via o pé de vinagreira empesteada de fôrras.
Seu Castro lavava seus apetrechos de seu café na pia e o poeta abria a geladeira e tirava um deposito plástico com um pedaço único de galinha assada de ontem e a guardou no forno do fogão.
O odor forte dos alvejantes das roupas lavadas que a sra. Vince estendia no terraço – um pedaço azul do cêu numa brecha entre as nuvens. O poeta entornou a ultima dose, secando o copo. E o batuque bem baiano vindo da sala do computador. Era hora do rango, levantou-se da rede, apanhou o prato e a colher sobre a cômoda e seguiu para a cozinha. Na exígua sala de estar, a mais velha gargalhava assistindo as serie sul-coreanas.
O sr. Com saiu com o intuito de comprar uns analgésicos a base de cafeína e dipirona. A simpática atendente da farmácia saíra para trocar um dinheiro e ele seguiu para o Lasierra – Em frente no bar de seu Raimundo Corninho, um espetáculo único, a Dona Iva saracoteava sensualmente uma lambada francesa das Antilhas dos anos 80. O poeta entornou uma dose, Lasierra atendia duas clientes que queriam comprar o balcão de vidro -o corpo febril e as mãos álgidas e retornou por dentro do mercado.
Uma comedia pastelão ao estilo Mel Brooks – “Find the lady” com Joe Candy, um policial bem atrapalhado. Antes o poeta foi ao Lasierra apanhar um copo de vodka – chuviscava.
- O senhor vai sair debaixo de chuva? Ironizou Tia Redonda que mamava umas latas com a senhoria na sala.
- Sim senhora -abriu a porta e esgueirou-se para o frio terraço molhado.
Na volta com o copo, uma branquinha apetitosa o cortou na entrada da rua 16, protegendo-se da chuvisco com a bolsa sobre a cabeça e correndo entrou no salão das testemunhas de Jeová, quase em frente a pensão Vince.
Outra saída, antes um discursão tipicamente dostoievskiana entre a mãe e a filha. Chuviscava, o asfalto úmido refletia as luzes das lâmpadas de led dos postes. Dessa vez foi no bar da grandona, Nilson, o podador, malandro todo ferrava o cozinheiro boiola e ao mesmo tempo flertava sutilmente com a apetitosa dona cheia de carnes. Quem é bom, é bom mesmo -pensou. No Charmille as mesas e as cadeiras todas ocupadas na calçada em frente ao Lasierra.
De volta a pensão, a sra. Vince cochilava sentada na sua cadeira abacial, o descanso dos justos e o genro sem camisa jantava na cabeceira da mesa.
Tres ovos cozinhando e a terceira saída para congratular o ‘perigoso” Nilson, o podador querendo podar a grandona e como um tubarão rodeava a sua vitima.
- E tu dá conta? Uma pergunta idiota do ilustre bardo – um pouco acima do chão.
- O quê? Como no café e a qualquer momento, poeta.
Nilson é phoda – a grandona serviu toda séria de cara amarrada e o poeta sem clima retirou-se a francesa.
Na pensão o clima light. Apagou o fogo dos três ovos e os guardou para esfriar. Zapeando atoa no you tube já um pouco zarolho – encontrou “Seize the days” baseado num livro de um de seus autores favoritos Saul Below com Robin Willian.
A quarta.
- Foi meter uma? Perguntou a sra. Vince com a voz engrolada de cervas – Ta ruim. – era sempre assim negativa.
Desta vez foi no finado Bispo, atendido por uma das filhas dele e serviu uma generosa dose. Na grandona, as mesas unidas numa confraternização e no Charmille triste com as dele as moscas.
- Todo mundo está diabietico – vaticinou a Sra. Vince com a latinha nas mãos – Eu vou me consultar.
Uma dose num gole só
- Que horas é, Seu Carlos?
- Oito horas.




 
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efemero25
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