Poemas : 

O Altar de Macabéa - Por Chris Fonte Katz

 
O Altar de Macabéa

​Ela bebia o tempo em goles pequenos,
Como quem teme acordar o destino.
Seu corpo era um rascunho de ossos e acenos,
Um verso perdido num mundo divino.

​Alimentava-se de vento e de rádio,
De "tic-tacs" de relógio e pão amanhecido.
Não sabia que a dor era um antigo estádio,
Pois nela, o sofrimento era um bicho contido.

​Datilógrafa de palavras que não lhe pertenciam,
Vivia o "não" com a doçura de um "sim".
Seus olhos, espelhos de nuvens que fugiam,
Buscavam a aurora no fim do jardim.

​Até que a Mercedes, em metal dourado,
Veio colher sua vida no chão da calçada.
E o sangue, no frio do chão derramado,
Fez dela, enfim, a rainha coroada.

​Naquela hora, o nada se fez claridade,
A poeira subiu ao trono do céu.
Macabéa, vestida de eternidade,
Rasgou da existência o último véu.

Por Chris Fonte Katz


Sou Mundos!


Chris

 
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Enviado por Tópico
Aline Lima
Publicado: 07/01/2026 01:54  Atualizado: 07/01/2026 01:54
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 Re: O Altar de Macabéa p/ Katz
Olá, Chris.
Tenho um carinho especial pela Macabéa da Clarice, e senti que você conversa com ela de um jeito muito próprio aqui. Essa delicadeza quase invisível, que só ganha “altar” no fim, dói justamente porque chega tarde. Fiquei com essa impressão de ritual silencioso, desses que o mundo ignora, mas que doem em quem lê, no bom sentido, daquele que fica.
Beijos.

Enviado por Tópico
Alemtagus
Publicado: 10/01/2026 12:12  Atualizado: 10/01/2026 12:12
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 Re: O Altar de Macabéa - Por Chris Fonte Katz p/ Katz
As primeiras duas estrofes trazem, num clamor épico, a imagem poderosa de alguém dono de mundos, talvez a autora, talvez a personagem da autora. A terceira estrofe, funciona como um fiel de balança, uma transição do épico quase divino para o mundano. As duas últimas roçam, num equilíbrio quase assustador e prazeroso, o tom popularucho do mais comum dos mortais. Um mar de letras

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