O Altar de Macabéa
Ela bebia o tempo em goles pequenos,
Como quem teme acordar o destino.
Seu corpo era um rascunho de ossos e acenos,
Um verso perdido num mundo divino.
Alimentava-se de vento e de rádio,
De "tic-tacs" de relógio e pão amanhecido.
Não sabia que a dor era um antigo estádio,
Pois nela, o sofrimento era um bicho contido.
Datilógrafa de palavras que não lhe pertenciam,
Vivia o "não" com a doçura de um "sim".
Seus olhos, espelhos de nuvens que fugiam,
Buscavam a aurora no fim do jardim.
Até que a Mercedes, em metal dourado,
Veio colher sua vida no chão da calçada.
E o sangue, no frio do chão derramado,
Fez dela, enfim, a rainha coroada.
Naquela hora, o nada se fez claridade,
A poeira subiu ao trono do céu.
Macabéa, vestida de eternidade,
Rasgou da existência o último véu.
Por Chris Fonte Katz
Sou Mundos!
Chris