Sete horas.
Despertou com os pingos da chuva tamborilando sobre o telhado. Moravam ali havia alguns meses. Sua companheira já tinha partido. O filho, enfim, dormia. Ele não pregara o olho durante a noite: o pequeno não parava de se mexer, faminto. Quando conseguiu cochilar, veio a chuva e o frio fora de época.
A mãe saíra desesperada assim que despontou a alvorada. Ele colocou a cabeça no vão e perscrutou ao redor, procurando-a.
Nove e meia.
Daqui a pouco ela volta.
Ficou a sapatear em torno do filho, impotente.
Meio-dia em ponto. Ela não retornara. O miúdo já havia acordado e exigia comida. Aguardou por um instante. Depois decidiu que se ela demorasse mais, deixaria o recém-nascido só e iria atrás dela.
Ela costumava ir ao Mercado Central. Lá havia fartura de alimentos, mas a disputa com os outros iguais, em igual situação, era perigosa e desleal.
Meio-dia e quinze. Não podia esperar mais.
Olhou para a cria e partiu.
O que teria acontecido? Ela nunca se atrasava.
Os pensamentos voavam junto com ele.
Avistou o mercado do alto. A paisagem lhe era familiar. Nascera próximo dali. Contornou o edifício. Nada.
Talvez ela estivesse no aterro sanitário municipal. Quiçá já estivesse em casa.
Em todo caso, era melhor ele mesmo prover o sustento do filho.
Parou junto à lanchonete da esquina. Já tinha o costume de beliscar nas redondezas. Petiscou alguma coisa aqui e ali e decidiu retornar para casa.
Com o coração acelerado, atravessou o espaço entre o mercado e o lar. Lembrou-se do dia em que a viu pela primeira vez, próxima ao banco da praça onde alguém, com muita dificuldade, dava de comer aos pombos.
Ela era diferente.
O brilho dos olhos e algo negro-fosco preso à perna direita, semelhante a uma tornozeleira, prenderam sua atenção. A impressão era que ela havia fugido de algum cativeiro. No primeiro momento, ela sequer percebeu sua presença. Havia outros e um deles a perseguia, insistente, arrastando as asas para cima dela.
Daquele dia em diante, nunca mais se separaram. A vida inteira juntos. Não demorou e veio a primeira gestação. Não foi adiante. Gorou. Tentaram outras vezes. Tanto tentaram que conseguiram.
Mas a vida não era fácil, a labuta era diária e as certezas, nenhumas.
Reconheceu o telhado de sua morada que despontava no horizonte. Acelerou. Talvez ela estivesse lá. Talvez o pequerrucho dormisse de barriga cheia. Talvez tudo não passasse de uma preocupação sem sentido. Talvez.
Chegou.
Nenhum pio.
Chamou.
Quando seus olhos se acostumaram à penumbra, percebeu o vazio.
Procurou em todos os lugares: sob a caixa-d’água, por detrás das conexões hidráulicas, entre os caibros caídos...
Ninguém.
Colocou novamente a cabeça para fora do vão.
E viu.
O pequeno implume estava lá embaixo. Caído. Inerte.
Nunca soube como chegou tão rápido junto ao corpo. O filho mal tinha chegado ao mundo e já se despedia dele.
Chamou. Sacudiu. Aguardou.
Não havia mais nada a fazer.
Precisava encontrar a companheira. Não tivera escolha. O filhote estava faminto. Ela tinha desaparecido.
Ouviu algo ladrar.
Uma presença ameaçadora e de grande porte avançava ferozmente em sua direção.
Não teve como resistir. Teve que abandonar sua cria.
Ainda teve tempo de assistir ao desaparecimento do pequeno dentro da bocarra esfomeada.
Foi a última vez que viu seu filho.
Se ele pudesse gritar, gritaria.
Se ele pudesse chorar, choraria.
Se ele pudesse...
Mas só lhe restou fechar o bico e ir buscar pela parceira.
Procurou-a próximo a certas construções conhecidas. Foi na fonte do terminal. Passou perto da antiga torre do morro onde tantas vezes trocaram carícias, até que...
Encontrou-a perto do Mercado Central.
Ou o que restava dela.
Com certeza, dessa vez o monstro metálico fora mais rápido.
O corpo despedaçado repousava sobre o asfalto. O peito estourado deixava as vísceras expostas, revelando os grãos que carregava para saciar a fome que acabou por matá-la, junto com sua cria. A chuva fina se encarregava da limpeza.
Reconheceu-a pela anilha negra-fosca na perna direita.
Era tudo.
Sete horas da noite.
O dia terminou em silêncio. A cidade vivia.
Poucos dias depois, uma fêmea garbosa no cimo de uma marquise chamou sua atenção.
Sem demora, aproximou-se.
Inflou o peito. Vocalizou. Preparou o seu melhor cortejo, arrastando as asas, exibindo e exagerando na sua performance.
Não demorou e já trocavam bicos.
Seus corpos e vidas cruzaram-se naquele instante.
E seguiram, indiferentes aos acontecimentos do mundo, fiéis ao curso da vida.
Gyl Ferrys