A primeira vez que eu a vi foi nos idos dos anos 90. Vestia-se e penteava-se à moda do tempo. Não se destacava entre as outras garotas da mesma idade. Sua imagem não encantava e nem feria. Eu havia me mudado há pouco tempo para Nova Lima. A troca de colégio foi sofrida e eu custei a me adaptar à escola, aos alunos e à região. Minha mãe resolveu morar mais próxima da minha irmã mais velha, que se casara e deixara Contagem para viver mais perto dos familiares do esposo. Ninguém imagina como foi difícil a minha adaptação.
Foi no colégio central da cidade. Estávamos na hora do recreio. Eu tinha 19 anos e ela 16, mas aparentava ser mais velha. Não era a mais bonita da escola, tampouco a menos agraciada. Havia nela algo indefinível que atraía o meu olhar curioso. Passou por mim sem me perceber. Somente um cara que me pedia cigarros na hora do recreio notava minha presença. Não que eu fosse o excluído da escola. Não era isso. É que meus modos reclusos afastavam as pessoas. Eu tinha acabado de sair de um relacionamento desastroso e estava com o peito um tanto quanto machucado. Acompanhei-a com os olhos enquanto ela ia se afastando, conversativa, sorridente, brincando com as amigas.
Na sétima série ela foi para a classe B, a mesma em que eu estava. Por coincidência — ou destino — veio se sentar à minha frente, na penúltima carteira da última fileira, perto da janela. Confesso que meu coração bateu mais rápido. Também devo confessar que não foi a primeira vez. Senti o perfume que seus longos cabelos cacheados espalhavam pelo ar e fiquei ali, aproveitando aqueles deliciosos eflúvios gratuitos até o fim da aula.
Com o passar do tempo fomos nos aproximando. Dos primeiros cumprimentos vieram os pedidos de lápis e borracha emprestados, até que começamos a nos descobrir: quem éramos, onde morávamos, quais eram nossas referências musicais, livros preferidos e todas aquelas perguntas idiotas que as pessoas fazem quando estão se conhecendo. Quando demos por nós já estávamos compartilhando cigarros na hora da merenda.
Das perguntas passamos às brincadeiras. Das brincadeiras vieram as confidências e, das confidências, iniciamos uma amizade gostosa e aprazível. Começamos a nos tocar durante as conversas e, a cada toque que ela me dava, eu sentia algo que nunca havia sentido antes. Dos pequenos toques vieram pequenos gestos mais íntimos e, quando percebemos, entramos em uma espiral ascendente de afeto que muitos chamam de amor. Ainda era em germe, mas fomos aguando aquele botão de flor diariamente, adubando a terra, retirando as urtigas até que aquela flor desabrochou. Ela me contava sobre sua vida, suas alegrias e decepções. Eu fazia o mesmo — e ela percebia que minhas decepções pareciam maiores que as dela.
Começamos a nos demorar mais nos olhares. Notei que ela tinha olhos profundos, de cores indefinidas, e que dentro deles talvez morassem mundos. E, como o afeto é algo que construímos tijolo por tijolo, parede por parede, quando demos por nós já havíamos erguido um castelo.
O afeto transformou-se em admiração, a admiração tornou-se respeito e o conjunto inteiro, por fim, transmutou-se em amor. Não pudemos evitar.
Namoramos intensamente durante todo aquele ano.
Na oitava série ela teve que se mudar para São Paulo, por causa da transferência do pai para uma filial da empresa. Recebemos a notícia com lágrimas nos olhos. Ela partiu. Ainda trocamos cartas por algum tempo, mas elas foram rareando, rareando… até que, quando percebemos, os vínculos estavam desfeitos. Restaram apenas boas lembranças de um tempo que passou.
Cresci, formei-me e fui trabalhar como escrivão em um escritório de advocacia. Com o passar dos anos, casei e tive filhos. Infelizmente meu casamento durou menos do que eu esperava. Separei-me e acabei me mudando para o interior de Minas Gerais.
Certo dia recebi um pedido de amizade no Facebook. Não reconheci quem era e não aceitei. Pouco depois chegou uma mensagem privada: era Estela, que havia estudado comigo na sétima série.
Agora era uma mulher feita. Sorriso aberto. O mesmo olhar que eu tanto admirava e no qual gostava de me perder por minutos.
Foi com imensa alegria que a reencontrei. Ela havia voltado para a capital mineira e também estava separada, depois de anos em um relacionamento abusivo.
Marcamos de nos encontrar em Ouro Preto.
Aquele dia foi inesquecível.
Ela contou-me sobre sua vida e eu contei sobre a minha. Inevitavelmente, aquela felicidade terminou na cama. Pouco tempo depois resolvemos morar juntos em Ouro Preto. Ela era farmacêutica e eu consegui trabalho como guia turístico.
Vivíamos bem. Paixão intensa, amor recíproco, promessas de parte a parte.
Falando em promessas, resolvemos que nunca mais nos separaríamos — e que quem partisse primeiro deste mundo enterraria o outro debaixo da velha gameleira que tínhamos no quintal.
E, como tudo na vida não pode durar para sempre, o inevitável aconteceu.
Eu precisei viajar ao Tocantins para resolver algumas questões financeiras. Naquele mesmo dia, Estela estava próxima da Praça da Estação, em Ouro Preto, participando de um evento de rua com as amigas. Conversavam e aproveitavam a seresta que acontecia no coreto.
De repente houve uma briga. Um rapaz embriagado sacou uma arma e disparou. O tiro acertou Estela justamente onde ela era mais bela: no coração.
A morte foi instantânea.
Como eu estava em uma região de difícil acesso, demorei a saber do ocorrido. Não puderam esperar minha chegada e realizaram o velório sem minha presença.
Quando finalmente recebi a notícia, o chão fugiu debaixo dos meus pés. Senti-me enlouquecer.
Quando cheguei a Ouro Preto, ela já estava enterrada.
Como foram torrenciais as águas que desceram em cascatas pelos meus olhos! Nem Noé teria visto tantas.
Eu não podia deixá-la ali. Não! Jamais!
Meu primo me retirou do cemitério e me levou para casa, tentando me consolar. Começamos a beber até alta madrugada, quando então lhe contei da promessa que havíamos feito.
Decidimos pegar o carro e voltar ao cemitério para retirá-la daquela morada infeliz.
Chegando lá, passamos despercebidos pela vigilância e começamos a cavar.
Cada pá de terra que eu lançava era como uma punhalada no peito. A terra úmida parecia beber o meu pranto, enquanto meus soluços quebravam a mudez da necrópole.
Quando nos aproximamos do caixão, passei a cavar com as próprias mãos. Com tanta força e desespero que meus dedos começaram a sangrar.
Foi com uma tristeza infinita que toquei a caixa de madeira.
Abri-a loucamente.
Lá estava ela.
Linda.
Com um leve sorriso nos lábios, como se apenas dormisse.
Tomei-a em meus braços e comecei a beijá-la. Passei as mãos por seus cabelos, chorando desesperadamente, enquanto meu primo observava a cena em silêncio, também tomado pelas lágrimas, foi entre soluços que eu consegui dizer:
- Vim te buscar, meu amor! Vim cumprir nossa promessa sacramentada, nosso pacto de amor selado embaixo da nossa velha gameleira! Vim te buscar, Estela! Vim te buscar!
Retirei a terra que ainda havia sobre ela e levei seu corpo comigo para casa.
Ao chegar, levei-a ao banheiro.
Lavei seu corpo lentamente sob a água do chuveiro, misturando minhas lágrimas àquela água fria. Peguei o shampoo de que ela mais gostava e lavei seus longos cabelos negros. Passei perfumes, óleos e cremes sobre sua pele pálida.
Quando vi a ferida mortal em seu peito, quase perdi a razão por completo.
Depois de horas de contemplação silenciosa, resolvi cumprir nossa promessa.
Enrolei seu corpo em um lençol de seda que tínhamos.
Então abri a terra no quintal.
Debaixo da velha gameleira.
Bem abaixo da janela do nosso quarto.
No dia seguinte, toda a imprensa de Ouro Preto noticiava a profanação do corpo de Estela.
Não demorou muito para que a polícia militar e a mídia aparecessem à porta da nossa casa. Bastou verem a terra remexida sob a velha gameleira para compreenderem o que havia acontecido.
Prenderam a mim e ao meu primo.
Hoje estou em uma cela solitária de um presídio psiquiátrico.
Deram-me papéis e canetas para que eu pudesse me distrair fazendo desenhos.
Mas não consigo desenhar outra coisa.
Desenho sempre a mesma cena.
A velha gameleira.
Debaixo dela, um balanço duplo.
Nele estamos sentados, eu e Estela, balançando lentamente enquanto admiramos o pôr do sol atrás do Pico do Itacolomi.
Ali, ao menos nos meus desenhos, ela ainda está viva.
E nunca mais iremos nos separar.
Gyl Ferrys