Sobre o Tejo que me assiste,
De Alcochete sou herdeiro;
Onde o rio não resiste
A ser fado marinheiro.
Veste o verde na memória,
barrete, jaqueta e brio,
traço em lã a minha história
na cinta negra e no frio.
Na festa de toiros viva,
onde o génio se agiganta,
há espera coletiva
que no peito se levanta.
Negro relâmpago mudo,
rasga o pó da tarde em flor;
O corno que investe em tudo
é fúria em puro vigor.
Mãos que prendem o infinito
no abraço que a vida entrega —
eis o silêncio de um grito
na coragem de uma pega.
Seda que a morte desenha
numa faena de luz;
Engenho que o peito empenha
na sorte que nos conduz.
Filho da terra e do mar,
neste quinhão de salinas,
sou o barrete a voar
nas ruas e nas campinas.
Carlos Lopes
“Ausento-me na quietude das folhas que caem, quando a música do verbo se cala e a alma se agasalha em si mesma.”