Poemas : 

Plano inclinado

 


Passa por mim uma brisa fria
na beira do fim

e eu deixo-me ficar.

Desconcentram-se as sílabas ditas
param até de inspirar

e eu deixo-me ficar
só.

Escorre o mundo
pela planta dos meus pés
desnuda-me a desimportância das coisas

e eu deixo-me ficar.

Fecham-se os olhos
secos
porque secaram todas as gotas
da água que circulava em mim.

A pele move-se
desliza
como se quisesse transcender
os limites da memória
em que a obrigo a viver.

E eu

deixo-me ficar

no silêncio
do filamento quebrado

dos grãos de areia
onde enterro os dedos.

Escrevo na terra palavras sós
e sinto o ar a passar entre as unhas
e a minha liberdade.

Pode ser que em cada nova letra
a história comece de novo
a respirar.

E eu consiga então

não me deixar ficar

só.


 
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idália
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