Passa por mim uma brisa fria
na beira do fim
e eu deixo-me ficar.
Desconcentram-se as sílabas ditas
param até de inspirar
e eu deixo-me ficar
só.
Escorre o mundo
pela planta dos meus pés
desnuda-me a desimportância das coisas
e eu deixo-me ficar.
Fecham-se os olhos
secos
porque secaram todas as gotas
da água que circulava em mim.
A pele move-se
desliza
como se quisesse transcender
os limites da memória
em que a obrigo a viver.
E eu
só
deixo-me ficar
no silêncio
do filamento quebrado
dos grãos de areia
onde enterro os dedos.
Escrevo na terra palavras sós
e sinto o ar a passar entre as unhas
e a minha liberdade.
Pode ser que em cada nova letra
a história comece de novo
a respirar.
E eu consiga então
não me deixar ficar
só.