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Poemas, frases e mensagens de HelderPinheiro

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de HelderPinheiro

Amor, trago-te pombas

 
Amor, observo-te
Enquanto empurras mais um bebé para fora de ti,
Despejando a tua vida, os teus anos, os teus olhos
De mocidade, em esforços desmedidos e resignados.
Sabes, sinto-me velho, quando te vejo assim,
Empurrando crianças, sinto as horas que puxam,
As rugas que já não se desprendem da cara,
Os cabelos que já não voltam, enquanto tu
Empurras bebés pela porta fora, pela calçada,
Os meus cabelos deixam-me, apanhados por pombas
De jardim, e tu empurrando bebés pela rua abaixo,
Até ao rio, e os meus cabelos voam, livres,
Com as pombas, deixando-me as rugas secas na cara,
Tu a empurrares bebés já adultos para fora de ti,
E eu, velho, a voar com os meus cabelos pelos telhados da cidade,
E tu a empurrares o mundo, num esforço resignado, para fora de ti.
Sabes, quando te vejo assim, velha por dentro,
Vestida de anos que ainda não chegaram, sinto pena dos dias
Que vão crescer sem ti, pena dos dias que virão sem o teu sorriso,
E tu, sempre com o fingimento da boca que mente felicidade,
Empurras o mundo, empurras a vida para fora de ti, até seres um eco,
E eu, mesmo velho, apanhando cabelos que voam, trago-te pombas,
Pombas velhas como eu, pombas que te poisam nos cabelos brancos,
Pombas que te beijam, pombas que te amam, pombas que tu já não vês,
Cega de idade e de solidão, mas que sentes no oco dos teus braços.
Amor, quando te vejo assim, quero abraçar-te até sermos um,
Até deixarmos os cabelos velhos em bancos de jardim
E juntos voar sobre os telhados, brilhando ao sol.​

--HP
 
Amor, trago-te pombas

Instantâneos I (Visões de Amor)

 
Um círculo húmido no chão
Deixado por uma lágrima
Rolada de olhos fechados
Durante o primeiro beijo
Numa noite de verão

Uma pétala caída
De uma rosa amarrotada
Por uma mão ansiosa
Durante o abraço terno
Do filho ausente tornado homem

O tilintar da última moeda
De um bolso com fome
Retirada com ternura
E deixada cair
No chapéu do pobre pedinte

Uma caneta esgotada
Pousada na beira da mesa
Enquanto o poeta chora
Após ter escrito para si
O mais belo poema do mundo

--HP
 
Instantâneos I (Visões de Amor)

Nós dois

 
paixão
existência errante
em épocas de granito
e horizontes de mar
pedaços de pele
e de veias febris
razão desarticulada
luzes sem eco...

o beijo
como se a absurdidade
do tempo e das pessoas
fosse uma mera página voltada,
inconsequente...
o reencontro com as planícies
selvagens, primordiais
como selvagem
é a união dos lábios

dois corpos
desejos que se encontram
em suores incontidos
palavras que se soltam
inacabadas, nuas
dentes arranhados
na pele
doce e fervente
olhos, brilho
êxtase

nós dois
uma paixão
um beijo
e um mundo de vida

--HP
 
Nós dois

Quando o amor se deita

 
Quando o amor se deita
Comigo na cama
Não durmo
Amanheço
Em risos adolescentes
E cores primaveris

Quando o amor me deita
E me beija na cama
Não sonho
Renasço
Como flor rasgada
De lágrimas

Quando o amor se deita
Na cama a meu lado
Sinto a embriaguez das alturas
Que se arrepia nas veias
Como um êxtase

Quando o amor se deita
Na cama comigo
Não começo
Ou termino
Em poemas
Sou eterno
...E livre

--HP
 
Quando o amor se deita

Regresso à Poesia

 
Hoje volto à fonte da palavra
Às vogais vivas de sangue maduro,
Ao ritmo da rima, à cadência da forma,
À eternidade do verso

Quero beber-lhe o sumo, comer-lhe a polpa,
Absorver o verbo que já se verte
E explodir em poemas
Ondulantes como marés calmas
Ou cortantes e agudos

Quero mergulhar naquele fogo sagrado
E sorver as estrelas que ali cintilam
Quero gritar de lágrima aberta
O pulsar que estremece o deslizar da caneta

Hoje escalo a montanha que em mim descobri
Vou conhecer-lhe cada pedra, explorar-lhe os poros,
Respirar-lhe a existência...
Quero subir ao cume e cantar,
Chorar quem sou
E clamar a alto som
Hoje vivo eu!

--HP
 
Regresso à Poesia

Transparência

 
através destes dedos
a única saída
a janela por onde extravaso
todo o meu ser
onde não existem paredes
e um mundo cor de pétalas
se joga na minha mão.
através destes dedos
respiro finalmente
entre luares de primavera
abandono os meus medos
as minhas vergonhas
e auto-limitações
inventadas
por detrás de armaduras
de titânio
enquanto deslizo no arco-íris
de reflexos da minha imagem
e permaneço aqui
de alma despida
aqui onde não vivem temores
ou auto-estimas que acorrentam
aqui onde eu existo apenas
como um todo
como todos
sem egos
sarcasmos ou arrogâncias
aqui, entre estes dedos
onde as emoções, os choros
a paixão, o ódio
são expelidos
em cada gota de tinta
em cada palavra
o íntimo exterioriza-se
em explosões
ou simplesmente murmúrios
e fica apenas a essência
do nosso resto de humanidade
a paz

--HP
 
Transparência

Um Adeus Pela Manhã

 
Naquele abraço meigo,
Entre simples e puras palavras
Ainda sinto os teus pequenos dedos
Pegajosos no meu pescoço
Enquanto me sussurravas
Segredos de criança,
Só para nós dois

Pai, tu és o meu melhor amigo,
Brilhavam os teus olhos travessos,
Francos, de coração aberto,
Que me faziam recordar
A minha longínqua inocência,
Aquele outro mundo que existiu
Antes deste mundo em que existo

Num instante
Os teus olhos de primavera
Descobriram a minha alma
O teu sorriso livre
Preencheu os espaços
Magoados que me rodeiam
E tudo fez sentido

Naquele abraço apertado,
Enquanto me sorrias
Baixinho ao ouvido
Histórias de brincar
Finalmente entendi
A dor que sai do meu peito
Sempre que te beijo
Um adeus pela manhã

--HP
 
Um Adeus Pela Manhã

o Emigrante

 
Ruídos, vozes, sensações,
Cheiros que não são de maresia
Panóplia de cores e de visões
Paradisíacas, ou dantescas
Consoante a luz e perspectiva
E ao longe um sussurro
De lusitana criança
Que me chama e interpela
- Para onde vais?

Tal é o mundo que visito
Tais são os poentes que me deitam
E me largam em sonhos antigos
Tais são os bancos frios,
Dos jardins em que me sento
E os pássaros, sempre os pássaros
Que só me fazem lembrar
Os céus e as águas que deixei

Parte de mim ficou espalhada
Pelos areais limpos em cor de mar,
Pelas pedras que já foram minhas
E das lágrimas que reprimi
Nasceram flores bravas
Nos desertos da minha infância
Crescendo em tons de saudade

Mas os ventos levam-me
Para longe, sempre para longe
As memórias diluem-se
A realidade impõe-se
E a minha existência confunde-se,
Esquecida entre folhas de jornal
Entorpecidas e desbotadas
E imagens apagadas pelo tempo

As vozes falam
E eu já não conheço
As nuvens que me perseguem,
Mãos que chegam e que partem,
Que me levam, distante de mim mesmo
Para outros mares, cintilantes
Mas sem o sabor do sal
Sem aquele suave marulhar
E aquele murmúrio de criança
Sussurrando - para onde vais?

--HP
 
o Emigrante

Trajecto

 
Comecei em ti
No auge das palavras
Desenhei linhas, subi montes
Corri vales, conquistei montanhas
E saciei a minha sede primordial
Nas águas salgadas da tua boca
Na saudade de teus olhos

Embalado pelo teu sonho
Fiquei, branco como um dia de mar
Num espasmo sorridente e febril
Enquanto as tuas mãos de vento
Me serviam papoilas e malmequeres
Como manjares

Mas hoje sinto o outono
Na minha pele na tua em mim
E são ácidas as manhãs
Que desperto sem calor
O calor da aurora que te trouxe aqui
Do fogo que me calou o medo
E me afogou em delírios

Tropeço em vidros partidos
Lágrimas estilhaçadas de suspiros
Comprimidos, peganhentos como eu
Nos lençóis que já foram de prazer
Num entrelaçar de pernas sem fôlego
Sem vida, sem nós dois...

Comecei aqui, assim...
Em ti amando, e amado
Num instante de beleza chorada
Que foi efémero existir
E eterno sentir...
E em ti termino, meu amor
No fim das palavras

--HP
 
Trajecto

Visões De Um Guerreiro

 
Em voos brancos,
Riscando a distância
Uma águia faz brilhar o sol
Em intermitências cadenciadas

(céu que me vês cansado,
de ombros velhos
e arregaçados)

Um horizonte perdido feito lobo
Canta como quem uiva
Chamando a si a erva da pradaria

(faz minha a magia da terra sagrada)

Seres, visões, futuros alienados
Confundem-se
Entre os ecos do tempo

(dá-me lágrimas de primavera,
ensina-me canções de esperança)

Um vento mudo
Desenha montanhas
Em aveludados dedos

(rouba-me as palavras de desassossego,
corta-as em ténues suspiros)

Rios rasgados
Correm sem memória,
Esquecendo-se em vertigens

(hoje lanço as minhas veias
na terra,
bebo do teu suor)

É aqui,
No início limpo das coisas
Que a semente é lançada
Como uma gota de chuva

(hoje quero renascer
em claros pensamentos)

É aqui
Que a essência do mundo
Deambula
Em cristalina existência
E a razão da vida
Se reencontra
 
Visões De Um Guerreiro

"O espaço onde pertenço está definido algures
Numa palavra que eu ainda não sonhei"