Poemas, frases e mensagens de Sterea

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de Sterea

A leste das minhas mãos

 
Um dia apeteceu-me perseguir as palavras certas.
Aquelas que são feitas das coisas que nascem,
que vivem, que crescem, que fazem morrer.
Aquelas feitas da consistência dos sonhos,
do risco das asas, do prolongamento do olhar,
da fé dos silêncios, de sorrisos limpos
ou de pensamentos fáceis.
E das coisas fundas... ah, das coisas fundas,
como não querer achar a profundidade certa
onde se encontrem palavras que as saibam...?

Apeteceu-me a criação, a original forma de dizer.
Terras novas.
O puro descobrimento.
...
As palavras ardem. As palavras são cinza, são fumo a acontecer.
Queimam-me as mãos, reduzem-me ao nada, dispersam-se ao vento.
São sinais...
Só meros sinais.

Como dizer da indelebilidade dos gestos?
Como dizer da nitidez dos efeitos,
da heterocromia do olhar,
da essência das águas
que nos percorrem em grito?...
Como dizer da sede que nos fica, depois da vontade?...
Ou da fome que nos beija a boca, depois da saciedade?
Como dizer por palavras
que a vida não é feita de domínios, nem de fronteiras?
Que as frases não se reduzem a marés lavradas?
Que a vida não é feita de sinais, mas de Marcas...?

(ah, um dia ainda hei-de inventar palavras Verdadeiras...)

A vida é mar em desassossego, e as palavras que eu persigo
são a sua espuma viva
vestígios de luas a leste das minhas mãos
ilusões de vela náufraga
sangue sem pertença flutuando à deriva
pedaços de madeira onde me agarro
murmúrio indefinível dos lugares onde já fui
e onde não mais voltarei.

E o meu papel, o barco que abandonei.

...
 
A leste das minhas mãos

...e tu esperas-me

 
...e tu esperas-me
 
O tempo é sempre igual
entre estas quatro paredes.
Ou quase
-
às vezes há uma hora ou outra
que me leva longe

uma hora ou outra que nos leva perto
não mais além que o tempo do asseio

não mais além do que aquela esquina
do nosso circunscrito passeio.

Os tempos são tão iguais
e porém tão diferentes
na relatividade que tange
o ponto do universo
onde os nossos olhares conversam:

"está na hora" - dizem os teus.

E eu, esperando um poema que não vem
deixo as palavras que tenho nos meus
descer aos lábios que as não têm
para escrever que a fé
é a inocência de tempos.

"já vamos..."

E tu esperas-me.
Só mais um bocadinho...
 
...e tu esperas-me

ÚLTIMO POEMA

 
Quando passares por mim mar e distante,
lembra-te dos rios que descobriste
na fluidez dos meus olhos que sabem chorar palavras.
E dos beijos que respiraste
na minha boca que cala as dores que escreve sorrindo.
Quando passares por mim nave e ausente
sobre as águas que me matam toda a sede que te traga,
ouve o feitiço do canto que te lembra o meu ser
sereia e doce.

Mas não pares para lembrar
que não sou
só o último poema
que escrevi.
 
ÚLTIMO POEMA

Arrebol

 
Há tanto tempo o céu deixou de ser
azul simples
quando eu o penso
Teu

ao tempo que
as águas transbordaram
e sob a pele das nuvens
correu um rio de sangue

ao limbo do madrugar das asas
ou do anoitecer dos dias,
não sei bem

há quanto tempo
a cor da fonte inversa
do magenta
beijou a cor de ciano
dos meus lábios

pincéis sem o saber
irisando a foz das lágrimas
em mistérios de pastel
e formas lentas
de aguarela

ao tempo
que isso aconteceu
e o sol se entregou
diluindo ouro e fogo frio,
e o mar por dentro
pressentiu
a flor das tuas asas
ascendendo

há quanto tempo, meu amor,
mudei a cor de seda da saudade -
de azul, para matizes de aura mística,
miscível anil de alma impura,
por celeste filtro dispersada
em tons de infância
e algodão-doce

ao tempo que eu teço os teus vestidos
dessas cores tão delicadas!

e é sempre assim que eu penso o Céu
fascinada
(porque sei que ele te guarda)
e te protejo a eternidade
nesse espanto!

ao tempo que as nuvens com que brincas
se iluminam dos meus olhos de mãe doce

ao arrebol
quase noite
minha vida
quase filha
a adormecer.
 
Arrebol

Peco todos os dias mais um retalho

 
Teço, todos os dias,
mais um retalho,
mas a linha do tempo esgota-se dos meus dedos:
Vida, que artes, que segredos
são precisos para eu saber o que valho,
quantos nós são precisos para um eu,
quantas de mim são precisas,
antes do adeus...?

“Meu Deus,”
-peço todos os dias-
“ilude-me na crença que o inverno
é um lugar de inflições tardias,
porque a manta tem demora,
linhas de caderno
são como orvalho,
garantem poesias,
mas não agasalho...”

Peco, todos os dias...
 
Peco todos os dias mais um retalho

Terra batida

 
Terra batida

Se eu pegar uma frase pelos cornos
daquelas que são a roupa de cote
e a torcer à garganta num garrote
espirrando-lhe os sangues inda mornos,

serei eu mais poeta que o pateta
que morreu por fazê-la expiação
das semânticas finas dos que são
abortos da flor viva da caneta...?

Serei eu mais que eu, se arrancar
a pele fria às palavras que se dizem
ser de todos o pão, a chuva, o ar...?

Serão riscos, sinais que me não fingem?
Será plágio, ou mudança de lugar?
Serei eu digno chão da sua origem?...
 
Terra batida

DE FELIZ E DE LOUCO… O POETA TEM UM POUCO

 
DE FELIZ  E DE LOUCO… O POETA TEM UM POUCO
 
DE FELIZ E DE LOUCO… O POETA TEM UM POUCO

Tão pouco me arrisquei para sentir
(Enquanto for de si simples sonhar,
Ao louco tem a lei brando julgar),
Portanto me atrevi só em sorrir…

Da arte quis a essência de ser só
Autora dos meus próprios sentimentos,
D’amar-te fiz a história dos momentos -
Embora de céus breves, ébrio pó.

Ainda assim, pupila da alegria
Serei, enquanto em versos me escrever
E d’alma me entregar à fantasia.

Ainda em mim cintila este querer
Sem lei, canto ou meças de estesia,
Só bálsamo em trégua de viver…

(Poema vencedor do I Concurso de Poesia da Associação Cultural DRACA - "Arte é Alegria" - 23/10/2011)
http://www.facebook.com/l.php?u=http% ... lSji3bukYW-T7-HYtWCZx1nvw



OBRIGADA
-sirvo-me do particípio passado,
de um verbo que não é nada,
gratidão é um presente
que retribui na medida
daquilo que a gente sente...
 
DE FELIZ  E DE LOUCO… O POETA TEM UM POUCO

ABAIXO A POESIA!!

 
ABAIXO A POESIA!!
 
ABAIXO A POESIA!!

Não quero mais escrever poesia!
Não quero rimas, nem métricas, nem ritmos, nem sílabas contadas!
A vida é porventura medida em versos?...
Só lhe sei os avessos, os gumes, a desarmonia!
(Ai, que mania! Saiam-me da frente, consonâncias macabras!)
Que sentido há em forçar sentimentos,
em moldar lamentos, à custa de buscas inglórias,
de floreadas estórias, de mondas castrantes?...
Deus criou o Mundo imperfeito,
quem nos dá o direito do o profanar?...
A Vida é merda,
só não vê quem não quer ou não enxerga!...
Mas tu, eu, que cegueira é a nossa,
que somos a troça do mundo real?!
Deus criou-nos um ser perfeito
para estragar tudo o que é natural...
Para quê tentar ser eleito,
julgar-se no direito de violar o original?
Saiam do caminho, rimas medíocres,
sinto-me patética, ensaiando estrofes,
que me ditam ecos de servilismo endémico!
Quero a liberdade da palavra,
que se faça aqui e agora,
por escrito, em hasta pública,
a alienação da hipérbole, a penhora da metáfora!...
E o eufemismo, lancem-mo borda fora!!
Quero ser livre de ser
poeta por puro acaso!
(quando descrevo um ocaso...),
sublime por natureza!
(quando defino a beleza...),
cantar como quem chora!
(quando a ternura me implora...),
rimar como quem fala!
(ecos tirados ao calha),
sangrar como quem porfia!
(um coração que expia...),
olhar como quem vê!
(o mundo em que se crê...)...

Porque...

...se Deus nos deu a alma e a pena, nosso é o papel, o sangue e o Sentir!...
 
ABAIXO A POESIA!!

Há silêncios que são lágrimas

 
Há silêncios que são lágrimas,
meu pequenino amor,
a contornar-te a imortalidade
em certezas que me são colo
e afago.
Há silêncios que são beijos líquidos,
meu eterno amor,
que me ungem mãe sublimada
e me perfumam de essências raras,
dulcíssimas...
E nem a dor que me nasceu no peito
(há tanto tempo),
e me floresce nas mãos órfãs,
desespera em chaga incurável:
porque,
meu anjo,
há quem diga que lágrimas são saudades...
eu digo que,
simplesmente,
há saudades que são lágrimas
-
de Amor.

www.cofreforte.blogspot.com
 
Há silêncios que são lágrimas

Nos nós dos dedos

 
Nos nós dos dedos
 
Nos nós dos dedos,
A dor encosta-se à chuva forte
E não nascem arco-íris
Nas breves bonanças de sol,
A restituir alianças prometidas…
Mas prende-a a eternidade do ouro,
E resiste, resiste,
Cega das areias que lhe contam dias,
Anos,
Dores.
Flores também,
As que lhe permitem as mãos debilitadas
Pelas coroas que lhe cravam espinhos
E lhes tolhem vontades.
O sangue corre-lhe em rios subterrâneos,
Intrusos,
Forçando a pele em pecados veniais
Que só lhe afundam as chuvas
E lhe apodrecem a carne.
Mas o ouro é só uma cópia do sol…
Um dia, o real brilho trai a eternidade da dor.
Caem por terra elos e falsos deuses,
A chuva amansa a rigidez dos arcos
E a íris reflecte a serenidade dos dias que restam
Para o cumprimento da luz…
Há,
Agora,
Um símbolo novo de aliança divina:
É Primavera ainda
E nascem-lhe rosas como anéis
-nos eus dos dedos…

29 de Abril de 2011

Teresa Teixeira
 
Nos nós dos dedos

Estou doente.

 
Não é infecção nem afecção. Não.
Nem sequer moléstia que vá lá com terapias ou cirurgias. Também não.
Mas estou doente, só eu bem sei.
Tenho cá dentro um cancer vivo que se alimenta de mim, me mina raízes, me sobe às têmporas e me lateja uivos esdrúxulos.
O corpo do caranguejo é todo o meu coração. Violado, expugnado, profanado: o meu pobre coração, nascido um dia à imagem e semelhança do coração de Deus, puro, inocente, sagrado.
As patas são os apêndices estranguladores do resto do meu corpo.
Providas de tentáculos viscosos, agarram-se-me aos órgãos, às memórias, aos sentidos, à lucidez...

Estou doente, muito doente.
Mas tenho ainda a perfeita consciência que me posso curar, por mim mesma, à custa de arrancar de mim mesma o bicho maligno.
E enquanto eu tiver consciência disso, sei que serei capaz disso:
indo para longe do que me alimenta o parasita;
deixando de o alimentar, eu própria;
deixando de olhar para trás, despojando-me da camada de sal que me petrifica;
descobrindo que tenho pés, meus, mãos, minhas, vontade, minha;
agarrando a vida que me resta, como se fosse toda, como se fosse breve;
sacudindo o peso da mágoa, do perdão forçado, do ressentimento;
...esquecendo apenas.

Esquecer.
Esquecer, para aprender tudo de novo.
Esquecer.

(Lembrem-me sempre: a minha doença é benigna e o antídoto é o AMOR. Caso eu esqueça!...)
 
Estou doente.

Sabes, meu amor,

 
Sabes, meu amor,
 
já sei por que partiste.
A vida é longa demais...
longa demais para se ser anjo,
larga demais para nos ser trilho
inquestionável...
Há tantas distracções, tantos caminhos,
tanta luz fátua a encobrir o brilho
imaculável
com que nascemos!
Tantos atalhos,
tantas encruzilhadas,
tantas flores efémeras
a iludir-nos nas bermas
das estradas!
Meu amor,
tanto martírio
a esperar-nos em cada esquina!
...
que, sendo tu frágil lírio,
flor-menina,
não resistirias à terra esmagada,
tão pisada,
por passos que se perdem nesta busca
(sempre vã, meu amor)
a que estamos condenados por sentença
crucial.
A vida é longa demais,
o céu é estreito,
por isso, meu amor,
te perco tantas vezes
no horizonte breve do meu peito...
mas nunca esta boca há-de negar-te,
nem a minha alma deixar de encontrar-te
tantas vezes
quantas a minha cruz cair ao chão...
Perdoa-me, anjo meu,
em lágrimas te peço,
cravejando a aridez das minhas mãos
...
não desistas de esperar-me
no fim do meu caminho,
com o teu riso de rosas frescas
e o teu olhar de de água doce,
como se ainda
tua adorada mãe
eu fosse...
 
Sabes, meu amor,

Estamos a ficar velhos, Amor.

 
Estamos a ficar velhos
Amor.

A nossa pele já é madeira doce
e os nossos olhos são cálices
de porto vintage

Bebe-nos lentamente
um tempo morno
e o paladar aprimorou-se
é palavra de veludo denso
requinte de corpo

Estamos a ficar velhos
Amor.

Somos só nós agora
Tu e Eu
na matura idade do meu sentir
residual

E se um brinde ainda
me concederes
aceito apenas o vinho-ardor
que já mereço

o resto
que seja bouquet

ou beijo
intenso.
 
Estamos a ficar velhos, Amor.

Toca-me.

 
...
Não te aproximes mais,
fica aí,
à distância das memórias por não ser,
no limbo dos princípios,
no silêncio das coisas por dizer.
Fica,
não te aproximes mais
(de mim).
Poderás queimar-te no frio intenso da falsa lonjura,
poderás arrefecer as mãos no calor das reais aparências,
não vês...?

(Há três pelinhos brancos, a apagar-me as sobrancelhas, um enredo de atalhos a confundir-me os caminhos do rosto, erros do tempo manchando a minha pele.
E o cabelo, já não é feito do ouro antigo que a minha mãe usava ao peito, em delicada filigrana... Não, troquei-o por bijuteria moderna, de pouca dura, e brilho artificial.)

Não te aproximes mais,
fica aí,
à distância das palavras por escrever,
na fímbria dos indícios,
na certeza das coisas por viver.
Fica.
Não te afastes mais
(de ti).
Poderás magoar-te na saudade imensa da real ternura.
poderás curar-te do cómodo vício de falsas vivências,
não vês...?

(Há uma riqueza maldita, nos subterrâneos do meu ser, uma mina encantada que nunca chegarei a saber se é de ouro, de prata ou de pragas. Já me pisaram tantas vezes, que a minha pele se fez terra, os meus braços, árvores, os meus olhos, asas. Se sei voar, se te iludo azuis, lembra-te, trago por dentro ventos que os olhos não vêem, cores que ninguém inventou, restos de reconhecimento, encantos de ser próprio que ainda ninguém tocou.)

Aproxima-te, se quiseres,
vem aqui,
para perto do que há a perceber
ao alcance dos inícios,
na dúvida das coisas por saber.
Fica,
se ficar for permanecer
(assim)
respeitando os estragos como antigos livros de aventuras,
coabitando em mim sem luz nem guia, apenas por instinto de sobrevivência.

Eu sou aquela que sempre tiveste,
mas que nunca pudeste ver.

Toca-me.
 
Toca-me.

Canteiro

 
Quando eu morrer,
não me cubram de flores nobres,
nem exuberâncias de versos,
nem frialdade de mármores...
Quando eu morrer,
aconcheguem-me de terra boa,
replantada de uma vinha qualquer
do meu Douro abençoado...
Demarquem-me a campa rasa
com pedrinhas soltas de xisto
e deixem as chuvas afundar as estrelas
que o vento há-de trazer nas asas
e as sementes que os passarinhos
hão-de trazer no bico
até ao meu palmo de céu,
feito de terra boa,
com memória de vinhas e olivais,
de papoilas e madressilvas,
de malvas e margaridas,
de prímulas e frésias...

Quando eu morrer,
tragam nas mãos flores silvestres,
miúdas e frágeis,
não temam vê-las morrer-vos nas mãos,
porque, como elas,
a vida não dura mais que um momento...

e deixem-nas ficar comigo,
pálidas e sem viço,
porque o milagre das sementes
fica com elas...
e os seus perfumes
na memória que levarem de mim...

Quando eu morrer,
que seja inverno,
para que o meu palmo de terra
tenha tempo de se cobrir de flores,
em nascendo a primavera...
 
Canteiro

IN SANA MENTE

 
IN SANA MENTE

Sossega, mente,
Palavra alguma
Vale o delírio
De ser poema
Sem ser alívio,
E quando o tenta,
Só cegamente,

Só cega mente,
A lê anátema,
Epifania,
Antes dilema,
Sal que vicia,
Nó na garganta,
Sossega, mente.

Serena, dor,
Sobre essa chama
Imola o medo
Da fátua rima
Que trai o ego,
Escolhe o purgar
Serenador,

Serena a dor,
Crava essa pena
Na tua alma,
Faz de axiomas
Sangue venal.
Seja o que for…
Serena, dor.

(Obrigada)

Resultados finais aqui:

http://www.luso-poemas.net/modules/ne ... t_id=26013#forumpost26013
 
IN SANA MENTE

plagiato

 
passeio e aprecio - não gosto de pensar demasiado na composição artística do que leio e do que vejo e do que ouço. não gosto de colher as flores, e dividi-las em caixas, por cor, aroma, perfeição e capacidade de reprodução - assim, como quem guarda meticulosamente pacotinhos delicados de chá, em caixinhas de madeira. gosto de impressões. de flashes. de melodias subcutâneas. do carácter do todo. da desvalorização das correntes e das escolas. gosto de memórias dispersas, de estilhaços do belo, cravados na minha pele, sem qualquer coreografia ou evidência. gosto dessa matéria de coesão, esse cimento perene e delicado como mel leve, que, inconsciente mas não inconsequentemente, eu colho da ARTE que me toca.

não retenho nada premeditadamente, não escolho nada – tudo me escolhe a mim. não me detenho mais do que o necessário para a leitura dos perfumes. não me movo mais que o suficiente para a imperceptível construção do meu caminho.

e, no entanto, o pouco que me refaz mais bela, mais forte, mais dotada, mais artista... é essa substância fina que me transpira de dentro para fora, súmula do que me vai penetrando a mente e a alma, à minha passagem descuidada pela beleza das coisas...

nada decoro, e tudo me decora. nada duplico e tudo me explica – a Arte é mãe generosíssima.
 
plagiato

Saraiva. Júlio Saraiva.

 
"...tenho pronta um lágrima,
sempre que me dói a tua ausência..."
(de "Poema para dizer que te amo" - Sterea)

o gesto boémio a esquecer-lhe o olhar. um jeito de ser de ficar no peito. as letras virando palavra, palavrão, panaceia. água de cheiro, gin on the rocks. a aventura. percorrer a morte sem medo do escuro. a longa resposta, de todo esperada. a irreverância jamais subornada. um traço de ser amargo com doce. menino, se fosse. ternura. um cais de conversa nunca de partida. o irmão. um beijo de leve sempre à despedida. um porre e um poema sempre à cabeceira. o abraço. o dar-se que nasce em ambas as mãos. o olhar demorado nas pedras do chão. a espera perdida nos fios da bruma. e acende um cigarro e atira um escarro. o sentir as coisas em coisa nenhuma. e nasce já escrito um verso maldito. o escrito bonito, a flor inesperada, a dor trespassando as esquinas do nada. o passo prosaico. o riso miúdo. o início de tudo. o fino desdém. a boca gritando o nome da mãe. a barba contando histórias de ontem, o soneto perfeito a sair-lhe dos dedos. a espera. a procura. a história contada sem razão nenhuma. a explicação mais pura. o talento. a ternura. o amigo sem freio. o homem- menino. o autor e o efeito. o actor e a acção. e tudo emoção. o criador. o estupor, a dor, o amor. a ternura. e outra vez o rabo de saia da loucura. chuva forte, fértil. carinho. o poeta. Saraiva. Júlio Saraiva.

Enviado por Julio Saraiva
Publicado: 03/05/2010 19:55 03/05/2010 19:55


Usuário desde: 13/10/2007
Localidade: São Paulo- Brasil
Mensagens: 4267

* Re: Poema para dizer que te amo p/Sterea

passei por aqui para te dizer que este pequeno poema é de uma ternura do tamanho do mar.

carinho,

j.

Ler mais: http://www.luso-poemas.net/modules/ne ... ryid=131055#ixzz2LlVdr7xy
Under Creative Commons License: Attribution Non-Commercial No Derivatives
 
Saraiva. Júlio Saraiva.

Dói-me um poema...

 
Dói-me um poema...
...aqui, sr. doutor, hoje é aqui...

-ai!

aqui, nas falanges dos meus dedos
prisioneiros das milícias dos meus medos...

-ai, ai!

aqui e aqui também me dói
doutor,
no cálamo das minhas penas...
na verdade, doem-me vários poemas
no peito, no ventre
nas costas e na mente.

Já não é simples achaque
doutor
já é ataque
se não me agarra
de caminho caio ao chão
ai, se ao menos houvesse uma palavra só
que me valesse
antes da doença me chegar ao coração!

-ai, que dor, que dó!

Diga-me doutor, tenha piedade
só quero uma palavra:
a verdade
-
já é lírica septicemia
não é?...

-ai, doutor
perdi a fé...
eu sei que não há cura
vou morrer de Poesia!...
 
Dói-me um poema...

A VERDADEIRA HISTÓRIA DAS MÃES

 
A VERDADEIRA HISTÓRIA DAS MÃES
 
O homem, todos sabem, foi feito de barro.
Depois, Deus criou a mulher, dum pedacinho que sobrou e mais um pedacinho que faltou e teve que ser tirado ao homem... dizem que foi de uma costela, mas não, foi matéria mais nobre... foi um pouco mais acima, do coração.
Depois, Deus amassou muito bem, esmerou no feitio, e lá saíu, prontinha, a Mulher.

As Mães, essas, foram um caso à parte. Foi difícil...
Deus queria um ser especial!
Pensou, pensou, fechou nos olhos a recordação do ventre donde haveria de nascer ainda, e, finalmente, abriu-Os e deitou mãos à obra. Queria que ela fosse tudo o que Ele precisasse, quando não Lhe apetecesse ser Deus, e quisesse ser apenas menino...

Então tomou uma nuvem do amanhecer, daquelas mais fofas e rosadas, e moldou-a em abraço de embalar...

Pegou-lhe com jeitinho e escondeu-lhe um ninho dentro, feito só de esperanças...

Deu-lhe o poder de ser seiva, no seio, e a seda das pétalas, nas mãos...

Tocou-a com um raio de sol e deu-lhe a graça de ser agasalho...

Juntou-lhe um toque de brisa e deu-lhe a flexibilidade da compreensão...

Temperou-lhe o porte de flor e acrescentou-lhe resistência...

Colheu um pedacinho de algodão doce, e acrescentou-lho, para a doçura... (nesse tempo o algodão doce crescia nos campos, só para Deus, claro...)

Passou-lhe a mão sobre a cabeça e legou-lhe sabedoria e instinto...

Depois, tirou um bocadinho da carne do Seu próprio coração, e enxertou-a no coração dela: assim tinha a certeza que ninguém mais, além d'Ele, seria capaz de ter tanto Amor no peito...

E assim, num domingo de Maio, há muito, muito tempo, Deus criou a Mãe...
 
A VERDADEIRA HISTÓRIA DAS MÃES

Teresa Teixeira