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Poemas : 

Para não me esqueceres

 


Manterei as pálpebras abertas,
para o sol.
Conjugarei a água com o fogo.
Para não me esqueceres.

Na primavera,
os espinhos vigiam as rosas.
O soluço da água
amanhece os trevos.
O cheiro dos pinhais
vai na beira,
do vento.

A criança.
Leite cantante.
O girassol.
O mundo entre
pétalas.
O fruto.
O canto da maçã.

Cheio de barro,
o olhar.
Molda liras e vasos
convexos.
Com quadris
cresce
a carne.
A floração na dança.
Triunfa.
Para não me esqueceres.

Quando sou encontro.
O Verão.
Entra no arbusto
do corpo.
A ideia de mim, volta-se
para ti.
Canta a cotovia.
Nada esqueceste.







Zita Viegas















 
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atizviegas68
 
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Enviado por Tópico
Gyl
Publicado: 22/05/2020 16:50  Atualizado: 22/05/2020 16:50
Membro de honra
Usuário desde: 08/08/2009
Localidade: Brasil
Mensagens: 15499
 Re: Para não me esqueceres
Sempre um prazer beber da sua água, Zita. Beijo!

Enviado por Tópico
Margô_T
Publicado: 26/05/2020 13:46  Atualizado: 26/05/2020 13:51
Da casa!
Usuário desde: 27/06/2016
Localidade: Lisboa
Mensagens: 309
 Re: Para não me esqueceres
Um poema com sabor a Natureza e infância. Talvez porque a infância preserva, em nós, a genuinidade que a Natureza tem - e porque somos sempre, em parte, crianças quando nos apaixonamos ou quando evocamos essa paixão.
O melhor é mantermo-nos abertos para o prodígio e para a possibilidade:

“Manterei as pálpebras abertas,
para o sol.”

Só assim poderemos ser tudo o que somos (ou poderemos vir a ser):

“Conjugarei a água com o fogo.
Para não me esqueceres.”

Isto porque o todo pressupõe contrastes e a aceitação do todo requer os contrastes que com ele vêm (tal como os espinhos das rosas):

“Na primavera,
os espinhos vigiam as rosas.”

(o "vigiar" está delicioso...)

Nas partes do todo está o todo das partes:

“O mundo entre
pétalas.”

E, no meio de tudo isto, insiste “O canto da maçã” (tão belo!), esse canto que remete para a liberdade infantil também presente no trecho:

“Cheio de barro,
o olhar.”

... Entretanto passa-se da primavera para o verão e somos, agora, mais adultos:

“O Verão.
Entra no arbusto
do corpo.”

(este "arbusto" que é selvagem e que se revela no que esconde... como a sedução)

Ainda que prevaleça uma mesma vontade de partilha e dádiva/entrega em todas as estações:
“A ideia de mim, volta-se
para ti.”


Gosto!

Enviado por Tópico
Jorge/Joel
Publicado: 14/08/2020 15:22  Atualizado: 09/09/2020 18:13
Subscritor
Usuário desde: 02/06/2020
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Mensagens: 499
 "Eu jamais parti"














Não minto quando me dispo do que poderia ser dito entre o dito e não dito do que realmente digo, sim "Eu jamais parti" mas não digo não, pois poesia não sai de mim, foi-me dada assim, é a minha água pura, a minha força motriz, nem se compara ao ar, infinito o que respiro, é o que a voz me diz, por isso direi mesmo depois do fim, serei futuro ou estarei realmente aqui, de alma e corpo "Eu jamais parti" ... "Eu jamais parti"
Um hiato entre o que, ou por quem me tomo e o que sei sou ou sonho todavia subordinado a ser e será o eu verdadeiro enquanto o sonhei que na prática é o que sou e como me vejo, um resíduo, um suborno de sensações anteriores ao pós nas quais creio antever ou antecipar algo como se fosse o meu reflexo real ao espelho e eu espectador fictício de mim mesmo mas com relevo falso artificial e uma memória de outra espécie de elefante que abdicou de si mesmo para se tornar uma outra realidade ciente e sem substancia incorpórea apesar de humana ainda, quem sabe eu mesmo (arte e forma) pois sou aquele que nasceu sem se conhecer, pra quem tudo é estranho e diferente, performance magnífica ou repúdio caustico à boca de cena e ao palco