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Crónicas : 

O rei do garimpo

 
Tags:  História de uma vida  
 


Estava eu passando uma temporada em Curitiba a trabalho e como não tinha carro, todo o meu deslocamento era feito por ônibus ou por veículo de aplicativo. Em uma dessas corridas eu chamei um veículo de aplicativo, quando o veículo entrou na minha rua eu já estava em pé no meu portão. Abri a porta e sentei no banco do carona como sempre faço ao estar sozinho, acho frescura sentar no banco de trás sozinho.
Me espantei, pois, estava acostumado a viajar com motoristas curitibanos e aquele senhor não era paranaense, vi longo pela fala na apresentação, eu falei de mim rapidamente e ele me contou que era baiano, viveu cinco décadas em São Paulo e em outros estados, agora vivia em Curitiba há 3 anos. A viajem duraria uns 25 minutos sem transito eu iria a casa de um casal de amigos Jamil e Nádia almoçar do outro lado da cidade no bairro Batel. Após esta apresentação ele me fez uma pergunta.
- Você conhece alguém rico?
- Sim, conheço alguns – respondi.
- E um ex rico?
- Não, ainda não conheci.
- Está diante de um, abra o porta luvas e pegue um álbum de fotos e dê uma olhada.
Abri o álbum e comecei a olhar as fotos, logo de início tinha ele – aliás o nome dele é Walter e me disse ter 72 anos – dentro de um avião destes pequenos bimotores. Outras fotos com vários políticos, governadores e uma numa cama de hotel com pacotes de notas, dólares e barras de ouro espalhados. Depois vieram as fotos com 4 mulheres e os 12 filhos.
Começou a narrar a sua história, quando jovem recém-chegado a São Paulo conheceu um senhor muito rico que o contratou para ser motorista e segurança, por ser um baiano alto, forte e de grandes bigodes – como aparenta até hoje - esse tempo foi conhecendo pessoas e de tanto ir ao aeroporto fez amizades, então soube sobre um curso de piloto, foi conhecer a escola e se matriculou. No fim do segundo ano já estava pilotando e empregado. Pilotava aviões pequenos levando e trazendo gente do garimpo de Serra Pelada, voava para todos os estados dia e noite. Com o dinheiro que ganhava ele comprava ouro e vendia para quem pagasse mais, em um ano já tinha seu próprio bimotor comprado usado. Seis meses depois já tinha um segundo e quatro meses depois o terceiro,
Mas com o dinheiro vieram grandes despesas e acompanhado sempre de mulheres. Comprou fazendas e vários apartamentos em São Paulo e Rio de Janeiro, e a cada mulher vinha filhos e a cada separação iam um pouco dos bens, mas o dinheiro jorrava dia e noite, durante um tempo nunca teve dois aviões no chão. O garimpo foi acabando os aviões foram vendidos, as mulheres se foram bem de vida e o que sobrou foi vendendo para pagar a formação dos filhos, hoje tem filho juiz, médicos e professores, e também já tem uma penca de netos. Sobrou uma casa em São Paulo que está alugada e uma aposentadoria de 1.900,00 reais.
Ele me disse que estava muito solitário e com a violência resolveu mudar de vida novamente como em outros tempos de glória, veio para Curitiba só com um bem o seu carro, se registrou no aplicativo Uber e trabalha de 6 da manhã até as 15 da tarde, um dia ou outro vai até mais tarde e até já se juntou com uma viúva curitibana.
Ainda acredita no amor, na vida e se considera rico por ter a saúde que tem.
Enfim, chegamos na porta do prédio do meu amigo e nos despedimos desejando felicidades para o outro.



Edmilson Naves

 
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EdmilsonNavesdeOliveira
 
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