Poemas : 

Quando o vento passa

 



cada janela que
abri escapuliu um
traçado de mim.

em fuga,
pelos meus muros tombados,
coragem e medo
foram gatos molhados

e
quando já não
havia telhado
nem paredes para
sustentar passado,
a nudez correu em
circulo querendo
fazer reinado

o tempo riscou
o vento chegou,
encontrando-me ali,
em pé,
pra balançar meu vestido de sonhos


Aquela mania de escrever qualquer coisa que escorrega do pensamento.

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Autor
MarySSantos
 
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Enviado por Tópico
Rogério Beça
Publicado: 28/02/2024 05:57  Atualizado: 28/02/2024 19:51
Usuário desde: 06/11/2007
Localidade:
Mensagens: 1925
 Re: Quando o vento passa
Que corrente de ar!
Deve ser das que aprisiona...

O vento é um símbolo, ou metáfora que cada vez tem mais força no meu gosto.
E o seu contrário, o in-vento.

O vento é um agente de erosão que está em todo o lado.

Na terra, moldando as dunas e as rochas.
No mar, fazendo isso com as ondas, aumentando-as, ou com as marés.
Na atmosfera, levando as nuvens para onde lhe apetece e permitindo, ou evitando a chuva.
Faz os moinhos se moverem, e antes com ele fazia-se farinha e pão.

Quando os "...traçados..." começam a escapulir, mudamos.
É o risco que se corre quando queremos arejar um espaço, como veio na primeira estrofe.

Há um provérbio que diz: Gato escaldado de água fria tem medo.
Este, submete-me à segunda estrofe. Há janelas que deviam ficar fechadas, a "...coragem..." para as abrir terá algum "...medo..." associado.
Acho que uma depende do outro. Enfrentar os desafios, sem nunca ter "...medo...", não deve ter coragem.
Aprendi a gostar de gatos, tendo um.
Mais um motivo para gostar deste poema. São figuras que, simbolicamente, significam que têm a ajuda a passar para o reino dos mortos, ou só de etapa, e formos menos abrangentes.
Fugir estranho.
"...muros tombados..." soa a outra bela metáfora. Uma ruína que sugere sujeição. Um pouco derrotista. Depende de como tombaram os muros. Se não foi o próprio sujeito poético a os mandar a baixo.

Uma casa, com janelas (abertas), mas sem "...telhado..." "...nem paredes..." é o que nos aparece na terceira estrofe.
Sobra o chão.
Um chão corrido, como o "...vento..." que também é corrente, "...pela nudez...". Como se vem ao mundo. Sem disfarces, sem proteção do frio, do pó que anda em todo lado (andar? terá pernas?)...
Uma imagem de caos muito bem conseguida se somarmos o "... reinado..." como foi o caso.

Como se não bastasse esta enorme convulsão de imagens e movimento, surge mais uma personagem neste poema, que é tão forte como o vento, embora demasiado usada e explorada, como também é o amorzinho - o Sonho.
Esse da Pedra Filosofal de Gedeão, que comanda a vida.
Muitas vezes entra no sono. O sonho.

O sonho (e a ambição, já agora) vai-se tendo, vai-se conquistando, vai vivendo, morre e é substituído por outro do mesmo nome.

O vento nem sempre traz furacões.
Às vezes, apenas alimenta o sonho, como levanta um vestido.

Parabéns Maria.
Mais um favorito.

Abraço

Enviado por Tópico
agniceu
Publicado: 28/02/2024 06:26  Atualizado: 28/02/2024 06:26
Colaborador
Usuário desde: 08/07/2010
Localidade:
Mensagens: 564
 Re: Quando o vento passa /para a Maria
Parabéns, Maria por mais um poema irreprovável, pela sua beleza!

Tudo à volta se desnudou, menos o tecido de sonho e a liberdade das tuas garras.

Um abraço