O chão que piso se desfaz
O ar que respiro é neblina
Sem norte, sul, volto atrás
E minha bússola desatina.
Tormento espera momento
Os bens poeira, desventura.
A folha seca, frágil ao vento
Raiz e árvore, ao ar, tortura.
Construo castelos, e ruínas,
Sou raiz, ou serei eu poeira?
A mesma névoa me ensina
Que sou sombra passageira.
Procuro nome que era meu,
Uma voz que me chamava
Mas o meu eu já se perdeu
Entre o que fui, o que achava.
A quem interessa quem sou?
Para que saber o que tenho?
Amanhã quem irá onde vou?
Se me perdi de onde venho.
O mundo muda, eu com ele
Ou ele muda e eu nem sei.
Me agarro a um fio da pele
À sombra de uma antiga lei.
O que fica já é mudança
O que muda permanece
Sem cadência, ritmo, dança
A essência, quem conhece?
Preciso de algo constante
Um cheiro, gesto ou lugar
Mas tudo se desfaz antes
Que o coração vá guardar.
Letreiros mudam de nome
E os conhecidos, de voz
O espelho engole e some
Come o que resta de nós.
A promessa se transformou,
Em mero rascunho, desenho
Uma pintura que descascou
E só a moldura mantenho.
Mantenho — por quê? Não sei.
Porque me falta outro gesto
Talvez por ser a última lei
Do mundo cinza, eu resto.
Não é paz, não é cansaço
Nem a entrega de quem cai
É o instante antes do passo
É o saltar, solto, que esvai.
Souza Cruz