Se a alma aos elementos não adoecesse,
Entregue ao cansaço da desventura,
Se o corpo ao leito dado se envolvesse,
Numa mortalha de sonho e ternura…
Se toda a dor não trouxesse a amargura,
Disfarçada na cruz que nos benzesse,
Se o tempo não te achasse na procura,
E a suprema perda não nos vencesse…
Se o mundo da revolta me banisse,
Ou a neblina ante o sol não tremesse,
Se a semente de chão fértil brotasse…
Talvez este poema não existisse,
Nem luz mansa sobre o meu breu descesse,
E o punho deste coração parasse.
14 de Abril de 2026
Viriato Samora