Crónicas : 

A fome não sente cheiro

 
Todos os dias saio cedo para trabalhar. Tenho um ritual: antes de partir, paro na calçada e deixo que a manhã me toque.
Naquele dia, não foi diferente. Fechei o portão, parei e contemplei o verde em frente à minha casa — uma nesga da natureza teimosa serpenteando o calçamento. Não sei dizer quanto tempo fiquei ali com as cortinas da alma abertas. Só sei que os segundos escorriam lentos, como um fio de mel.
De repente, um barulho me trouxe de volta à realidade: ao lado do tambor de lixo da esquina, uma silhueta se movia. Fiquei mais quieta, observando. Inicialmente pensei que fosse um cão faminto revirando o descarte. Mas, ao olhar com mais calma, vi que era um homem. Um senhor idoso.
Aproximei-me devagar. Ele teria uns sessenta e cinco anos, mas seu corpo franzino e o olhar cavado diziam mais de setenta. Suas mãos magras e trêmulas vasculhavam os sacos plásticos com uma urgência que doía na alma. Não era pressa: era fome.
Não sei bem por quanto tempo fiquei ali, em silêncio, vendo aquela cena que parecia invisível. Mas foi o suficiente para ver aquele homem encontrar um pão seco, murcho, sem vida, e levá-lo à boca sem nem mesmo cheirá-lo. O que mais me doeu foi a suspeita: e se aquele pão tivesse sido jogado fora por mim? Desde aquele dia, saio de casa com as cortinas da alma abertas. Não apenas para observar o verde, mas para enxergar quem, na penumbra da esquina, precisa de pão fresco e uma xícara de café. Porque aquele homem me mostrou que a fome não sente cheiro: ela devora. Naquele dia, compreendi que a compaixão precisa ter olhos.

Lucineide Caetana


A poesia corre em meu sangue
Como a água corre no rio
Sem ela sou metade de mim
Meu nome é fruto de poesia.





 
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Lucineide
 
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