Textos : 

Reencontro

 

Dizem que todo poeta guarda dentro de si uma nascente secreta um fio de água silencioso que insiste em correr, mesmo quando o mundo parece rocha dura. Mas há dias em que até essa nascente seca. Foi assim que ele amanheceu: com a pena na mão, o papel aberto, e um deserto dentro do peito.

O poeta, perdido na própria quietude, tentava decifrar o vazio que o rodeava. Não era falta de palavras; era falta de direção. A inspiração, que antes dançava ao redor de seus dedos como brisa fresca, havia escapado pela fresta da madrugada. E naquele silêncio que só os verdadeiros criadores conhecem, ele se perguntou: onde teria se escondido sua musa misteriosa?

Ela ah, ela. Uma presença líquida, que nunca se descreve inteira. Surgia sempre em hora inesperada: no tilintar do café caindo na xícara, na sombra atravessando a rua, no último raio dourado tocando a tarde. Era uma figura que não se explicava, apenas acontecia. E quando acontecia, inundava toda a sequidão do poeta, transformando pedra em mar, pó em semente, silêncio em canto.

Agora, contudo, ele estava sozinho. O papel continuava branco, olhando para ele com certa impaciência.

Com a pena presa entre os dedos, o poeta meditou. Tentava recordar o instante exato em que seu coração havia sido roubado. Não lembrava quando ela chegou talvez nunca tivesse chegado; talvez sempre estivesse ali, silenciosa, entre as margens de suas indecisões. O que sabia é que, desde o primeiro sopro dela, seu peito nunca mais voltou ao formato original. A musa misteriosa moldava suas emoções como quem molda argila: com cuidado e com uma força que ele não ousava contrariar.

Quem roubou seu coração?
Ele sorria, sem resposta. Talvez ninguém tivesse roubado. Talvez ele mesmo o tivesse oferecido, distraído, àquela presença de passos leves e olhos invisíveis.

A pena, que há pouco pesava como pedra, agora parecia leve. Uma gota de tinta escorreu, desenhando a primeira palavra.

E assim o poeta percebeu: a musa nunca havia partido. Apenas se recolhera para que ele a procurasse e, nesse gesto, reencontrar a si mesmo.

A crônica, afinal, não era sobre perda.
Era sobre reencontro.
Sobre o instante em que a fonte volta a correr.
Sobre o coração que, mesmo roubado, continua inteiro porque ama ser habitado pelo mistério.


Fragmentos de Sonhos
Senhora Poesia

 
Autor
FragmentosdeSonhos
 
Texto
Data
Leituras
196
Favoritos
2
Licença
Esta obra está protegida pela licença Creative Commons
25 pontos
5
2
2
Os comentários são de propriedade de seus respectivos autores. Não somos responsáveis pelo seu conteúdo.

Enviado por Tópico
MÁRIO52
Publicado: 05/12/2025 22:50  Atualizado: 05/12/2025 22:50
Colaborador
Usuário desde: 24/02/2025
Localidade: PORTO-PORTUGAL
Mensagens: 943
 Re: Reencontro
Belíssimo texto aqui nos presenteia.

O Poeta é assim. Tem dentro de si a essência das palavras, que, por vezes, não querem sair da pena, do pensamento, do coração.

No entanto, o seu sentir e as suas emoções, ultrapassam esse bloqueio, e começam a fluir, tal qual a água de um rio.

Parabéns!

Abraço e bom fim de semana!

Mário Margaride


Enviado por Tópico
Keithrichards
Publicado: 05/12/2025 23:31  Atualizado: 05/12/2025 23:31
Membro de honra
Usuário desde: 17/03/2014
Localidade:
Mensagens: 2783
 Re: Reencontro
Bela cronica. que novas inspirações possam volatar a fluir dessa fonte, apreciei a leitura, um abraço!


Enviado por Tópico
Liliana Jardim
Publicado: 16/12/2025 12:57  Atualizado: 16/12/2025 12:57
Usuário desde: 08/10/2007
Localidade: Caniço-Madeira
Mensagens: 4486
 Re: Reencontro
...A crônica, afinal, não era sobre perda.
Era sobre reencontro.
Sobre o instante em que a fonte volta a correr.
Sobre o coração que, mesmo roubado, continua inteiro — porque ama ser habitado pelo mistério.

Adorei a tua cronica, poeta em fragmenbtos de sonhos
E assim vive o poema na espera que a poesia aparece em forma de inspiração...

Beijinhos
Tudo de bom