Poemas : 

O Feijão e o Sonho

 
— Como estão os preparativos para a viagem, meu amor? Como estão? Enfim, nossas férias tão desejadas! Tudo pronto, meu amor! Tudo pronto!

Já conversei com o Seu Carlos. Ele disse que iria me liberar na quinta-feira, depois do almoço. Fez uma cara, Samantha, que só você vendo.

— Se não gostou, problema dele, Nestor. Ele que vá se lascar. Tem três anos que você não tira férias, trabalha de segunda a segunda e não tem um teto para chamar de seu; os seus filhos precisando de tudo, você de um carro e as minhas necessidades, Nestor, nem vou comentar. Mande o Seu Carlos tomar naquele lugar.

— O trabalho de Uber aos fins de semana não conta, Samantha. Nesse intervalo, eu sou o meu próprio patrão e faço o meu horário. Não conta.

— Claro que conta, Nestor. Se trabalhar para o Seu Carlos fosse tão bom assim, você não precisaria sacrificar seus finais de semana e teria mais tempo para você, para os nossos filhos e... Para nós dois.

— Mas, meu amor... O Seu Carlos não tem passado por um bom momento. A economia está em frangalhos, bloqueio no estreito de Ormuz, polarização e etcetera. Acompanho de perto o dia a dia da empresa, participo do grupo de whatsapp onde fui adicionado pelo próprio Seu Carlos. Eu sinto na pele.

Desde que o Seu Carlos abriu a primeira filial, o pobre homem não teve mais sossego, Anjinha. Estava cheio de olheiras, e os poucos fios que lhe restavam para cobrir a testa embranqueceram. Chega a dar pena, amorzinho. E depois que ele abriu a segunda filial, então... Ai, ai! O homem acabou de vez. Tanto envelheceu em tão pouco tempo que foi obrigado a fazer um implante capilar e aquilo que o padre Fábio de Melo fez. Como se chama mesmo aquele procedimento, meu bem?

— Harmonização facial.

— Isso, meu amor. Isso mesmo. Harmonização facial. Então, não é fácil empreender nesse país, Samantha. Olha a quantidade de encargos que pagamos, o quanto estamos abandonados pelo poder público e o governo atual criando mais empecilhos para dificultar a vida do empreendedor. Não é fácil manter uma empresa de forma honesta nesse país. Não é fácil, e você sabe disso. Também, um monte de vagabundos recebendo auxílio isso, auxílio aquilo. Ninguém quer saber mais de trabalhar. Ninguém.

— Deixa de ser tonto, homem! Parece papagaio de pirata. O Seu Carlos tem uma casa maravilhosa em Nova Lima, viaja para Nova York, Caldas Novas e os filhos fazem intercâmbio na Nova Zelândia. Nós mal conseguimos ir uma vez por ano visitar os seus irmãos em Vila Velha.

Se não fosse minha lojinha on-line e os auxílios sociais, com os quais você tanto implica, estaríamos perdidos.

— Não é implicância, meu anjo. Nós realmente precisamos dos auxílios. Eu falo dos vagabundos que recebem e não querem mais trabalhar.

Falando em Seu Carlos, ontem ele me chamou no escritório e disse que está trabalhando no vermelho. As contas não fecham, e ele só não fecha a empresa para não ter que demitir os funcionários.

— Nunca vi rico falando que os negócios estão indo bem, Nestor. Se ele falar que os negócios estão de vento em popa, os funcionários pedem aumento, entendeu?

— Compreendo, querida, compreendo. Mas você sabe como eu sou. Eu visto a camisa da empresa. Sou assim, você sabe. Me compadeço. Estamos todos no mesmo barco, meu amor. Todos.

— Que o mesmo barco o quê, homem! A sua piroga sequer navega no mesmo mar que o Titanic do Seu Carlos. Veja a sua condição. Observe o mundo ao seu redor. Você levanta às quatro da manhã, pega condução para chegar naquela merda de marcenaria, recebe um salário de merda e vive na merda junto com sua família!

— Não fala assim, amorzinho! Seu Carlos foi o único que estendeu as mãos para nós desde que chegamos de Almenara para concluir os estudos na capital, e lá se vão doze anos. Como o tempo voa! Seu Carlos me deu oportunidade, me ensinou uma profissão, deixou a gente morar no fundo da marcenaria por um tempo, onde ele mesmo morou um dia, até que pudéssemos pagar um aluguel decente, e batizou nosso caçula. Quantas vezes Dona Maria, esposa dele, nos trouxe cestas básicas e roupas para os meninos? Lembra quando ele nos levou para congregar na igreja que ele frequenta? Outro dia, Seu Carlos me propôs que eu abrisse um MEI. Me disse que também posso empreender e que as coisas só não melhoram mais por conta desses malditos comunistas, Samantha.

— Olha aqui, Nestor, vá à merda.

— Samantha...

— Que foi?

— Não se esqueça dos preparativos das férias. Ligue para sua mãe e peça para ela "botar mais água no feijão" que estaremos partindo para Almenara na quinta-feira.

— Quer saber, Nestor? Em vez de mandar o Seu Carlos tomar naquele lugar, vá você!


Gyl Ferrys

 
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