não gostei
dos meus oitenta e dois anos
a luísa morreu
fiquei só eu e os gatos
miam muito desde aquele dia
a luzinha entrou em filosofia
e o carlitos partiu os dentes da frente
a andar de bicicleta
atrapalhou-se com um toyota
que vinha de carviçais
o manel já não telefona como antes
anda ocupado no restaurante
pedi à luciana que fique com os gatos
quando eu morrer
ela disse não diga tolices
mas prometeu que cuidava deles
o amarelo dorme a meu lado
e ressona a noite toda
o preto traz-me pássaros para comer
à noite falo com a luísa
e ela não responde
em vida já era assim
estou habituado
a máquina de lavar parou de trabalhar
doem-me os dois joelhos
com sorte ainda consigo caminhar
até ao banco da capela
por mais um mês
o doutor disse que não aguentam
muito mais tempo
perguntei-lhe quanto
não sabe
ninguém sabe
os exames não dizem
os exames não sabem nada
não aparece nos exames
que não gostei dos meus
oitenta e um anos
nem dos meus oitenta anos
nem dos meus setenta anos
há onze anos que me deixaste
e isso também não aparece nos exames
ainda agora fiz trinta anos
luísa
ainda agora fiz vinte e cinco anos
luísa
ainda agora fiz vinte anos
luísa
ainda agora fui esperar-te à saída da escola
luísa
ainda agora te dei um beijo
luísa
foi ontem
foi ontem que a luciana nasceu
foi ontem que mudámos para aqui
foi ontem que comprámos a máquina
foi ontem que o amarelo apareceu à porta
foi ontem que ensinei o carlitos a andar de bicicleta
foi ontem que soubemos
foi ontem que foste embora
foi ontem que nasci
não gostei dos meus
oitenta e dois anos
luísa