quatro zoes
carregam nos postos do mercadona
troco o saco
das batatas e volto
ao corredor
dos iogurtes
ananás manga banana
os trópicos em frascos
os meus antepassados
conquistaram mares
de vera cruz
a taprobana
eu empurro o carrinho
com batatas brancas
ao longo da banca do peixe
é o mais próximo
que consigo ficar
do mar
sem me afogar
sem acordar
o formigueiro na coluna
sem a perna falhar
sigo cansado
sem a energia dos navegadores
os zoes ainda carregam
orgulhosos
da cor
bege
e
azul bebé
pachorrentos
nem sombra
da ferocidade de uma nau
da majestade de uma caravela
o condutor fuma
o boné tapa os olhos
fruste ensaio de marejar
o bebé agarra a chupeta
na mão pequenina
a idosa segura as costas
vinte horas
de um dia partido
vinte horas
de um dia doente
vinte horas
de um dia cinza
somos tanto
e tão pouco
somos nada
encaixo o carrinho
na fila dos carrinhos
assim faria
vasco da gama
se vivesse esta vida
este corpo
e
este tempo