Poemas : 

O Vazio de Narcisus Void

 
"Ufa!", disse Narcisus Void após o último show da turnê mundial, quando pôde, enfim, sentar em seu sofá, que ficava defronte ao espelho do camarim. Não poderia se sentir mais feliz e realizado. Afinal, foram meses percorrendo o globo em voos intermináveis, de Nova York a Istambul, de Londres ao Rio de Janeiro, dividindo palcos com os seus e compartilhando quartos com as suas. Uma alegria nova invadia todo o seu ser. Chegou a cogitar se não era mais amado e famoso do que o próprio Jesus Cristo, Buda, ou, quem sabe, Maomé. O ano era de 2026 e Narcisus Void ainda mantinha o semblante jovial, os olhos e os cabelos escuros; e de um corpo juvenil que mais se realçava dentro daquela jaqueta de couro, onde se lia, nas costas, em letras garrafais, estas duas palavras em língua inglesa: " Pop Star".

Sobre a mesa de centro, várias revistas em diferentes línguas destacavam seu rosto na primeira página. Na parede ao fundo, uma imagem sua em tamanho real exibia o mais arrojado dos figurinos. Riu-se de si mesmo e quis beijar o próprio reflexo no espelho, mas se conteve, envergonhado. Em sua mente ainda ecoavam os eufóricos gritos de uma legião de fãs ensandecidos:

— Pop Star! Pop Star! Pop Star!

Num devaneio seu, se viu entre os deuses do Olimpo Musical ou no Panteão das personalidades históricas. Chegou a gritar em voz alta "Pop Star, Pop Star". Agora ria de sua infantilidade. Levantou-se, abriu a porta e olhou para ver se alguém ouvira seu clamor por si mesmo. Ao fim do corredor, notou um velho faxineiro que cochilava sobre um encardido vassourão. Cerrou o cenho ao deparar-se com o mais baixo homem da escala do trabalho no alto da sua vassoura. Justamente em seu, unicamente seu, momento de regozijo. Bateu a porta e voltou-se para o camarim… e para dentro de si, fechando os olhos, lembrando de um tempo esquecido...

Bento dos Santos não queria relembrar do seu passado no interior das Minas Gerais, na cidadezinha de Tumiritinga. Em 1937, quando tinha 15 anos, a vida era difícil na fazenda dos Polieros. Vivia com a mãe, que fazia a faxina e cozinhava na sede, e com o pai, que era vaqueiro. O irmão caçula sequer andava quando o viu pela última vez.

Bento precisava caminhar quase 15 km para ir à escola no centro da cidade. Ele sentia que sua vida não era ali. Odiava o campo, a roça, os morros secos e o calor insuportável da região do Vale do Rio Doce.

Certa feita, vindo de uma quermesse, cortando caminho para chegar em casa, após algumas doses da péssima cachaça da região, foi surpreendido por um enorme suíno que trazia dois pergaminhos enrolados entre os dentes pontiagudos com uma caneta prateada dentro. O cerdo deixou cair os carcomidos "canudos" aos pés de Bento com os seguintes dizeres:

“Venho através desta para atender os teus mais reclusos desejos. Ofereço-te fama, mulheres, ouro, prata e o mundo. Terás imortalidade e juventude eterna. Basta tu assinares esse contrato com a caneta prateada, com seu nome cravado, cuja tinta será preenchida com seu sangue. Assinando, o universo curvará aos teus pés.

Atenciosamente, Lux Fero".

Sem hesitar, Bento arrancou um espinho de uma palmeira de palmito e preencheu a caneta com uma parte de si. O suíno recolheu um dos canudos ( a cópia ficou com Bento) antes de desaparecer na densa vegetação.

Ele sentiu o mundo girando, girando, girando...

Desmaiou.

Despertou na fazenda, em sua cama, de ressaca. Talvez tudo não passasse de um sonho. Já eram dez horas da manhã e não havia ninguém na fazenda. Chamou pela mãe e não obteve resposta. Foi ao banheiro para vomitar. Lavou-se, vestiu-se e quando chegou à varanda da fazenda dos Polieros, deparou-se com uma limusine preta e com um homem negro de terno e óculos escuros, de uma altura e porte físico assustador. O chofer chamou-o pelo nome e pediu que o acompanhasse. Bento não olhou para trás e adentrou no veículo, foi deixando para trás a sede da fazenda, cortando os 15 km da estrada de chão. Ainda pode ver pela última vez o vulto do porco, que parecia entristecido ao se lembrar que um dia fora ele que entrara dentro daquela limosine, ocupando o lugar de Bento. Esse foi o último pensamento do suíno antes dele cair sem vida, transformando-se em pó em questão de segundos, obtendo, enfim, sua libertação. Os vidros escuros se fecharam e Bento dos Santos teve a sensação de que o carro voava.

E assim ele voou pelo tempo, passou pelas guerras, assistiu de perto a ascensão e quedas de muros e de regimes, viu a chegada de novos estilos musicais, movimentos libertários, mudanças tecnológicas, culturais e sociais, perdendo humanidade num eterno hedonismo.

Pouco tempo depois, tocou o telefone. Era o empresário, felicitando-o pela performance majestosa e pela repercussão nas redes sociais do último show. Perguntou se aceitava fazer uma sessão de autógrafos para os fãs que aguardavam do lado de fora. Como ele poderia recusar? Adorava ser adorado! Aceitou sem resistência. Voltou-se para o camarim. Penteou-se, exagerando na maquiagem.

Abriu a porta. Inúmeros, e histéricos fãs, se atropelavam no corredor. Os seguranças davam suporte para que não houvesse uma invasão bárbara à Roma daquele César contemporâneo. Começou a autografar sem olhar a quem. Seu ego era massageado a cada instante e assinatura.

De repente, reparou num vulto estranho se movendo entre a turba. A figura trazia nas mãos uma espécie de pergaminho que ia enrolando lentamente, já autografado. Narcisus Void percorreu com os olhos aquela figura maligna: do rosto aquilino aos pés peludos como os das cabras montesas. Não pôde conter um grito de horror quando percebeu a caneta prateada, com seu nome de batismo cravado, em sua mão. Ao levantar o olhar, notou um sorriso maligno que lhe regelou até o tutano da ossatura.

Desesperado, bateu a porta com força. Parecendo tomado por um tipo de loucura, começou a abrir gavetas, uma a uma, até encontrar uma folha antiga, amarelada pelo tempo. Ali estava sua assinatura e a data: exatamente oitenta e nove anos atrás. Leu o contrato com a visão turva. Após quase um século, esquecera aquele “pacto”. Enfiou uma das mãos nos cabelos com ferocidade e, com a outra, tampava a boca, tentando conter o terror que percorria o seu esguio corpo. Ao fim da leitura, sentiu o mundo girando, girando... desmaiou.

Quando despertou, estava sentado sobre uma cadeira posta no canto do corredor. Segurava com uma das mãos o encardido vassourão. Com a outra, um canudo preso com uma fita vermelha, semelhante a um pergaminho. As mãos estavam completamente enrugadas, enquanto seus pés iam se transmutando em cascos bipartidos de um suíno. Ousou outro grito de horror, mas só conseguiu ver um jovem — parecido com o velho faxineiro que ele vira no corredor — se indo, junto com a criatura maligna, que repousava um dos braços sobre os ombros do antigo faxineiro e, agora, o novo astro, enrolando outro pergaminho. O jovem astro se foi, cercado pelos seguranças, desaparecendo no corredor, com uma jaqueta lustrosa de couro onde se lia, nas costas, estas palavras em inglês:

“Pop Star.”





Gyl Ferrys

 
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