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Poemas, frases e mensagens de Propoesia

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de Propoesia

"Queres apaixonar-te comigo...?"

 
...

depois pergunto-te se sabes
o caminho de volta
ou
se devo deixar migalhas dos meus beijos espalhadas no
vento, para que possas reunir
o nosso amor prometido.

depois
será um adeus sempre por chegar
e já partido em risos
porque as pedrinhas do chão são de alegrias miúdas
e fazem cócegas aos pés de amores-perfeitos
quando os pisas, delicada-
-mente:

prometo voltar
em cada adeus novo que vivermos
tu e eu

porque

o melhor da vida é o que a ilusão
nunca prometeu.
 
"Queres apaixonar-te comigo...?"

Es.finge

 
Sou assim mesmo, incompreensível,
Se me que quiseres, toma o visível,
E amadura-o nas tuas mãos,
Depois atura-lhe sins e senãos,
Depois mistura-me, se conseguires,
Que eu sou óleo, não vou mentir,
À tona d’água já estagnada
Contendo tudo sem estar com nada.

Sou mesmo assim, indissolúvel,
Mesmo rodando, bastão volúvel,
Eu não me acerto ou só me arrisco,
Até no sonho eu me belisco,
Temendo o fim do mar do sono
Onde me afogo, em abandono.
Se me quiseres, quer-me de um trago,
Onde eu passar, só faço estrago.

Mas se depois desse amargor,
Depois da boca e do estertor,
Sobreviveres… decifra em mim
Este indizível eu em motim,
Imobiliza-o, vence-o por dentro,
Não tenhas medo, não percas tempo:
Se não o fazes na certa hora…
Certo é ser ele quem te devora.
 
Es.finge

'Se não ler, não comente, mande beijinho.'

 
Este ofício de trocarmos galhardetes,
este “hobby” de fingirmos ser poetas,
é um vício que enobrece nossas gentes
é o “lobby” dos amantes e ascetas.

Ai, se for literal este proveito
de chamar-se a isto Literatura,
pese embora o literato conceito
de negar-se toda e qualquer ditadura...

mais um pouco e será literacia
a “livralização” da incultura -
era pobre, o poeta, e não sabia
que um nome nem sempre é assinatura.
 
'Se não ler, não comente, mande beijinho.'

Porto de mim, rio de nós

 
Porto de mim, rio de nós
 
Céu de açúcar branco
glace de cetim

Cidade tingida
de graça e carmim

Rio de mistérios
com tanto de mim
 
Porto de mim, rio de nós

Soneto ao amor passante

 
Excederia eu, em brilho e lume
o meu olhar passante, ao encontrar-te
se essa flor de luz, ao perfumar-te
não fosse da espessura do ciúme:

intáctil, como a sombra do teu corpo
seduzindo papoilas, ao sol cheio,
finíssimo rocio do teu sopro
orvalhando as manhãs de um dia alheio.

Excederia eu, em poesia,
o meu verso tardante, ao já perder-te
no tempo indefinido do amor

se fosses mais de mim do que esta dor
levando-me com ela, sem dizer-te:
“É hoje o nosso instante, é hoje o dia!”
 
Soneto ao amor passante

Arribação

 
As palavras voam
depressa demais.

Não as canses,
não as canses:
faz dos meus lábios
beirais,
repousa-as à sombra dos meus cílios,
fechadas na tua boca.

O céu acontece
mesmo sem asas
-
e é regresso
lar, lume, brasas.
 
Arribação

fototardia

 
fototardia
era a luz do entardecer, na exacta hora da condescendência das cores:
um filtro ocidental sarou as asas do olhar, e recompôs os tons primordiais - o verde saturou as relvas, reminiscências de castanhos outonaram as terras, a minha pele aveludou-se de rosas breves, o ouro dos teus olhos rebrilhou sóis escondidos. sensíveis poderes de pintar a vida num momento.
se o momento se prolongasse, dir-te-ia: "cola o teu rosto ao meu e deixa que nos tire uma fotografia... quero que a minha alma fique presa aqui, presa a ti, no lugar sagrado onde acaba o dia".
 
fototardia

"Passa tempo, que isso passa..."

 
Houve um momento
entre nós
que durou o tempo
que me restava para a saudade.

Sem voz te disse
nessa hora:

"é tão frágil
a verdade
sem a ilusão volátil
da eternidade!"

Sem voz me disseste
"o tempo não chora..."
 
"Passa tempo, que isso passa..."

Diz-me ao ouvido-.__

 
...

hoje dói-me uma palavra
em crise de aguda infecção.

por favor, fala baixinho,
não agraves o prurido da questão

diz-me ao ouvido,
não tenho a língua vacinada,
ainda te pego
o mal que sobe do meu peito,
balança na febre dos meus lábios,
me morde os ais,
e ameaça cair
...
ao mínimo estertor duma palavra

_-´ALTA DEMAIS.
 
Diz-me ao ouvido-.__

ausência

 
ausência
sem exigências, em imperfeitas reticências, o teu tempo perfurou o vento à minha volta e pendurou bolinhas de sabão. bolinhas de sabão – já se sabe – só vivem enquanto dura um olhar: os meus olhos não resistiram à imponderabilidade da luz e sete cores explodiram dentro deles. sobraram partículas de mar que me aspergiram o rosto, como quando o mar morre na praia todos os arco-íris que traz no peito. agora, há uma dorzinha de areia, sob os sete colchões onde me deito.
 
ausência

Breve e no entanto

 
Há muito tempo
prometeu-se flores
-
a breve idade
das coisas
a misturar nas mãos
ilusões
de chuva
ao sol.

Veio o verão
e chamou às cores maduras
alimento.

No outono
nomeou as folhas secas
ais de vento.

No inverno
teve frio
e saudade
do tempo desertor
-
e teceu um cobertor
feito de penas
e de lã.

E todas as noites adormece
e de manhã
se retempera
acordando
numa estranha
primavera.

(e entretanto há morangos
a sorrir
e panquecas suspirando
por um beijo que a fome
faz florir)
 
Breve e no entanto

Vens

 
sem eu bem saber de onde
traído pelo teu hálito
à minha nuca
o meu corpo aquecendo
ao contacto longo do teu
(a por-me louca)

um ponto de prazer
entumecido
invasor
enaltecido
pela dança do meu corpo
contra o teu
(quase fogo)

e queres e voltas-me
perseguindo
a rotação do fulcro
prometido
e o beijo com que esmagas
minha boca
(sabe a pouco)

as mãos que queimam as roupas
rasgam vias
os olhos entrechocam-se
(e tu guias-me)

o impulso forte e convexo
abrindo caminho ao sexo
(humedecido)

sei_os íntimos sinais
os gemidos
a voz rouca exigindo
(mais e mais)
e a tua língua indutora
levando-me a longitudes
abissais

finos almíscares
e falo doce
(meu amor)
minha língua
ao teu render quase vindo
em aljôfares...

dobras-me
como flor breve morrendo
nos teus braços
segues-me o vento inocente
(voo devasso)
e quando pousas
és beijo de horizonte
e o sul que em mim ousas
é espiral em crescendo

barco tempestivo
subindo e descendo
em ventre de mulher
procelas de mel
desflorada pele
(tenso arder)

e eu em vagas subindo
e tu em mim naufragando

e tu em mim investindo
e eu, tão louca, gritando:

vive-me até que o poema
nasça da morte pequena
de nós dois

(e depois...)
a longitude das vagas
nos espasmos percorrendo
corpo e alma
verso em ritmado delírio
que fundi
com teu sémen escorrendo
adocicado
a flor de nácar onde sugas
chão sagrado
prazer fundo:

e somos, só tu e eu
-
o Amor (todo) do mundo...
 
Vens

à floração das espumas [1]

 
a maré recuava devagarinho, depois da floração de espumas:
-sabes o que te vou pedir a seguir, não sabes...?
ela soergueu-se, o seu perfil talhado ainda de húmidos contornos, na contraluz do céu entardecido. havia réplicas de sorrisos no seu olhar.
-o quê?... e esperou, gaiata, desafiadora, passeando a língua entre os lábios.
-casa comigo.
maria deu uma gargalhada pequena e funda, ainda eco do sorriso nos olhos.
-sim!... e somos felizes para sempre.....
ele acusou a ironia e fez beicinho:
-eu estou a falar a sério... -choramingou- quero casar contigo e ser feliz para sempre...
-ah, nós dois já sabemos que isso não existe... – contemporizou maria.
-pois não... não podemos ser felizes para sempre... – disse ele, deitando os olhos ao mar, que os levou para longe.
depois, retornou-os a ela, trazidos pelas vagas arrependidas:
-mas podemos tentar para sempre...
 
à floração das espumas  [1]

poema da madrugada

 
golpes de luz rasgando a nossa pele
de fogo propagado
e o ar quente bailando um tango
à nossa volta

não há quietude, não há silêncio:
há cisnes arrebatando as tuas mãos
volteios do meu vestido
fios do meu cabelo no bastidor do teu peito
ramalhar de murmúrios ao vento fundo da garganta
pequenos gritos tresmalhados
regressando depressa ao ninho de marés
coordenadas

e eu bordando devagar o linho tenso
e tu fiando devagar o meu prazer

e de repente
o cheiro a terra quente e a chuva rápida
os meus lábios fartos de água fresca
sob o abrigo improvisado dos teus olhos
de céu limpo e lua cheia

sedas de vinho cobrindo a nossa sede
os lábios regressando às palavras

e um caderno em discrição serena
esperando a madrugada
e um poema.
 
poema da madrugada

'Dance me to the end of love'

 
Dança-me até ao fim da curva errante
da Terra
até aos portais que guardam
a imobilidade da noite
segura-me a cintura do olhar
com a melodia das tuas mãos,
papoilas breves descendo-me aos lábios
como estrelas clandestinas.

Dança-me até ao orvalho doce
desenhar
o sangue dos meus passos sobre a lâmina
da aurora
ou até ao abraço que me deres,
ao extinguir discreto das minhas sedas
rodeando-te em intermitências de pele
e fogo.

Dança-me
até que a noite nos separe
do tempo que não temos
e nos reúna ao amor
que nunca saberemos

se é um dia
se é saudade
se é remédio
ou se é veneno.

Dança-me até ao fim deste poema
tão íntimo
tão pequeno.
 
'Dance me to the end of love'

Risos d'água fresca

 
Cantam melodias a meu gosto
as águas frescas do teu riso
quando nascem
e escorrem
p’lo teu corpo
em cascatas
de verbena.

Bebo-as nas covinhas do teu rosto
e cresce-me um oásis no olhar
onde páras
e descansas
cativa dos meus beijos
de alfazema.

E as que caem
nas pedrinhas do caminho...
recolho-as à flor
do meu poema.
 
Risos d'água fresca

INSHORE

 
A pouco e pouco,
aprendo a caminhar pelos mapas que trazes nos bolsos,
sem riscos e sem legendas,
esquecendo a era de encanto e nós
sendo raio de sol e céu de chuva encadeando
letras de canções.

Agora o tempo é outro, é de lampejos e cotovias,
tardes submersas, cantos heróicos e outras menores poesias...

Já calaste tudo o que tinhas que ter voado,
enquanto as palavras iam morrendo como pássaros de papel
sem tintas para poisar
num só poema
de amor.

(entretanto, há asas debatendo-se
contra as paredes doces
do teu peito
e no estreito
abismo que voz fosse,
sobem águas, em grito ensurdecendo)
 
INSHORE

Homose

 
a vida é fria,
antes que os meus lábios a aqueçam
de poesia

transparente e pura
inocente e doce

antes que à minha boca se infundam
todas as raízes que são mistura
do que eu seria

se assim não fosse.
 
Homose

minha espuma em fina flor

 


reavalio as distâncias
e é longe, longe
esse peito onde me apertas
quero mais, mais
do teu corpo onde acrescento
desejo, e beijo
a tua boca onde me matas
a sede, e cedo
ao instinto da fusão

meu barco
meu amor
meu rasgo
de sabor

nas linhas curvas do tempo
afora, é agora
o precipício onde me agarras
e os sins, e os nãos
meus ecos onde murmuras
meu bem, nem bem
te respiro, e quase morro
a dois, e é doce
o rasto da tua língua

meu barco
meu amor
minha espuma
em fina flor

e eu mar
que me tens
e tu brisa
onde me vens

e nós dois
e depois…

ainda ouso
fantasio
em ti pouso
reavalio

 
minha espuma em fina flor

Fatal desígnio

 
Devolve-me as promessas que te dei
Quando era inocente dos teus vícios,
As palavras de amor que te jurei
Sem saber dos teus intentos malefícios.

Devolve toda a fé que professei
Em vida de feliz serenidade,
A 'sperança que em ti depositei
Sem crer na anunciada tempestade.

E eu volto a querer-te em brisa amena,
Barco ao largo ao sabor do perdoar
Que perpassa só longe ao meu olhar...

E eu volvo o amor que me condena -
Dos primórdios d'encanto e de fascínio
Ao averno que me é fatal desígnio!
 
Fatal desígnio