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Poemas, frases e mensagens de LurdesBreda

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de LurdesBreda

Fascinação

 
Abro o meu corpo
À sede do mar.

Ondas. Maré.
Abraço onde me dou.
Amante de espuma,
Com barcos a navegarem
Na alma.

Abro o meu corpo
À sede do mar.

Pele.
Deserto de sal,
Onde o sol se põe.
Oceano em labaredas.
Gaivota sem voz.

Abro o meu corpo
À sede do mar.

Vento. Liberdade.
Cabelos soltos
A voarem
Nas margens do infinito.
Capitães sem Norte.

Abro o meu corpo
À sede do mar.

Seios. Fragas.
Desejo devorado
Pelas águas, em fúria.
Tormenta.
Beijo de coral.

Abro o meu corpo
À sede do mar.

2º Prémio – V Jogos Florais do Concelho de Tondela, promovidos pela Biblioteca Municipal de Tondela, na modalidade de Poesia.
 
Fascinação

Dueto de Amor em Quatro Estações

 
— Observa, no espelho…
— Se calhar, eles já estiveram juntos…
— Sim. De mãos dadas, a olhar a lua adormecer.
— Ter-se-ão abraçado?
— Olharam-se nos olhos… Sem palavras...
O silêncio era dos rouxinóis.
— Achas que eles se amaram
nas noites de luar?
— O universo foi a sua casa.
— Perderam-se, talvez, nas estrelas
que polvilhavam a noite...
— E no zumbir dos grilos,
a embalar os laranjais.

— O suor dela alimentou o mar.
— Ele foi a gaivota,
que aí matou a sede de doce.
— Ela gosta de trincar pêssegos.
— O calor das mãos dele
amadurece a pele…
— Faz amor comigo…
— Chiu! Fala baixinho.
Vais acordar o vento suão.
— Quando saberemos
se as ondas beijavam os pés?
— Amanhã ainda haverá oceano.

— Olha uma parra de ouro.
— Deixa-me escrever
a eternidade deste momento.
— O rio levou-a para longe.
— A vida precede as palavras…
— Tenho a boca pintada de romãs.
— Vejo bandos de tordos,
nos teus olhos, a voar…
— Não! Não adormeças ainda.
Falta o beijo da serpente.
— Prefiro um grão de trigo
sob a luz do pôr-do-sol.
— E eu uma nuvem cinzenta
e uma gota de mel.

— As árvores estão nuas
e erguem os braços para o alto.
— Oram em esperançosa simplicidade.
— Vislumbro lágrimas no céu…
— É só uma chuva de anjos.
— Tu és no meu corpo um poema.
— Prefiro ser um verso na madrugada.
— A madrugada é tão fria…
— Mas é branca e pacífica.
— O vento varre as letras da minha ausência.
— Com elas faço um puzzle
e pinto a distância que nos separa.
— Vem deitar-te na minha alma…

2º Prémio Ex-aequo no XXV Concurso Internacional Literário, promovido pelas Edições AG, São Paulo, Brasil, na categoria de Poesia.
 
Dueto de Amor em Quatro Estações

Um Sonho Chamado Arco-Íris

 
Rafael tinha sete anos e vivia com os pais numa cidade grande. Ele nasceu diferente dos outros meninos. Ao invés deles, não podia correr, nem saltar, deslocando-se apenas na sua cadeirinha.
Costumava passar muito tempo por detrás da janela do rés-do-chão, do prédio onde morava, a observar o movimento lá fora. Via os blocos de apartamentos erigidos de encontro ao céu, o vaivém das pessoas e dos automóveis, e as correrias das outras crianças, que alegres, deambulavam de um lado para o outro nos passeios.
Por vezes, uma lágrima teimosa deslizava silenciosamente pelo seu rosto abaixo. Também ele queria ser capaz de correr atrás de uma bola, perseguir borboletas pelo parque ou andar de bicicleta e sentir-se livre, com o vento a rosar-lhe as faces.
Então, sem que se apercebesse, a mãe abeirava-se dele e enlaçava-o carinhosamente nos seus braços.
― Porque não posso ser como eles? ― perguntava Rafael, apontando as crianças na rua.
A mãe cingia-o de encontro ao peito e falava numa voz tão doce, como só as mães têm.
― Sabes Rafael, tu és um rapazinho muito especial… É certo que não podes correr como os demais, mas deténs um poder ainda maior… Tu podes voar! Com isto... ― dizia, ao mesmo tempo que colocava a palma da sua mão, sobre o coração de Rafael, que nesse momento batia apressado, cheio de amor e de esperança.
O menino acreditava profundamente nas palavras da mãe. Tinha até um secreto desejo. Queria ser capaz de voar até ao arco-íris e trazê-lo consigo, para assim poder brincar com as suas cores, e com ele colorir o cinzento que ensombrava a cidade. Aí, raramente se avistava o arco-íris, por causa dos altos edifícios e da poluição.
Na escola, Rafael sentia uma certa solidão, pois, nos intervalos, os seus companheiros de aprendizagem preferiam brincadeiras e jogos de grandes correrias, ao invés de optarem por actividades, em que ele também pudesse participar. Desta forma, entretinha-se sobretudo, a desenhar. Os seus desenhos eram sempre cheios de cor.
Um dia enquanto pintava, aconteceu algo inédito.
― Está muito bonito… ― murmurou a sua colega Mariana, que timidamente espreitava o que Rafael fazia.
Surpreso, ele sorriu.
― Gostava de saber desenhar como tu…
― A sério?! ― admirou-se Rafael.
― Sim…
― Se quiseres, eu ensino-te…
― Oh! Claro que quero!
A partir desse dia, Rafael partilhou as cores dos seus lápis com Mariana, sentindo-se imensamente feliz por dividir com alguém, aquilo que melhor sabia fazer. Já não se sentia tão só.
Talvez guiados pela curiosidade, ou pela magia das cores, que possuíam os desenhos de Rafael, nos dias que se seguiram, novos colegas se lhes juntaram.
Foi tanto o entusiasmo, que as crianças conseguiram despertar a atenção dos adultos. Estes, acharam as pinturas tão lindas, que resolveram fazer uma exposição no centro da cidade, para que todos pudessem ver.
Afinal, e como por magia, Rafael conseguiu concretizar o desejo de levar as cores do arco-íris, até ao cinzento da cidade.
A sua felicidade era tamanha, que mesmo sem no céu se avistar, o mais belo arco-íris refulgia no azul dos seus olhos.

Texto publicado no Diário de Turma, suplemento do Diário de Coimbra,em Janeiro de 2007.
 
Um Sonho Chamado Arco-Íris

A Diferença na Diferença

 
Acredito que ser diferente não é ser menos. É, por isso, necessário promover a inclusão, das mais variadas formas, para que o termo “deficiência” não seja associado a ideias e conceitos negativos.
Comummente, a deficiência — seja ela física ou mental — está conectada a incapacidade. Muitas pessoas julgam que o cidadão deficiente não possui competências intelectuais e motoras, que lhes permitam realizar tarefas e terem um papel activo na sociedade. Estes, muitas vezes, apenas necessitam de uma oportunidade para demonstrarem as suas capacidades nas diversas áreas profissionais e académicas.
Assim, ultrapassando todos os dias as suas próprias limitações, são muitos os deficientes a darem o seu contributo para que esta nossa sociedade — cada vez mais global e apressada — permaneça sensível e humanizada, consciente da sua fragilidade. Pois, todos nós — mercê da idade, de doença ou de um qualquer acidente — somos susceptíveis de ficar física ou psicologicamente limitados.
Para contrariar o estigma que a deficiência ainda continua a alimentar, existem, por este mundo afora, milhares de seres humanos maravilhosos que, — apesar das suas diferenças — empurrados pela coragem e pela perseverança fazem da tolerância e da igualdade a sua bandeira de luta. Quer seja através da chegada à meta em primeiro lugar, de uma canção ou da música, de um livro ou de uma tela pintada, há mensagens de franca universalidade que, sem sabermos bem como, nos tocam e nos despertam.
Creio indubitavelmente que dentre muitos outros exemplos, o desporto e a arte podem ser veículos de integração, com um papel social de vital importância no que concerne às pessoas com deficiência.
Como experiência pessoal, e enquanto deficiente motora, é através da literatura que eu tento promover os valores da inclusão e da diferença. Há três anos que, em parceria com uma instituição de jovens deficientes mentais, desenvolvo projectos de âmbito artístico e lúdico-pedagógico. Aliamos a literatura às artes de palco e à música com o intuito de passar uma valiosa mensagem, sobretudo, aos mais jovens, já que nos deslocamos essencialmente a escolas.
Considero fundamental a experiência da diferença entre crianças e jovens, para que cresçam a saber conviver de forma mais harmoniosa e tolerante, não só em relação aos deficientes, mas também no que se refere à origem e religião de cada qual.
Cada sorriso de compreensão que conquistamos é como uma semente que lançamos nas margens do futuro. Homens e mulheres do amanhã falarão aos seus filhos que existem pessoas diferentes. Combater-se-á a exclusão. As ruas das cidades e as entradas dos prédios e das instituições públicas terão acessos para os deficientes, como algo natural e ninguém os olhará com estranheza quando, com todas as limitações que possam ter, desempenharem as suas funções como qualquer outro cidadão.
Sei que não poderei mudar o mundo, mas posso tentar fazer a diferença entre a diferença… Com a ajuda de todos será ainda mais fácil fazer do mundo um lugar melhor…

Artigo publicado no jornal "O Portomosense" em 04/09/2008.
 
A Diferença na Diferença

O Comboio Mágico

 
A chuva deixara de cair e ainda que tímido, o sol cobria de ouro toda a cidade. Refulgia nas vidraças dos prédios, alumiava o escuro dos becos e emprestava poesia ao rosto acinzentado do homem das castanhas.
Fumegantes pelo calor do assador, estas, adoçavam a aragem cortante da manhã e aqueciam a alma, com um certo encantamento.
Um pouco por todo o lado se adivinhava o Natal. Eram as magníficas decorações nas ruas e nos centros comerciais, o enorme pinheiro enfeitado de luzes no largo e o vaivém anónimo das pessoas carregadas de embrulhos coloridos.
Os sorrisos tornavam-se mais abertos, mais espontâneos, como se uma alegria pueril habitasse o coração dos homens.
No jardim da praça, onde há muito, os plátanos haviam perdido as folhas amarelecidas pelo Outono, as crianças entretinham-se em brincadeiras barulhentas. E as suas vozes dispersavam-se pela urbe, em suaves entoações de infância.
Um menino, entre todos, despertou a minha atenção. Há quase uma semana, que àquela mesma hora, o encontrava absorto na contemplação da montra de uma loja, que existia frente ao jardim.
Era um edifício antigo, com a tinta a descascar nas paredes e uma discreta montra de vidros algo empoeirados. Ofuscada pela cintilação apelativa das outras lojas, era fácil, esta passar despercebida.
E no meio da minha pressa diária, decidi eu própria parar o tempo e quedar-me a observar o que os olhos do menino viam, naquele rectângulo envidraçado.
Surpreendeu-me não ver jogos electrónicos ou brinquedos barulhentos, cheios de botões luminosos. Ali, encontravam-se apenas meros brinquedos de madeira. Coloridos é certo, mas de uma tal simplicidade, que se perdiam na exuberância envolvente.
O menino acercou-se da montra e o seu olhar sonhador, pousou num rudimentar comboio, pintado de vermelho e amarelo. Dir-se-ia um pequeno maquinista, a embarcar no comando das carruagens e a seguir viagem, rumo a um destino que só ele conhecia…
Aproximei-me silenciosamente.
― Gostas do comboio?
A criança sobressaltou-se, não sei se com a pergunta, se com a minha presença, limitando-se a assentir com um gesto.
― Como te chamas? ― indaguei.
― Nicolau…
― Olha Nicolau, posso saber porque gostas tanto desse brinquedo? Geralmente, os meninos da tua idade gostam mais de jogos de computador…
Ainda de face voltada para a montra, o menino respondeu com um ligeiro tremor na voz.
― Não tenho computador. Os meus pais não me podem comprar um. Eu não me importo. Preferia antes este comboio de madeira, mas não tenho coragem de pedir, sei que têm muitas despesas e o meu pai está desempregado…
Tentei balbuciar alguma coisa, foi porém Nicolau, quem continuou a falar.
― O meu avô também gostava de fazer brinquedos de madeira e um dia, pouco antes de morrer, ofereceu-me um comboio quase igual a este… ― murmurou, apontando a montra ― Através dele, o meu avô continuava comigo. Um dia, houve um incêndio na casa onde vivíamos e o comboio ardeu…
Senti um nó a apertar-me a garganta e empurrada por um instinto irreprimível, entrei na loja e comprei o brinquedo.
Quando saí, Nicolau seguia já rua abaixo, conformado com aquele pedacinho de sonho diário.
Corri no encalço dele e ofegante, chamei-o de volta. Olhou-me admirado. Sem mais rodeios, estendi o brinquedo na sua direcção.
Nenhum de nós pronunciou qualquer palavra, apenas os olhos dele mergulharam nos meus.
― Obrigado por me ajudar a manter o avô vivo dentro de mim... ― murmurou por fim.
Nesse instante, uma nuvem que há muito espreitava no céu, ocultou o sol e abriu-se num intenso aguaceiro.
Pelo meu rosto deslizaram gotas salgadas, não sei se nascidas nos meus olhos, se geradas no céu…

Texto escrito para o "Diário de Turma" - suplemento infantil do "Diário de Coimbra", no qual foi publicado em Dezembro de 2006.
 
O Comboio Mágico

Uma Casa sob o Rio

 
O vagabundo, sedutor, inclinou-se sobre o rio. Ficou longo tempo, imóvel, a observar a corrente, como se tentasse encontrar-se a si próprio no torvelinho das águas. A seguir, perguntou ao homem de cabelos revoltos pelo vento e barba de dois dias, aí reflectido:
— É um mundo paralelo, este?
— É o meu lugar secreto. — respondeu a outra metade.
— Eu gosto de vidas paralelas…
— O meu coração irá bater ao compasso do teu. — predisse o seu eu.
— E depois?
— Depois… Param os dois, para voltar a bater em uníssono. Um fica à espera do outro.
— Vamos ser nossos. Vamos sonhar! — exclamou subitamente o vagabundo com ar arrebatado.
— O barulho da realidade acordar-nos-á do sonho.
Para impedir que as palavras do rio cumprissem a profecia, o vagabundo, sem hesitar, mergulhou nele.
Uma mulher vestida de seda aproximou-se da margem. Uma orquídea selvagem adornava-lhe a juba negra.
A lua flutuava nas águas, tal qual uma incendiada flor de lótus. A figura líquida do vagabundo seduzia. E o seu alfabeto também.
— Há um beijo de chocolate nos nossos lábios, para saborearmos devagarinho…
— Encosto-me a ti. — murmurou a mulher — Tanto que quase me derreto nos teus braços quentes.
— Braços também eles derretidos pelo calor da tua pele. — acrescentou o vagabundo.
Corpo desfalecido…
— Beatriz… Beatriz… — a voz do vagabundo perdia-se na noite.
Gemidos baixos… Beatriz roçava o seu corpo esguio no infinito.
Corpos. Dois corpos, duas almas. Sussurros…
Uma alma. Um respirar.
Luar… Vinho… Rosas… Poesia…
Uma alma é uma pátria. E uma pátria é uma casa.
Um lobo — ou seria apenas o vento disfarçado de saltimbanco? — uivou, algures, na lua cheia de água. Os salgueiros estremeceram de terror e a armadura do tempo afogou-se, sem que o vagabundo pudesse, ou sequer quisesse, salvá-la.
— Gostas de vidas secretas? — indagou.
— A minha imaginação tem asas… — confessou Beatriz, com sensualidade.
— Só aqui vivo personagens secretas. — acrescentou o vagabundo que, tal como um camaleão, se disfarçava na corrente.
— Ninguém é verdadeiramente livre. São tantos os dias que passo no gorjear dos pássaros, que já me esqueci da voz dos homens… Numa outra vida fomos almas gémeas. — ao dizer isto, acariciou o dorso das águas, como se estas fossem um gato cinzento e lânguido.
— Numa outra vida fomos a mesma pessoa. — objectou o vagabundo — almas gémeas somos nesta, porque as minhas mãos de sol querem amadurecer a tua pele.
— Tu és um sedutor…
— E tu és seduzível! Um sedutor precisa de inspiração.
— Um poeta também.
— Eu sou um poeta do momento. Faço poesia com a vida.
— Não sei se a vida é uma papoila encarnada, se é uma saudade de ti em carne viva…
— Então, vamos os dois para o luar, com um cálice de vinho do Porto seguro nas mãos. Hei-de pintar os teus lábios de rubi e beber deles, como se sorvesse do Santo Graal a perfeição suprema.
Beatriz semicerrou os olhos, em êxtase.
— Tu não existes.
— Pois não. Sou apenas uma alma vagabunda.
— És um vagabundo como o vento, que se insinua no meu corpo e nos meus cabelos.
— E na tua alma também.
— És um estilhaço da minha alma.
— E tu da minha.
— Um dia, nós partimo-nos.
— Agora encontramo-nos para crescermos espiritualmente, percorrer caminhos de descoberta e abrir novos trilhos. Caminhos que ainda não existem… — o vagabundo interrompeu-se para escutar a canção das estrelas — É magnético. Os olhos atrair-se-ão até ficarem colados e irão, depois, atrair os corpos, que se colarão também.
— Isso é porque preciso ver-me nos teus olhos e tu nos meus. — argumentou Beatriz com convicção.
Como se não a tivesse ouvido, o vagabundo continuou a colocar na boca os seus pensamentos.
— Até que, húmidos, suados, os olhos e os corpos, numa amálgama de sentidos e de poemas, escorrerão um do outro.
— Encontrar-se-ão outra vez no chão e levantar-se-ão.
— O universo não existe. Só tu e eu encarnamos a realidade.
— Somos nós, o universo!
— Hoje és o meu universo. Somos dois mundos prestes a colidir. Nada irá sobreviver.
— A vida sobrevive-nos.
Um barco azul passou rente ao vagabundo. As velas esvoaçavam, aflitas, como as asas das borboletas. Nenhum dos dois apanhou o barco. A vida acenou-lhes, de longe, sem nunca largar o leme.
— Fundir-nos-emos. Ficaremos do mesmo tamanho, mas mais brilhantes.
— Se calhar, porque a poeira das estrelas irá cair sobre nós… — aventurou dizer Beatriz, enquanto passeava as suas íris de avelã pela via láctea. Por isso, não sabia dizer se fora ela ou se fora o eco das coisas passadas, quem repetiu:
— És um sedutor.
— Mas, foste tu quem me seduziu.
Beatriz abeirou-se do lodo, o qual tingia as margens, e pediu, num convite cheio de volúpia:
— Quero sentir a tua barba arranhar-me a pele.
— E eu quero sentir-me tocado… Sentir-te arranhada… Tocar-te… Sentir que me estás a sentir… Queimar a tua pele com a minha respiração… Suar… A seguir arrefecê-la com a boca… Lamber o teu suor…
— A tua essência é que me toca. Dá-me alma.
— Quando aninhas a tua alma nos meus olhos, o mundo detém-se. Ouço só o bater do teu coração, porque o meu adormece nas dobras do teu corpo.
— O meu corpo é como este rio, dá vida ao teu coração.
— Por isso, mergulhei sem Norte no teu rio.
— Vem ver o meu fundo e o que nele cresce. Banha-te em mim… Fica dentro de mim. Serei a tua concha, o teu abrigo.
O vagabundo, mais sedutor do que nunca, estendeu a mão a Beatriz. Esta, libertando-se da seda que a envolvia, imergiu na misteriosa floresta de limos.
O pio de uma coruja feriu a noite, transformada em madrugada.
— Decerto, a ave matará a poesia… — segredou Beatriz no ouvido do vagabundo. Os seus corpos confundiram-se, metamorfoseando-se numa raiz de marfim.
— A poesia é para matar. — sentenciou o vagabundo — A morte é paixão!
Um peixe fugido do arco-íris veio aquietar-se nas reentrâncias daquela estranha raiz.
— Como é bom retornar a casa…
Os olhos da Beatriz aprisionaram o olhar do vagabundo. Ou será que foi ao contrário? Onde começava um e acabava o outro?
Ouviu-se o canto de Oxum — a deusa do rio — e, fecundas, as águas principiaram a adormecer.
O vagabundo soprou a lua e esta, tal qual a chama de uma vela, apagou-se. Do céu, começaram a chover estrelas em pó.
No leito do rio, uma pálida raiz de marfim brilhou mais do que todas as outras…
 
Uma Casa sob o Rio

A Viagem

 
A sereia do navio rasgou a quietude marítima, preenchida de azul longínquo e por bandos de gaivotas, que a distância semelhava a brancas folhas de papel, onde alguém escrevera francas estrofes de liberdade.
Luísa permanecia imóvel, encostada à amurada do convés. Os seus olhos prendiam os derradeiros contornos do cais e ela jurava, ainda vislumbrar, o fugaz aceno dos lenços na margem, como se estes fossem delicadas rosas de sal, a tremular no vento.
Também os últimos resquícios do perfume de Vicente permaneciam no seu corpo, como testemunho efémero, daquele longo abraço de todas as despedidas.
— Não demores em regressar… — pediu ele, numa voz enrouquecida pela saudade que já sentia, apesar de Luísa sequer ter partido.
Ela aquiesceu em silêncio, sabendo que a sua viagem não teria regresso possível. Por isso, desejava guardar num lugar bem fundo de si, cada fragmento daquele amor, que a morte, ao invés de desvanecer, eternizaria…
A única verdade na sua partida, era o facto de embarcar rumo à Austrália, tudo o mais, era uma intrincada teia de dolorosas mentiras.
Havia já alguns meses que assim era… Desde o dia, em que ela entrara naquele desditoso consultório, para saber os resultados dos exames clínicos, que antes fizera. Ouviu, sem nada sentir, como se as palavras graves, que o médico pronunciava, fossem uma sentença imutável, que há muito o seu coração adivinhava.
Nem mesmo, quando, com ar sonhador, Vicente arquitectava planos para um futuro, que Luísa sabia impossível de alcançar, ela lhe contou acerca da tragédia, que sobre eles se abatia.
A brisa insinuava-se de manso ao redor de si, pondo-lhe na palidez das faces, o suave rubor, que possuem as pétalas das camélias. E os longos cabelos ruivos adejavam, revoltos, como um inusitado jardim de algas. O olhar, esse, era preenchido pelo reflexo da água do mar, que, de quando em vez, ameaçava transbordar a frágil prisão das pálpebras e desfazer-se em ondas salgadas de mágoa.
Luísa inalou profundamente o odor marítimo e pensou, para consigo, por quanto tempo mais, conseguiria prender a vida dentro de si…
Os primeiros indícios da doença tinham surgido, havia cerca de um ano. Atribuíra ao cansaço, o crescente mal-estar, que a acometia. Decidiu não partilhar com Vicente as suas desconfianças. Não queria preocupá-lo em vão…
A verdade, é que o passar dos dias, trouxera consigo inequívocas provas de uma sina, há muito traçada, pelas ocultas tramas do destino.
A incerteza ameaçava tornar-se na mais insuportável de todas as dores, o que a impeliu a procurar um médico. Os poucos dias em que aguardou, pelo desvendar definitivo dos exames clínicos, pareceram-lhe intermináveis anos de suplício. Só o amor de Vicente parecia ser o bálsamo capaz de acalentar tão penosa espera. Ainda assim, foi incapaz de falar com ele. Seria para ela insuportável, ler nos seus olhos palavras de compaixão, como se esse sentimento fosse um indelével poema, de versos tristes e piedosos…
Nunca o sorriso de Vicente seria o mesmo, sempre preenchido pelo fulgor dos girassóis; nunca os seus beijos teriam o mesmo gosto, perfeita Primavera com sabor a frutos silvestres; nunca o toque das suas mãos teria a mesma enigmática magia… Apiedados, seriam, talvez, todos os seus gestos. E a fronteira com o amor tornar-se-ia numa linha estreita e esbatida, uma terra de ninguém, onde, aí sim, ela feneceria a cada instante, qual borboleta enleada pela chama de uma vela acesa.
Que importância tinham, naquele momento, todas as mentiras, todos os enganos, das horas em que os dolorosos e inúteis tratamentos, se afiguravam como um bálsamo redentor, um ínfimo raio de luz na sua esperança? Tentou como pôde iludir a morte e, em nenhum momento se arrependia, das histórias que tinha inventado, para que Vicente permanecesse, serenamente, a sonhar, envolto no seu belo conto de fadas. Injusto não lhe dizer nada? Talvez… Talvez ele devesse conhecer a verdade e saber que a crescente palidez e debilidade dela, não eram provocadas pelo cansaço, como Luísa afiançava, mas por uma mão invisível, que lhe ia roubando as forças…
Quantas foram as vezes, que ela mergulhou bem fundo na alma dele e, ainda que em pensamento, lhe revelou o adeus próximo… Porém, ele estava cego de paixão ou fingia essa cegueira, ela não sabia bem... Com frequência, Vicente repetia, que se acreditasse com muita força num sonho, eventualmente, este acabaria por se concretizar…
Luísa sabia o quão utópico seria crer nisso, porquanto, uma vaga revolta lembrava-a de que já não tinha o direito de sonhar…
A ideia de ir para a Austrália surgira de repente, quando ouvira o chefe de redacção do jornal onde trabalhava, dizer que estavam à procura de alguém, que ocupasse as funções de correspondente nesse país.
Quando ela disse ao chefe que estava disponível, este olhou-a boquiaberto. Pois, apesar de Luísa possuir todos os requisitos profissionais para o cargo, o homem sabia que ela e o Vicente estavam a ponderar casar daí a alguns meses. Tal proposta não fazia sentido. Pensou que ela estivesse a brincar, mas o ar determinado de Luísa, não lhe deixou margem para dúvidas.
— Mas… Não entendo… Tu e o Vicente não estão a planear o casamento? Isto não é uma viagem de ida e volta… Entendes? Será por tempo indeterminado…
Luísa assentiu. Nem o chefe calculava, o quão acertadas eram as suas palavras. Aquela seria uma jornada sem regresso possível…
— Eu sei… Peço, por favor, que me indique para o lugar e se alguém perguntar alguma coisa, diga que não existia outra opção… Que foi o próprio chefe a nomear-me para este trabalho… E que só estarei fora por dois ou três meses…
— Que estás tu a pedir-me?!
— Por favor, confie em mim…
— Mas… — balbuciou o homem, em absoluta confusão — E… O Vicente?...
— Se quer a minha felicidade, faça aquilo que eu lhe peço…
O chefe acabou por condescender, sem ver, no entanto, no rosto de Luísa, qualquer vestígio dessa felicidade. E alguns dias depois, teve mesmo de pôr à prova a sua lealdade para com a jovem, quando, ocasionalmente, encontrou na rua o Vicente e este lhe perguntou, o porquê de Luísa se ausentar, de forma tão inesperada. Com alguma relutância, o homem conseguiu justificar a partida dela, afiançando-lhe que seria pouco demorada, a permanência dela na Austrália.
Quando o chefe de redacção chegou ao jornal, contou a Luísa o sucedido e fez questão de manifestar o seu repúdio por tão incompreensível embuste. Com os olhos rasos de lágrimas, Luísa implorou-lhe que mantivesse a sua palavra e não revelasse a ninguém o seu misterioso pedido. Com ar reprovador, o chefe comprometeu-se a nada dizer.
Luísa delineara um plano de fuga perfeito. Doía-lhe a consciência ter de enganar, não só o Vicente, mas também o pobre chefe, pois ela não fazia tenção de trabalhar como correspondente do jornal. Assim que chegasse à Austrália, desapareceria do contacto de todos. Viveria o tempo que ainda lhe restava, como uma trivial passageira, clandestina no ventre de uma vida, que por ela passava a alta velocidade, sem, em nenhuma paragem, se quedar.
Conhecia bem o Vicente. Preferia mil vezes, que ele se julgasse abandonado por ela, a que soubesse a realidade. Sentir-se traído, acabaria por fazê-lo seguir em frente, descobrindo força no ódio e no orgulho ferido. Só o ódio dele compensaria o amor dela. Uma ideia louca, contudo, o amor não tinha que fazer sentido. Ela tinha a certeza, de que um dia Vicente voltaria a ser feliz e as recordações que dela possuía, aparecer-lhe-iam, como uma velha fotografia, amarelecida pelo tempo, onde o doce-amargo da saudade, elevaria a fatalidade, ao mito… Quanto a ela, seguia a um só tempo, para o outro lado do mundo, para o outro lado da vida…
O crepúsculo ia pintando de sombras douradas toda a superfície do oceano, que, célere, o navio fendia, deixando atrás de si um imenso rastro de espuma, que, de quando em quando, as gaivotas vinham beijar… E se Luísa escutasse a voz do mar, com as margens do coração, poderia nele ouvir, o triste fado, que à noite, sob as estrelas, gemem as guitarras ao desafio, num já longínquo reino lusitano…

Menção Honrosa nos V Jogos Florais de Avis, na modalidade de Conto.
 
A Viagem