https://www.poetris.com/

Poemas, frases e mensagens de Luis

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de Luis

Questiona

 
quando quiserem que acredites
questiona

se te fecharem a porta
abre-a

e quando te disserem que não há uma estrela da manhã
acende-a
 
Questiona

Setembro

 
Como eu preciso de ver os barcos encostados à muralha,
acabados de chegar, ou prestes a partir.
Quem sabe? Quem me diz?

Como eu preciso dos meus olhos na água,
apressados, com a pressa que as ondas têm...

Já devia ter ido até ao cais
a que chegam todos os barcos depois do verão.
Mas ainda não fui.

Eu aceito.
Aceito, mas não sei por que não param os relógios em agosto,
quando o mar está chão, o sol visível e a areia quente...
Quem sabe? Quem me diz?

Já estamos em setembro,
o mês em que as sombras crescem enquanto o lume se apaga.

E eu já devia ter guardado a nudez para vesti-la
para o ano que vem, quando for tempo para despir a roupa
e regressar.
 
Setembro

Prisioneiros

 
despidos,
os lábios vestem-se de palavras.

a cada uma
os olhos fitam as portas que elas encerram.

e cada frase proferida é uma chave,
como se a saliva emergisse em fios de seda branca
até que o casulo, translúcido, se fecha.

e nós lá dentro!

prisioneiros do que dizemos!
 
Prisioneiros

Estuário dos tempos

 
são inocentes os olhos que acordam
na fonte do princípio,
na origem das nascentes.

maculados os outros, que adormecem
na foz dos invernos.

no estuário dos tempos.
 
Estuário dos tempos

Aplausos e pateadas!

 
Perguntaste-me:
como podem as mil e uma noites
chegar à eternidade?
Ao dia a dia das coisas menores que fazes?
À vidinha que tens?

É simples!
Basta acrescentar histórias às histórias de Sherazade.

Como?

Contaram-me que um velho muito velho
tinha nas mãos o dom da palavra:
batia palmas e soavam discursos!
Palavras e mais palavras saltavam-lhe das mãos
e, se a conversa fosse triste, até os dedos choravam.

O velho não podia bater palmas sempre,
porque as palavras das mãos eram mais sinceras
do que as palavras que dizia quando falava pela boca.

De inverno, quanto o frio pesado lhe caía em cima,
o velho batia palmas para ficar quente
e de entre os dedos ouvia-se o Pessoa
carregado das razões, do calor e do frio
que tinha e não tinha.
E às vezes Camões: “alma minha...”

E quanto mais quentes lhe ficavam as mãos
mais quentes eram as palavras que se ouviam.

Num dia de frio, de luvas calçadas,
ouviu-se a voz rouca e sumida da Florbela
que mal conseguia sair-lhe pelos pulsos...
“Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,"…

E quando às batidas dava jeito de sapateado
e gestos de flamenco,
eram de Lorca as palavras que se ouviam.
Voz arrastada...
entre lamentações ciganas e o fado.

Num dia de calor o velho, de mãos suadas,
limpou as mãos humidas e bateu palmas para secá-las.

E Pablo Neruda saíu-lhe a cantar Tango
Viúvo, como o pai a um mês dele ter nascido.

Ah! Mas o velho também batia os pés!

Ficou famosa uma pateada no São Carlos
por conta do Castelo do Barba Azul.
Nada que se devesse ao Bartok,
que nestas coisas do canto as pateadas
vão mais para quem abre as goelas pífias
e regurgita fífias em forma de canto.

No fim do primeiro e último acto
(que o compositor foi poupadinho),
toda a minha gente pateava a Judite e ele também.

E pela manga dos peúgos saíu-lhe o Ezra fanhoso:
“Arre! Já celebrei mulheres em três cidades,

Mas é tudo a mesma coisa;

E cantarei ao sol.”

Um dia, uma criança que estava à beira do velho,
sabendo daqueles seus dons pediu-lhe
que batesse palmas e pateasse ao mesmo tempo.

A algazarra foi tanta vinda das mãos
e de baixo, pelas perna a cima e de todo o lado,
que o coitado do velho caiu por terra!

E em dois dias foi enterrado.
 
Aplausos e pateadas!

Todas as Palavras!

 
I

perguntas-me pelas palavras certas.

e eu não sei como encontrá-las,
não consigo dar-tas
neste poema.

vi escrito que há palavras
duras,
inqualificáveis,
feias
que a poesia recusa.

repara no que digo:
que a poesia recusa!

II

quem o escreve crê que a poesia,
como o resto,
deve ter por norma
certamente
o politicamente correto
na forma.

como se tudo na vida fosse contido e guardado !
como um engano bem escondido
no canto de quem não diz ou canta
lengalengas,
canções de embalar,
cantigas de amigo e fados.

III

sabes?
é uma pena que Pessoa
não tivesse escrito poemas
ao me-tro-po-li-ta-no,
como escreveu ao sino da aldeia dele.

não podia!
porque naqueles anos sombrios
em Lisboa não havia o caruncho das cidades,
nem o funcho crescia com aroma
de Liberdade.

IV

é uma pena que não se encontrem por aí
epopeias,
rimas ,
ufanos sonetos
aos pacíficos hipopótamos
que medram nos pântanos africanos.

enquanto nas margens do lodo,
já na savana,
as hienas olham
desconfiadas e nervosas,
safadas e sorridentes.

manhosas!
 
Todas as Palavras!

É simples...

 
é simples permanecer
na frágil amurada de um porto e na vigia de um barco
que parte sem nunca chegar

por isso
moras na orla de tudo o que os teus olhos não te mostram
e passeias sem querer saber das perfeições escondidas
 
É simples...

Todos os rios

 
sentei-me ali e olhei todos os recantos da praia
confesso que não vi cada um dos grãos de areia
nem as dunas imensas que veria se o meu tamanho fosse outro

sentei-me ali

estava como sempre estou em todas as praias
mais no sal que na terra
mais na água que no sol
quando olhei para longe e vi na linha
da fronteira celeste do mar

como se estivessem perto de mim
todos os rios do mundo
 
Todos os rios

Há cidades onde

 
sempre que a noite se cala
quando cresce o sol
e a lua desce

há cidades onde
os cães passeiam os donos
e correm do futuro para o passado
as águas que o tempo dá
 
Há cidades onde

Do nada

 
criar é fazer emergir do nada!

do escuro tirar a Luz.
do silêncio harmonia.
do inolente o aroma e do insípido o sabor.

é tirar da noite o dia e do carvão o lume.
do cravo o odor.
da tua pele o perfume.
 
Do nada

Onde fica?

 
São assim,
os desejos que invadem os homens
quando na quietude do bem estar
se sentem impelidos a fazer.

O que os move?

Há quem diga que somos feitos para ser felizes e,
felizes, deixamo-nos estar.
Quietos,
tranquilos,
na esperança de que o estado de graça fique
para a eternidade.

Há quem diga que estamos aqui para festejar a felicidade.
Conseguindo-a, ficamos nela de pousio...
sem querer que ninguém nos cultive o corpo ou
abane a caixa dos pensamentos.

E o sentido do dever?
Onde fica?

Há quem diga que fazer por dever é fazer obrigado
e que a obrigação não é sinónimo de vontade.
Agimos e fazemos quando nos sentimos incomodados:

é antes disso que está a felicidade!
 
Onde fica?

Não quis aprender

 
foram tantas as coisas que me quiseram ensinar
mas que eu não quis aprender!

quiseram que acreditasse que o mundo era como era
só por ter sido como foi.
e eu sentado com as pernas curtas, que nem chegavam ao chão,
repetindo para mim que não queria saber.

e do quadro negro, de dedo em riste,
gritavam-me que ser alguém era ser como os outros
porque os outros eram como deveriam ser.

e eu a não querer saber daquela sabedoria!

e da cátedra explicavam-me como se fazia a partir de um ponto
uma circunferência por natureza redonda,
mais um quadrilátero que até podia não ser quadrado.

e eu a não querer saber daquela geometria das figuras!

de pernas curtas que nem chegavam ao chão
tudo para mim era enfado, travessuras, imaginação.
 
Não quis aprender

Um novelo uma Rosa

 
era fina a linha que tracei
invisível aos mais desatentos

depois de fazê-la com muito cuidado
fiz dela a fronteira entre mim e o fado

fiz dela o traço entre o céu e a terra

a vida e a morte
o amor e o medo
a paz e a guerra

era um fio de seda uma teia fina
depois um novelo uma Rosa divina
 
Um novelo uma Rosa

Sabedoria

 
nas tuas mãos
o mundo

nas rugas que trazes
as sementeiras
e os arados que navegaste

na quietude
as pautas musicais nuas
das valsas caladas
que danças em silencio

ah!

escuta na multidão
a chuva que te corre no sangue

os sonhos que semeaste
 
Sabedoria

Todas as Palavras!

 
V

ninguém escreve decassílabos aos telemóveis
e muito menos tragédias.

ei-los que tocam desgarradas
nas escuras salas de cinema,
onde todos os romances são possíveis
e todas as aventuras acontecem...

as grandes e as pequenas!

não oiço rimas quebradas
aos astros no firmamento,
aos peixes no mar
e aos homens na terra.

nem à tragédia de Camões zarolho
em guerra com as Ondinas,
aflito a nadar.

VI

repara bem no que te digo:

é uma pena que o Alegre
não escreva poemas menos sérios
e que os sermões do Vieira caminhem,
como loucos,
do zénite e dos cardumes
ao nadir e aos costumes.

tristes estão os escamudos na água!
mudos na terra
com a mudança os homens!

sem palavras!

VII

e ao sétimo dia
revelam-se todos os vocábulos.

é a poesia.
é ela que tudo destapa.

e nada escapa ao primeiro léxico
dos primo poetas que no banho,
na espuma das águas irmãs
do Tigre
e do Eufrates,
mergulham na palavra única.

era quando nem fala ainda havia,
porque Babel crescia entre zigurates
do tamanho da língua antiga:

que era una.
 
Todas as Palavras!

Admirável mistério

 
o que tem de admirável o mundo
não é tanto o que eu não sei do mundo
mas o que eu não sei de mim

o que faz dele este admirável mistério
não é tanto ele
mas eu

porque sem mim nada seria surpreendente
nem misterioso

porque os mistérios do mundo existem
tão só porque existo
e me surpreendo
 
Admirável mistério

O piano que ladra

 
I

sei de um surrealista que traz uma cerejeira ao ombro
e mora numa corda de roupa

na cerejeira todos os dias principiam frutos
que à noite regressam às flores

II

a mulher do surrealista toca um piano que ladra

ouvem-se matilhas de acordes
quando dá concertos em família

III

o casal tem dois filhos

o segundo nasceu antes do primeiro
e ladram os dois ao piano da mãe
 
O piano que ladra

Intocado

 
existe
intocado pelos sentidos um mundo
latente

que permanece ao meu lado
quando o esqueço

que me guarda o silêncio
se canto

que me pede que o sonhe
sempre
 
Intocado

O tecto

 
são aves que te habitam

de asas abertas navegam-te por dentro
à bolina da tua pele

és o tecto do universo em que elas voam

pudessem elas ausentar-se
pudesses tú soltá-las
para além do tecto que és e dessa terra que te pertence
 
O tecto

Em segredo

 
nas tardes de primavera
com o sol morno e o céu rubro
eu corria para ti e sentava-me no degrau
à tua beira

encostava a cabeça ao teu peito
e tu sorrias e falavas-me
da imensa tristeza
da esperança dos desertos

dizias-me que não havia fogos despertos
que ardessem no peito mais do que os nossos
dizias-me que todos os mistérios eram só Um
e que nem toda chuva do céu
seria tão nossa como nós

e eu não falava nem dizia
ouvia tão só os sons escondidos em tudo
e em segredo construía cidades

com a tua voz
 
Em segredo