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Prosas Poéticas :  ... a montanha aguarda-nos
 
Varro a noite em gestos baços na procura breve de já ser dia.
Aspiro do pomar ao lado o aroma perene de maçãs, de laranjas, de romãs.

A lavra recente solta para o ar o bafo da terra quente.
A nogueira eleva braços ao ar, agita-se em ansiedade humilde de te abraçar. Um fruto cai, é noz aberta, casco de barco, em busca do aconchego decifrado do teu mar.
Noz quebrada, rebola no negro da noite e encontra o gelo do alcatrão da estrada.

Abro as portadas, afasto as rendas das cortinas, desembacio janelas.
Atento com mil cautelas no peso dos passos cansados dos guardadores de sonhos e de gado.
A montanha aguarda-os.

A montanha aguarda-nos, pastores de longa jornada.
É prato lauto, d’erva tenra, macia, aspergida - é cidadela fortificada na unidade da vida.
Bebe-nos a essência, roubando, no desafio de comum medo, em recato e desejo segredado, um a um, lentamente, devagar, todos os beijos demorados no cetim do nosso olhar.
O Sol pesponta, tímido garoto. Tremeluzente, solta os cabelos revoltos p’los montes. Ao longe e logo aqui, a fraga secular refulge evidente na pigmentação d’azeviche.

Desacatamos ventos, impomos ao tempo um tempo recluso de ternura e de acalmia.
Cinjos, unos, voamos d’asas fincadas na proa das madrugadas, por sobre vales, mares maiores, rios e fontes. Seguimos a rotas das ondas, a quentura das correntes,
sem promessas,
sem bússolas, ou sextantes,
sem guias que não sejam o rasto de comum memória.

Estrelas mareantes, dizemos amor na forma pura. Dizemos amor em leitos vastos e abertos. Em estrados aplanados de crença e de candura. No sal da pele, d’alvoroços acordados.

Enrodilhada na cadeira de baloiço oiço agora o sino d’aldeia, os zumbidos das obreiras, o bulício da colmeia.

E na manhã das horas tu chegas e escreves na tua ausência
o memorial da nossa história.
Chove. Chove agora.


Mel de Carvalho
www.noitedemel.blogs.sapo.pt
www.noitedemel.blogspot.com (só prosa)
www.maresiademel.blogs.sapo.pt
***
MT.ATENÇÃO:CÓPIAS TOTAIS OU PARCIAIS EM BLOGS OU AFINS SÓ C/AUTORIZAÇÃO EXPRESSA

Autor
Mel de Carvalho
Autor Mel de Carvalho
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Texto
Data 14/11/2007 18:18:05
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Os comentários são de propriedade de seus respectivos autores. Não somos responsáveis pelo seu conteúdo.

Enviado por Tópico
Siljo Paipe
Publicado: 14/11/2007 22:47  Atualizado: 14/11/2007 22:47
Da casa!
Usuário desde: 12/9/2007
Localidade: Amadora
Mensagens: 260
 Re: ... a montanha aguarda-nos
Bom como todos os teus textos que tenho tido oportunidade de ler.

Sol. Faz sol quando escreves.

Enviado por Tópico
Mel de Carvalho
Publicado: 15/11/2007 22:06  Atualizado: 15/11/2007 22:06
Colaborador
Usuário desde: 03/3/2007
Localidade: Lisboa/Peniche
Mensagens: 2311
 Re: ... a montanha aguarda-nos p/ Siljo Paipe
Siljo Paipe,

Seja bem vindo aos meus textos. Muito grata pelas palavras carinhosas que me deixou.

Abraço
Mel

Enviado por Tópico
Pedra Filosofal
Publicado: 14/11/2007 22:53  Atualizado: 14/11/2007 22:53
Colaborador
Usuário desde: 17/9/2007
Localidade: Barreiro
Mensagens: 1705
Online!
 Re: ... a montanha aguarda-nos
Senti-me transportada para os locais que descreves. Quase que pude apertar, nas mãos, as maças... lindo mesmo

Enviado por Tópico
Mel de Carvalho
Publicado: 15/11/2007 22:00  Atualizado: 15/11/2007 22:00
Colaborador
Usuário desde: 03/3/2007
Localidade: Lisboa/Peniche
Mensagens: 2311
 Re: ... a montanha aguarda-nos p/ Pedra Filosofal
Pedra,
a veia poética anda escassa. Resta-me ir "proseando", ou seja, deixar por aqui os registos que trago como bagagem.
Obrigada amiga.
Bjs enormes
Mel

Enviado por Tópico
Cõllybry
Publicado: 15/11/2007 22:23  Atualizado: 15/11/2007 22:23
Colaborador
Usuário desde: 01/4/2007
Localidade: Porto
Mensagens: 751
 Re: ... a montanha aguarda-nos
Sempre com intensidade de Alma…

Bjca

Enviado por Tópico
Mel de Carvalho
Publicado: 09/02/2008 11:08  Atualizado: 09/02/2008 11:08
Colaborador
Usuário desde: 03/3/2007
Localidade: Lisboa/Peniche
Mensagens: 2311
 Re: ... a montanha aguarda-nos p/ Cõllybry
Cõllybry, agradeço-te reconhecida a tua presença nos meus textos.

Abraço
Mel

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Frase

É incrível que, no intuito de justificar as nossas crenças, coloquemos Deus na terra e o Homem no céu

(Garrido)



A folha

A folha cai no verão.
( Era folha de papel)
Não consigo pegá-la
Porque o vento é forte
E me leva para longe.

Matheus



Insanidade perfeita

Sinto-me cansada
Já me faltam as palavras!
As que saboreio entre dissabores
Da minha própria loucura
Já não sinto o meu corpo
As vogais consomem-no
Adormece em brandas consoantes
Ficam tantas frases por dizer
Aquelas,
Que já não consigo escrever,
Falta-me a força
A caneta começa a tremer
Soluça.
O meu olhar constrói
O que meu pensamento rejeita
Esta sou eu,
A doce mulher
A insana, poeta...

(ConceiçãoB)



Tempestades

Tudo em mim, são dias de tempestades...
Por isso entrego minha alma à poesia
E meus dias a escrever versos
E meto uns poemas em velhas garrafas
E as levo para as águas intermináveis dos mares
- revoltos e tristes -
E as lanço, na singela esperança
De que um dia alguém os leia
Ainda que meus pés não estejam mais sobre este chão
E meu corpo tenha sido já lançado no ventre desta terra impura
E minha alma tenha também partido
- para a imensidão do infinito com que sonho,
ou para o abismo solitário que me amendronta...

(Vanessa Marques)



Nós de poesia

A vida é feita de incompletudes...
Como os bares de mesas vazias
Nas calçadas
Ou as longas estradas
Repletas de nada dos dois lados

Ainda assim, escrevo
Mesmo sabendo que em mim
desatam-se nós de poesia
E atam-se outros em seguida.

O fato é que
Daquilo que me resta
Faço-me humanamente completa
meramente humana...

(Vanessa Marques)



Frase

"Amor" é o presente dado sem esperança de retorno,
e o que esperamos é apenas que não seja rejeitado

(Junior A.)



Frase

Como posso explicar
Esta dor
Invasora
Da minha alma
Senão dizer
Que és a mentira
Mais verdadeira
Da minha vida...?

(Raquel Naranjo)



Frase

O amor é como a justiça:
Injusto e cego.

(TrabisDeMentia)



Sexto sentido

Tenta ouvir o silêncio...
Ver a luz na escuridão profunda...
Cheirar o aroma da mais pura água...
Sentir a textura do vento...
Saborear a doçura do sal...
Quando o conseguires...
Irás te descobrir...

(gera)



Só saudade

Dor que sente
Dor que não se mede
Que vai e vem

Com a vida vou rolando
Com a dor vou buscando
Talvez alívio...

Quando doer que seja
Sem deixar morrer
Só saudade...

(amasol)



A foz

Se cada coisinha que eu sei correspondesse a um rio... E se cada um deles desaguasse na mesma foz...Esta não teria senão o tamanho de uma bacia bem pequenina na qual eu refresco os meus cansados pés. Os rios seriam tão curtos quanto a minha felicidade, tão estreitos quanto a minha existência, tão secos quanto a minha solidão. Mas talvez, talvez bem no fundo da bacia, talvez para lá das lágrimas turvas, e para que eu me possa orgulhar, talvez sorriam dois peixinhos, que eu, apesar da distância possa contemplar! E quem sabe... Uma flor se incline e faça nascer, na foz uma flor que eu possa colher!

(TrabisDeMentia)