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Mais um dia L

 
Mais um dia L


Há meses estava trabalhando em uma industria, como odiava o local, as pessoas, as máquinas, as chapas, pareciam todos zumbis, todos mortos, olhares fundos sem vida e sem nada para dizer. Éramos supervisionados de perto pelo patrão, que explorava a todos com mais trabalhos e no final hora extra. Mas fiz apenas uma vez, foi em um sábado e estava completamente bêbado. O reflexo da solda na chapa de inox me causava náuseas a todo o momento; na pintura, aquele ar espesso e mortífero me causava agonia. Não sei como conseguiam pessoas para trabalhar naquele setor, de certo teriam mais uns 10 anos de vida e depois morreriam com problemas pulmonares gravíssimos, mas de certa maneira já estavam todos mortos.
Dizem que o trabalho revigora, edifica o homem ou seja lá como for. Isso para mim não passa de pura babaquice e prostituição disfarçada, mas o que vale a opinião de um vagabundo como eu? Ri-me.
- Alô!Quem é?
- Bazesko?
- é... – minutos de conversa
- Pode começar segunda-feira
- OK, obrigado.
Levantei-me, fui à recepção já com o olhar esnobe e despreocupado. O carro do patrão ainda não estava na garagem. Entrei e esperei-o, entrei em sua sala de reunião onde tinha um uísque vagabundo de 60 reais, mas era melhor dos que eu habitualmente bebia e peguei um copo com algumas pedras de gelo. Voltei e esperei-o. Levantei e me servi novamente do uísque, mas agora sem gelo e retornei.
- Ta, tudo bem Carlos? – me perguntou a recepcionista, mas ignorei-a. Odiava aquele tom de voz estúpido e olhar hipócrita que me lançava. Por fim, ele chegou e me olhou com um olhar surpreso, talvez por estar bebendo do seu péssimo uísque vagabundo.
- Seu Bazesko?
- OLHA AQUI! EU TO DANDO O FORA DESSA BOSTA
- Calma
- CALMA O CARALHO! ME DEMITO SEU FILHO DA PUTA! – bati o copo na mesa de vidro, o empurrei e sai porta afora caminhando rapidamente aos risos timidos. Passei pelo portão e o ar mudou, as ruas mudaram, os carros mudaram, as arvores se curvavam para mim, o céu mudou, as nuvens mudaram, a terra mudou e as pessoas ainda continuavam estúpidas como sempre. Caminhei... Caminhei... Livrei-me de mais um...



CB


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Autor
Carlos Bazesko
 
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