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Poemas : 

Reduzo a cinza as cartas de amor

 










Escrevo cartas de amor
com a consciência de que despertar
o amor em outrem
permanece um segredo.
Escrever cartas de amor
é um gesto dos Homens
que oferecerem terras e montes,
às aves inocentes, o espanto,
dos campos fecundados pl`a lua.

Escrevo cartas de amor
com o instinto das manhãs,
abertas com o assédio
da flor inicial, gerada no cálice cinzelado pela noite.
Pelo dom do lume, pela fome dos bichos,
nasce a videira do espírito,
mantimento da palavra.

Na palavra que escrevo
habita a carne presa à vida breve, em tempo breve.
Para ao sonho se chegar,
pede a margem, outra margem.
Pois, o mundo principia na crença,
no céu e no mar, ao som da harpa da vida,
por a beleza passar na espuma dos dias.

Reduzo a cinza as cartas de amor,
por o amor criar suplício.
Nasce a sua cura na criação
do amor plural, no fiel e infiel,
na secreta existência do alheio.
É [sempre] entre a multidão a descoberta
da outra metade da maçã.










Zita Viegas















 
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atizviegas68
 
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Enviado por Tópico
Gyl
Publicado: 13/09/2018 18:53  Atualizado: 13/09/2018 18:53
Membro de honra
Usuário desde: 08/08/2009
Localidade: Brasil
Mensagens: 14659
 Re: Reduzo a cinza as cartas de amor
Foi muito feliz na confecção deste poema que tem alma e voz, Zita! Destaco: "Escrevo cartas de amor
com o instinto das manhãs,
abertas com o assédio
da flor inicial, gerada no cálice cinzelado pela noite.
Pelo dom do lume, pela fome dos bichos,
nasce a videira do espírito,
mantimento da palavra. "

Obrigado por partilhar conosco tão precioso tesouro literário! Beijo!

Enviado por Tópico
boxer
Publicado: 13/09/2018 19:49  Atualizado: 13/09/2018 19:49
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Usuário desde: 21/01/2009
Localidade:
Mensagens: 648
 Re: Reduzo a cinza as cartas de amor
.
Para mim, é a terceira estrofe a mais impressionante.
Acreditar que a palavra é vida: veículo imperfeito que procura ignorar a sua fragilidade, encontrando no outro a porta (aberta? fechada? não importa) para sonhar mais além.
Tenho reparado que não tem escrito tanto. Não nos deixe, porque são vozes como a sua que procuramos neste site, quando precisamos de sentir algo verdadeiro.

Enviado por Tópico
Jmattos
Publicado: 13/09/2018 20:24  Atualizado: 13/09/2018 20:24
Colaborador
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Localidade:
Mensagens: 15708
 Re: Reduzo a cinza as cartas de amor
Zita
Reduzo a cinza as cartas de amor,
por o amor criar suplício.
Nasce a sua cura na criação
do amor plural, no fiel e infiel,
na secreta existência do alheio.
É [sempre] entre a multidão a descoberta
da outra metade da maçã.



Gostei imensamente dessa estrofe, em particular dos últimos versos! Li e reli como se fosse um enigma da esfinge, acredita?
Parabéns!
Beijos!
Janna

Enviado por Tópico
Rogério Beça
Publicado: 14/09/2018 11:20  Atualizado: 16/09/2018 19:05
Colaborador
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 Re: Reduzo a cinza as cartas de amor
"...Para ao sonho se chegar
pede a margem, outra margem..."

A margem não fica sozinha sob pena de nada ser, e o sonho é coisa de margens.

As cartas de amor que se reduzem a cinza têm sempre o papel de serem reescritas.
Há uma personificação das cartas, com a ideia dos homens serem cinza e de a elas voltarem, colocando, para mim de certa forma, o amor como essa matéria indefinível que todos procuramos, porque a "criação do suplício" sempre dá sabor à vida.

Gosto imenso.
Abraço

Enviado por Tópico
Volena
Publicado: 14/09/2018 11:48  Atualizado: 14/09/2018 11:48
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 Re: Reduzo a cinza as cartas de amor P/atizviegas68
Belíssimo! Mas neste mundo nada se perde...até das cinzas renascem flores! Um beijo poeta Vó