Sonetos : 

Estava Deus fumando o seu charuto

 
Estava Deus fumando o seu charuto,
Com as portas do céu escancaradas,
Enlevaram-se anjos ao absoluto,
Arte, eis o quadro em toscas pinceladas.

Um piso abaixo estalavam granadas,
O braço, a perna que não sei se amputo,
Vi a morte em baionetas caladas,
E desfilando triunfante, o luto.

Entrei numa igreja à procura dele,
A raiva, o medo, a crença à flor da pele,
Sobre o altar o cálice da vinhaça…

Num silêncio que cheira a desgraça,
Rompido por um silvo que estilhaça,
Corpo que jaz sem alma que o pincele.

30 de Novembro de 2022


Viriato Samora

 
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ViriatoSamora
 
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Enviado por Tópico
Rogério Beça
Publicado: 12/12/2025 08:55  Atualizado: 12/12/2025 08:57
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 Re: Estava Deus fumando o seu charuto\cheiramázedo
9. Prémio sem consolação


Se tudo é raro e inda sabe a pouco,
mal que não é doce, só amargo,
é, também falho de estreito, largo,
desconheço de que paga é troco.

Ganho que é fraco, cheio de oco,
eco que soa ao silente, cargo
que se sente ausente, ao ilhargo
há um vácuo que serve de reboco.

Perdido por perdido, vale tudo,
nada ter, menos ainda ganho,
apenas ter jeito prá falta d’sorte.

Uma meta que nos mete em escudo
é um final que dói, de tão estranho,
o término da vida, ser a morte.


In Dez Sonetos da Guerra da Crimeia por partes