Poemas : 

ALDEIA INTERIOR (soneto)

 
Sumiu a cigarra, o galo da madrugada,
cadê a carroça com seu gemido surdo?
Do bairro antigo restou só baú do absurdo,
numa foto velha, rasgada e desbotada.

Enquanto a avó borda a toalha colorida,
no quintal as cores vivas criavam asas.
Costura de fio invisível, que une casas,
na tela da saudade a tarde prometida.

Quando o rio de lembranças segue ao lado,
alaga a rua, a praça, a fonte que secou.
Neste rio nadavam peixes da ilusão.

Herdo sonhos e desilusões do passado,
sinto cheiro, o sabor da sopa que ficou
na ausente sombra do caído casarão.


Souza Cruz

 
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