Diz-se
que Estaline
leu Júlio Verne
que leu São Tomás de Aquino
que leu São Paulo
que leu os helenistas
e ouviu a voz de Jesus
na estrada para
Damasco.
Penso nisso
enquanto passeio o meu cão
invisível.
A chuva cai mansamente na estrada,
ouvem-se crianças a espirrar
ou a rir-se
com gargalhadinhas
graciosas.
Raparigas aceleram o passo;
os seus piercings
refulgem na tarde escura.
Homens de fato azul
ou outra cor
(menos digna, aliás)
gesticulam enquanto
falam ao telemóvel
com o contabilista
ou com a amante.
Alguns pássaros voam,
manifestamente,
mais alto do que outros.
Talvez
um poeta mexicano
já tenha escrito sobre isto
numa remota aldeia poenta.
Surpreende-me
sempre
a inutilidade
de pensar
tanto.