À parede trepa-lhe a hera
na última sexta-feira de cada mês;
depois morre de amores
ao entardecer
e aguarda ordem de ressurreição
num pálido amanhecer.
O homem rega o canário
estendido ao sol da gaiola;
está morto e cheira muito mal.
O homem teme
que das penas brotem bichos de cemitério.
A mulher limpa os sapatos do homem
enquanto ele rega o pássaro morto.
Abandonados,
os sapatos esquecem
a exatidão do andar.
Agora a mulher esfrega os sapatos
com violência;
levantam muito pó.
A janela já não abre para a rua,
espreita o pôr-do-sol.
As libélulas do Rio Branco
nascem com duas cores,
ambas brancas.
O cão veio do sul de Espanha
diz quem o conhece
que caçava coelhos com zelo e dedicação
o bufão de pena preta anotou-o
no livro das espécies protegidas
e sublinhou-o a vermelho
privilégio reservado
aos primatas
às libélulas do Rio Branco
a pálidos amanheceres
e a outras coisas
caídas no olvido.
Notavelmente,
o último apontamento
dispensa vírgulas
e outras menoridades.