https://www.poetris.com/

Poemas, frases e mensagens de Stacarca

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de Stacarca

Cruz e Souza

 
Cruz e Souza

Ah cisne! Cisne negro de alma clara.
C'nobita a poetar do sisifismo
E dos escravocratas de talara,
Da senzala do grande simbolismo.

És tu, vil poeta de coerção funesta,
Ah grande astro de versos formosos
Tal Artista ameno, branco co'honesta
Da tristura ca' dos violões chorosos.

Gládios de crepusculares sonetos,
Sonetos e de melopéias, que ousas
O Infinito grilhão do tal cianeto.

Zoilo das ebúrneas grinaldas, cousa
Bela e macabra, co' refreado peto,
És tu, ó grande gênio, Cruz e Souza.

P.S Gostaria de agradecer a ajuda de Godi, que me exclareceu algumas dúvidas e me ajudou em alguns versos. Abraço!
 
Cruz e Souza

Daniele

 
Daniele

É tão doce a candura transparente
Que brilha e enfeitiça o rosto dela,
É um milagre do céu a ousadia inocente
A dessa criança divinal e bela.

Quando a covinha anima a boca pura
Num riso glorioso de encantar ainda...
Rouba minha'alma aquela formosura
D'mulher comparada aos céus de tão linda.

Tem a mimosa pele de um tocar
Leve e santo, como não se apaixonar
Por essa menina dos sonhos meus?

Essa criatura que me compele
Ao amor, o nome? chama-se Daniele.
Nem parece mulher, parece um Deus!

Stacarca
 
Daniele

Coração apaixonado

 
Coração apaixonado

Disse a meus olhos, o maldito olhar:
- Não cansas de olhar pelo iminente?
Que da ébria de amor em mais vivente
De chorar lágrimas co'um simples amar?

Os olhos responderam co'o maldito olhar:
- Não canso de olhar pela minha donzela!
Que vida vivendo vou amando a face dela
Até p'la raia e não um simples amar...

Disse as minhas mãos, o maldito tocar:
- Não cansas de tocar o sempre intocável?
Que a pele almejada jamais de tão inviável
Poderás no rijo caminho chegar a amar?

As mãos responderam c'um maldito tocar:
- Não canso de tocar a minha doce menina!
Mesmo que longe a pele bonita me ensina
A mais bela e gentil forma de amar...

Disse a minh'alma, maldita a vagar:
- Não cansas de vagar no querer errante?
Que por tristeza erra sempre no ante
Do fim da ânsia da querida a amar?

Minh'alma respondeu, maldita a vagar:
- Não canso de vagar pela minha querida!
Pois certeza de certo tenho em tida
A esperança do encontro para enfim a amar...

Disse a meu coração, bendito a pulsar
- Não cansas de pulsar apenas para a amada?
Que no palpitar enreda a vida a ti sonhada
Que faz ele sempre a bela amada amar?

Meu coração respondeu, bendito a pulsar
- Não canso de pulsar p'lo que sinto!
E depois que morrer na lápide tais escrito
"Para sempre vou te amar..."

Inspirado por Alfred du Musset
 
Coração apaixonado

Sonhos de um amor "solitário"

 
I

Fecho os olhos
Sonhos...

Oh sonho que a ti ansiava afagar
Que belo tu és, que belo tu és...
Mesmo que minh'alma vos abalar
Por ti quereis amar e amar
O cipreste do esquife rompe no alvorar
Ah bastardo, como podes? Queres me chagar?
A amplidão de treva envolve-me a vos maligno
Tortuosos caminhos hão de surgir ao benigno
Que triste tu és, que triste tu és...
Almejos simplórios de um coração "a sangrar"
Desça do pedestal da morte, um sonho estás a contar
- Não, não... Segredos posso revelar
E o coração puro da dama posso torturar
Que linda tu és, que linda tu és
Queres mesmo ler sobre a vastidão do meu querer?
O efémero pode durar, e escuridão posso pronunciar
Perdoe-me desde já, pois o poeta que escreve nunca amou.
O medonho da vida irá afligir... Uma forma de dor
Mostrarei o meu verdadeiro ser... Uma forma de morrer
Seu poema monotonia irá pasmar, irei escrever, mas
Triste irá ficar, Ah como irá ficar... Uma forma de amar.
Perfeita tu és, perfeita tu és, Ah como é!

II

Pondero a utopia de uma esperança a sonhar
Nele a sua alva face posso tocar
Ah como é lindo esse sonho que quereis viver
Toque-me, o infinito límpido irei buscar
Esperança? Saudade? Amor? Esse é meu ser?
Anelo que sonhei, Ah eu te encontrei, Ah eu encontrei!
Como és belo te amar, mesmo que numa ilusão de meu sonhar.
Não finda esse sentimento tão belo que brotou
Um dia... irei amá-la com outrora amou.
Sangra coração pútrido, chora olhos tristonhos
Rasga pele esquálida, morra alma maldita
Nesse instante onde o amor é um sentimento medonho
Não há para onde fugir, não... Não há saída
Tudo que toco, que sonho, que amo, é o você.
Mas isso é apenas mais um incógnito
"Amar-te, é ter a certeza que morrerei por um propósito"

III

Forja o fatídico lastimar no horizonte
Uma lágrima de sangue escorre de meus olhos
Ah maldito, ah maldito, queres estar em fronte?
Ávidas às lembranças tristes a recordar
O sepulcro do antanho retorna ao sonhar
Eu te odeio, mas a amo, e continuarei a amar
Dê-me um punhal, deixe-me mostrar o sangue escorrer
Meu pulso irei cortar para meu amor lhe provar
Sim, por você um dia (breve) irei morrer...
Sombras taciturnas de meu maldito olhar
Insistem em voltar, ah como sofro, e irei sofrer
O enfermo estás a sonhar, ah e viverá, ah e viverá.
Ó bestial, porque me atormentas? deixe-me apenas ansiar
Ó celeste, porque me ignoras? Deixe-me apenas amar
Não tenhas medo de minha morte amada
Foi apenas meu sonho, meu ódio, minha dor
Pois "A morte é apenas mais uma vida pérfida
Onde mais uma vez não terei seu amor"

IV

Ecos a serem ditos, ecos a serem ouvidos
- Você és linda, linda, linda.
- Obrigada, ouço responder uma voz infinita
- Seu sentimento és perfeito, perfeito, perfeito.
- Obrigada, ouço responder uma voz em devaneio
- Sua voz uma canção divina, divina, divina.
- Obrigada, ouço responder sua voz eternal
- Eu te amo, te amo, te amo e te amo
- ... O silêncio, resposta dum fim sepulcral.

V

Ah como foi linda essa minha ilusão
Pude te ter, te encontrar, te tocar
Ofegante da forja de meu coração
Pois mesmo que apenas em meu sonhar
Ah eu vou te amar, ah eu vou te amar...
 
Sonhos de um amor "solitário"

VII-P. Soneto triste

 
VII-P. Soneto triste

Co'um pranto triste espúria vaga
Em pobre vida tanta melancolia
Ó cipreste que de resto e calada
Faz a mofina tão bela, e choraria

N'um balsamar de orações puras
Vejo a realidade em reza anosa
E que chora da escassa candura
Mais uma face tão linda chorosa

Ó vida inútil, ó poeta infame
Das escritas tristes entristece
A comédia vida que a tudo viste

E n'alma que aqui julga, o chame
- Ah Deus, cuide dos que falece!
Ó Poeta ímpio, ó soneto triste.
 
VII-P. Soneto triste

Amores, do amor....

 
Amores, do amor....

Quando amava eu ingênuo chorava
Nas tristezas d'uma vida surgindo,
Vinham beijos amargos, e sentindo...

Os lábios róseos que encostava,
Quando te amava ingênuo chorava.

Quando amo, ergo os olhos sorrindo
Na b'leza da vida que imaginava,
Os doces beijos que sempre mirava...

Nos lábios seus, róseos e lindos,
Quando t'amo, ergo os olhos sorrindo.
 
Amores, do amor....

A estrela

 
A estrela

Ah estrela de constelações
Áureas e formidável beleza,
Da fronte suave e delicadeza
De exorbitadas contemplações.

De tez lívida e bem tratada
Formosura, como uma gaza
Bordada de pasmadas gradadas,
Suspirando desejo a cara.

Robustas e cingidas faces,
Graves, suaves e venustas
Faces cingidas, robustas,
Venustas graves e suaves.

Que contemplam o inexorável
Estrelar absconso sideral,
Crestadas do toque feral,
Arcangélico e lindo, amável.

Espaço! Clarões sidéricos
De imensos borrões cinzentos,
Fulgurante dos céus, sérico
De imagens e sentimentos.

Resplandecentes de amores
Que ecoam, inconsequentemente
Nas noutes e escuros clamores
De amores Resplandecentes.

Enamorado de enamoradas ditas
Situações, enamorando truões
Obsequiados de imensidões,
Ditas, tidas, aditas...

Tiaras de airosas aparências
Como o oiro, como o cerúleo,
Abismada de mistérios, acúleo¹
do tudo, assim como a ciência.

De onde vem? De onde irrompe?
D'amplidão sanhosa pelejante?
De ponto a ponto apenas rompe
os olhares tímidos gotejantes.

Ah estrela linda. Linda! Linda!
De celestes imensos, imensidão
De uma beleza além da vastidão
Celeste, linda, estrela infinda!

___________________________
¹- fig.,
 
A estrela

Oração

 
Oração

No fundo romanesco de seus vermelhos e parturejados cabelos, de seu avulto e penetrante olhar de olhos rubros e harmonia perfeita, que faz-me ouvir a sinfonia dos céus e a comissura do inferno dentre almas límpidas e alvas, dentre suas asas do finito e infinito das lamúrias feéricas de todos os Deuses e Satãs, dos seus sonhos, seus magníficos e soluçantes sonhos híbridos, que tornam minh'alma um ser tropel e apaixonado, que torna meu dia em uma noute de nébula escuridão gótica em perfeita sintonia com os balastros de meu ignoto coração. De sua pele virgem e clorótica, de minha contemplação benigna sob teu corpo deleite e santo. Toda a ardência de meu carinho nas ausências da tua boca palpitante, dos lábios supremos e cabalísticos onde a imaginação é a longitude de meus maiores sonhos de arcanjo, na amplidão perpétua de seu falar magnífico, o sidéreo momento peregrino de nosso encontro imortal em convulsos tronos da felicidade, das tuas náuseas humanas que formam maravilhosas e oníricas músicas santas a minha vida venusta, tuas orações, orações qu’eu proclamo em todos os palácios de vida e morte e que transformo no alimento de minha fome em fé. De teu sorriso tesourial e pomposo que me leva ao êxtase e me corta como a gemente cimitarra, de teu cheiro perfumoso e virtuoso que exala nas mais lindas flores do éden e que se compara na borrasca de nosso próprio Deus, O teu sabor absíntico que lunaticamente bebo em meus pensamentos belos e inocentes, do seu caminhar edênico que sigo na mais doutrina clara direção e que seguirei sempre e sempre, de tua história trágica e feliz, deslumbradora que magicamente faço parte agora e farei sempre e sempre e sempre. Teus sonhos e anseios que veementemente busco realizar na mais profunda mirra e estonteante limpidez.
Oh! Que tu concedas esse amor para até o final do começo e fim, que tu percebas esse sentimento que inunda meu peito em regalo, que tu possas dividir comigo esse cálix da sabedoria e que juntos possamos edificar a vida e morte. Lho’fereço esta oração para que tu, somente tu conheças a verdadeira forma do amor. E que entendas que eu te amo, te amo e te amo. Amém.
 
Oração

Eu ainda vivo por você

 
Eu ainda vivo por você

Quantos invernos já se passaram desde sua partida?
Quais lembranças me fazem chorar nos dias escuros da minha vida?
Como será que você vive longe de mim e do meu amor?
Quando você irá me dizer? E acabar com essa imensa dor...
Você está vendo? Você está ouvindo? Você está sentindo?
São Lamúrias de um coração triste, negro e morto.
Que apenas chora e chama pelo seu sagrado nome.

Quando eu olho na imensidão do horizonte;
Entre as nuvens e o azul infinito do céu.
Vejo tua linda e alva face, como sempre sorrindo.
Mostrando-me como viver, e ter uma linda vida assim como você;
Eu queria tanto a sua felicidade, o seu amor novamente...
As suas fotografias e as minhas lembranças são minhas únicas amigas

Como conseguirei viver até o fim dos meus dias?
Sem o seu amor e seu sorriso...
Quando poderei te ver novamente?
Para te abraçar e mostrar o quão grande é o meu amor por você;
Porquê você foi embora tão cedo?
Havia tantas coisas para eu te dizer.
Você sabe porque minha vida é triste e sombria?
Pois sem você a minha morte sempre será o meu anseio

É claro que um dia vou morrer... Logo, logo!
Você vê, o Sol está se apagando.
Assim como meu coração e minha alma
Por apenas não poder olhar para os seus olhos novamente
Lembro-me de nossos momentos juntos... Volte, volte!
Por favor, volte para mim, faça-me feliz mais uma vez.

Eu ainda sorrio por você (com nossas lembranças)
Eu ainda choro por você (de saudade )
Eu ainda respiro por você (com o seu cheiro)
Eu ainda vivo por você (porque te amo)

Fábio Wilson Rezende (Stacarca)
 
Eu ainda vivo por você

Aos mortos

 
Aos mortos

Ó tu, podre que na terra enluta,
Disforme fado no letargo imerso
Da imunda carne a matéria bruta.

Ó tu, resto d'uma modorra, interno
De necrófagos em escôo co'o imundo
endocarpo, ignóbil prazer também?!

Ah, a bicharia, o festim importuno,
Os rins, a vaga, delírio a'lguém.
Qu'importa o patogênico não inútil?!

Se no esterno a dor berra infante,
O intestino o bicho rói, todo fútil;
As mãos, a pele, os olhos errantes.

U'a infecta ferida sempre derradeira,
O úmero falido, o lábio que osculava
Ali em putrefação. - Ó que nojeira.

Restos fecais à alimento aflorava,
C'um exicial fedor à todo vaporoso
De podridão. - Ó destino fatal...

O Coração carcomido. Que horroroso!
Ah! O clangor soa a nota tumbal;
Que baila a turva morte escura?!

- Dance co'o verme ao triste fim...
Em sequaz imerso, e tão enxuta,
O belo vurmo hei a cheirar enfim.
 
Aos mortos

VIII - A.P - Morte

 
Morte

Ao luto, ao luto ó face pálida
Cuspa sangue n'uma ardente cova,
Florida p'la treva, a n'outrora
Que alva se criou, menos cálida.

Chora pálpebra, chora que morreu
O deleite fulgor de ti, pavoroso!
Ó vida, ó morte, ó a ti, palor teu
Que na vulgata leu. - Oh horroroso!

Esmaece pele alva, morta também...
Ria lábios tortos, pr'a alguém
Que no choro vago certo morrerá

Pulsa coração, pela amada. - Amo!
Seca coração, do descabido pranto.
- Não sintas, aqui onde tu jazerá.
 
VIII - A.P -  Morte

Retrato

 
Retrato

Imácula figura de albor tristura
De inerte retórica de baça falaz

Quão lúrido, e real cor enturva
Na tela dissimula imagem sagaz.

Regela o pináculo e tão sombria
História que reside no engonho

Do inábil idiota que choraria
Pr'a imagem co'o falso risonho.

Ah que minhas pálpebras choraram
E novamente de dia a dia chorarão

Com lágrimas de saudades e araram
Alvorota aziaga dentro do coração.

Que dor estranha rói minh'alma
E que dor benévola é a do amar

O notório garante altas palmas
O poeta escreve o sonho a sonhar.

Ó retrato, ó retrato apoucado
Não chore p'la triste realidade

Em face esfia análogo o machucado
E escarra a tão inútil vontade.

Ó imagem, ó imagem linda a olhar
Os versos do poeta apenas fanam

O sentimento que no todo é o amar
E no retrato impreca... Acabam!
 
Retrato

Leproso

 
Leproso

Clausura em ávida lembrança agrura
Vasta em inerte moléstia infinda,
Vida leprosa qu'eu imolo a candura
De tantas achacadiças aqui contida.

Ó chagas, adentra coração com foice
Em turva que qu'a dor estraçalha...
C'uma chaga, essa chaga desgraçada
Que rebenta cândido em toda orce.

A nata sorumbática envolve o clamor
Do câncer que se chama humanidade,
Pútrido, aleivoso, doença do amor
Que despoja p'ru vil, ó calamidade.

Leproso, Ah vida... Ó como leprosa
Que ditoso finda em que acabaria;
De néscias regurgitadas p'la anosa
Crença. 'Inda de doenças curaria?
 
Leproso

Te amo

 
Te amo

Por entre a trescalância linda em flôres
Que de átrios se desflora em esquecidas,
Te amo em fervor da imagem refletida
Dos quadros c'lestes dos jardins d'amores.

Te amo tanto que desferiria as côres
Dos elísios e as esp'ranças perdidas,
Pois com você em tudo nessa vida
É maravilhoso, até os dissabores...

Te amo além das fronteiras do infinito
E além, na harmonia do ser bendito
Por sonhos longos que nos levam dor.

Te amo 'inda mais, incomensurav'lmente
Mais, mais, pois a cada dia simplesmente
Eu te amo além, eu te amo além do amor.

Stacarca
 
Te amo

Jardim Cágado

 
Jardim cágado

Tão coloridas flôres de primícias
Linhagens, de tal grânulo e de beijos
Morrendo, ó que tôdos mui desejos
Nascendo em tais míseras carícias.

Co' mimosas bromélias e boninas
E como a borboleta, relva mocha
Com actos ti' belíssimos, e nina
A tal suprema fôrça entre rochas.

E Brilha o turbilhão de ti, estrêlas
Onde do alto céu brilham gestrelas
Vagas, e no império do grilhão

A supremacia glória de um género
De factos, borbulhantes que venero
Tont'ie com tal vigor no coração!
 
Jardim Cágado

A criança e o defunto

 
A criança e o defunto

Cena 1 - Martírio

A criança que na noite turva sonhava,
Que andando no passo em terra sombria
Em não apenas ilusão.
Era tudo tão real e feio imagem que via,
Terra vermelha viva que nela emanava
Grito de sofreguidão.
Sentimento não vil, ou menos sofismada,
Que ao divisar se tinha fel contida
C'oa grande decepção.

A criança qui’nda andando a toda sofria
Avistava ao longe vultos que assombrava,
Mas não era assombração.
Na confusa vista, algo do voraz deixava
Criatura que áspero em veloz aproximaria
O corpo negro na imensidão.
Flores mortas na terra, a criança pisaria
Com os pés nus e roupa que a preservara
D'um desconhecido chão.

A criança aind'andando, quase chegava...
Ao vulto que agora imóvel tinha'gonia,
Isso não era todo em vão.
Pois a criança frágil 'inda assustaria
E as mãos no alto ela algo sussurrava
Tão baixo, que ouvia não.
Os passos muito pequenos, que ela'ndava
Fazia a pobre criatura qui'nda esperaria
na grande escuridão...

Soar um ténue estrondo, e a tudo ouvia!
Nesse momento estagnou, 'inda parada
A criança teve uma visão.
Seus olhos verdes filtravam como mortalha
Algo indecifrável que ali do escuro saía,
E não era um simples clarão.
Um odor fétido simplesmente a pobre sentia
Que de sua narina de tão forte ela tampava.
Mas era só podridão.

O chão de cima¹ de tão hórrido inflamava,
Era tão feio, e chamas queimando parecia.
Mas era somente vermelhidão.
Ao longe havia somente vazio, nada havia
A não ser uma torre desmedida que ganhava
Altura de grande perfeição.
Ah como era bela, parecia até mesmo ara,
Ah como também sempre a torre feiura teria,
Que magnífica construção!

Ao alto dela, um enorme fanal luz refletia,
Era brilho quase inerte que algo revelava
Mas que ia além de aquilão.
Era algo factível, que além da torre voava
Mas tão escura criatura, grandes asas batia
Mas sempre em exaustão.
E ela não estava só, algo algoz também teria
Afora d'um alcance de qualquer que olhava,
Mas que era certo barbilhão.

A presença horrenda do "algo" assustava.
E não era só temor que o estranho transmitia
Tinha também lamentação.
Algo singular que, qualquer um pressentia,
Até mesmo a criança que continuava parada.
Candura ou aversão?
Nada'diantava saber de algo que nem soava,
E somente o que nem mesmo tinha, e existia?
Oh, vai que eles triarão.

O clima que de alto e frescor cálido fazia
N'um lugar que de horror o decadente morava,
Nada belo se tinha na mão.
Vegetação e flores como no todo extenuara,
Ah que estava tudo morto, morto e nada nascia
Naquilo que era só podridão.
A montanha do norte e sul, ó que tudo jazia.
Os bosques, as colinas que outrora reinava,
Corpos lá e cá n'um montão.

Que vista feia, ó Deus que nesse mundo calava,
Cipreste apenas esperança ao que não existia
- Ah que um dia viverão!
Viverão n’umas terras campestres, e plantaria!
O funesto de resto e de escasso se tornara
- Ah que boa essa ilusão.
Pois treva aqui se vive, e não mais restava
Do benévolo que pouco a pouco findaria...
- Ah que eles nela cuspirão!

A pureza² que de imóvel ali continuaria
Nada tinha, só o "perfume" que cheirava.
E certamente era decomposição.
Olhos fixos a um nada que ali encontrava,
Parado e sempre atento ao que acontecia
Mas 'inda na escuridão.
Dois pontos agora brilhavam, tinham vida!
Eram enormes e tinham a cor amarelada.
E que de vez pr'um piscarão.

E eles se tornavam vez maiores, e andava...
A criança que dedos na narina se encolhia
Ouvia forte bater seu coração.
O encontro inevitável com o algo teria
E nada se podia, tudo preste estagnava
ao que levaria ao meão.
A respiração que tão difícil tornara,
E o cheiro horrível que a pobre sentia
Nada restava, só um chião.

A pele da criatura era escamosa e fedia,
Era de cor azul que ao todo murchava
Ah! E que enormes mãos.
Dedos longos e na ponta algo pendurava,
Um tipo de metal pequeno e barulho fazia
como uma bela canção.
Seu corpo esgalgado, sem força parecia.
Mas ao sentir ameaçado um agudo levantava,
E bondade nele tinha não.

A criança 'inda assustada imóvel olhava
Aquela criatura fétida que pouco mexia,
ah que ela não tinha visão.
Com os olhos amarelados, algo nele havia
Que não estavam ao todo certo, arregalava
Com um certo turbilhão.
Também se via um todo que evidenciava,
Haviam gotas lacrimais dos olhos, e caía!
Quantidade escassa a montão.

Ó, que criatura feia, e que cheio de ferida
Seu todo corpo franzino deles se contava,
E elas não se curarão.
Mas aquele fedor que a tudo impregnava
Havia dissipado, nada mais a criança sentia
E de sua narina tirou a mão.
A criança certa pensou o que aquilo seria
Talvez um tipo de defesa a criatura guardava.
Que era certa a podridão.

Agora a pequena³ certeza logo estampava
Aquela criatura horrível certo atacaria,
A face não era de perdão.
Seus traços faciais pr'a ela algo mudaria,
'inda tinha maldade, bondade que restava,
Mas além parecia até uma prisão.
Coagido? Poderia ser, pois de nada'diavava,
E a criança logo na face lastimaria
Uma tão coitada visão.

As pernas eram adiposas e aparência doentia,
Nada que de resto e bonito dele ganhava,
Pois o corpo nele em sazão
Nada tinha, e cada ensejo menos salvara
A pobre criatura que de sempre sofreria
Da tangível devassidão...
E que dentes grandes e feios ele tinha,
Mas que sopro agradável se exalava
Da criatura que vez em são.

- Oh criança linda que tanto esperava,
Pensei que tú não vinhas e encontraria
O vosso desejo de impulsão.
- Pois de tanta ébria que aqui vivia
Além do limbo sempre por ti sonhava
Na demasiada imensidão.
- Não tenhas medo criança que assustava,
Me chamam de defunto, e certo serviria
A ti até exaustão.

- Ah defunto. A criança perceptível dizia.
- Que lugar esse que sofro e assustada
Fico como um endrão.
O silêncio só permanecia e estagnava
Como algo certo a que todo saberia
D'um pobre murchidão.
- Sim criança, explico-te. E dizia...
- Tens certo um motivo pela sua chegada
De esplendorosa divisão.

...
 
A criança e o defunto

Supedâneo dos enforcados

 
Supedâneo dos enforcados

Por entre a nébula que bimbalha
De inóspitas cintilações abrolha,
Amortalha a bimbalha e estraçalha
O hercúleo fazendo limiar bolhas,
Palpitações impolutas de mortalha,
Abrolha as bolhas, tolhas e acolhas
Por entre a nébula que bimbalha.

As cítaras sinistras que a ecoa
Dolentemente choram as chorosas,
Ecoa, entoa, destoa e esmoa
Ostentosamente as tão formosas
versificações consideradas atoa,
Tão chorosas as vaporosas cosas
As cítaras sinistras que a ecoa.

Nas brumas brumosas frementes,
Estóica os trêfegos desvelos
Frementes e doentes utentes,
Quais miraculosamente tê-los
Em pujança das estranhas mentes
Pelos desvelos, os belos zelos
Nas brumas brumosas frementes.
 
Supedâneo dos enforcados

"A dor de uma saudade infinita"

 
"A dor de uma saudade infinita"

Quando acordei e não te encontrei
Achei que fosse um sonho ruim...
Quando mexi nas suas coisas e você não estava lá,
Ainda achei que fosse um pesadelo ou algo assim.
Depois de um tempo quando pensei e quis acreditar,
Pude ver que aquele dia negro era real, que você tinha ido embora.
Algum tempo se passou, e ainda só consigo te amar,
Sabe porquê?
Você é o meu anjo, meu Santo e meu Deus...
E a minha dor nada mais é, que a tradução do que sinto por você..

Não se engane, não tenho só tristeza dentro de mim.
Ainda há o meu amor por você, e minha esperança de te encontrar;
E dizer que sempre te amei, e vou continuar a amar e amar.
Eu daria tudo por mais um momento com você também para dizer:
Que teria ido em seu lugar,
Que teria sofrido tudo o que você sofreu.
Somente para você continuar aqui e viver o que você perdeu...
Sim, Eu teria morrido por você, e ainda morreria se você me pedisse.

Ás minhas lágrimas e minha dor
São uma forma de te mostrar o meu amor,
De te pedir para que nunca saia do meu lado, mesmo que eu não veja.
Porquê com você fico mais forte, dia após dia.
Sim... O que sinto é “A dor de uma saudade infinita”.

Porquê nos meus sonhos eu não posso te tocar?
Porquê em meus pensamentos eu não posso te beijar?
Porquê eu não posso simplesmente ir até você para te abraçar?
E te mostrar o que sempre tive vergonha de falar...
“Eu Te Amo.”

Essa dor que corrompe o meu coração aumenta a cada dia.
Sempre que penso que você não está aqui para me amar
Que esse sentimento só irá “passar” quando eu te reencontrar
Quando eu puder te dizer Eu Te Amo uma única vez...

Escura e fria são os dias que não te vejo...
Amarga são às horas que passo longe de você!
Mas o brilho da esperança que sinto eleva o meu desejo,
O meu desejo de te ver e sentir o seu calor.
De poder tocar à sua pele e mostrar o quão perfeito você foi!
Ah! Como isso dói (viver sem você e ter o seu amor)

Eu me recuso a acreditar, a vida não pode ser só isso...
Deus não seria tão imperfeito a ponto de nos separar.
O “Para Sempre” nunca foi tão verdadeiro em minha vida;
A dor e o negrume jamais sairão do meu coração;
(enquanto você não estiver ao meu lado)
Para me amar e me dizer que está “acabado”?

Mais uma lágrima cai de meus olhos neste momento,
Mais uma vez não consegui segurar...Desculpe-me
Eu sei que isso te faz sofrer, mas isso é o meu “amar”
Eu sucumbiria à minha vida para te encontrar,
Mesmo tendo que enfrentar o mais escuro mundo (1)
Só assim o que sinto iria embora como um todo;
Só assim essa dor deixaria minha vida, porque ela é:
“A dor de uma saudade infinita”.

(1) Inferno, Purgatório, Mundo Inferior ou negro.

Fábio Wilson Rezende (Stacarca)
 
"A dor de uma saudade infinita"

Minha profunda tristeza

 
Minha profunda tristeza

Mais uma vez o sol se foi...
A escuridão reina com seu sublime fel.
Eu na penumbra procuro por você, olho aos céus;
A solidão e a tristeza imperam em meu viver
Do seu amor e de sua pele o meu esquecer
Da felicidade ao meu sentimento, o chorar...

Porque vivo se desejo morrer?
Porque respiro se não sinto seu cheiro?
Porque observo se não posso te ver?
Porque tento se tenho medo?
Porque ainda te amo se você já se foi?

Das flores enegrecidas a sua linda face
Do vil sentimento que sinto ao escrever mais belo
Do sarcoma ao sempre amor etéreo
Ao meu lúgubre coração à alma límpida
Do pensamento esquálido até minha paixão infinita
Da poesia esmorecida aos mares, o imponente sável.
Ao poeta morto até sua escrita mais formidável...
De minhas lágrimas a tristeza, tudo por você.

Apenas por um momento faça-me feliz
Apenas por um momento deixe-me viver
Apenas por um momento livre-me dessa dor
Apenas por um momento mostre-me o amor
Apenas por um momento traga-me a esperança
Apenas por um momento leve-me ao seu lado
Apenas por um momento sinta-me com você.

Deus ou Diabo, isso não importa
Alegria ou tristeza, solidão ou esperança
Amor ou ódio, sorriso ou lágrima
Poema ou poesia, comédia ou drama
Vida ou morte, senhor ou dama
Céu ou inferno, isso também não importa!

Quando a presteza de meu olhar te encontrar
E meu ermo "escuro" poder novamente brilhar
Eu novamente voltarei a sorrir, a viver...
Quando o suplício me abandonar
E minha dor findar
Eu novamente voltarei a querer, a ansiar...
Quando meu coração mais uma vez cintilar
E minha alma poder se libertar
Eu novamente voltarei a amar...

Mais uma criança morre sem dizer adeus
Em seus olhos a plenitude do olhar
O mundo ecoa gritos de dor, está em destruição!
Na sua boca a singeleza do beijar
O poeta escreve o flagelo, o indefinido
Nos seus dedos o intangível do tocar
Onde está Deus? Porque simplesmente não parar
No seu coração a mais bela forma de amar...

Você conhece a verdadeira dor?
Não? Então sinto-lhe dizer que nunca amou
Você já chorou lágrimas de saudades?
Não? Então sinto-lhe dizer que um dia irá chorar
Você já desejou tanto alguém que sua vida não mais importava?
Não? Pois eu sim...

Toque-me, sinta a verdadeira dor
Esse é o meu imenso amor, aquele que falei
Sinta-me, essas lágrimas de meus olhos
Esse é o sentimento que prego, aquele que contei
Ouça-me, Esse desejo límpido de meu corpo
É aquele que você nunca terá, esse que escrevi.

Apenas por mais um momento faça-me dizer
Apenas por mais um momento deixe-me contar
Apenas por mais um momento livre-me disso
Apenas por mais um momento mostre-me as palavras
Apenas por mais um momento traga-me a escrita
Apenas por mais um momento leia meu poema
Apenas por mais um momento sinta o que sinto
"Minha profunda tristeza"

Fábio Wilson Rezende (Stacarca)
 
Minha profunda tristeza

Aleluia

 
Aleluia

'Inda que cantai o canto,
O Cântico cantado em anos
Porvir, a cantiga em tanto
Candes, cantemos os danos.

Canção d'esp'rança escusa
D'espúria cantante assaz,
Ó cauta plangente, a fusa
Trila! Crê-na doutrina falaz.

'inda que cante o desvario
Da cantiga em canície dia,
És doudice da canção brio
Que cantamos, ante sofria.

Cante! Cantemos: ao crente,
Cantado p'lo vulgo antro
Miserável, cândido doente!
Cante, inda assim és canto!
 
Aleluia

"Amar-te é ter a certeza que morrerei por um propósito;"