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Poemas, frases e mensagens de RicardoC

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de RicardoC

Escrevo. Gosto de escrever. Se sou escritor ou poeta, eu deixo para o leitor ponderar.

A VOLTA DO MAR

 
A VOLTA DO MAR

Passando muito ao largo em seu retorno
Mareavam para além do conhecido...
E os ventos que governam desde o Olvido
Encurvam caprichosos tal contorno.

Pois apesar do abismo logo em torno
Ousaram pelo mundo reduzido
Avançar com as velas que têm sido
Na imensidão do mar estranho adorno.

Assim, de volta da Índia ou do Japão,
Desviam-se do Norte em direcção
Das Ilhas pelos céus afortunadas.

Ali gozam riquezas mais futuras
Lavadas no suor das aventuras
E ornadas no relato das jornadas.

Peruíbe - 21 07 2018
 
A VOLTA DO MAR

AZÁFAMA

 
AZÁFAMA

Nada senão cansaços fora o dia,
Perdido em excessivos afazeres.
Não soube hoje d'amores nem prazeres;
Sequer alguma mínima alegria...

Passo apressado na rua vazia
Tão alheio à beleza das mulheres,
Quanto de seus mistérios e misteres,
Como não desejasse companhia.

Chegado em casa, nada já percebo.
Abro a garrafa e não sei o que bebo,
N'um gesto maquinal, indiferente.

Restara-me tão-só a noite e as estrelas
Mais um silêncio insólito a envolvê-las
Para o ócio me fazer de novo gente.

Betim - 28 01 2015
 
AZÁFAMA

À MEIA LUZ

 
À MEIA LUZ

Cheirava a almiscarado e cigarrilha.
Interessante, mas... Assim-assim...
Não sei que se dirá ela de mim,
Mas sua lábia má me maravilha.

Vê-la tagarelar bem peralvilha,
Convenceu-me não ser de todo ruim
Deixar-me elanguescer, ainda e enfim,
Se, a despeito de nós, a lua brilha.

Fosse como fosse, era noite clara.
Pude notar-lhe ao rosto uma luz rara,
Enquanto o seu perfume me instigava.

Então, tudo era mais belo do que era...
Nem soube diferir n'esta quimera
Quem, de facto, a mulher que ali estava.

Betim - 29 01 2015
 
À MEIA LUZ

DE MANHÃ

 
DE MANHÃ

Por que o dia está tão bonito?
Por que tenho assim me alegrado?
Talvez porque estivesse escrito
Que estarias tu do meu lado.

Talvez porque houvesse sonhado
Ou porque me soubesse aflito...
Por que tenho assim me alegrado?
Por que o dia está tão bonito?

Talvez porque alcanço o infinito
Quando amo quem eu tenho amado
Ou em ti simplesmente acredito...
Por que tenho assim me alegrado?
Por que o dia está tão bonito?

Betim - 01 02 2016
 
DE MANHÃ

PENA FIEL

 
PENA FIEL

Aqui onde me lês alguns dizeres
Escritos com ligeiro desalinho,
A pena já traçara o seu caminho
Na linha fina e audaz dos caracteres.

Se à letra longilínea bem me leres
Saberás qu'eu de mim mais me avizinho
Quando no breu da noite ando sozinho
Às voltas com amores e prazeres.

E escrevo. Não por ver em mim verdade
Ou me arvorar alguma irrealidade...
A pena, fiel a mim, o impõe e move.

Seja poesia, ainda que plebeia,
Deitando fora a máscara à plateia
N'uma escrita que sempre se renove

Sabará - 02 11 1999
 
PENA FIEL

A NINFA - soneto primeiro

 
A NINFA - soneto primeiro

Fala para esquecer o amor e ser
Amante pelo instante vão d'um gozo.
Conta-me o quanto amar é perigoso
E nos meus braços quer só se aquecer.

Aconteceu d'eu vir-lhe a bel-prazer.
Conquanto fosse um pouco embaraçoso,
Pois, nem namorado e nem esposo
D'essa extremamente ávida mulher.

Porém, abandonada nada estranha.
Tem p'ra si que ciúmes e ilusões
Só têm entorpecido os corações.

Certa que em seu jogo ela é quem ganha,
Já parte para a próxima conquista
Ainda que o amor seja algo que exista.

.............................................................
 
A NINFA - soneto primeiro

IDAS E VINDAS

 
IDAS E VINDAS

Se quiseres que eu fique, não me mandes
Ir embora assim como quase nada
Tivesses feito p’ra eu seguir a estrada
Para após anos; para além dos Andes!...

Se fores me deixar, já não andes
Como quem não quer sair do lugar,
Na esperança vã d’eu ir te encontrar
N'uma distância que há tempos expandes.

Se não sabes que queres, não me queiras
À sombra de improváveis castanheiras
Defronte à tua casa te esperando.

Senão, tudo o que tens é tão-só ira...
Esta que tantas vezes me ferira
E que me faz partir de quando em quando.

Betim - 05 02 2015
 
IDAS E VINDAS

AS PAZES

 
AS PAZES

Sei que não sei evitar
Teus olhos vorazes.
Mas, se quiseres voltar,
Faz-me como fazes:
Amando-me após brigar,
Façamos as pazes.

Ama-me com tal furor,
Que quando te fores
Te guarde saudade, ou pior:
Eu caia d'amores!...
E ao voltares, sem pudor,
Já te aceite as flores.

Fala-me assim envolvente,
Qu'eu nada te nego.
Cala-me mais frequente
Em teu aconchego.
Vem e serás tão-somente
A quem eu m'entrego.

Sei que não sei evitar
Teus olhos vorazes.
Mas, se quiseres voltar,
Faz-me como fazes:
Amando-me após brigar,
Façamos as pazes.

Betim - 05 05 2018
 
AS PAZES

ORQUIDÁRIO

 
ORQUIDÁRIO

Quem se cultiva dúvidas e anseios
Lança sementes sós no coração,
Que encontram solo fértil se a emoção
O conduz sem mais fins ou sequer meios.

Beleza de se ver co'os olhos cheios,
Tocada em imperiosa sensação
A ponto de lhe dar falsa impressão
De ter-se um porto com barcos alheios...

Meteu-se com azares e perfídias,
Embora houvesse ornado com orquídeas
Seus amores ao longo d'essa vida.

E as vê por seu jardim imaginário,
Dando aos dias aspecto belo e vário
Face à cada ilusão enternecida.

Betim - 01 01 2015
 
ORQUIDÁRIO

VOO DE PIPA

 
VOO DE PIPA

Quando em julho a tarde cai fria,
Logo recordo os dias idos:
Já varre o céu a ventania
Cheia de losangos coloridos.

Ecoam longe os alaridos
Da mais extremada alegria!
Quando em julho a tarde cai fria,
Logo recordo os dias idos...

Tivesse os olhos tão perdidos,
Onde outra pipa rodopia
Fazendo a festa dos sentidos:
Quando em julho a tarde cai fria,
Logo recordo os dias idos...

Belo Horizonte - 12 07 2015
 
VOO DE PIPA

CALOROSA

 
CALOROSA

Abraça-me! Abre os braços aos abraços
Há tanto que esperando te envolver.
Deixa-me, ao te tocar, enternecer
Porquanto me reténs os olhos baços.

Para o bem ou não, toma-me em teus braços,
Sob pena de jamais acontecer...
E, entregues à alegria, ousemos ser
Apenas dois ladeando breves passos.

Sigamos o caminho à nossa frente
Antes que se me torne indiferente,
Que houvesse sol ou chuva por onde ando.

E esqueça n'um instante o mal passado,
Quando em teus braços eu, aconchegado,
Cuide senão de ti cá me abraçando.

Betim - 26 01 2015
 
CALOROSA

GRANDE-ANGULAR

 
GRANDE-ANGULAR

A cidade se ondula no horizonte
E, ao fundo, lhe emoldura sua serra.
Espaço entre edifícios, em si encerra
Significado a quem lhe está defronte:

Cenário da existência além desponte
Enquanto do mirante a mirada erra...
Longínquos movimentos sobre a terra,
Como um mar de colinas contra o monte.

Realidade imediata, interessante...
Imensa panorâmica sim, embora
Desfocada amplidão d'olhar errante.

Metrópole - Um lugar onde se mora.
Olhar e ver dos altos do mirante
A perceber o todo aqui e agora.

Belo Horizonte - 12 12 1999
 
GRANDE-ANGULAR

A RESPEITO

 
A RESPEITO

Quem tudo sabe mui pouco conhece.
Não concordas? Convém olhar direito:
Se desconheço, mais penso a respeito;
Em vez de julgar como me apetece.

Sabes que menos sábio me parece
Quando me impõem o mundo do seu jeito...
Preguiça intelectual o preconceito!
Mesmo elevado a Deus em meio à prece.

Mas, para censurar-me dedo em riste,
Lês à pressa senões em demasia
Já desqualificando quanto viste.

Peço que me respeites a poesia,
Sem apenas taxar se alegre ou triste,
S'encaixa em tua vã sabedoria...

São Paulo - 20 07 2018
 
A RESPEITO

TARDES DE PETECA

 
TARDES DE PETECA

Aquela ave que voa só no tapa
E nos enchia as tardes vãs d'antanho
Colore ora a memória em perda e ganho,
Mesmo quando a danada nos escapa!

Vencer tinha a doçura da garapa
Comprada com algum vintém d'estanho...
O brinquedo era humilde, não tacanho,
Na poeira d'um lugar fora do mapa.

Longe, a cidade imensa com seus prédios
Nos ignorava o jogo e a meninice
Como se a mais estúpida tolice.

Mas fugindo de banhos e remédios,
E rebatendo penas pela poeira,
Que tivemos a infância verdadeira!...

Betim - 22 07 1999
 
TARDES DE PETECA

À DERIVA

 
À DERIVA

Perdidos já o leme e a vela, corro 
Os olhos pelo oceano a ver o abismo 
Onde aprecio em meio ao cataclismo 
Lindas sereias cantando enquanto morro.

Vem tão-só um petrel em meu socorro 
E pouco pôde diante do que cismo 
A tempestade é um vão paroxismo 
Meu ao Universo sob olhar pachorro.

Não tenho muito tempo: Já a quilha 
Deixará de sulcar às ondas altas, 
Que se elevaram contra as minhas faltas.

Castigo ou não, resta a maravilha 
De saber quanto pôde o amor, por sorte, 
Ao me levar certeiro até a morte.

Betim - 15 12 2015
 
À DERIVA

ENTREVISTA

 
ENTREVISTA

--"Quantas pétalas tem o girassol?
Quando bate mais forte o coração?
Onde a felicidade está então?
Qual é a cor do céu n'este arrebol?"

"Como brilha um sorriso mais que o sol?
Quão mais belos os olhos se almas são?
Para onde mesmo os sonhos vão em vão?
E o que ondeia meu cabelo em caracol?"

"Por que a gente se sente tão sozinho?
Para que haver, no entanto, tanta lida?
Com que pedras ladrilhas teu caminho?"

"Quanto é uma esperança a ser perdida?
Ademais, que enigma és? Não adivinho...
Que é o homem? Quem é Deus? O que é a vida?"

Betim – 21 04 2014
 
ENTREVISTA

SEM SAÍDA

 
SEM SAÍDA

Convém me repetir todos os dias
As razões que me levam a deixar
Os caminhos que seguem sem chegar,
Enquanto muros cercam fantasias.

Em becos; pelas vielas mais sombrias,
Andei a me perder sem encontrar:
Bati em cada porta do lugar!...
Por horas devassei casas vazias.

Debalde... Sem saída nem entrada,
A cada tentativa em derredor
Só vendo todo o esforço dar em nada.

Sequer se trata já de amor ou dor,
Sim de saber findar uma jornada,
Que há muito não tem nada em seu favor.

Betim - 20 12 2003
 
SEM SAÍDA

ESTRANHAMENTO

 
ESTRANHAMENTO

Já não te reconheço: És uma estranha.
As palavras que saem de ti me soam
Tão inúteis e fúteis que destoam
D’aquela paixão ávida e tamanha.

Nosso amor reduzis ao perde-ganha
Dos jogos de poder que só magoam.
À mente, os pensamentos que a povoam
Tornam-se essa tristeza que me entranha.

Dia após dia, mais e mais distantes...
Parece que nos vimos n'outra vida,
Pois, nada mais será como fora antes.

E a culpa do que somos ao que fomos
É o mal da esperança já perdida.
Não sendo má em si, sim onde a pomos!

Betim - 22 12 2010
 
ESTRANHAMENTO

LUSCO-FUSCO

 
LUSCO-FUSCO

A partir da duodécima hora, quando
O sol por trás das serras vai se pondo
E ao crepúsculo zoa o marimbondo
Alegre porque o dia se acabando...

Então a passarada vejo em bando
N'uma algazarra vã a que respondo
A rir como se rir um luar redondo
Eu fizesse surgir enquanto ando.

Talvez desencontrasse o extremo, aonde
Eu ia enmimesmado e só ainda,
Certo de que a alegria se me esconde.

Mas -- exacto por isso! -- fosse linda
Essa aura lilás por quanto me sonde,
Porque em melancolia o dia finda.

Betim - 03 09 2015
 
LUSCO-FUSCO

FAZER O AMOR

 
FAZER O AMOR

Como fazer sensível algo abstracto,
Senão como uma forma de carinho?
O toque em tua pele haja o caminho
Para unir duas carnes por um acto.

Que seja dando sangue para o pacto
Ou apenas não querer gozar sozinho:
-- "Teus beijos, tão mais doces do que o vinho,
Ao pôr as nossas almas em contacto..."

Como é doce fazer o amor amando!
Como é bom, em teus braços, quando em quando,
Eu poder sentir que amo e sou amado.

Enfim o amor se faça encontro humano
Ao ser compartilhado, salvo engano,
Nos prazeres que um ao outro temos dado.

Betim - 15 02 2009
 
FAZER O AMOR

Ubi caritas est vera
Deus ibi est.