Poemas, frases e mensagens de luscaluiz

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de luscaluiz

Nascido em Guararema no ano de 1991. Finalizou o Workshop de Criação de Poética com o professor Brian Belancieri  em 2021 e atualmente é seu aluno no curso "A Arte do Verso".

CONTRASSENSO

 
O tempo sempre se acossa,
eis a ironia dessa vida
refletida: crer na nossa
aparência falha, fluida.
 
CONTRASSENSO

A Sina Do Artífice

 
Fiam-se primeiro pelas mãos de Cloto,
depois Láquesis sorteia o seu quinhão
de beleza. Fia-se tecido por
tecido e tão logo vê-se o coração.

Conhece-se o artífice pelas mãos,
em sua habilidade feito as Moiras
de tricotar com toda precisão
o destino do poema em seus detalhes.

E o fado do artífice será esse
de cuidar dos detalhes desde d'antes
e deixá-los como deve ser:
às mãos de Átropos no mesmo instante.
 
A Sina Do Artífice

Gênese

 
Os olhos — ponto de impacto
a criar ondas transversais

Os olhos conclamam
todo este frêmito — e chamas
à face

as quais

o calor d'uma sílaba — exata
vivifica o tempo o templo
(faísca pelos poros):

fosfora rente ao céu da boca
— flamas tochas fachos

o fogo inventado de sempre
e uma e outra e tantas vezes mais.
 
Gênese

Arkhé

 
p/ meu sobrinho Pietro Miguel

Nem sabe ainda suas origens
nem Mnemosine fez-se presente
aos seus olhos

Intui — intui o canto
o mesmo canto dos primórdios

Algo no mar pretérito e profundo
feito um ponto
por onde repousam os olhos
criadores

(os mesmos olhos)

Mansidão numinosa — transparente
de onde surgem outras águas

Algo no mar pretérito e profundo
feito um ponto
pequeno
pequeno e quase imperceptível

Onde coube a pausa para o caos
(efeito e causa)

Tudo era o mar — enorme
negrume no horizonte
distante em eras

Algo no mar pretérito e profundo
feito um ponto — antes
e antes o sopro revolto
fez-se tudo

da luz

Os olhos criadores coordenam
as feras.
 
Arkhé

Arquitetura do Soneto

 
Este texto apoia-se nas lições do poeta Emmanuel Santiago, um dos grandes nomes da poesia contemporânea brasileira, e nas ideias transmitidas por Brian Belancieri nas aulas do curso "A Arte do Verso".

Como dar forma a um soneto que reverbere? Como articular ideias, metáforas e os blocos do texto para alcançar o impacto desejado?

Primeiro, o essencial: a leitura de sonetos é uma trilha inevitável, e quanto mais variadas forem as épocas e línguas, mais vasto será seu repertório. Mesmo que seja através de traduções cuidadosas, absorver a musicalidade e a lógica de outras tradições fortalece a intuição formal. Contudo, se a intenção é realmente decifrar as convenções e sutilezas do gênero, volte-se à fonte: Petrarca, um arquétipo insuperável. Em seguida, abra espaço para a força e o lirismo de Camões, a precisão de Shakespeare, o sarcasmo de Gregório de Matos, a fluidez de Bocage e a delicadeza de Bilac. E, para uma visão menos ortodoxa, Baudelaire, que desestrutura e enriquece a forma com suas sombras e paradoxos.

Dois princípios práticos podem guiar a construção. Primeiro, a estrutura dialética do soneto tradicional: os quartetos expõem a tese, os tercetos apresentam a antítese, e a chave de ouro resolve a tensão com a síntese. É um movimento de confrontação e resolução que exige uma lógica interna, quase filosófica. Embora os sonetos modernos dispensem essa rigidez, compreender essa articulação dialética ainda é um recurso poderoso para dar profundidade ao poema.

Outra dica é evitar que cada verso funcione como uma unidade sintática fechada, que se encerre em si mesma. Isso cria uma espécie de “corrida de obstáculos” onde a rima se torna mais um artifício do que uma extensão orgânica do sentido. No soneto, as pausas precisam ser controladas com delicadeza, conduzindo o leitor sem rupturas bruscas.

Vale destacar, ainda, a importância da “volta” – aquele instante em que o soneto desdobra-se, oferecendo uma nova perspectiva ou resolução. Nos quartetos iniciais, há a proposição do argumento; em seguida, os tercetos introduzem uma contra-argumentação, guiando o poema a uma síntese que, no caso do soneto italiano, acontece na chave de ouro, e no soneto inglês, no dístico final. O soneto de Camões, “Busque Amor novas artes, novo engenho”, é um exemplo magistral desse “torneio dialético” chamado de “volta”, em que a ideia se transforma, como se o poema nos levasse de volta ao ponto inicial, mas com uma compreensão renovada.

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Arquitetura do Soneto

Pérola do Vale

 
Este poema é um exercício prático de construção, realizado dentro do curso "A Arte do Verso", e tem como proposta a elaboração de um texto com predominância absoluta de substantivos, sem o uso de verbos ou adjetivos, explorando exclusivamente a força e a imagem dos nomes próprios e comuns:

Pau d'Alho, rio, pedra, caminho,
escada, fonte, capela d'Ajuda;
Freguesia, capivara, São Longuinho,
estação, floresta, campo, arruda.

Cachoeira, águas, Luís Carlos — estação,
maria-fumaça, coreto, Mirante,
Deoclésia, Ilha Grande, contemplação;
Rio Paraíba, chão, areia, bandeirantes...

Jesuítas, Nossa Senhora da Escada,
vila, índios, Maria Florência: luz.
Pedras — Tubarão, Itapema, Montada.
Guararema, pérola, matriz, cruz.
 
Pérola do Vale

Prática de Concentração

 
Circular: um círculo e um ponto — dentro
do véu concentrar à dentes
e colar defronte — espécie de colar
celestial desd'este ponto

Eis o ponto — observá-lo atento
até esquecer-se do círculo
(e todos os pontos circundantes)
retorno à Adão por um tempo

pelo sopro pelo condão — cordão
umbilical ao Éden
pelo sopro esvaziar-se:
espécie de jejum

(origem de todos os santos)

Cultivá-lo até o pulsar em espiral
mitigar a carne — pelo sopro

círculos-concêntricos (pedra n'água)

orbitar daí: o próprio centro
em movimentos contínuos
centrípetos.
 
Prática de Concentração

Nota de rodapé

 
Prefiro sair à caça da catarse
atrás de uma catraca, numa fila
de lotérica, trem, busão lotado,
onde a vida prossegue e não vacila.

Porque trata-se de um determinado
estado (disposição interior),
sapiência de observar, do outro lado,
este tesouro ulterior. Compor

daí qualquer cenário duradouro:
o senhor ri enquanto faz sua fé,
o pai cansado brilha ao contar

à filha, dos céus, a cidade de ouro...
A rotina — nota de rodapé —
segue eufônica. Nada a acrescentar.
 
Nota de rodapé

A Decadência da Arte

 
Quando mais jovem, jurava que a poesia contemporânea era irrelevante, fechada em um círculo autorreferencial, que não existiam mais escritores como antigamente. A percepção era tão equivocada quanto pretensiosa: impossível conhecer toda a produção de um país continental como o nosso.

Hoje vejo esse mesmo discurso, em suas variações, entre os que acreditam que os clássicos surgiram tal como os vemos nos dias atuais, esquecendo que foram obras recebidas, criticadas e reinterpretadas em seu tempo, passando pelo mesmo processo de hoje.

Por isso é vital cultivar repertório e conhecer o máximo de autores possível. Há muita arte sendo produzida, muita mesmo. Não vivemos apenas essa suposta decadência — compreendo quem assim pensa, pois as obras mais divulgadas pela mídia chamam mais atenção —, mas, de modo geral, a lógica do consumo privilegia o que é mais viralizável.

Contudo, se aprendermos a peneirar, a ir além do que nos é vendido pelo marketing, descobriremos que a arte pulsa, como sempre pulsou, e continuará pulsando, porque o impulso de tentar exprimir o espanto diante do mistério da própria existência jamais desaparecerá.
 
A Decadência da Arte

O Gol por Excelência

 
Da sombra de Charles Miller, sua imagem
pictórica, gizou-se tantos perfis,
contornos a formar página e colagem:
rascunho que o sonho deste gol prediz.

Clodoaldo dribla um, dribla dois... Na tela,
o epílogo da festa verde e amarela.

Peleja, progride, pensa, e num flamejo,
Pelé por linha cálida, abre em crisálida;
traceja o campo no límpido lampejo:

Carlos Alberto assina o quadro em trivela.
 
O Gol por Excelência

Canção Breve

 
p/ meu sobrinho Pietro
As conchas das mãos
Mãos em conchas sobre o riacho
fonte de Hipocrene — refletem
os olhos o rosto — castanhos
o mesmo rosto de tantos
sonhos e Silvas

Ainda não sabe da palavra
a palavra que grita e canta
não queres saber

— sabe

intui algo da pedra:
nem anjo nem verso

A vida a sua carnatura concreta
Não Hélicon nem nada de Pégaso

Que poderei eu ensiná-lo?
Um ritmo uma métrica solta
talvez
um tanto das musas e mitos
das horas e dias
algo de Deus — o mistério

o mistério de todos
os cantos uníssonos.
 
Canção Breve

Microconto

 
Herdou da mãe um hábito tardio. Riscar ao asfalto – pés descalços – uma cruz de terra vermelha. Terminava com o sinal da cruz. Replicava o gesto pelas ruas da cidade desde o primeiro torrão à madeira.
 
Microconto

O mito do "tudo pode" na poesia

 
Poucas ideias são tão sedutoras quanto a de que tudo pode ser poesia, entendida aqui não como categoria estética abstrata, mas como sua realização verbal: o poema. Ela absolve o texto de qualquer exigência formal e transfere ao leitor toda a responsabilidade pelo acontecimento estético. Se basta que alguém reconheça um poema para que ele exista, já não há distinção entre construção e impressão, nem razão para falar em aprendizado.

Nessa posição confundem-se duas ordens distintas. A experiência da leitura é irredutivelmente singular; cada leitor atravessa um poema à sua maneira. O juízo sobre essa experiência, porém, não se reduz a ela. Perguntar se um texto sustenta poeticamente aquilo que provoca é outra questão. É a esfera em que Pound reconhecia a melopeia, a fanopeia e a logopeia como operações da linguagem, passíveis de exame, e não como impressões privadas. Um vinho avinagrado continua produzindo sabor. Nem por isso deixa de ser vinho perdido.

Se tudo pudesse ser poesia, a palavra "poesia" perderia sua razão de existir. Conceitos não servem para abolir diferenças, mas para torná-las inteligíveis. Se qualquer texto pudesse receber o mesmo nome, já não haveria o que ensinar, nem o que aprender; apenas preferências individuais ocupando o lugar do juízo crítico.

Resta uma constatação. Quem afirma que tudo pode ser poema dificilmente consegue explicar por que um poema é superior a outro. E, no instante em que tenta fazê-lo, recorre inevitavelmente a critérios. Nesse momento, sua tese já não se sustenta.
 
O mito do "tudo pode" na poesia

O Aparo das Arestas

 
Sou um escritor autodidata. E com isso digo: estou fora do meio acadêmico. O que aprendi – e aprendo todo dia – vem de outras cátedras. Não faço aqui, contudo, qualquer juízo de valor; ao contrário, reconheço o papel e a importância da academia. Apenas a vida rumou para uma direção incompatível, obrigando-me a abraçar outras oportunidades.

O conselho de Jean Guitton "Cave onde você está" tem me guiado desde a sua descoberta. E o impulso que me levou para a palavra escrita demonstra uma força arrebatadora da qual sou incapaz de resistir. Por isso, dispondo dos meios possíveis a mim, procuro aprofundar e compreender o ofício de uma perspectiva ampla.

Os desafios do escritor autodidata (e dos estudantes, de modo geral) têm mais a ver com uma adequação de expectativas à realidade do que qualquer outro critério técnico. Não sou um dos entusiastas dos seres da inspiração, enquanto entidade mitológica que surja e nos tome como veículo para comunicar sua mensagem. Longe disso. Creio na labuta constante, no suor. O meio para encontrar a melhor expressão é mesmo a reescrita – sem segredos.

Quando falo de adequação de expectativas trato exatamente disso: escrever é um trabalho árduo, e todo trabalho exige de nós uma disposição de aparar as arestas. Não há glamour no enfrentamento com a página em branco, existe apenas eu com as minhas próprias vivências, anseios, medos e angústias. A vaidade fica para depois.

Nos meus vinte e poucos anos, sonhei em ser o grande escritor da geração, aquele cuja originalidade precoce encantaria a todos. No entanto, meus textos eram, na verdade, confessionalismos sentimentais e pretensiosos, sem significado além do meu próprio umbigo. Se não fosse pela complacência e bondade de certos leitores, capazes de enxergar alguma qualidade em meio ao mar de palavras vazias, talvez eu tivesse desistido. Contudo, foram os puxões de orelha e as orientações diretas que realmente me proporcionaram progresso.

Foi preciso ser carregado pelos ombros dos gigantes para enxergar com perspectiva. Estava lá, pequeno e pretensioso, clamando aos quatro ventos: "Ninguém me lê!", sem ao menos, dedicar-me a conhecer o mínimo sobre quem pavimentou o caminho para aquele clamor.
 
O Aparo das Arestas

Cântico

 
p/ Adélia Prado
As respostas cruciais encontram-se
circunscritas nas costelas
do primeiro homem.
A Palavra é única e permanece,
talha o barro sob o sinete,
entre o desejo de compreensão
e o mistério que nos escapa:
eis os dias — um campo à luz quarando,
sempre o mesmo, sempre novo,
aos olhos de quem canta.
 
Cântico

Qual a Função da Literatura?

 
Uma questão que volta e meia assombra escritores, estudantes e entusiastas da literatura é: qual a função da literatura? Qual a sua utilidade?

Quase sempre as respostas são vagas, deixando um vácuo ao invés de uma compreensão mais concreta. É comum ouvir que a literatura é expressão das emoções, manifestação das paixões, ou uma forma de transcendência. E há uma resposta especialmente recorrente: "a literatura é inútil". A ideia de inutilidade da literatura — ou das artes em geral — gera uma certa confusão, que se intensifica quando consideramos que, no mundo atual, utilidade tornou-se sinônimo de aplicabilidade, ou seja, um meio para alcançar outro fim. E numa sociedade extremamente materialista e hiper-consumista como a nossa, esse fim geralmente se resume a dinheiro ou status.

Nesse sentido, a literatura de fato é inútil. Mas essa aparente inutilidade não a torna destituída de propósito. Pelo contrário, a literatura cumpre um papel essencial na construção da cosmovisão do indivíduo, sendo alimento para o desenvolvimento de sua visão de mundo. A cosmovisão abrange tudo aquilo que molda a personalidade do ser humano: suas ideias filosóficas, questões psicológicas e morais, suas paixões e preocupações mais íntimas.

O brasileiro médio costuma formar sua visão de mundo a partir de relações imediatas — a família, os amigos, a escola, a religião, e, quando muito, a universidade. Essa visão, portanto, tende a ser bastante limitada, e essa limitação se revela ao ouvirmos as opiniões sobre temas cotidianos (política, por exemplo). Há uma tendência à repetição de ideias pré-fabricadas, fruto do meio social, sem esforço de reflexão própria e mais aprofundada.

A literatura, então, amplia horizontes e transcende essas limitações. Ao entrar em contato com diferentes enredos e narrativas, o leitor é desafiado a explorar possibilidades humanas infinitas. Ele é levado a conhecer outras culturas, religiões, filosofias e até mesmo realidades psicológicas que talvez jamais tivessem passado por sua mente. A literatura nos dá perspectiva — e com isso, ela nos aproxima do autoconhecimento. Questões de ordem imediata que antes pareciam cruciais começam a ser reposicionadas no grande quadro da condição humana.

A literatura, portanto, é um alimento espiritual e essencial. Ela nos torna mais humanos ao aumentar nossa capacidade de interpretar o mundo e a sociedade em que vivemos, ao mesmo tempo em que nos desafia a conhecer a nós mesmos. Esse é o fundamento socrático do "conhece-te a ti mesmo", e talvez seja a missão mais nobre que carregamos durante a vida.

A literatura pode ser "inútil" para os padrões pragmáticos do nosso tempo, mas sua verdadeira utilidade está em moldar nossa essência e nos tornar mais conscientes de quem somos e do mundo ao nosso redor.

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Qual a Função da Literatura?

Assombro

 
Fico feliz quando das nuvens nascem
uma ordem outra de seres: modelos
míticos, forjados, nobre linhagem,

como uma escultura entalhada em gelo.
E a sina, precedente à Medusa,
não mais sinaliza este pesadelo,

de tanta imagem borrada, confusa;
é a substância insolúvel do sonho,
onde os olhos recaem, sem recusa,

no corpo mineral do dia. Ponho,
sem furtar-me do trigo da penúria,
nuvens dispersas na febre dos sonhos

— ante o mistério do alto e a sua fúria,
esqueço o rastear na lama espúria.
 
Assombro

Dicas práticas de como compor um poema

 
1) Comece por um verso simples:

Pense em um verso que possa ser compreendido por qualquer pessoa. Ele não precisa ser memorável, nem ocupar um lugar definitivo no poema logo de início. A única exigência é a clareza. Trabalhe nesse verso até que ele se ajuste a um determinado metro — esse será o seu ponto de partida.

2) Defina o tom a partir desse verso:

Uma vez estabelecido o verso inicial, use-o como bússola para determinar o tom do poema. A escolha dos elementos técnicos — imagens, duração dos períodos, coloratura, sonoridade, acentuação, fonemas — deve surgir como consequência desse tom e colaborar para seu refinamento.

3) Explore o campo das rimas:

Liste múltiplas possibilidades de rima, até encontrar aquelas que se destaquem pela musicalidade e pelo inesperado. Não despreze as rimas pobres: quando bem trabalhadas, elas também podem produzir efeitos surpreendentes. A busca é pela harmonia e, ao mesmo tempo, pelo estranhamento.

4) Estruture a tensão poética:

Evite antecipar o final. Comece, se possível, de maneira contrária ao tom que deseja alcançar. Construa o caminho em espiral: provoque uma inflexão no meio do poema e conduza o leitor a um clímax nos versos imediatamente anteriores ao encerramento. O fecho deve parecer inevitável — mas apenas depois que acontecer.
 
Dicas práticas de como compor um poema

Cabralina para Ana

 
Ana é pedra na retina.
Pedrisco árido de ausência,
por detrás, relâmpago em fósforo,
querubim de pedra, fissura.

Lavro Ana nos sonhos de lâmina.
Tua voz desloca-me os sismos.
Muro de ar que à luz inclina,
olho fixo no osso dos sinos.

A música grave e de corte,
pedra na qual Ana trafega,
desfaz na manhã este corpo:
Ana é o clarão que cega.
 
Cabralina para Ana

O fruto de Pênia

 
i.
Dança Pênia no jardim.
Os olhos cobiçam a prudência
— deita-se Porus.

ii.
Do néctar dos deuses
(terminada a dança)
nasce Eros.

iii.
Os olhos: dois lagos
a refletir a face
e a fome de Eros.

iv.
A luz personifica Pênia
— eis a sombra aos olhos
Eros ao rés do chão.

v.
Por riachos a fome
faz enxergar miragem
— Narcisos.

vi.
Descalço Eros dança
mira o Olimpo:
suplanta a própria penúria.
 
O fruto de Pênia

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