CONTRASSENSO
O tempo sempre se acossa,
eis a ironia dessa vida
refletida: crer na nossa
aparência falha, fluida.
A Sina Do Artífice
Fiam-se primeiro pelas mãos de Cloto,
depois Láquesis sorteia o seu quinhão
de beleza. Fia-se tecido por
tecido e tão logo vê-se o coração.
Conhece-se o artífice pelas mãos,
em sua habilidade feito as Moiras
de tricotar com toda precisão
o destino do poema em seus detalhes.
E o fado do artífice será esse
de cuidar dos detalhes desde d'antes
e deixá-los como deve ser:
às mãos de Átropos no mesmo instante.
Gênese
Os olhos — ponto de impacto
a criar ondas transversais
Os olhos conclamam
todo este frêmito — e chamas
à face
as quais
o calor d'uma sílaba — exata
vivifica o tempo o templo
(faísca pelos poros):
fosfora rente ao céu da boca
— flamas tochas fachos
o fogo inventado de sempre
e uma e outra e tantas vezes mais.
Arkhé
p/ meu sobrinho Pietro Miguel
Nem sabe ainda suas origens
nem Mnemosine fez-se presente
aos seus olhos
Intui — intui o canto
o mesmo canto dos primórdios
Algo no mar pretérito e profundo
feito um ponto
por onde repousam os olhos
criadores
(os mesmos olhos)
Mansidão numinosa — transparente
de onde surgem outras águas
Algo no mar pretérito e profundo
feito um ponto
pequeno
pequeno e quase imperceptível
Onde coube a pausa para o caos
(efeito e causa)
Tudo era o mar — enorme
negrume no horizonte
distante em eras
Algo no mar pretérito e profundo
feito um ponto — antes
e antes o sopro revolto
fez-se tudo
da luz
Os olhos criadores coordenam
as feras.
Arquitetura do Soneto
Este texto apoia-se nas lições do poeta Emmanuel Santiago, um dos grandes nomes da poesia contemporânea brasileira, e nas ideias transmitidas por Brian Belancieri nas aulas do curso "A Arte do Verso".
Como dar forma a um soneto que reverbere? Como articular ideias, metáforas e os blocos do texto para alcançar o impacto desejado?
Primeiro, o essencial: a leitura de sonetos é uma trilha inevitável, e quanto mais variadas forem as épocas e línguas, mais vasto será seu repertório. Mesmo que seja através de traduções cuidadosas, absorver a musicalidade e a lógica de outras tradições fortalece a intuição formal. Contudo, se a intenção é realmente decifrar as convenções e sutilezas do gênero, volte-se à fonte: Petrarca, um arquétipo insuperável. Em seguida, abra espaço para a força e o lirismo de Camões, a precisão de Shakespeare, o sarcasmo de Gregório de Matos, a fluidez de Bocage e a delicadeza de Bilac. E, para uma visão menos ortodoxa, Baudelaire, que desestrutura e enriquece a forma com suas sombras e paradoxos.
Dois princípios práticos podem guiar a construção. Primeiro, a estrutura dialética do soneto tradicional: os quartetos expõem a tese, os tercetos apresentam a antítese, e a chave de ouro resolve a tensão com a síntese. É um movimento de confrontação e resolução que exige uma lógica interna, quase filosófica. Embora os sonetos modernos dispensem essa rigidez, compreender essa articulação dialética ainda é um recurso poderoso para dar profundidade ao poema.
Outra dica é evitar que cada verso funcione como uma unidade sintática fechada, que se encerre em si mesma. Isso cria uma espécie de “corrida de obstáculos” onde a rima se torna mais um artifício do que uma extensão orgânica do sentido. No soneto, as pausas precisam ser controladas com delicadeza, conduzindo o leitor sem rupturas bruscas.
Vale destacar, ainda, a importância da “volta” – aquele instante em que o soneto desdobra-se, oferecendo uma nova perspectiva ou resolução. Nos quartetos iniciais, há a proposição do argumento; em seguida, os tercetos introduzem uma contra-argumentação, guiando o poema a uma síntese que, no caso do soneto italiano, acontece na chave de ouro, e no soneto inglês, no dístico final. O soneto de Camões, “Busque Amor novas artes, novo engenho”, é um exemplo magistral desse “torneio dialético” chamado de “volta”, em que a ideia se transforma, como se o poema nos levasse de volta ao ponto inicial, mas com uma compreensão renovada.
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Pérola do Vale
Este poema é um exercício prático de construção, realizado dentro do curso "A Arte do Verso", e tem como proposta a elaboração de um texto com predominância absoluta de substantivos, sem o uso de verbos ou adjetivos, explorando exclusivamente a força e a imagem dos nomes próprios e comuns:
Pau d'Alho, rio, pedra, caminho,
escada, fonte, capela d'Ajuda;
Freguesia, capivara, São Longuinho,
estação, floresta, campo, arruda.
Cachoeira, águas, Luís Carlos — estação,
maria-fumaça, coreto, Mirante,
Deoclésia, Ilha Grande, contemplação;
Rio Paraíba, chão, areia, bandeirantes...
Jesuítas, Nossa Senhora da Escada,
vila, índios, Maria Florência: luz.
Pedras — Tubarão, Itapema, Montada.
Guararema, pérola, matriz, cruz.
Prática de Concentração
Circular: um círculo e um ponto — dentro
do véu concentrar à dentes
e colar defronte — espécie de colar
celestial desd'este ponto
Eis o ponto — observá-lo atento
até esquecer-se do círculo
(e todos os pontos circundantes)
retorno à Adão por um tempo
pelo sopro pelo condão — cordão
umbilical ao Éden
pelo sopro esvaziar-se:
espécie de jejum
(origem de todos os santos)
Cultivá-lo até o pulsar em espiral
mitigar a carne — pelo sopro
círculos-concêntricos (pedra n'água)
orbitar daí: o próprio centro
em movimentos contínuos
centrípetos.
Nota de rodapé
Prefiro sair à caça da catarse
atrás de uma catraca, numa fila
de lotérica, trem, busão lotado,
onde a vida prossegue e não vacila.
Porque trata-se de um determinado
estado (disposição interior),
sapiência de observar, do outro lado,
este tesouro ulterior. Compor
daí qualquer cenário duradouro:
o senhor ri enquanto faz sua fé,
o pai cansado brilha ao contar
à filha, dos céus, a cidade de ouro...
A rotina — nota de rodapé —
segue eufônica. Nada a acrescentar.
A Decadência da Arte
Quando mais jovem, jurava que a poesia contemporânea era irrelevante, fechada em um círculo autorreferencial, que não existiam mais escritores como antigamente. A percepção era tão equivocada quanto pretensiosa: impossível conhecer toda a produção de um país continental como o nosso.
Hoje vejo esse mesmo discurso, em suas variações, entre os que acreditam que os clássicos surgiram tal como os vemos nos dias atuais, esquecendo que foram obras recebidas, criticadas e reinterpretadas em seu tempo, passando pelo mesmo processo de hoje.
Por isso é vital cultivar repertório e conhecer o máximo de autores possível. Há muita arte sendo produzida, muita mesmo. Não vivemos apenas essa suposta decadência — compreendo quem assim pensa, pois as obras mais divulgadas pela mídia chamam mais atenção —, mas, de modo geral, a lógica do consumo privilegia o que é mais viralizável.
Contudo, se aprendermos a peneirar, a ir além do que nos é vendido pelo marketing, descobriremos que a arte pulsa, como sempre pulsou, e continuará pulsando, porque o impulso de tentar exprimir o espanto diante do mistério da própria existência jamais desaparecerá.
O Gol por Excelência
Da sombra de Charles Miller, sua imagem
pictórica, gizou-se tantos perfis,
contornos a formar página e colagem:
rascunho que o sonho deste gol prediz.
Clodoaldo dribla um, dribla dois... Na tela,
o epílogo da festa verde e amarela.
Peleja, progride, pensa, e num flamejo,
Pelé por linha cálida, abre em crisálida;
traceja o campo no límpido lampejo:
Carlos Alberto assina o quadro em trivela.