Poemas, frases e mensagens de Alemtagus

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de Alemtagus

Xadrez - www.gameknot.com
Universidade Aberta - www.univ-ab.pt
ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa - www.iscte-iul.pt/

Doutoramento Poético (Aos que repudiam a crítica)... continua actual

 
Sou feito de palavras...
Das que rasgam olhares,
Simpatias e traições.
Terra cheia que lavras
Se tuas letras semeares,
Tu, escritor de emoções.

Prendam-me as mãos,
Degolem-me o desejo
E bebam a tinta poeta
Escrita em vós, irmãos.
Enquanto eu versejo
Na força da caneta.

Sou feito da tua leitura
Que me engasga e esmaga,
Que me dá vida à poesia,
Faz de mim gente pura,
Que não me rasga
Ou chora hipocrisia.

Errem! Sejam meros humanos,
Aceitem que são maus actores,
Poetizem a vida canalha,
Mas não a tapem com panos,
Não a pintem sem cores
Ou a cortem à navalha.
 
Doutoramento Poético (Aos que repudiam a crítica)... continua actual

Até Depois Zé Silveira

 
Até Depois Zé Silveira
 
Hoje perdi um pedaço de poesia
Sábias letras em tons de samba
E o sorriso que sempre fica aqui
Guardei na flor do céu que te lia
Vidas sem rede na corda bamba
Abraço amiguirmão qu'vinha daí

Hoje perdi nessa margem de mar
Tuas mãos qu'me tocam silêncios
E dão ao último poema cor e voz
Deste à amizade o poder de amar
Verbos aos fins com novos inícios
E este mundo onde andamos nós
 
Até Depois Zé Silveira

Exercício Poético (A Escritora)

 
A sensualidade da escritora
Feita da nudez da sua mão
Vira sozinha cada folha.
Desdobra-se em acentuações
Numa doce pontuação sedutora
Que diz sim, quando é não
Escolhe sem ter escolha
Amor entre dois corações.

De olhos fixos no pensamento
Em tudo o que há para lá de tudo
Olhas-me! Seduzes algo em mim
Silencias-te em sombras, no escuro
Escondes-me no firmamento
Fazes-me único, ser mudo
Lombada desse livro sem fim
Rasgo no nada, amante puro.

A sensualidade da escultura
De seios macios, pálidos, nús
Saboreia o vento em leve beijo
Uma lágrima de cheiro salgado
Que desliza por meia loucura
Pela noite, tua Lua sem luz
Ensejo esquecido, sem desejo
Lábios cantados em fado falado
 
Exercício Poético (A Escritora)

HELEN DE ROSE - O Meu Luso do Mês de... Março

 
Helen De Rose é uma personagem ímpar no contexto do Luso-Poemas, talvez por isso a tenha escolhido para dar início a estas crónicas subitamente desaparecidas da primeira página deste cantinho da escrita, pedindo desde já desculpa por me «apoderar» da ideia made in Luso-Poemas, mas considerem isto uma homenagem aos que trabalham para o dia a dia desta casa.
Dá-me enorme gozo duelar com a Helen quando se trata de fazer um dueto poético, é sempre um desafio, uma experiência nova que vou tendo o prazer de partilhar com todos. Assim, resolvi-me a fazer-lhe meia dúzia de perguntas e a deixar-lhe o desafio de procurar o Luso de Abril, alguém que será entrevistado por ela e que, por sua vez, escolherá outro e assim sucessivamente. Veremos se corre como é esperado.

- Helen, fala-me um pouco de ti e de quem te conquista.

Por incrível que pareça, sinto-me tímida ao falar de mim. Muitas vezes, resumo-me nesta frase que gosto muito: “Eu sou o que eu sou, nada mais.”
Eu nasci antes do tempo, segundo minha mãe, quando ela chegou ao médico pra fazer o meu pré-natal, eu já estava nascendo na maca, em Piracicaba-SP.
Quando menina, eu não gostava de brincar de boneca, era uma menina moleca, queria subir na minha jabuticabeira, descer as ladeiras com carrinho de rolemãs, empinar as pipas que eu mesma fazia, andar à cavalo, praticar esportes, dançar e ler meus livros de contos de fadas. Comecei a ler aos 7 anos e não parei mais. O meu primeiro livro, que guardo até hoje, chama-se “A lagostinha encantada”. Sempre gostei de fazer redações e, de tudo o que se referia à Língua Portuguesa. Durante todos os meus estudos imaginava ser, um dia, uma escritora. Adorava pesquisar e estudar, por isso, ganhei o apelido de “Caxias” na escola. Depois, formei-me em Educação Física em 1986 e desde então sempre trabalhei para a saúde do corpo, da mente e do espírito, são 23 anos fazendo exatamente o que gosto, dar aula em Academia. Depois de formada, casei-me com Luis Vitório e tive dois filhos: Marina e Luis Jr. A maternidade me ensinou muito mais do que eu poderia imaginar. Eu sou completamente apaixonada pelos meus filhos e por eles dou a minha vida....(emoção)...Marina e Jr me conquistam a cada segundo da minha existência. Agradeço ao Criador do Universo por esta confiança e oportunidade de ser mãe dos meus filhos.
Todos estes anos, depois da maternidade, pesquisei muito e li muito. Senti uma sede de buscar novos conhecimentos, abrir novos horizontes de esperança pra minha fé, para o meu entendimento evolutivo. Tudo isto, ajudou-me e ajuda a enfrentar os desafios e provações da missão que me foi confiada.
A vida em si, é um aprendizado simples, mas complexo. Estar inserido na vida, é estar consciente de tudo e de todos. Estar vivo, é estar manifesto de corpo e alma diante da Criação, desejando sempre que todos consigam viver mais um dia, só por hoje.

- És o estreito caminho entre os Lusos e os consagrados monstros da língua Portuguesa. Porquê essa vertente de pesquisa e, naturalmente, de alfabetização cultural de quem te lê?

Quando entrei no site Luso Poemas, fiquei encantada com tantas possibilidades de informações criadas pelo Trabis. Logo encontrei no fórum, os tópicos dos Consagrados e senti uma enorme necessidade de doar a todos os Lusos, tudo aquilo que aprendi desde menina. Depois de algum tempo, vendo meu interesse pelos Consagrados, recebi, com alegria, o convite do Trabis para moderar os Consagrados. Na verdade, esta vertente de pesquisa é bastante salutar, quando há interesse de todos os Lusos em ter conhecimento da vida e da obra de cada autor Consagrado. Todos os autores tiveram que ir tirando as pedras do caminho, até serem reconhecidos por suas obras literárias. Este conhecimento do legado, da rica herança literária que todos os Consagrados nos deixaram, contribui efetivamente para quem deseja, com vontade firme, entrar para este mundo fantástico da escrita, da manifestação individual através das palavras.
Ainda existem muitos autores que pretendo incluir nos Consagrados. Os Lusos também podem solicitar as pesquisas de autores que não existirem na lista. Sempre será bem vinda a participação de todos os Lusos, colaborando com o enriquecimento do site Luso Poemas.
Sempre serei agradecida ao Trabis, por ter me dado esta oportunidade de compartilhar os Consagrados com todos os Lusos e visitantes do site.

-De todos os autores consagrados que já aqui nos trouxeste (Drummond de Andrade, Eça, Florbela, entre outros) existe algum com quem te identifiques?

São tantos que já me identifiquei... Cada autor tem seu estilo singular. Poderia citar alguns dos meus favoritos: Machado de Assis, Manuel Bandeira, Dante Milano, Fernando Pessoa, Pablo Neruda, Augusto dos Anjos, Mário Quintana, Florbela, Raquel de Queiroz, Clarice Lispector, William Shakespeare são autores que já me emocionaram. Mas, um dia, fiquei extremamente emocionada com Olavo Bilac, ouvindo seus poemas serem declamados. Naquele momento, vi o quanto a literatura é uma arte não só no papel, mas na voz, o quanto os poemas ganham vida quando são declamados.
Eu me identifico com a literatura em si e com todos os autores, Consagrados ou não, que possuem o dom de fazer das palavras, uma obra de arte. Isto é Divino! Sensibilizo-me profundamente.

- Não há Lusos bons ou Lusos maus, há Lusos que se presenteiam com a escrita. Na tua opinião achas que merece a pena catalogar quem aqui escreve ou deve existir uma consciencialização das pessoas em relação ao nível da sua escrita?

A escrita é a manifestação dos nossos pensamentos, das nossas fantasias, dos nossos conhecimentos, dos nossos entendimentos, da nossa cultura, das nossas crenças, dos nossos sentimentos etc... Cada ser humano tem sua história de vida e sua maneira de ver as coisas como elas realmente são ou não são.
Eu acredito que cada Luso sabe quem de fato nos presenteia com sua escrita. De acordo com seu entendimento e sua preferência. Basta observar quem é lido. Entretanto, há quem seja, além de tudo, mais carismático e possui um dom especial de se socializar com os demais. Por isso, a integração dos participantes do site é importante, não podemos negar que estamos participando de um site de relacionamento de escritores. Somos nós que fazemos o site acontecer!
Portanto, a consciencialização em relação ao nível da escrita, deve ser estudada por todos nós, e nisto, eu me incluo. Não acredito que o aprendizado tenha um fim ou que alguém se eleve tanto, que não tenha que aprender mais nada sobre a escrita. Basta abrir qualquer dicionário e ver quantas palavras e significados existem ali. Se, alguém me disser que sabe o dicionário da Língua Portuguesa decor e salteado, então irei me curvar diante do seu nível de escrita. Se, alguém me disser que, a partir do momento que se tornou poeta ou escritor, não cometeu erros gramaticais ou ortográficos, então irei me curvar diante do seu nível de escrita. Logo agora, com esta reforma da Língua Portuguesa, ficou ainda mais difícil chegar num nível de escrita elevado.
Acredito sim, que cada escritor precisa sempre fazer a correção dos seus textos, mesmo depois que publicou no site, em livro ou em qualquer forma de comunicação vinculada com a escrita; que cada escritor precisa ter um dicionário da Língua Portuguesa e sempre buscar rever seus conhecimentos. Não tenho vergonha de dizer que faço isto sempre que preciso, sempre que recebo uma crítica ou observação dos amigos. Não nasci sabendo e morrerei aprendendo, disto eu tenho certeza.
Desejo que cada Luso olhe pra sua escrivaninha e observe bastante cada palavra dos seus textos, veja o que pode ser melhorado. Mas, quando encontrar erro na escrivaninha de outros autores, não “aponte com o dedo” o erro diante de todos. Mande uma PM, mande um email, seja educado com o escritor. Isto sim é um aprendizado salutar. Quem sabe, outro dia, este mesmo escritor não irá lhe ajudar a ver o seu erro, mesmo que seja por digitação. Isto é uma troca civilizada entre pessoas que estão aqui para aprender.

- O que é e para que serve, a numerologia?

Dentre todos os estudos que fiz, a numerologia me fascina.
Numerologia é a ciência que estuda os números e tudo que envolve sua simbologia, tais como, letras e alfabetos de várias línguas, com seu valor metafísico e significativo, formando uma vibração que atua desde o nascimento de cada pessoa, nos ciclos de vida e até o fim da sua cabala numerológica. Esse estudo está baseado nos símbolos encontrados em tempos primitivos da civilização egípcia, que até hoje auxiliam para desvendar os segredos da manifestação do Homem pela escrita.
Este estudo auxilia no autoconhecimento de cada indivíduo, beneficiando decisões da vida diária e futura.
Mas, cuidado! Existem muitas numerologias por aí, que eu não recomendo.

- Quais são os teus projectos literários?

Não gosto de falar muito de projetos, sou meio supersticiosa neste ponto. Mas, estou com dois livros em andamento, com temas diferentes. Sem previsão para serem publicados.
Por outro lado, sinto-me grávida do meu primeiro livro “Um coração no oceano”, que está sendo editado pela CBJE, com lançamento previsto para março/2009. Este livro é uma coletânea de poemas, prosas, mensagens e pensamentos que escrevi recentemente. Com a participação da minha amiga/irmã Ledalge, autora do livro “Ledalgiana”, fazendo a minha Apresentação e do escritor Ronaldo Honorio, autor do livro “Onde guardarei estes oceanos?”, prefaciando a obra. São dois autores que tenho grande estima e consideração. Para os dois, deixo aqui minha eterna gratidão, por terem aceito meu convite.

- O teu Brasil e o teu Portugal.

O meu Brasil mistura-se com meu Portugal, numa simbiose trazida por laços hereditários dos meus antepassados. São nações que se encontram no meu sangue, fazendo pulsar meu coração diante deste oceano Atlântico.
O meu Brasil sonha em conhecer o meu Portugal, e sentir a sensação de estar do outro lado desse mesmo oceano Atlântico, encontrando todos os amigos do Luso Poemas. O sotaque português faz meus olhos brasileiros brilharem e meus lábios portugueses sorrirem...

- O teu mais que tudo.

Sentir que estou aqui, agora, viva! Dizendo tudo isto pra todos vocês!

- Quem é o teu Luso do mês?

Meu querido José Silveira

Obrigada Helen
 
HELEN DE ROSE - O Meu Luso do Mês de... Março

Condenado (reedição)

 
Sempre esta mesma cela
Tijolos velhos de igual prisão,
Sempre o mesmo velho Sol
Entre a ferrugem das grades,
Laivos de outras liberdades
Um farrapo que se revela
Num pequeno pedaço de chão
A pele seca, gasta e mole

Sempre este rosto sem olhar
Junto da cegueira da memória
Uma folha de papel inventada
Sombras. Lágrimas e um desejo
Saudade que já não te vejo
Nas eternas canções de teu mar
Afogadas no tempo, vida inglória
De nada vale mais nada

Balança a corda que me espera
O frio que invade cada pensamento
Tu! Que sempre me esqueces
A dor trepadeira nos ossos
Como a água no fundo dos poços
A vida vida, a vida quimera
O meu último momento
A despedida que não mereces
 
Condenado (reedição)

Poema de Contrabando

 
Bágoas no olhar e um tiro certeiro
Que ali lhe deixou a vida marcada
Dois montes e uma ribeira a salto
Pão mais água para um dia inteiro
Campo para deitar a vida cansada
À mercê da noite caída de assalto

Na lembrança três sorrisos tristes
Bágoas no olhar e um tiro certeiro
Trémulos medos que dão coragem
Aquela voz a dizer que tu resistes
Onde dois se olham no frio rueiro
Onde fusco t'esgueiras à margem

Do horizonte um destino tão longe
Que te arrasta esse corpo a passo
Bágoas no olhar e um tiro certeiro
Chuva que afoga a dor que punge
Num dito não d'outro sim escasso
D'exigentes farsas de muambeiro

Leva de ti o que te morre primeiro
A dor de orgulho ou medo de fome
Mulher e filhos ou o dia de amanhã
Bágoas no olhar e um tiro certeiro
Porque se a saudade nunca dorme
Será a nobre liberdade quimera vã
 
Poema de Contrabando

Ainda os Pássaros Voavam (7ª Poesia de um Canalha)

 
Julgas que não sei ler o tamanho dos teus gritos
Estridentes ecos dessa loucura escrita em branco
E o azul do céu a trespassar-te o peito que abres
Que não digo quanto devo por te saciar os mitos
Urbanos de olhos fechados na vida só que tranco
Portas e almas do corpo fatiado por esses sabres

O teu tempo é o outro que não me traz o inferno
Do dia a dia a consumir o chão doente que olhei
Para ti como se foras de mais alguém outra vida
Alheia ao acaso de ter sido filho do lado materno
Seio que me deu num aconchego mãe que amei
Tanto o momento onde a coragem foi esquecida

Serve-te destas mãos que se escrevem absurdas
As palavras perfiladas em direcção a um abismo
Que se precipita depois da forca sem mais nada
Por esse mar fora em segredos de gentes surdas
Notas de pauta enroladas num breve eufemismo
Barato que contorce a nossa língua assassinada
 
Ainda os Pássaros Voavam (7ª Poesia de um Canalha)

Para Margarete (81ª Poesia de um Canalha)

 
Sei que estavas por aí longe e perto de outro dia
À distância de nós dois ou de tudo e quase nada
A olhar-me a mim e a ti, a escutar-te nesta voz
Escondias nas mãos o bater ofegante da alegria
Noutra página o olhar puro de miúda engraçada
A pintar-te sorrisos que enfeitiçava os dois a sós

Faltam-me as letras da mão que nos escreveu
Céus decorados a verde campo e azul-marinho
Da cor de alguma terra que ali nos viu crescer
Faltamos nós também, cada um em canto seu
Sempre a rimar este Alentejo com o teu Minho
E a rir do que é importante, essa fome de viver

É a isto que chamo saudade, muito além do mar
Daquela que curiosa segue pelo horizonte dentro
E se faz num momento só, coisa pura e aventura
Só poema com e sem rima que se recusa acabar
Palavra interminável que define um desencontro
Um beijo muito depois de um abraço de ternura
 
Para Margarete (81ª Poesia de um Canalha)

Para... Algo (119ª Poesia de um Canalha)

 
Flores murchas e tristes qu'envaidecem o diabo
Arrancadas de um chão só em cores de deserto
E de um céu negro sem este sol de mar pintado
O silêncio de uma lauda alva vazia qual estrabo
Pesteia sua terra que néscia se encolhe ali perto
De mão dada com o infinito destino inalcançado

O Homem é a meretriz dos trechos da sua vida
E a adaga que infligiu no corpo chagas mortais
Que sangram o adultério da palavra a escrever
Árvores que cedo morrem de pé por fé perdida
Onde adormecem coisas diferentes e tão iguais
No leito da última lágrima que aqui ouço correr

A semente que sabendo a história receia brotar
E esconde-se destes infelizes filhos da maldição
À sombra da nuvem cinzenta que tinha no peito
O futuro repete-se assim no seu novo caminhar
O sol apõe-se e a lua propõe-se sem inspiração
Fecho o livro a pensar se vou continuar defeito
 
Para... Algo (119ª Poesia de um Canalha)

Poema Duplo com Refrão (48ª Poesia de um Canalha)

 
O sonho irracional______A dor emocional
Esfomeado, isento______O esquecimento
Cantou-te nu olhar______Que se quis calar
Num desejo virtual______Sofre d'igual mal
De outro momento______O medo do vento
O silêncio de amar______Nas vagas do mar

Sombra agora alva
Daí só duas ruínas
As danças a meias
Que tua mão salva
Subtis e genuínas
De verso nas veias

O riso incondicional______Do mar feito de sal
E só mais um beijo______A navegar o ensejo
Apertado no abraço______O acaso sem espaço
Deste mundo afinal______Faz do tempo banal
Fez-se d'um desejo______O infinito que lá vejo
De ir passo a passo______Este dia tão escasso
 
Poema Duplo com Refrão (48ª Poesia de um Canalha)

A Ridícula Ridicularidade do Ridicularismo Poético

 
Verso estranhamente ridículo
Este que arrebatei de seu pedúnculo,
É de amor que fala ou escreve, ou lê!
Um poema feio, qual furúnculo,
De ridicularismo... ridículo.

Nasceu corcunda e ridicularizado
De verruga asquerosa no ponto final
Armado em bom, triunfante excremento,
Caído do alto de seu pedestal,
Inconsequente rabisco amantizado.

O ridicularismo do seu riso
É algo... inigualável, impensável,
De grotescos arrotos saídos em harmonia
Flatulência bárbara e intratável
Pior que dor em dente de siso.

Consporcado na ridicularização das pessoas,
Gente de bem que não fala de amor...
Gente de gabardina sebenta e cabelo oleoso,
Atira-se feliz para a sarjeta sem pudor
Esperando poesias melhores, ou mesmo boas.
 
A Ridícula Ridicularidade do Ridicularismo Poético

Luto Canalha (149ª Poesia de um Canalha)

 
Sente no peito o trinar das cordas
Que ali suaves te fazem mais vida
Mais linda pelo sorriso que trazem
Sóis qu'te vestem quando acordas
Em canções e uma dança atrevida
Nesse chão que os meninos fazem

O sambista torcia a voz do violão
Dó maior Fá maior Sol de sétima
Umas e outras notas por lá trazia
A menina que gira a alma na mão
Que lhe chorava a última lágrima
Da alegria bailada que não morria

Sente no peito o amor apressado
Entre ventos que vão não voltam
Essas saudades pintadas de mar
Letras dadas com riso perfumado
Às desfolhadas mãos que poetam
Teu nome sempre nosso a cantar
 
Luto Canalha (149ª Poesia de um Canalha)

Exercício Poético (Da Velha Dor)

 
Quanto mais te conheço...
Mais te estranho
Desconfio do teu contorno
A suavidade da tua voz
Tua vontade que obedeço
Cada palavra que entranho
Corpo frio, chão morno
Dor aguda e atroz

Desmembro a vida
Dia após dia
Desenho-te os lábios
Nos meus sós
Beijo-te de seguida
Nesse olhar que se perdia
Pensamentos sábios
Deste amor entre nós
 
Exercício Poético (Da Velha Dor)

As Naus - Alemtagus/Helen De Rose

 
Parto para correr mundo,
De braços abertos,
Cabelo enrolado no vento
Nos enormes mares desertos
Que me velam o sono profundo.

Faço-te palma de minha mão,
Vela de nuvem flutuante
Em céu azul esculpido no peito,
Rosa brava de cor amante,
Lágrima de perdão.

Vagueio sem rumo em mim,
Nessa tua doce voz,
Pele macia, acetinada
Que nos envolve a nós...
Que nos fez assim.

Chego no horizonte profundo
Dos teus mornos desertos
Seu corpo me dá o alento
Seus olhos brilham despertos
Alimentando meu prazer desnudo

És o navegador do meu coração
Elevando para o êxtase amante
Arrepiando minha pele desse jeito
Sou a flor do seu norte delirante
Lágrima de emoção!

Incendeio sua nau assim
Entre sussurros da nossa voz
Mergulha suave sobre mim
Somos um, somos nós
O início e o fim
 
As Naus - Alemtagus/Helen De Rose

Para o Luso-Poemas (100ª Poesia de um Canalha)

 
Poupe-se dos vivos esses que enterram mortos
Dos gritos escritos os que lhes açulam os livros
E deixarão no vento tais mãos nuas à sua sorte
Deixem as ondas domar vilões humanos portos
E navegar sem rumo no probo olhar dos éforos
E no regaço quente de um seu poema consorte

Gargalhe cada destino do que lhe deu seu fado
E lhe esfregue as mãos o diabo qu'anda à solta
Dançando nas ruas qual careto de alegria pagã
Luzam os que ficam ou vão deste verbo amado
E entornem-se de letras seus olhos por revolta
Sob o corpo ditador que lhe faça negr'a vida sã

Marchem as faustas laudas num grito Ipiranga
Como se o dia seguinte fosse apenas mais um
E teu Sol brotasse do chão nascido para todos
São espadas vossas penas que ceifam a canga
E nos dão desse caminho nenhum mais algum
E das tantas palavras a fortuna de seus bodos

Encham cálices dos bons amigos e seus iguais
E os abraços de gente poeta e assim tão louca
Que vos seja metade de sorte em boémia vida
Leiam os olhares um a um até não haver mais
E sigam por aí fora acordando quem se apouca
E se escreve fraco por medo de morte bandida
 
Para o Luso-Poemas (100ª Poesia de um Canalha)

Para quem o não queira (116ª Poesia de um Canalha)

 
É arte que se parte e reparte
Pincelada aqui e ali ou por lá
Duma tua mão ainda criança
Saber chorar depois amar-te
Teus olhos que iguais não há
Nem a gente qu'assim dança

Poema livre e solto que ecoa
E aí t'embalava o vento todo
Da minha voz que o sonhava
Me levava desta vida tão boa
Passo a compasso o teu fado
A loucura qu'a noite aleitava

É arte que se doeu e remoeu
Levada em duas rubras veias
Pelo silêncio das laudas alvas
Música de sossego te dou eu
Escrevia-se nos dois a meias
Tod'o amor de que me salvas
 
Para quem o não queira (116ª Poesia de um Canalha)

Júlio Saraiva (34ª Poesia de um Canalha)

 
Copo e meio cheio de conversa minha gente boa
Partida em estrofes canhotas na revolta do povo
E gritos de guerra que traziam num verbo a paz
Júlio que desta arte nos deu poesia de fina coroa
Entre rimas de morte e vida e tanto mundo novo
Nos deu aquele velho louco abraço de bom rapaz

Cantas ainda aqui um fado de voz rouca e tosca
Dobrado em sambas petizes de olhos malandros
Mãos atrevidas ou tremidas nesse gozo tão puro
Desse bom cavaleiro da távola de sua vida fosca
Esconjurada nas bocas desses poetas calhandros
Vestidos de facto, fato e gravata e negro ar duro

Tu que de gente pouca e muita mais vês o infinito
Tocas ao de leve nas mãos do silêncio que choras
E vives aqui imortal em cada palavra que te deixo
Aceita o que te escrevo neste dia de chuva bonito
E aqui no fim do chão em que me contas as horas
Faças de mim poeta, Pessoa, Drummond e Aleixo
 
Júlio Saraiva (34ª Poesia de um Canalha)

Levemente (33ª Poesia de um Canalha)

 
Se um dia quiseres passar ali pelos meus olhos
Ler cada um deles como se lesses um bom livro
Sonhar como se ainda fosses aquela tal criança
Vai, encosta-te a um canto de letras aos molhos
Folheia-me da vida as páginas de que me livro
Daquelas que não te cruzaram com a esperança

Se espreitares pela sombra da tua janela aberta
Entre as ramas das árvores que sós te abraçam
Vires a minha alegria perdida assim porque sim
E chorares a última lágrima que o sorriso liberta
Não te esqueças destes que um dia te sonharam
E que este amanhã nunca mais terá a cor do fim
 
Levemente (33ª Poesia de um Canalha)

Para (in)Justos (138ª Poesia de um Canalha)

 
Quão justos são os injustos
Juízes desta vida sem juízo
Bailarina de andares tristes
Pérola alva d'olhos adustos
Que aqui tinham sem aviso
Veneno de todas as pestes

E teus fanais a levar gente
Entr'os trôpegos caminhos
Que à lua adornam medos
Soltos por acaso na mente
D'alguns corpos alvarinhos
Onde se finam os segredos

Foste chão de carne e osso
Indivisível zero irrecusável
Filho do nada e quase tudo
Vício inconfesso calabouço
Eras alma de mel e teu fel
Um degredo surdo e mudo
 
Para (in)Justos (138ª Poesia de um Canalha)

Conversas Para Um Corpo Só

 
Sabes mão!
És tu quem me aplaca a dor,
O isolamento
Nesta cadeia de solidão.
Sentes o frio, o calor,
Agarras-te à vida em pensamento,

És tu quem afaga os seios,
Os olhos da mulher desejada,
Os cabelos espreguiçados ao vento.
Apertas os mais íntimos receios
Do amanhã que não tarda nada,
No bater deste coração, tão lento.

Pegas com delicadeza a flor,
A criança que daí brotou,
Vives nua, ao relento,
Abres-te na ironia do amor,
Qual asas de pássaro que voou,
Flor mãe e seu rebento.

Trocas palavras com outras mãos,
Entrelaças com nós seus dedos
Na agonia de um momento,
Na alegria de dois irmãos,
Nesta purga dos nossos medos,
Neste chão em que me sento.
 
Conversas Para Um Corpo Só

A Poesia é o Bálsamo Harmonioso da Alma

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