Espectro de consciência
Pega-me ao de leve no corpo entardecido do sol,
despe-me do laranja e do vermelho
e entorna-te sobre mim,
monocromático.
Sorve, voraz,
os alaridos da minha alma
e guarda-os em teus lábios
em penitência perene.
Apaga esse padrão repetido que me veste de dia
e desenha-me de novo, com traços convexos,
conexos ao desalinho
do tempo.
Figura-me nua
de sentimentos,
subtil
de entendimentos,
e preenche-me com a alvura inocente das gaivotas.
Sopra-me ao vento
e ganharei asas circundantes na altivez do céu,
espectro índigo que desce na bruma branca
das manhãs de Inverno.
Vera Carvalho
Hoje acordei no verde musgo dos teus olhos
Hoje acordei no verde musgo dos teus olhos
estendida sobre brancas flores
acariciada pelo vento que adormece as ervas
beijo-te os lábios de morango silvestre
e deixo que o suco ácido adoce em teu corpo
bebo-te como água que rebenta da nascente
fresca, intensa, límpida
e deixo que as mãos espalhem em meu rosto,
gotas de carícias, de beijos orvalhados
estendida sobre brancas flores
acariciada pelo vento que adormece as ervas
revolvo-me nas encostas do teu ser
e caio perdida de braços abertos,
de sorriso aceso ao sol que te contorna os lábios
e ao vento somos pétalas,
leves sombras que se unem num abraço
e difundem o perfume das margaridas
Vera Carvalho
Diz-me...
Diz-me…
como da chuva que se cola ao calor da pele
e adivinha na noite a frescura da alvorada
Diz-me…
no bulício do ar que se forma em nós
enquanto a lua guarda segredo
Diz-me com lânguidos sussurros
que a noite me espera
que o mar atraca nos suspiros largados na areia
e tu és água
e somos infusão
girando no gorgolejo das ondas
Diz-me
se é este vento que funde em gotas de brisa
o teu cheiro
e me solta este vício lúbrico em maré vermelha
Diz-me
que a noite me espera…
Vera Carvalho
Sonho alentejano
Sonho alentejano
Lembras-me
o cicio de vento que percorre
o trigal dourado.
Brando,
acompanhas o trinado fluido do rouxinol
que anuncia o entardecer
e convidas-me a dançar, por entre
o azul que se dispersa
e a luz de sol poente.
Numa singeleza descalça,
assemelho-me
à loira espiga,
ondulando ao vento
danço
envolvida na expressão de sentimentos
das palavras radiadas.
Contornas-me um sorriso no rosto e
espalhas num beijo
uma ternura de mel.
Doce embalar que me recolhe em sonho.
Vera Carvalho
Amor (-) perfeito
se em cada palavra de amor
florisse uma flor
em minha boca
eu te oferecia um ramo de acácias
seriam amarelas
especulando o sol de todos os dias
se em cada palavra de amor
eu te tomasse o mel dos lábios
e te estendesse
na suavidade do meu colo
seria doce cada memória
aspirando o enlevo dos beijos
se em cada palavra de amor
eu unisse ecos dos nossos sussurros
os espalharia ao vento
sedentos por unirem o mundo
teria criado a perfeição
Vera Carvalho
As lágrimas que me secam
Correm lágrimas desalinhadas
em meu rosto
quando, à minha direita,
vejo o vazio rebatido de tenras ervas.
Eu continuo lá
absorvida pelo rio
mas largada na margem
[amiserada pela tua ausência].
Intimida-se o vento
que ao passar por mim se esconde
no mesófilo da folha.
Murmuram os estomas
prantos que choram em uníssono
e cada gota
pesa sobre o sol .
Apaga-se o fervor
dos beijos em meus lábios,
descora-se a alma,
tranca-se a vida.
Escorre a saudade em lama
neste rio,
manchando de negro as bordas do corpo
que racham
em estilhaços
ao passar do tempo.
Sangram memórias
no reflexo da imagem
que escondes do céu
e entorno-as novamente sobre ti
[na esperança que algo de mim sobreviva].
Vera Carvalho
Sede
A língua atrai e retrai-se
aos conjuros da sede.
Ah!!! Pecado foi beber-te
e não caberes dentro de mim!
Vera Carvalho
Querer mais que vontade
É olhando a linha que nos separa
que a vontade sedenta morde o teu vulto
sou víbora airada, alucinada pelo teu odor
trespasso, invado e domino-te os contornos
do teu colo avançam os dedos fingindo delicadeza
lentos e atilados acautelam-me os sentidos
serás presa dócil, submissa desfrutando da iguaria
acorrentado o teu corpo oscila
em júbilo do ardor da mordida acérrima
num sopro gemido contestas a tua oportunidade
falhada, proibida.
Sou víbora airada, sem vénia, sem permissão, sem restrição
Vera Carvalho
Será tua esta praia?
Serão tuas as lágrimas
que o mar expulsa e me devolve ao rosto?
Será teu o lamento do marejar das ondas
que me cinge os lábios ao sabor salgado?
Será teu o calor dos penedos macios
que me repousam o corpo?
Será tua a memória espelhada na bruma
que me turva e me comove a alma?
Serás tu que roubas meu nome d’areia
e me unes a ti (terra ao mar )?
Ou
Serás tu o barco, o enigma, o corsário
que me lança ao mar e se afunda em mim?
Vera Carvalho
Partida
há uma visão repetida
retida
na concavidade da minha retina
e há lágrimas que se juntam
à neblina da manhã
há o pulsar trémulo nos dedos da mão
e um bramido contido
que acelera a baqueta do coração
há a verdade gélida
nua
acinética
e a tua partida entornada no vinho
que verte de minha boca
ainda
céptica
há um ímpeto amargo
e um rasgo incisivo na maciez da seda
que me perfura o ouvido
e me faz cair
pena
fica a vontade de partir
contigo
Vera Carvalho