Luz
Cruzo-te em meus braços!
Peito contra peito,
absorvo o teu cansaço...
Prelúdio do entardecer...!
Bocejas num sorriso
a densidade do mundo...
...e beijo-te...
...e chamo-te...
Chamo-te de meu amor.
Chamo-te de pai!
Afagas-me no teu olhar
e nele leio que está a anoitecer....
Cremilde
2009
Douro
Douro
De ouro és por torrentes bronzeado,
Rio de choro, cantos, risos, gargalhadas,
Suores e lágrimas em xisto embriagadas,
Das tuas gentes com vidas recalcadas!
Roliças sedas e longas vindimadas,
Por generoso "Baco" férteis, fecundadas,
Rasgas o hálito rubro no cristal,
Com o delírio das margens contornadas!
Pincelo d'oiro tuas águas salteadas,
Por arrojadas fragas suportadas,
Consomes o fascínio da luxúria,
Beijas colinas de socalcos cobiçadas!
Em singelos, frágeis e místicos "Rabelos",
No teu leito em sobressaltos me deleito,
Por entre vales e escarpas abraçados,
Sorvendo a fonte dourada do teu peito!
Brotais do ventre a corrente adocicada,
Deusas de ouro em lama fustigadas,
Jorrais de esperança a longa caminhada,
A cor da vida em verdes madrugadas!
Cremilde
2009
Esquecidos...
Esquecidos…
Numa avalanche temporal,
desafio a gravidade…
Aperto a noite,
sombria de silêncio…
Afago ecos espelhados,
onde o som refracta
a dor e a ansiedade!
Imperfeita de egoísmo,
derreto o medo gélido dos dias,
embriagados pelo suor do tempo!
Casta, a perfeita solidão!...
Penso em mim!...
Da assimetria constante
do carpidar dos dias,
solvo indulgente
minha musa… minha sinfonia!
Enquanto ecoam
por ravinas destroçados,
os sonhos reprimidos,
os desejos incontidos,
a fome insaciável,
os dias não vividos,
daqueles que serenamente,
sucumbem distintos
à lei da Humanidade!
... de "Um grito de Silêncio"...
Cremilde
2009
Retrato de um Eu
Retrato de um Eu
De ouvidos e vozes
sem luz e razão
de ofertas ferozes!
Ignoto e desnudo,
fronteira, prisão,
deserto maduro!
Fervido que foi
no mosto do tempo,
Aguarela cinzenta...
moinho de vento!
Um eu recalcado
sedento de luz…
Espiga de trigo
que à vida conduz…!
Cremilde
2009
Folha de papel
Folha de Papel
Eu quero uma folha branca,
sedenta de amor e verdade,
sombras de uma caminhada,
pinceladas de saudade...
O papel ficou molhado,
cansado de ingratidão,
foram lágrimas sentidas,
dias, horas, solidão!...
E mais de mim não sei,
folha branca espezinhada...
E mais de mim não dei,
folha branca que pintei...
E mais de mim não vi,
folha branca que perdi...
Eu quero esta folha branca,
de papel amarrotado,
que do chão já apanhei
para esquecer o passado!...
E mais de mim não tenho,
folha branca...amarelada,
com a cor do meu silêncio,
não a quero amarfanhada!...
E mais de mim... eu quero!
Cremilde
2009
Doce
Doce
Sussurras ternamente,
os meus sonhos...ao ouvido...
Doces...
como a rosa...
que pétala a pétala
secou em mim...!
Cúmplices...
Num silêncio de desejo...
Num testemunho de paixão...
Agarramos o infinito...!
Olhamo-nos...
Vemo-nos...
Lemo-nos...
Tocamo-nos...
Queremo-nos...
Sentimos que somos!
Sentimos que estamos!
Sentimos...
Sentimos que nos queremos!
Cremilde
2010
Prostituta
Prostituta
A ti prostituta eu chamo:
-Minha irmã de berço!
A ti prostituta eu chamo:
-Mulher sem endereço!
Tu que podias ser eu,
numa cama sem lugar,
numa viela sem rua,
numa tarde de esperar!
Tu que tomas nos braços
talvez o homem que eu amo
e sem o troco do amor
mendigas num soluçar!...
A ti prostituta eu chamo:
-Vem!...sai da tua janela!
cansa-te de esperar!
Olha a força dos teus braços,
ainda podem trabalhar!
A ti prostituta...eu chamo!
Cremilde
(escrito em 1975)
2009
Fragmentos
De … “Um Grito de Silêncio”…
( fragmentos…)
…Foi destino meu levar,
Em pedaços e fragmentos,
O sofrimento de tantos
Para outros sensibilizar…
De barro feitos os moldes,
Tão frágeis como os reais,
Densa e incógnita ausência,
Da vida em seus pedestais.
Cruel como “eles” o sabem,
Cruel como "eles" o vivem,
Vagueiam humildes, discretos,
Sem um ai, sem um queixume…
Alguns já se partiram,
De frágil que é a matéria…
Como frágeis são as vidas
Na inércia da miséria…
Transformo os meus modelos
Em bronze e belos metais,
Serpenteados com cores,
Exponho os luxos mortais.
A verdade “real” e “crua”
Dos vivos árida a terra,
Olhos húmidos, toda nua…
Devassa e mórbida a “Guerra”!...
Cremilde
2009
Natureza
Natureza
Gritam as serranias
e os ecos diluem-se em fragas distintas.
Sopram os ventos nas suas entranhas
e amortecem em ondas de encantamento.
Brilha o sol nos labirintos dos penhascos
e céleres se prostam as suas cercanias.
Relâmpagos disfrutam com estrondosa guilhotina
de todo o vale possuído de encantamento...
e brotam as águas das fragas mais profundas,
emergindo em rios de vida, de esperança!...
Funde-se a razão!... Nasce o verbo!
Cremilde
2009
Herança
Herança
Nos teus braços fortes,
deste-me a segurança,
no teu abraço meigo,
a doçura do amor.
Cantavas melodias inventadas,
com carinho, para me embalar.
Hoje teus olhos brilham
ao ouvir-me falar,
como se fosse sempre
uma primeira vez…
Tua mão trémula procura o meu rosto,
que afagas e encostas ao teu peito.
As flores que me deste
já não têm jardim…
As histórias que me contaste
guardo-as no meu baú,
embrulhadinhas em ouro.
São parte do meu tesouro,
o maior que me pudeste dar!...
O meu peito reclama revolto
a condição do teu estar…
O teu amor…
A tua resignação…
É mais um ensinamento,
uma doação,
uma herança
do teu grande amor!
Aquilo que tu foste e és,
aquilo que eu guardo e reparto
como tu me ensinaste,
como tu me deste,
toda essa riqueza
de dar, amar, perdoar!
Esta é a maior herança...
o que faz de mim mulher!
Amo-te muito meu querido pai!
Cremilde
2009