Entrudo

Poemas sobre o entrudo

Quando despir a veste que me liga a este mundo...

 
Quando despir a veste que me liga a este mundo...
 
Quando eu despir a veste que me liga a este mundo,
Não haverá quem me recorde, nem ruirá uma metrópole,
Serei mais um túmulo, serei passado, serei eu, mudo
E as pessoas rindo, como sempre fazem, no funeral

De um ente seu, que se perdeu, perdeu a fé e a veste…
Não mais poderei contar-lhes eu da viagem
Que podem fazer, do prazer em viajar de paquete,
Contar-lhe como era…ou seria, se viessem…

A delegação fica mesmo ali, ao fundo dum jardim,
Depois d’um arco pequeno e num portão ao lado,
Entra-se numa ala desolada, de aspeto ruim,
Um cais e um barco, transversalmente atracado,

(Pois assim é que o imagino), a onda a quebrar-se
E o apito forte antes que o sol acabe
E a luz que acende o convés e o som maquinal que cresce,
Consciente de ter no coração o que na terra não coube…

Quando eu despir a veste que me liga a este mundo,
Pousarei a capa e não me importarei que minha roupa vista,
Qualquer homem comum, durante o entrudo,
Porque o meu desejo é ficar sozinho e nu, despido de ponta a ponta,

Pra que a fantasia, não tenha com que se cobrir
E continue a navegar nua, por aí, à toa…

Joel Matos (02/2013)
http://namastibetpoems.blogspot.com
 
Quando despir a veste que me liga a este mundo...

Carnaval ou Bacanal?

 
Carnaval ou Bacanal?
 
Carnaval ou Bacanal?
by Betha Mendonça

No dicionário:

bacanal
do Lat. bacchanale
s. m.,
festim dissoluto;
devassidão;
(no pl. ) festas em honra de Baco (grafado com inicial maiúscula);
adj. 2 gén.,
crapuloso, orgíaco.

Carnaval
do It. carnevale
s. m.,
tempo de folia que precede a Quarta-feira de Cinzas;folguedo;orgia; entrudo.

Muitos brasileiros ficam de bico quando no exterior ligam o Brasil à devassidão, mulheres fáceis e vulgares, prostituição e tido tipo de permissividade.

Pergunto eu: como essa imagem foi produzida? Respondo eu: basta ver os folhetos de turismo, os comerciais que vão de carros a cervejas e até aqueles para produtos destinados ao público infantil. A grande maioria tem sempre uma mulher com um devote que vai até o umbigo ou uma minissaia que mal cobre um rechonchudo bumbum rebolante.

Hoje ao folhear os jornais e ler sobre o Carnaval, parecia que eu estava a ver revistas de mulheres peladas. Peitos siliconados da todas as formas e tamanhos, que no samba nem balançam de tão empinados.Comissões-de-frente com minúsculos tapas-sexo (se é que não são só pinturas!) e retaguardas sem absolutamente nada nem o démodé fio-dental.

Atrás dos Trios Elétricos multidões de adolescentes, jovens e adultos na maior “pegação”. Há quem beije mais de 50 pessoas diferentes em um só circuito.

Um telejornal exibiu reportagem sobre meninas de 5 a 8 anos que “estudam” nas Escolas de Samba e desde cedo aprendem a ser passistas. Estavam vestidas com trajes sumários e rebolando de modo extremamente sensual como as suas “professoras”.

Eu disse meninas de 5 a 8 anos!Isso no tempo em que os pedófilos nunca estiveram em tanta atividade como hoje. Em época que abusos sexuais, prostituição infantil e tráfico de crianças com fins sexuais estão em alta.

Com tristeza reflito: os estrangeiros têm mesmo uma visão deturpada do Brasil ou essa imagem somos nós que criamos e passamos?

O Carnaval é sob o ponto de vista econômico muito lucrativo para nosso país. Gera incalculáveis empregos temporários diretos ou indiretos, trás fabulosas divisas com o turismo para todos os estados da Federação. Mas, as cinzas depois da quarta-feira, espalham-se e emporcalham nossa imagem o resto do ano.

(republicação)
 
Carnaval ou Bacanal?

DIA INTERNACIONAL DISTO E DAQUILO

 
Passamos o ano a festejar isto e aquilo.

Hoje festeja-se o dia mundial da terra, depois outro dia será o dia mundial de poesia,, começa-se por festejar o Ano Novo que em principio nada de novo nos trás a não ser como o ano passado que nos trouxe mais uma crise, depois festeja-se o Entrudo, depois a Páscoa, depois o Primeiro de Maio vem ainda o Dia de Todos os Santos, (para homenagear aqueles que partiram, mas por vezes os que homenageiem estão bem contentes com a sua desaparição) depois Natal.

Entretanto há o Dia da Mãe do Pai, da Avó, Da Criança pois é, só se lembram delas uma vez por ano e um dia vamos festejar o dia dos primos, dos sobrinhos dos tios e viva o comércio.

Para quando o Dia Internacional da Miséria, Da Fome, Dos sem Abrigo das Crianças Abandonadas? Destes ninguém se lembra ou fazem o possível por esquecer, por não ver, enquanto se pagam fortunas para ver dar uns maus pontapés numa bela.
È assim o Mundo, Dêem ao Povo Futebol Missa Fado Samba e verão a Miséria se divertir, enquanto tiverem tudo isto, esquecem-se do mundo que os envolve.

Viva um Mundo Livre, Viva um Mundo em Paz, viva um Mundo sem miséria.

A. da fonseca
 
DIA INTERNACIONAL DISTO E DAQUILO

PACHA MAMA - a mãe Terra

 
PACHA MAMA – a mãe Terra

introito
I
Pelas terras do Peru
Ouvi cantos de ternura
D'uma gente que procura
Com sentimento nu
Acarinhar a Natura.

II
Tem por milenar cultura
Saciar a fome que clama:
Para cada verde rama
A Terra, sã sepultura,
Seu alimento reclama.

III
Ai ai ai ai, Pacha Mama!
Cerca d'esta encruzilhada
Começa a longa jornada
Rumo a terra cuja fama
Desde os Incas recordada.

IV
A terra onde é celebrada
A Pacha Mama, a mãe Terra!
Onde na paz ou na guerra
Antes de seguir estrada
Dons n'uma cova se enterra.

V
Quem de longe se desterra
Deixa à Terra como prenda:
Oferta ao início da senda
Que serpenteia pela Serra
Até chegar onde entenda.

invocação a Pacha Mama
VI
-- "Recebe, oh Mãe, a oferenda
Que em minhas mãos te consagro:
Coca, yicta, vinho e pão magro!
E que cada humano aprenda
Em cada grão um milagro!..."

VII
"Corre nas chuvas o almagro
-- Sangue da terra p'lo chão --
Fertilizando o rincão
Onde só a lhama e o onagro
Têm conosco habitação."

VIII
"Traz ao nosso coração
A abundância do altiplano!
E faz alegre o paisano
Que em teus filhos um irmão
Mire eu sem qualquer engano "

IX
"Urge um amor soberano
D'entre teu ventre materno,
Que vença as neves do inverno
E renove, ano após ano,
Da vida seu ciclo eterno."

lamento cusquenho
X
"Quem fez o quéchua tão terno,
Os homens fez mais risonhos.
Nos cerros frios, os sonhos
Têm dado aos poetas governo
Mesmo que em tempos bisonhos...

XI
Assim escrevem tardonhos
Com versos de nostalgia
Tanta e tão vária alegria
Que mesmo uns olhos tristonhos
Logram enxergar fantasia.

XII
Com as lentes da poesia
Mundos d'aquém e d'além
Indistintos eles veem
A festejar noite e dia
Nas horas de Deus-amém!

XIII
Como nos Andes convém,
Eu mascava yicta com coca
Face à voluta barroca
Que alta arquitrave sustém
E a luz de antigos evoca.

XIV
Flautas na ruas se toca
Pela cidade de Cusco...
São melodias que busco
Aos versos de minha boca,
Nas sombras do lusco-fusco.

XV
Têm um compassado brusco
Havido com arte e engenho,
Que enchem o ar onde desdenho
O espírito tão patusco
D'esse lamento cusquenho.

na trilha dos Incas
XVI
-- "Alto voa! Alma que tenho,
Como os volteios do condor!
Voa mais que o cerro maior
Até terras d'onde venho
Onde deixei vida e amor."

XVII
"Onde deixei o melhor
Que tenho dentro de mim...
Só e inopinado eu vim
Às alturas em redor
A me exigir outro fim.

XVIII
"Vós-outros que amais enfim
Os cantos que antanho fiz,
Ouvi este que vos diz
Das mazelas do confim
Por um dia mais feliz."

XIX
"Perdoai se parecem vis
Ou obscuros estes meus cantos
Que me guiem vossos pés santos
Pelas alturas do país
Aos mais remotos recantos."

XX
"Para andar tantos encantos
Nas trilhas da Cordilheira
Convém, de qualquer maneira,
Antes rezar acalantos
À sombra d'uma figueira"...

XXI
"Do altiplano alta fronteira,
As serranias nevadas
Se estendem pelas estradas
Subindo íngreme ladeira
Através de frias geadas."

XXII
"Junto a profundas quebradas
Anda quem de Cusco sai
E a Machu Pichu se vai
Para dos Incas pegadas
Seguir seja filho ou pai."

XXIII
"Àquele que anda não trai
Pacha Mama, muito embora
Os perigos de cada hora
Ou da névoa que ali cai
E ao caminheiro apavora."

XXIV
"Quase ancestral eis-me agora,
Religado à Terra e ao Céu.
Enquanto do cerro o véu
Logo dissipava a aurora
Que me acompanha o tropel."

XXV
"Paro para no papel
Pôr este caminho em versos,
Recolhendo-me os dispersos
Cantares tidos ao léu
N'este e n'outros universos!"

XXVI
"Lá, era como se imersos
Eu e Deus pela neblina
A ver a que se destina
A vida ainda que inversos
Os dons por sobre a colina."

XXVII
"Deitado em verde campina.
Contemplo o céu mais azul
Que na América do Sul
Se revela após chuva fina
E de chafurdar n'um paul..."

XXVIII
"Lá, no folguedo tribul,
Bailando o Carnavalito
De Pacha Mama o bom rito
Com veste alegre e taful
Celebram para o Infinito."

carnavalito da quebrada
XXIX
O canto humahuaquenhito
Ecoa pelo penhasco!
Festeja esse povo o fiasco
Da morte no alegre grito
Que afasta o olhar do carrasco.

XXX
Assam cordeiros, churrasco,
E se embebedam de chicha.
Lembram do Caludo a rixa
Enquanto com bromas e asco
Desenterravam a bicha!

XXXI
Sem embargo, se azevicha
O boneco d'este diabo
Sempre mais sujo no rabo...
Rastejante lagartixa
Fingindo-se bicho brabo!

XXXII
Enterram, ao fim e ao cabo,
Chamando a celebração
"Domingo de Tentação",
Quando qual cova de nabo
D'ele fazem a doação:

XXXIII
À Pacha Mama enfim dão
No boneco do Caludo
A oferenda e, sobretudo,
Rogam por volver então
Ano que vem a este entrudo.

XXXIV
Bailam e bebem. Contudo,
Alimentam a mãe Terra:
Na cova também se enterra
Da festa um pouco de tudo
E da alegria algo encerra...

grileiros, garimpeiros e ladrões
XXXV
Mas na quebrada da serra
Os ecos d’aquela festa
Vêm aos povos da floresta
Com alaridos de guerra
Contra outra gente molesta.

XXXVI
A derrubar quanto resta,
Da sul-ocidental Hileia...
Na insustentável ideia
Que quase ninguém contesta
Desde a invasão européia.

XXXVII
Uma infeliz verborreia
Que exaltando o Capital
Acima de bem e mal
Como se entidade ateia
De religião racional.

XXXVIII
Onde uma piramidal
Sociedade se sustenta
D'essa riqueza nojenta
Mas inútil se, afinal,
Jamais a todos contenta.

XXXIX
Ao contrário, se apresenta
Como extrema rapinagem,
Que exaure toda a paisagem
E com fúria ultraviolenta
As matas viram pastagem.

XL
Os tesouros da pilhagem
Levam embora deixando
Só miséria e doença quando
O solo exposto à grilagem
Maninho fica esperando...

XLI
Após a floresta arrancando
Seca após seca castiga
A terra que agora abriga
O vazio mais nefando
No lugar da selva antiga.

XLII
Como se fosse inimiga
De tudo o que é bom e belo
Gente que vem no atropelo
Tem co’a Terra eterna briga
D’ela sendo o pior flagelo.

XLIII
Hoje, eu ainda desvelo
Sobre os versos que componho
Quando da fortuna o sonho
Fez terrível pesadelo
E este deserto medonho...

XLIV
Eu ergo os olhos, tristonho,
E contemplo ressequida
A terra antes cheia de vida.
Mas com Pacha Mama sonho,
Rogando alguma saída.

XLV
Se dos Andes a subida
A imaginação transporta
É porque na terra morta
Onde habito está perdida
Toda a luz que me conforta.

XLVI
E tudo que ainda importa
É reduzido a dinheiro...
Teme-se que o mundo inteiro
Por esta via tão torta
Deixe a todos sem sendeiro.

XLVII
E que o valor verdadeiro
Que têm as coisas para o homem
Se veja só quando somem:
Águas que havia de primeiro
Os sóis faiscantes consomem...

XLVIII
Por isso da Terra o abdômen
Ora faminto e sedento
Não gera mais o rebento
Tampouco folhas que tomem
Mais humidade ao relento.

XLIX
Por sob asfalto e cimento
Pacha Mama jaz inerte...
Ainda que em vão eu oferte
Sementes, versos e alento
Talvez o mal não conserte.

L
Rogo a que logo desperte
Após a estação das águas.
E cure todas as mágoas
Por tanta busca solerte
Em tão ardorosas fráguas:

clamor das terras baixas
LI
--“Com novos dosséis e anáguas,
Vem revestir de arvoredos
De novo os planaltos ledos
E o baixio onde deságuas
Os rios com seus segredos.”

LII
“Vem nos livrar d’estes medos
Que têm nos amargurado
Ao buscar do modo errado
De Deus meros arremedos
Em barras de ouro moldado.”

LIII
“Vem lavar tanto pecado
Contra todas as criaturas
E torna de novo puras
Como foram no passado
As almas que tu seguras.”

LIV
“Vem, Pacha Mama, por juras
De novas preces humanas
Trazer a estas terras planas
O mesmo amor que perduras
Nas terras altas peruanas.”

seca na Amazônia sul-ocidental
LV
Estradas interioranas
Seguindo sertões por rumo,
Muitas colunas de fumo
De queimadas nas savanas
Se elevam aos céus sem prumo.

LVI
E depois, calcinado o humo
Só tocos e cupinzais...
Mais pastos, cercas, currais
E lenhas para o consumo
De carvoarias demais!

LVII
Lá, de Pacha Mama os ais
Se escuta por toda a parte...
Onde a terra se reparte
Sobre antigos seringais
Sem que a mão do homem se farte!...

LVIII
Lá, sem beleza e sem arte,
Léguas e léguas cinzentas...
Que d'estas vilas poeirentas
Esconde o céu e, destarte,
A lua e as estrelas lentas...

LIX
Entardeceres magentas
Reluzindo mil fogueiras...
Ardem florestas inteiras
E queimam ultraviolentas
Sumaúmas, castanheiras!

LX
Nada resta das jaqueiras;
Tampouco jacarandás...
Apenas pastagens más
E colonhões nas ladeiras
Com boiadas pastando atrás.

LXI
Do inferno o calor que faz!...
Sem a humidade da mata,
O fogo incêndios desata
E só mais tristeza traz
Enquanto tudo desmata.

LXII
Sobre gente tão ingrata,
Pacha Mama não sorri...
Pois nada mais cresce ali
E a chuva, pouca e sem data,
Como antes nunca mais vi...

LXIII
Tantas terras conheci
Pelo Brasil iguais a esta...
Terras onde alta floresta
A ferro e fogo perdi
Nem pasto ralo ali presta.

LXIV
Ao solo o sol tanto cresta,
Que mais ninguém a semear!
Grandes roças por plantar
A pouca água que nos resta
Vão nos açudes tirar.

LXV
Se a vida não tem lugar,
Pacha Mama silencia...
Resta uma terra baldia
E os homens a penar
Sua existência vazia.

epílogo
LXVI
"Oh doce Mãe, tu que um dia
Nos geraste de teu barro,
Recebe este humilde jarro
Como oferta de alegria;
D'esperança a que me agarro."

LXVII
"Este é um tempo bizarro
No qual de tudo se explora.
A imagem à mente apavora...
Soluço, solto um pigarro
E escondo um rosto que chora."

LXVIII
"As águas se vão embora
Porque tu, Mãe, te ressentes
D'estas matas florescentes
Que tu já não vês agora
Pois das planícies ausentes.”

LXIX
"Mãe, guarda as tuas sementes
Como um tesouro oculto
Até que esse povo estulto
Se liberte das correntes
Em meio a eterno tumulto.”

LXX
“Mãe, que em teu ventre sepulto
Esteja a árvore futura
Até que cresça segura
Sem mais o molesto insulto
Que hoje tanto lhe figura.”

LXXI
“Recebe, Mãe, com ternura
Esta confusa oração,
Feita de só comoção
Diante de tanta amargura
Que me sangra o coração.”

LXXII
“Mãe, abençoa este chão
Com folhas, flores e frutos.
E no labor dos produtos
Dá-nos, Mãe, o teu perdão
Aos olhos de novo enxutos.”

LXXIII
“E que enfim os usufrutos
Que fazemos de ti, Terra,
Guardem a vida que encerra
Teus desejos resolutos
Pelas quebradas da serra.”

Belo Horizonte – 19 09 2016
 
PACHA MAMA - a mãe Terra

As revoluções são meninos que quando crescem, adoecem

 
Tremendo remendo, o que rebentou com estrondo na boca mais rouca de que a história tem memória. Não é coisa pouca ou pequena. É até mais do que terrena, quando se pavoneia de peito feito e passeia o elegante estreito.
Ora, o garbo que te toma por parvo é engodo que se engole todo, como se de um remédio desertasse numa arremetida de tédio sem ser cura para alguma coisa que se desconhece mole ou dura. É da doença de sacanice que se enche a dorna. É pús em fermentação morna que enraba a meninice. É essa maleita insidiosa que fina e deita ao chão a inocência mais generosa.
Incólume. Assim vai passando o volume acetinado e rugoso da derme sobrevivente, que infecta de toque aleitado pertença de qualquer dengoso mimado.
E eis que o tribunal pára para o tribuno. Lá vai ele falando e falando e falando, de limpo punhal empunhado sem nunca o tirar da baínha. O justo, esse, cala-se tal busto poisado no poial da entrada de uma porta que nunca abre.
Urge perceber se surge uma nova ordem. Talvez! Promete-se... um dia destes. Qual ordem? Qual não se sabe. Igual não cabe. Enfim, morre sempre a que nasce.
No final esquece-se e faz-se outra vez porque tudo passa por veludo e no fundo aproxima-se sempre do entrudo.
Fica só a dor na alma de quem se lembra.

Valdevinoxis
 
As revoluções são meninos que quando crescem, adoecem

quarta-feira (de cinzas) - (parte iv)

 
passaram por mim
as três estações
contemplo agora
nas paredes do meu sonho
as telas onde tu
um dia surgiste

és um branco invisível
acariciado pela neve
onde o sol
por entre ramos de árvores
tenta iluminar o teu reflexo

e eu queria tanto deitar
a tua insustentável nudez
no colo da sombra deste amar
de quão frágil solidez

a neve aquece certamente
e a sua água correrá fluente
da nascente da tua imagem

o teu corpo
é levado pelos rios
de outra
primavera verão ou outono
assim como sucede
aos fins dos dias do entrudo
(tantos como as três estações)

ó quisera eu ter sido brincadeira
deste carnaval
as telas pintadas à minha maneira
mas tudo me correu mal...

começa hoje a quaresma
vou procurar redenções
para a minha pecadora alma
deste meu desejo carnal

enterro agora a tua gravura
e não alimento mais recordações

só esta estação de inverno
com o seu intenso frio
ainda não terminou

tudo o resto acabou
o carnaval em fim de dias
e as minhas quatro poesias

em quarta-feira (de cinzas)

Devido as imagens poderem ter conteúdos suscetíveis de ferir sensibilidades as mesmas não foram publicadas. poderá ver o poema com a respetiva imagem em http://afacedossentidos.blogspot.pt/
 
quarta-feira (de cinzas) - (parte iv)

Onde os segredos ganham forma

 
 
A noite neste lado da serra é uma noite inquieta, uma noite sofredora pelos ventos que carregou em vida. É somente uma noite através da única luz reflectida dos momentos que ainda sobrevivem de outras noites. Esta é agora a minha noite. Tenho-a inteira sobre os meus olhos, apesar dos pingos de chuva que se ouvem cair nas pedras da calçada.
(Gostava do tempo que me fazia percorrê-la e senti-la sempre uma nova calçada nos meus pés imaculados, pelo toque de mãos virgens cálidas, e sem norte).

A neve que escorre do único talegre, que se avista ao longe por entre as serranias, é o indício de que novas divindades descerão dos céus. Contudo, a noite sofre pelos tempos idos e não tidos na sua fronte decepada, nos longos caminhos que percorreu em vida, e o dia, esse não lhe dá tréguas e traz sempre em todas as manhãs, um novo formato, de como deixar de ser noite, para passar a ser um posto erguido nas fronteiras onde os segredos ganham forma. (Os entrudos esperam por todas as páscoas, para nos lembrar que os moribundos descem das encostas, quando Dezembro é em todos os Natais, a força que nasce em cada dia. Enquanto isso, em cada rosto aguarda-se o dia certo, para ser mais um corpo na montanha, espera-se por um novo mundo que renove todos os olhares e pelo resgate da humanidade enquanto força una, num único Universo, onde os duendes ainda têm olhos e as forças contidas num rosto cativo, ainda trazem as lembranças de quando se faz tarde num rosto inocente.

Caminho sobre a noite, mas ela é o silêncio de todos os meus passos, de todas as lembranças que trago de outras noites, onde as luzes dos candeeiros se apagam sempre á mesma hora. É lá que me dispo de um corpo que me é o inverso. Tenho nos olhos a doce figura de uma lembrança de outros tempos, mas não posso ficar indiferente à transfiguração humana que carrego, desde que a vida se transforma a cada passo que dou, na calçada que me descobre os novos passos.
 
Onde os segredos ganham forma

Entrudo

 
Hoje mascarei-me de lugar comum
e nessa mesma máscara que vesti,
fraca d`adereços, fui apenas mais um
desigual a muitos que por aí vi.

Se comentário houve algum,
até agora ainda não o ouvi,
apenas sorrisos, pouco jejum,
tantos quantos eu próprio sorri.

Porque a vida é pequena
e como muitos, eu pago impostos,
pago os sorrisos, que valem a pena!

Vamos lá, hoje estamos a postos,
que nesta alegria serena
não há lugar a desgostos sobrepostos!
 
Entrudo

NENHUM POEMA PARA ESCREVER

 
Quando não tenho nada para escrever, numa brancura cinzel e total da alma,
Partindo do princípio que tenho alma, de que é louca e que precisa ser dividida,
Sento-me no lado de lá do infinito onde os vaga-lumes do tempo
Insuflam de inspirações os sonhos turbulentos ou vazios.
Então vejo estandartes… São os eternos guerrilheiros de todas as gerações…
Astros… Pedaços de Néon neolíticos entram pelos meus olhos aos trambolhões…
Acredito então que somos pioneiros de uma batalha qualquer
Muito antes de S. Mamede ter sido ganha a um Rei de Leão e Castela aflito!

Sobressaem das armaduras resplandecentes de medievais batalhas nas fotos cibernéticas
De cavalos e espadas, arcos e flechas, garfos empunhados ao céu com valentia
O grito vibrante de vitória, de um lado e do outro lado, numa reminiscência de Pirro
Pelo efémero território na infinita vida porque a terra à terra pertence e nada mais!

Ou então a marca de um rolo de neblina e canto a acenar num palco de eucaliptos
Oradores e columbinas, num corso triunfal de Entrudo
Convictos de que a grandeza espiritual consiste na erudição filosófica do olhar pensado
Ou na simplicidade da palavra escrita…
Aplaudo tolos… Sapateio normais… Concluo que uns e outros rasgam a teoria
De que “quem vive empoleirado nos galhos das árvores são os pardais”!

Enquanto o homem de lata percorre a meta da ilusão um Vizir monta a tenda de pano
Num deserto metropolitano cosmopolita à medida de serpentes e escorpiões
Para apresentar ao público um Merlin pré-histórico!
Senta-se ao lado do João Ratão a Gata Borralheira no banco corrido de madeira!
Saem os operários cansados e esfomeados das fábricas modernas
Empunhando um dicionário de penosas asneiras
Com que rotulam a precariedade da venda do único serviço que sabem prestar!
Um pomposo poema de facadas no peito é declamado nas tabernas…

Continuo serenamente no alto da minha nuvem de ilusão…
Deprimido entre gargalhadas e pasmados encantos
Distribuindo boas vontades a quem passa a não sei quantos quilómetros luz…!
Assim como um Francisco Xavier que é São por não ter bebido nada mais
Que o bom tinto escapulido do barril por uma torneira de madeira
Ou como quem apregoa um Cristo branco aos negros nativos escravos
E espera a vinda de um Francisco de Assis do Brasil com crucifixo e tudo!

Já as Tágides se levantam diante de tanto horror!
O Olimpo estremece ante tão linear fascinação!
Numa torre de Ceuta espero El-Rei diante de um televisor portátil colorido
Que me dá notícias do ano três mil e tal…
(Pensava que tivesse vivido até ali…)!
Afinal descobri que mais umas encarnações
Transportam a alma pela canalização das frustrações
Do martelo de cálcio dentro do ouvido!

Vai longa a retórica… Mas a minha nuvem não pára
Nem quando lhe grito que nada tenho a dizer e que isto nem sequer é um poema!
- Pior…! Um bonito poema…!
Responde-me: - Poema bonito? Que é isso?
Daquele que são feitos de lindas palavras e brincos nas orelhas
Quando à falta de açorda acompanham-se com chouriço assado?!
- Ah! Está bem… Compreendo… É isso!

Se um mão errante destranca do cérebro o travão da imaginação e
Engata a embraiagem de um motor sem nexo pela escarpa do desejo
Logo sou absorvido pelo grito ruidoso duma oração ao egoísmo…
Aparece-me então a folha de um calendário a falar de um Maio sem flores
Quando os operários exigiram condições dignas de trabalho
Que não rimam com nenhuma palavra ou verso que conheço…
Fico triste… Fico com a amarga sensação de que isso nem sequer é poesia…!
Ah! Agora me lembro… A poesia precisa de amor…!

Sem o teu corpo gostoso
Sem o teu cheiro formoso
A minha vida era um precipício
Auspicioso…?

Tu és o meu vício
De longas roupagens vestido
Sou aquele que te ama
E que diz que faz palavrões
Para lá do próprio amor
Para lá do próprio sentido…

És tudo o que quero
No meu mundo colorido!

Isto já é um poema!

O paroxismo da estupidez forquilha o executor e o juiz
Reclama o direito à sentença que não proferiu por inoportunidade…
- Não quis!

Afinal na minha nuvem há sempre uma luz
Que me guia não sei bem para onde nem por onde…
Neste patamar sem escadaria atropelo-me no excesso de velocidade
Do cérebro que viaja por jardins por mim plantados e flores plásticas
Onde estendo a mão ao mundo e recolho tudo quanto dei…

Agora que falei de amor,
Que resta deste projecto malquisto de poema que não consegue ser mais
Que um misto de palavras atiradas a um pedaço de papel pautado?!
Qualquer um pode escrever o que lhe apetecer…
Hoje escrevo com tinta azul de fel amuado…!

Terminou.
Apetece-me sentar num banco sobre o mundo a assistir ao Ómega
Da universidade “Portugal dos Pequeninos” em banda desenhada
Contemplar as grandes obras da humanidade em episódios…!
Mais para perpetuar a palavra de um nome, dizer que existiu, que vi sem ver,
Do que a retirar da obra alguma verdade ou motivo…
Hoje exibem calças e cuecas… Outrora esculturas em pedra…
Enfim, cada sociedade escolhe a sua passerelle…!
A minha existe no esvoaçar do cabelo ao vento e das ideias…
Vaidade!
Vaidade é forjar a ferradura numa alcova de estrume
E esperar que a mula gaste os cascos a caminhar!

Este poema nem é labareda nem lume… Não cala nem grita!
Tão pouco vive da certeza de que o possam definir como poema
Ou ideia solta de uma paranóia qualquer à mesa de um café
Que ainda não consegui entender… Nem sequer a nuvem…

Ah! Faltam as evocações sagradas dos Alás à hora do chá e chinelos à porta…!
Ou a coroa de espinhos dos Cristos nas cruzes mais as benzeduras das comadres…!
Quem me dera um Zeus…! Pelo menos não chateia!
Ainda tenho a vantagem de lhe chamar avestruz…
Avestruz? O que importa é ser-se pássaro!
Assim podem chegar à minha nuvem sem cair
Apreciar no dorso da avestruz a minha insana loucura
E depois rir…

António Casado
 
NENHUM POEMA PARA ESCREVER

A máscara...

 
Não gosto do Carnaval!
Ou Entrudo
Como lhe queiram chamar…
Ainda assim
Atrevo-me a usar
Esta máscara...
Dizem que me serve
Que me assenta como uma luva
Talvez tenham razão
Pois é quase tão transparente
Como a alma espelhada
No rosto de quem a usa…
Não assusta
E não pretende
Enganar ninguém
Nem tão pouco
Prejudicar
Como outras que andam aí…
Gosto dela
E serve-me tão bem!...
Por isso
Vou usá-la
Neste Carnaval!
 
A máscara...