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Poemas, frases e mensagens de Rogério Beça

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de Rogério Beça

Agora não são horas

 
Há quem diga que há uma hora para tudo:
para amarguras e sorrisos,
para avanços e recuos,
para euforias e amuos,
para silêncios e avisos,
para ignorância e para estudo.

Há hora para poesia,
coisa rica e fluente
outras vezes pobre e demente
baixa hipocrisia.

Há quem diga que o destino nos traça
que ficamos marcados à nascença
que tudo fica definido
quase mais valia nem ter nascido
e não viver desta crença
que o que decidimos nos abraça.

Mas se para tudo há uma hora
o que fazemos aos minutos?
Se uma árvore não der frutos
porque será que demora?

Agora não são horas...
 
Agora não são horas

a paixão do silêncio

 
Como dizer, por parcas palavras, o silêncio?
Mudos,
os sons perdem-se no palácio do Sono.
Escassa forma de vida.
Espaço de túmulo,
intervalo de lápide.

Caverna fechada, reverbada a brilhos
sós,
esquecida pelo vento.
Quedo, o semblante,
povoado de medo e repouso
e lagos estagnados,
falho em esgares e sorrisos.
No langor, horizontes nocturnos,
horizontais leitos,
direitos.
As sombras,
fantasmas parados, caprichos
dalguma estrela longe.

A eternidade mora perto, infinita,
amaldiçoada
a desconhecer
o momento
e a sua cara-metade,
o grito.

Segundo contributo para o sarau "o grito da poesia".
Inspirado, de certo modo, na personificação do Sono, magnífica, das "metamorfoses" de Ovídio, do verso 591 ao verso 632 da edição bolso cotovia.
 
a paixão do silêncio

Eco, a mulher de olhos verdes

 
Há uma onda
sonora
que me calha,
maldita.

Dita
assim, como que a um espelho
gasto,
redondo e partido.

Tido
(como voz minha)
clamor repetido,
mas não refletidamente.

Mente
o ruído, imitador,
plágio
de boca

oca.
Que sai de mim,
qualquer um
por mim passa,

assa,
queima-me por dentro,
sempre
que não te clamo...

Amo.

Este texto foi baseado no episódio de Narciso e Eco do livro Metamorfoses - versos 340 a 400 de Ovídio. Edição bolso Cotovia
 
Eco, a mulher de olhos verdes

Poema da água

 
Trigo limpo
nunca
será pão.
Talvez farinha,
ou poeira, só, nunca alimento.
Como o pó de cimento
nunca será:
articulação de tijolo,
calçada americana,
pilar
em cabouco...

Cinza
nunca
será corpo.
 
Poema da água

Arquitectura

 
Será
que podemos ensinar
a
um trolha
(que assenta tijolo sobre tijolo),
que o que faz
é
o edifício da Humanidade?
 
Arquitectura

A perversão da Salva

 
Não se livra desta cor:
Entre o azul
e o violeta.

Tem a Salva, flor cano:
Carola e nas sépalas, estiletes,
pétalas em forma de sino,
sina.
No fundo
do fundo desta,
o mais rico
licor.

Anda o Colibri desde que voa,
sob feitiço,
por este mel que o salva,
prende, alimenta,
vicía...

Polinização
e beijo.
 
A perversão da Salva

festa brava

 
A arena
nada mais é que terra batida
limitada pela morte;

se cresci e sou fera,
já fui bezerro
e hoje
já era.
Sinto-o
no sangue,
os olés,
jorra, escorre, salpica...

No picadeiro anseio
num terror pressentido
de quem acaba a meio tempo
a entrada no palco:

centauros, gente de capa,
uivos, gritos, injúrias
e pó...

O que me enraivece, magoa,
é ver a minha família por lá,
humilhados
até à exaustão
nesta hipovolémia
de sangue, suor e dor.
Nesta areia,
de espectáculo tão cheia,
nada mais espero
que
um ponto final sincero:

um simples matadouro!
 
festa brava

cheio de traça

 
Vestia, despia a roupa
despia, vestia a roupa
a roupa vestia e despia
vestia a roupa e a despia...
Escrevia e lia o caderno
lia e escrevia no caderno
o caderno lia e escrevia
escrevia o caderno e o lia...
A cada momento que passa
menos espaço no roupeiro,
cheio de traça!
 
cheio de traça

(Chegar) A casa vivos

 
O sangue coalha,
na boca , não seca;

sou eu quem falha,
sou eu quem peca.

Não sou que estendo a mão
num bofardo,
mas então?

Sou eu que me acobardo,
que o delito consinto
e a mim mesma minto.

A quem?

À figura destroçada ao espelho, ninguém!!!

(Costelas partidas, clavícula partida, fíbula também, baço fracturado, braço, figado aos pedaços, cabeça partida (perdida), o coração, partido...)

Chegou
o momento de engolir o nó
e ficar
só!
Mas segura e sem medo!
Eliminar
este segredo!

Home Alive é um projecto de defesa pessoal que nasceu em Seattle em 1993.
Nesse ano, Mia Zapata, uma cantora Grunge, vocalista dos The Gits, foi brutalmente violada, estrangulada e, claro está, morta.
Por curiosidade, numa das músicas que cantava, meio violenta meio melódica, ela faz referência a esse tipo de morte. Mas reversamente. "Não me magoarás, violarás...".
Trágico.
Os amigos, colegas de profissão entraram em pânico. Como alguém com a vitalidade de Mia pôde ser tão maltratada?
Home Alive, foi um duplo albúm vil. Violentíssimo, em que mais de metade das músicas, são poemas recitados, contra os maus-tratos, em geral.
Os que cantam, têm a crueza que o meu bem-amado Grunge pode ter.

Pobre Mia. O seu assassino foi achado 10 anos mais tarde, quando ninguém já esperava, e quando a ciência forense entrou em força com os testes de ADN.

O legado de Mia Zapata mantêm-se.
Mulheres e homens tiveram aulas de defesa pessoal, de gritar por ajuda (?!), de insurgirem-se verbalmente contra agressores...
Claro que, a violência, continua por aí em cada um de nós, mas agora somos, talvez um pouco, menos cegos.
Muitos já chegaram a casa vivos, entretanto...
 
(Chegar) A casa vivos

descuido

 
Hoje
sou feito de chuva
e
caio por aí
molhado
em tudo:
em movimento ou parado.

Hoje
sou tanto de humidade
que no ponto mais tenso
sou precipício
e precipitação,
por descuido
chovi, no meio do verão.
 
descuido

Fio condutor

 
O que antes bastava
agora já não chega,
sorrisos airosos, montanhas de luz,
melodias,
espelhos de água no remanso das estações,
dívidas pagas em sangue,
rimas...

Não chega
o perfume das manhãs, a melancolia,
a definição das cores,
dos ruídos, das memórias...
Mas,
o que fito no horizonte?
Se não é suficiente o passado, nem o futuro.
Agora já não chega.
 
Fio condutor

Paródia Negra

 
Hoje estou sem palavras,
levou-as a chuva que cai
soturna no chão pardacento,
levanta-se lama sem lavras
e nenhum pensamento sai:
não sai nenhum pensamento.

Encontro-me só nesse vazio,
exorcizado, sem ponta de alma,
sem ponta por onde me pegue
e tudo em redor está sombrio,
ainda que esta estranha calma
em vez de abraçar, a renegue.

Nesta noite eterna e fria,
sobrevoam-me corujas, morcegos
e esses noctívagos me acarinham.
Tanto de noite como de dia
andam todos perdidos e cegos
sem saber que assim caminham.

Encontro uma vil ternura
neste ermo sem perdão
no qual acho um lar, e conforto,
cá a vida é clara e pura
e tudo é paz e comoção;
ainda que viva, estou morto!!!
 
Paródia Negra

Solo do manatim

 
Era uma esfinge estranha
no alto do seu pedestal.
Nascera com um invulgar dom
encostado à sua voz.

- Dentro da sua timidez
deixara as perguntas para trás -

Com clareza cantava
duras dores,
ensombrando os pobres de espírito
estrangulados com a sua beleza.

Importava-lhe o seu lado felino
na imprecisão do abraço,
na eminência da ferida
às garras dos homens.

E a cada resposta errada com triste sina,
no calor das melodias que criava
num mero segundo ausente,
infinito.
 
Solo do manatim

Anamnése

 
Ontem olhei para a tua história,
retrato falado,
um pouco de mito, muito de memória,
misto de carnaval e de fado.

Nesse olhar que fiz, demorado,
achei horas felizes
encontrei, por outro lado,
cicatrizes.

Dessas do tempo que, infinito, passa,
da lágrima que desponta
por mais esquecimento que se faça,
mas da doença já não dei conta.

Mirei fundo,
e no meio dessa profundeza
achei um mundo
infindo de riqueza...
 
Anamnése

A vela para abrir caminho

 
É no meio da escuridão,
lugar fechado, sozinho,
tudo está fora de mão
e a vela abre o caminho.

Nesse buraco de solidão
esse sitío de tanto espinho,
fogo-luz entra no coração
e a vela abre o caminho.

Ao entrar a vela no buraco
faz-se tudo menos luz
e tudo forte fica fraco.

Essa vela ilumina e seduz
preenche de vida o vacuo
deixando-me e à solidão nús.
 
A vela para abrir caminho

Terceira idade

 
[de uns e outros]

Para uns
a idade é um posto,
para outros
um oposto.
 
Terceira idade

bem-vindas à cidadania

 
Basta de bater
no ceguinho
com a sua
bengala...
 
bem-vindas à cidadania

a ignorância é uma benção, ou "abençoados os pobres de espírito que deles é o reino dos céus"

 
Sei-me sob o sol
aurora a ocaso,
mas, também na rotação nocturna,
soube que me aquece se me for noutro lado,
palmilhando terras e mares,
enterros e marés,
cá debaixo, lá o acho.

Mas vivo da ilusão de que me foge, quando sou eu que fujo
sujo,
desde o meu princípio
ao meu futuro fim.

Sei-me sobre a Terra
e sobre todas, todas as metamórficas
que
assume: neve, areia, cascalho, pedra, rocha, aço...
mas à distância que abraço
da sola dum chinelo,
da planta do pé
à planta do chão...

Mas vivo da sensação que a piso.
Culpo os sentidos e o juízo
que perco, de vez em quando,
só para (pare)cer normal.

Meio título é uma citação da bíblia...
 
a ignorância é uma benção, ou "abençoados os pobres de espírito que deles é o reino dos céus"

é só sal

 
Vá,
dá-me o teu ódio,
que ponho-o no pódio
das minhas relações,
confusões, reacções...
Cloreto de sódio
de amores e paixões.

Não faz nenhum mal,
é só pó, é só sal,
ódio ou amor, traições,
é tudo passageiro, tudo igual.
Não tenho a ele direito, reparo,
que, tal como amor,
é tão raro.

Tal como as verdadeiras emoções,
só temos desilusões,
tudo mais, o preço é caro.

Vá,
dá-me o que sentes e se esvai,
esse ódio parente, pai
vermelho,
no espelho
cai;
em tantas vezes me assemelho.
 
é só sal

Os aracnídeos não são insectos

 
O Grilo Falante tinha um Pinóquio
e falava várias línguas suas,
muito antes de ir parar à Disney.
Diz Ney Matogrosso, eu sey,
que aquilo que dizes antes insinuas,
num muito coloquial, colóquio.

O Grilo Falante rimava,
era assim a sua consciência,
ou, quem sabe, a sua boca.
Nunca dizia coisa pequena, ou pouca,
não era essa a sua ciência,
sempre dizia o que bem pensava.

Faltava-lhe a sua cara-metade,
que um Pinóquio também tivesse:
um Louva-a-deus, calado e mentiroso,
ou um Gafanhoto em pragas doloso,
mas em fins, uma benesse!
Aos saltos pelos campos da verdade.

O que o Pinóquio lhe dizia ao ouvido,
era tudo, menos a mentira,
ainda assim, de si mesmo desconfiava e temia.
Rimava, por defeito e magia
na paz e, até mesmo, na ira.
É o que tenho ouvido...
 
Os aracnídeos não são insectos

A minha pátria é a língua portuguesa.
Bernardo Soares
www.poemassagem.blogspot.pt

Saibam que agradeço todos os comentários, de coração...
Por regra não respondo.