bordão Alunar
Na minha terra não há violência
usamos a inteligência noutras coisas,
na minha terra não se humilha
usamos a inteligência noutras coisas,
na minha terra não há a guerra
usamos a inteligência noutras coisas,
na minha terra não há mesquinhos, nem hipócritas
usamos a inteligência noutras coisas,
na minha terra não há ladrões, assassinos, violadores
usamos a inteligência noutras coisas,
na minha terra não há corrupção, nem crime
usamos a inteligência noutras coisas,
na minha terra não há pura maldade
usamos a inteligência noutras coisas...
A minha terra é diferente.
Na minha terra
não há
gente.
a paixão do silêncio
Como dizer, por parcas palavras, o silêncio?
Mudos,
os sons perdem-se no palácio do Sono.
Escassa forma de vida.
Espaço de túmulo,
intervalo de lápide.
Caverna fechada, reverbada a brilhos
sós,
esquecida pelo vento.
Quedo, o semblante,
povoado de medo e repouso
e lagos estagnados,
falho em esgares e sorrisos.
No langor, horizontes nocturnos,
horizontais leitos,
direitos.
As sombras,
fantasmas parados, caprichos
dalguma estrela longe.
A eternidade mora perto, infinita,
amaldiçoada
a desconhecer
o momento
e a sua cara-metade,
o grito.
Segundo contributo para o sarau "o grito da poesia".
Inspirado, de certo modo, na personificação do Sono, magnífica, das "metamorfoses" de Ovídio, do verso 591 ao verso 632 da edição bolso cotovia.
Rota da seda
Apesar de remotos,
ainda criamos laços,
como se nos pescássemos numa rede fina,
procurando uma autofagia que se alarga aos outros.
Ainda que ermos,
tememos as mesmas desgraças,
queremos.
Temos.
Somos peças de relojoaria
à procura de espaço.
Embora sós,
seguimos sentenças alheias
por opção nossa, numa via que nos engrossa,
tece.
Entre o fio e o tecido
espera a fibra.
A linha imaginária que nos une.
Terceira idade
[de uns e outros]
Para uns
a idade é um posto,
para outros
um oposto.
Nas páginas do silêncio
Nas páginas do silêncio eram inscritas trovoadas
carregadas de vento, de uivos, de piares
e pios Homens,
fartos de olhares mudos.
Nas páginas do silêncio,
o verbo agrilhoava-se à acção, adjetivava o tempo,
quedo e preso,
e as horas eram leves incertezas.
Nas páginas do silêncio dobravam-se as memórias,
reclusas e moldadas, como barro,
e os lugares
eram onde os segundos ainda esperavam.
Nas páginas do silêncio pregava-se a igualdade,
o mesmo rugido não ouvido
atento a cada rosto,
e por todos multiplicado e dividido.
Nas páginas do silêncio cheirava a começos
e o perfume
selava as narinas de monstros,
como nos primeiros dias de escola.
Nas páginas do silêncio mora o descanso
prestes a terminar.
Para dar voz
ao poema.
habitar o habit(u)ar
Cria raízes
mas não é árvore,
é a repetição do gesto que se renova,
indigesto resto, a cada prova,
acção sem acto.
É.
E, como o espinho no cacto,
calo sem protesto,
nem pensar
anda andando
sem ver o caminho.
Vai.
Sem parar…
[um passado presente futuro. declino esse retorno que me foge da memória. a fuga do pensar e do ser. com que mão começas por apertar o atacador do sapato? e por qual pé? são sempre duas perguntas que me faço, por hábito. e porquê? a memória ainda a reconheço como um esforço mental para regressar. e esse outro regresso, incessante? a economia neuronal é absolutamente necessária para a sanidade mental, mas deixa-me sempre com dúvidas acerca do momento. quantas vezes deixei a esse ser que me habita, fazer? nem faço a menor ideia, já, com que dedo puxo o trinco de cada porta...]
cura de Sal
salguei-te
porque te quero ao ar
palavra cheia
e sem querer dei-te o sabor,
o perfume a eternidade, sem querer
salguei-te
para te guardar do frio
e ignóbil, ignoto, palavra que incendeias
dei-te o calor,
a luz, o fogo, o ódio, o amor
salguei-te
para que dures, sejas as cores do infinito,
palavra crua,
dei-te o sal que não tenho, dei-te o querer
em que acredito.
A loucura virada do avesso
Tem, por vezes, um lado calmo
em que nada o perturba ou move
sente o palmo de testa a um palmo,
ainda que agora e nunca, chove.
Inspira pelo nariz,
expira pela boca,
e sempre por um triz,
falha a hora louca.
Faz as suas rezas, tempestades,
por vezes nessa acalmia, suspira,
no jogo das liberdades, verdades,
muitas vezes fala-se só a mentira.
Cria no seu interior
uma paisagem bela,
em salmos de amor,
pintura a aguarela.
Tem, por vezes, um lado doce
em que nada vale um preço,
como se anjo sem asas fosse
com a loucura virada do avesso.
Sinto
Não sei se sensação
se sentimento,
nem o porquê da indecisão
se o frio do vento,
se a alegria no coração
a bombar sangue cinzento.
Não compreendo a cor, ilusão?
Será que tanto tento
que alucino, e na alucinação
eu próprio me invento.
In Ambiguo
(ad)Oração
Erro na entrada do templo,
que é o meu corpo,
para ir rezar ao teu.
Ajoelhado a teus pés,
provo do teu vinho
e adivinho
a embriaguês...
Oiço gritos alucinados no teu templo
e pergunto-me se não alucino.
Quando me levanto e benzo,
é no teu corpo que o faço
e o calor da minha fé
faz-me entrar no teu confessionário
e sair,
entrar,
sair novamente e hesitar
em meus pecados te contar,
do meu templo.
Enquanto te contemplo
consigo chegar ao céu...
devo ter sido
absolvido...