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Poemas, frases e mensagens de Rogério Beça

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de Rogério Beça

medo em pó

 
Um dia fui para o trabalho e aquilo parecia um hospital.
A um canto, o riso ensurdecedor e estúpido das hienas. No centro, leões e ovelhas.
No meu vestiário éramos sempre os mesmos, a vestir o uniforme que dizia o que faço. Alguns habitavam o já tradicional fato-de-macaco. É sépia.
Assim que abri a boca, os olhares repetiram a ladaínha do "lá vem ele com a mania", nunca me achei muito psicótico...
Engoli algumas palavras e saiu-me um bom-dia.
Depois foi fazer, fazer e mais fazer.
Invariavelmente, como na escola, os grupos agrupavam-se sem darem conta, e dei por mim a falar com os que sofriam de olhares.
Entre as hienas, que se riam da desgraça alheia e gostavam de ver o circo a arder e as ovelhas que mugiam sim, surgiam cumplicidades divertidas. Ria-me sob olhares.
Entre os que engolíamos palavras e os outros, os diálogos eram frequentes e profissionais, quase amistosos.
Envolvia-nos um cinismo que tornava possível pagar as contas.

Até que um dia o chefe morreu.

Entre aleluias, tentaram todos falar na mesma língua. As desconversas sucederam-se e a carta de demissão saiu-me em verso.
Mas as contas por pagar falaram tão mais alto do que a minha raiva que continuei por ali ao assobio.

A publicação deste texto serviu, também, para reformatar parte do comentário ao poema "Owner of a lonely heart" do usuário theartist_Ic, devolvendo-lhe assim a forma pretendida.
 
medo em pó

o hálito da espera

 
tem o peso do que é leve
a nuvem, a pluma, o sorriso

o ar do ar preso

tem o corpo do arvoredo
por podar
e o toque liso dum abraço
prenhe de mãos e dedos

alcance

o hálito da espera...
 
o hálito da espera

Fio condutor

 
O que antes bastava
agora já não chega,
sorrisos airosos, montanhas de luz,
melodias,
espelhos de água no remanso das estações,
dívidas pagas em sangue,
rimas...

Não chega
o perfume das manhãs, a melancolia,
a definição das cores,
dos ruídos, das memórias...
Mas,
o que fito no horizonte?
Se não é suficiente o passado, nem o futuro.
Agora já não chega.
 
Fio condutor

Sem nunca ser

 
O Perto é tão incerto
como o Agora.

Vive
mesmo à nossa frente, rente,
tão à vista
armada.
Um dentro tão fora.

E nos quandos que nos habitam,
presentes nos passos,
no futuro,..
há um toque que se pressente,
requer o nosso tacto.

Perto.

É
sem nunca ser
de facto.
 
Sem nunca ser

Solo do manatim

 
Era uma esfinge estranha
no alto do seu pedestal.
Nascera com um invulgar dom
encostado à sua voz.

- Dentro da sua timidez
deixara as perguntas para trás -

Com clareza cantava
duras dores,
ensombrando os pobres de espírito
estrangulados com a sua beleza.

Importava-lhe o seu lado felino
na imprecisão do abraço,
na eminência da ferida
às garras dos homens.

E a cada resposta errada com triste sina,
no calor das melodias que criava
num mero segundo ausente,
infinito.
 
Solo do manatim

Anís

 
De lágrima espessa,
escorre lenta na garganta
até à boca estomacal;
na papila um travo desigual
que espanta,
e nos atravessa.

Nesse pequeno gole
que nos lábios se cola,
lá se acha e perde a doçura,
perto, muito perto da loucura,
do fogo que imola
numa cadência mole.

Tem o sabor a antigo,
a passado de moda
ainda que moda nunca fosse,
com essa saudade doce,
licor que nos deixa à roda,
castigo...
 
Anís

limpo

 
na mira do fuzil o chão. o fora e o dentro lustroso, brilho. transparente a lente, a cruz que a segue. a luz. na solidão do cano, arriscado, nem pó. sem causa, espera, pausa. hábito de gatilho. um pombo verde esvoaça. esvoaçam os ramos finos das oliveiras que compõem a serigrafia, presos, contudo, pelas raízes. ao ar, onde tudo voa, anda e corre, há que ser leve. iludir a pedra, livre no arremesso. as Mulheres cheias de histórias e de dias. os dias cheios de Tudo. na carreira de tiro habita o fim. outro nome para recomeço. o muro baliza o muro do corpo, a sede da alma, do pensamento, penso invés. penso. hoje não é dia de sentença, não aqui. na guerra nada se limpa. a mira mira o chão.
 
limpo

Povo

 
Num cacho
não há
duas uvas iguais...

Estranho
o vinho.
 
Povo

Números irracionais

 
Naquela casa decimal
cabia um lar.

Havia o teu cheiro
entranhado
nas fissuras do chão,
a tua marca
de água
perdida nas janelas de abril,
a desarrumação da cama,

em cada lado
da vírgula
que compunha o nosso número...
 
Números irracionais

voam indiferentes as andorinhas

 
Cheira a vento nesta primavera,
que afasta as nuvens e traz o frio
nem parece dela, invernia desconfio,
ou a estação já não é o que era...

Tanto frio está que se desespera
pelo verão quente, daquele estio,
mas o vento que venta com brio
arranca a esperança que já houvera.

As andorinhas voam indiferentes
a todas estas oscilações de humor
porque passam as estações e gentes.

Faz-nos falta a lágrima de calor
e essa primavera de dias quentes
em que tudo é fácil, até o amor.
 
voam indiferentes as andorinhas

bordão Alunar

 
Na minha terra não há violência
usamos a inteligência noutras coisas,

na minha terra não se humilha
usamos a inteligência noutras coisas,

na minha terra não há a guerra
usamos a inteligência noutras coisas,

na minha terra não há mesquinhos, nem hipócritas
usamos a inteligência noutras coisas,

na minha terra não há ladrões, assassinos, violadores
usamos a inteligência noutras coisas,

na minha terra não há corrupção, nem crime
usamos a inteligência noutras coisas,

na minha terra não há pura maldade
usamos a inteligência noutras coisas...

A minha terra é diferente.
Na minha terra
não há
gente.
 
bordão Alunar

a paixão do silêncio

 
Como dizer, por parcas palavras, o silêncio?
Mudos,
os sons perdem-se no palácio do Sono.
Escassa forma de vida.
Espaço de túmulo,
intervalo de lápide.

Caverna fechada, reverbada a brilhos
sós,
esquecida pelo vento.
Quedo, o semblante,
povoado de medo e repouso
e lagos estagnados,
falho em esgares e sorrisos.
No langor, horizontes nocturnos,
horizontais leitos,
direitos.
As sombras,
fantasmas parados, caprichos
dalguma estrela longe.

A eternidade mora perto, infinita,
amaldiçoada
a desconhecer
o momento
e a sua cara-metade,
o grito.

Segundo contributo para o sarau "o grito da poesia".
Inspirado, de certo modo, na personificação do Sono, magnífica, das "metamorfoses" de Ovídio, do verso 591 ao verso 632 da edição bolso cotovia.
 
a paixão do silêncio

Rota da seda

 
Apesar de remotos,
ainda criamos laços,
como se nos pescássemos numa rede fina,
procurando uma autofagia que se alarga aos outros.

Ainda que ermos,
tememos as mesmas desgraças,
queremos.

Temos.

Somos peças de relojoaria
à procura de espaço.

Embora sós,
seguimos sentenças alheias
por opção nossa, numa via que nos engrossa,
tece.

Entre o fio e o tecido
espera a fibra.

A linha imaginária que nos une.
 
Rota da seda

Terceira idade

 
[de uns e outros]

Para uns
a idade é um posto,
para outros
um oposto.
 
Terceira idade

Nas páginas do silêncio

 
Nas páginas do silêncio eram inscritas trovoadas
carregadas de vento, de uivos, de piares
e pios Homens,
fartos de olhares mudos.

Nas páginas do silêncio,
o verbo agrilhoava-se à acção, adjetivava o tempo,
quedo e preso,
e as horas eram leves incertezas.

Nas páginas do silêncio dobravam-se as memórias,
reclusas e moldadas, como barro,
e os lugares
eram onde os segundos ainda esperavam.

Nas páginas do silêncio pregava-se a igualdade,
o mesmo rugido não ouvido
atento a cada rosto,
e por todos multiplicado e dividido.

Nas páginas do silêncio cheirava a começos
e o perfume
selava as narinas de monstros,
como nos primeiros dias de escola.

Nas páginas do silêncio mora o descanso
prestes a terminar.

Para dar voz
ao poema.
 
Nas páginas do silêncio

habitar o habit(u)ar

 
Cria raízes
mas não é árvore,

é a repetição do gesto que se renova,
indigesto resto, a cada prova,

acção sem acto.

É.

E, como o espinho no cacto,
calo sem protesto,
nem pensar

anda andando
sem ver o caminho.

Vai.
Sem parar…

[um passado presente futuro. declino esse retorno que me foge da memória. a fuga do pensar e do ser. com que mão começas por apertar o atacador do sapato? e por qual pé? são sempre duas perguntas que me faço, por hábito. e porquê? a memória ainda a reconheço como um esforço mental para regressar. e esse outro regresso, incessante? a economia neuronal é absolutamente necessária para a sanidade mental, mas deixa-me sempre com dúvidas acerca do momento. quantas vezes deixei a esse ser que me habita, fazer? nem faço a menor ideia, já, com que dedo puxo o trinco de cada porta...]
 
habitar o habit(u)ar

cura de Sal

 
salguei-te
porque te quero ao ar
palavra cheia
e sem querer dei-te o sabor,
o perfume a eternidade, sem querer

salguei-te
para te guardar do frio
e ignóbil, ignoto, palavra que incendeias
dei-te o calor,
a luz, o fogo, o ódio, o amor

salguei-te
para que dures, sejas as cores do infinito,
palavra crua,
dei-te o sal que não tenho, dei-te o querer
em que acredito.
 
cura de Sal

A loucura virada do avesso

 
Tem, por vezes, um lado calmo
em que nada o perturba ou move
sente o palmo de testa a um palmo,
ainda que agora e nunca, chove.

Inspira pelo nariz,
expira pela boca,
e sempre por um triz,
falha a hora louca.

Faz as suas rezas, tempestades,
por vezes nessa acalmia, suspira,
no jogo das liberdades, verdades,
muitas vezes fala-se só a mentira.

Cria no seu interior
uma paisagem bela,
em salmos de amor,
pintura a aguarela.

Tem, por vezes, um lado doce
em que nada vale um preço,
como se anjo sem asas fosse
com a loucura virada do avesso.
 
A loucura virada do avesso

Sinto

 
Não sei se sensação
se sentimento,
nem o porquê da indecisão
se o frio do vento,
se a alegria no coração
a bombar sangue cinzento.
Não compreendo a cor, ilusão?
Será que tanto tento
que alucino, e na alucinação
eu próprio me invento.

In Ambiguo
 
Sinto

(ad)Oração

 
Erro na entrada do templo,
que é o meu corpo,
para ir rezar ao teu.

Ajoelhado a teus pés,
provo do teu vinho
e adivinho
a embriaguês...
Oiço gritos alucinados no teu templo
e pergunto-me se não alucino.

Quando me levanto e benzo,
é no teu corpo que o faço
e o calor da minha fé
faz-me entrar no teu confessionário
e sair,
entrar,
sair novamente e hesitar
em meus pecados te contar,
do meu templo.

Enquanto te contemplo
consigo chegar ao céu...
devo ter sido
absolvido...
 
(ad)Oração

Sou fiel ao ardor,
amo esta espécie de verão
que de longe me vem morrer às mãos
e juro que ao fazer da palavra
morada do silêncio
não há outra razão.

Eugénio de Andrade

Saibam que agradeço todos os comentários.
Por regra não respondo.