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Poemas, frases e mensagens de Rogério Beça

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de Rogério Beça

os nomes que te dou

 
Dou-te todos os nomes,

guardei para ti todas as histórias,
não há palavra que não te caiba,
nenhum ódio que não te saiba,
não há derrotas, nem as glórias.

Dou-te todos os nomes,

foste a epopeia sem caminho,
és a força e a maior fraqueza,
és rosto superior da incerteza,
o mosto que dá gosto ao vinho.

Dou-te todos os nomes,

desde o mais estranho bosão,
ao do infinito multiverso,
e de todo o mistério submerso,
cada medo, cada missão.

Dou-te todos os nomes,

até a fábula que mais dói e repele,
o de escrava, serva e concubina,
cada verbo solto que se imagina,
meus ossos, carne, sangue e pele.

Dou-te todos os nomes,

minha progenitura, descendente,
parceira do meu confessionário,
és o segredo guardado no armário,
o futuro, o passado e o presente.

Dou-te todos os nomes,

desde a guerra até que venha a paz,
chamo-te até de paz e de guerra,
machado sangrento que se enterra,
o fumo lento que o cachimbo traz.

Dou-te todos os nomes,

vilã, princesa, meretriz, doce donzela,
juiz, imperador, pedra na mão de David,
Perseu sem escudo nem manto, álibi,
íman, vela acesa, pedaço de giz, aguarela.

Dou-te todos os nomes,

os que já disse, os que digo, os por dizer,
os que nascem na saúde e até na doença,
depois morrem quando alguém os pensa.
Até todas as letras feitas e por entretecer…
 
os nomes que te dou

a paixão do silêncio

 
Como dizer, por parcas palavras, o silêncio?
Mudos,
os sons perdem-se no palácio do Sono.
Escassa forma de vida.
Espaço de túmulo,
intervalo de lápide.

Caverna fechada, reverbada a brilhos
sós,
esquecida pelo vento.
Quedo, o semblante,
povoado de medo e repouso
e lagos estagnados,
falho em esgares e sorrisos.
No langor, horizontes nocturnos,
horizontais leitos,
direitos.
As sombras,
fantasmas parados, caprichos
dalguma estrela longe.

A eternidade mora perto, infinita,
amaldiçoada
a desconhecer
o momento
e a sua cara-metade,
o grito.

Segundo contributo para o sarau "o grito da poesia".
Inspirado, de certo modo, na personificação do Sono, magnífica, das "metamorfoses" de Ovídio, do verso 591 ao verso 632 da edição bolso cotovia.
 
a paixão do silêncio

Fio condutor

 
O que antes bastava
agora já não chega,
sorrisos airosos, montanhas de luz,
melodias,
espelhos de água no remanso das estações,
dívidas pagas em sangue,
rimas...

Não chega
o perfume das manhãs, a melancolia,
a definição das cores,
dos ruídos, das memórias...
Mas,
o que fito no horizonte?
Se não é suficiente o passado, nem o futuro.
Agora já não chega.
 
Fio condutor

descuido

 
Hoje
sou feito de chuva
e
caio por aí
molhado
em tudo:
em movimento ou parado.

Hoje
sou tanto de humidade
que no ponto mais tenso
sou precipício
e precipitação,
por descuido
chovi, no meio do verão.
 
descuido

Anís

 
De lágrima espessa,
escorre lenta na garganta
até à boca estomacal;
na papila um travo desigual
que espanta,
e nos atravessa.

Nesse pequeno gole
que nos lábios se cola,
lá se acha e perde a doçura,
perto, muito perto da loucura,
do fogo que imola
numa cadência mole.

Tem o sabor a antigo,
a passado de moda
ainda que moda nunca fosse,
com essa saudade doce,
licor que nos deixa à roda,
castigo...
 
Anís

A sombra de dúvida

 
A sombra da dúvida é branca,
já que o objecto é escuro;
bichinho medroso
que destrói as acções,
desconstrói as iniciativas...
A sombra revela a sua presença,
leve como um fantasma,
com sorriso magro,
estéril e infecundo...

A dúvida, hesitação.
 
A sombra de dúvida

voam indiferentes as andorinhas

 
Cheira a vento nesta primavera,
que afasta as nuvens e traz o frio
nem parece dela, invernia desconfio,
ou a estação já não é o que era...

Tanto frio está que se desespera
pelo verão quente, daquele estio,
mas o vento que venta com brio
arranca a esperança que já houvera.

As andorinhas voam indiferentes
a todas estas oscilações de humor
porque passam as estações e gentes.

Faz-nos falta a lágrima de calor
e essa primavera de dias quentes
em que tudo é fácil, até o amor.
 
voam indiferentes as andorinhas

(ad)Oração

 
Erro na entrada do templo,
que é o meu corpo,
para ir rezar ao teu.

Ajoelhado a teus pés,
provo do teu vinho
e adivinho
a embriaguês...
Oiço gritos alucinados no teu templo
e pergunto-me se não alucino.

Quando me levanto e benzo,
é no teu corpo que o faço
e o calor da minha fé
faz-me entrar no teu confessionário
e sair,
entrar,
sair novamente e hesitar
em meus pecados te contar,
do meu templo.

Enquanto te contemplo
consigo chegar ao céu...
devo ter sido
absolvido...
 
(ad)Oração

Os És são amarelos - Criptografia

 
Tudo tem cor
se abrires os olhos
e escapares do cinza das horas.

Do negro da fé,
ao alvo dos começos.

A cada momento do olhar
oferece a atenção
do ver.

Vê.

Traga os contrastes quentes,
as indiferenças frias.

O ausente ar, a água transparente,
traz a tez do que tem.

Toca nos tons carregados e nos leves,
as cores breves,
as grandes.

Troca aquela que te vaza,
a que chamas de casa, pela que te repleta.

E escuta com os olhos que a terra
há-de comer
as sombras, os reflexos opacos,
que alimentam mistérios, e outras fomes.

A minha filha vê cores em todas as letras...

Tudo tem cor
se abrires os olhos
e escapares do cinza das horas.
 
Os És são amarelos - Criptografia

A perversão da Salva

 
Não se livra desta cor:
Entre o azul
e o violeta.

Tem a Salva, flor cano:
Carola e nas sépalas, estiletes,
pétalas em forma de sino,
sina.
No fundo
do fundo desta,
o mais rico
licor.

Anda o Colibri desde que voa,
sob feitiço,
por este mel que o salva,
prende, alimenta,
vicía...

Polinização
e beijo.
 
A perversão da Salva

A vela para abrir caminho

 
É no meio da escuridão,
lugar fechado, sozinho,
tudo está fora de mão
e a vela abre o caminho.

Nesse buraco de solidão
esse sítio de tanto espinho,
fogo-luz entra no coração
e a vela abre o caminho.

Ao entrar a vela no buraco
faz-se tudo menos luz
e tudo forte fica fraco.

Essa vela ilumina e seduz
preenche de vida o vácuo
deixando-me e à solidão, nus.
 
A vela para abrir caminho

Paródia Negra

 
Hoje estou sem palavras,
levou-as a chuva que cai
soturna no chão pardacento,
levanta-se lama sem lavras
e nenhum pensamento sai:
não sai nenhum pensamento.

Encontro-me só nesse vazio,
exorcizado, sem ponta de alma,
sem ponta por onde me pegue
e tudo em redor está sombrio,
ainda que esta estranha calma
em vez de abraçar, a renegue.

Nesta noite eterna e fria,
sobrevoam-me corujas, morcegos
e esses noctívagos me acarinham.
Tanto de noite como de dia
andam todos perdidos e cegos
sem saber que assim caminham.

Encontro uma vil ternura
neste ermo sem perdão
no qual acho um lar, e conforto,
cá a vida é clara e pura
e tudo é paz e comoção;
ainda que viva, estou morto!!!
 
Paródia Negra

Rota da seda

 
Apesar de remotos,
ainda criamos laços,
como se nos pescássemos numa rede fina,
procurando uma autofagia que se alarga aos outros.

Ainda que ermos,
tememos as mesmas desgraças,
queremos.

Temos.

Somos peças de relojoaria
à procura de espaço.

Embora sós,
seguimos sentenças alheias
por opção nossa, numa via que nos engrossa,
tece.

Entre o fio e o tecido
espera a fibra.

A linha imaginária que nos une.
 
Rota da seda

Solo do manatim

 
Era uma esfinge estranha
no alto do seu pedestal.
Nascera com um invulgar dom
encostado à sua voz.

- Dentro da sua timidez
deixara as perguntas para trás -

Com clareza cantava
duras dores,
ensombrando os pobres de espírito
estrangulados com a sua beleza.

Importava-lhe o seu lado felino
na imprecisão do abraço,
na eminência da ferida
às garras dos homens.

E a cada resposta errada com triste sina,
no calor das melodias que criava
num mero segundo ausente,
infinito.
 
Solo do manatim

A loucura virada do avesso

 
Tem, por vezes, um lado calmo
em que nada o perturba ou move
sente o palmo de testa a um palmo,
ainda que agora e nunca, chove.

Inspira pelo nariz,
expira pela boca,
e sempre por um triz,
falha a hora louca.

Faz as suas rezas, tempestades,
por vezes nessa acalmia, suspira,
no jogo das liberdades, verdades,
muitas vezes fala-se só a mentira.

Cria no seu interior
uma paisagem bela,
em salmos de amor,
pintura a aguarela.

Tem, por vezes, um lado doce
em que nada vale um preço,
como se anjo sem asas fosse
com a loucura virada do avesso.
 
A loucura virada do avesso

Sinto

 
Não sei se sensação
se sentimento,
nem o porquê da indecisão
se o frio do vento,
se a alegria no coração
a bombar sangue cinzento.
Não compreendo a cor, ilusão?
Será que tanto tento
que alucino, e na alucinação
eu próprio me invento.

In Ambiguo
 
Sinto

cheio de traça

 
Vestia, despia a roupa
despia, vestia a roupa
a roupa vestia e despia
vestia a roupa e a despia...
Escrevia e lia o caderno
lia e escrevia no caderno
o caderno lia e escrevia
escrevia o caderno e o lia...
A cada momento que passa
menos espaço no roupeiro,
cheio de traça!
 
cheio de traça

78% de azoto

 
O que é isto que respiro?
Que só dá o ar da sua graça
quando se levanta o vento
ou, quando se acalma, brisa,
invisível intocável massa
que, em força, fica lamento
e que logo se suaviza
tempestade que não refiro.

O que é isto que inspiro?
Que sempre me ultrapassa,
que me envolve ao relento.
Do qual (ninguém avisa)
sou dependente, coisa devassa,
e sempre sempre desatento
(sinal que me fragiliza).
Um bocado irreal que retiro...

O que isto é?
Verbo ou objecto,
qual a sua conjugação?
Como é que se faz?
Sendo ciência, não será fé?
Ilusório ou concreto,
qual o alcance da sua ilusão,
misto molecular de gás...
 
78% de azoto

"A sabedoria dos tectos é infinita"

 
Título de frase de José Saramago

Livro - Todos os Nomes
Pág. 157
Linha 29
5ª a 11ª palavras

ed. Planeta Agostini

A sabedoria dos tectos só se vê da cama,
infinita,
a cama e a sabedoria,
ou tem fama;
habita
o eu e não pia.

Grama a grama
é um alto que grita,
que nos recolhe a hipocrisia,
mas não a chama,
regurgita.
Pesadelos e fantasia.

Só vejo tal sabedoria de pijama,
bonita,
nua, para minha alegria...
Vestida a sabedoria sabe a lama,
maldita,
intragável porcaria.

Perguntei ao tecto o que proclama,
o que o excita?
qual a sua filosofia?
que parte do tecto o tecto ama?
em que acredita?
A resposta veio alta e fria:

Tudo, é igual a nada...
 
"A sabedoria dos tectos é infinita"

Censura

 
Por um só verso
não leio um poema.

Por um só verso
não o escrevo.

Sei que não o devo.

Assim como devo o inverso.

Por um só verso
paro,
não avanço.
 
Censura

A minha pátria é a língua portuguesa.
Bernardo Soares

Saibam que agradeço todos os comentários, de coração...
Por regra não respondo.