Poemas, frases e mensagens de ferlumbras

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de ferlumbras

Sou erros de português em demasia e a culpa é disso toda minha. Essa é a minha Ontologia.

Ma che Bello! Uma weltanschauung, uma Anarda, ambos cheirando a flores, é tudo que quero!

 
Aos anjos, pois ninguém pensa neles:
Estive pensando sobre vocês, sobre todo esse mundo, e percebi que nada é percebido, e que fazer poesias é quase sempre um exercício, uma ascese, uma teoria, e não Vida.
Querem rimas, tabelas periódicas ocultas em cada linha, e, hoje em dia, ser humano é por demais perigoso, manifestar sentimentos dá cadeia, dá sono, dá morte.
Então incandesço minhas palavras para que brilhem tal qual uma estrela – mesmo que na realidade dos Teus Mitos científicos sejam simples vagalumes – e faço com que postes de luz, pisca-piscas não-natalinos ou sim, e tudo, enfim, me maravilhe! Tudo entre no texto todo; que nada fique do lado de fora dessa casa de portas quebradas & fechadas que pode conter todos os monstros, todo o luxo dos mendigos do Centro, toda poesia escrita e perdida por você, Nobre Cavaleiro Andante, que com o espírito me lês.
Frases longas para uma vida tão desvalorizada. Uma ode ao ócio e à poesia; tudo que precisamos é aprender a respirar, mastigar, gozar... pois tudo lá fora fede a veneno, aerossol, merda, clichês, michês, guichês... e tudo é tão certo que esquecemo-nos que somos pó, e ao céu, mar, ar, voltaremos.
Escrevo aos anjos pois só eles me entendem, mesmo morto ou enterrado.
Somos farinha mijada da mesma praça. Mas guardo com carinho todo raio de Sol recebido durante minha estadia neste Mundo.
Algumas confissões & desejos:
Enquanto estive cego também pude ver.
Que eu nunca mais ouça minhas próprias palavras.
Que Deus exista para me perdoar.
Que os anjos também saibam abraçar.
Já me acusaram de poeta e já fui até criança, profeta, tive nome e sobrenome.
Hoje sou apenas o que sou hoje.
E que nada mais me prejudique, não hoje, por favor(!), por vontade; deixem-me sorrir mesmo que sozinho.
Tem vezes que chego à conclusão nenhuma: viver é como pular do Grand Canyon tendo como paraquedas um livro.
 
Ma che Bello! Uma weltanschauung, uma Anarda, ambos cheirando a flores, é tudo que quero!

Minhas saudações ao Profeta Allen Ginsberg

 
Eu vi as pessoas da minha geração perdidas, embriagadas, loucas, aidéticas, venderem a bunda e a alma ao marxismo e ao capital;
Vi meus inimigos morrendo de fome e de sede em meio à jantares luxuosos, em meio à alguma biblioteca na França,
Senti peitos lindos e corpos suados tocando a minha pele,
Vivi vidas inteiras pela metade, flutuei de dentro de naves espaciais e vi alguns milagres sendo operados pelos livros da literatura mundial.
Já estive perdido à noite, tive porre de vinho, tive porre de tanto ler, e provei o medo do demônio;
Morri de fome e frio no centro da cidade, já envenenei minha vida, envenenei vidas alheias, xinguei Deus e o Diabo,
Li e decorei versículos bíblicos, pequei contra o Espírito Santo, enguli versos de Rimbaud, devorei Hesse, Dickinson, Daniel, Vyasa, O Caibalion, Astrologia;
Já conheci o Céu & o Inferno, fumei Derby e dancei na chuva, nunca dancei na chuva fumando Marlboro, já vi livros arderem na fogueira da Laica Inquisição;
Já fui paquerado por homossexuais, fui apaixonado por Jesus, chutei o saco de alguém, corri de bandido e escapei d'um assalto;
Já tive vontade de me matar várias vezes, já perdi vários dias da minha vida pensando em viver, amei de verdade e fui traído, bem como traí meus amigos,
Menti sem culpa na consciência, perdi a memória, desafiei a ciência e a metafísica, inventei idiomas e pecados;
Já fui feliz além do que imaginava possível, acreditei veementemente na humanidade, tive fé no futuro, descrença no meu passado;
Já conheci um astro do rock, ganhei um autógrafo de um rock star, aprendi o alfabeto grego, escrevi poesias em estado de transe.
Nunca cheirei cocaína, mas sou drogado, dopado, alucinado pela vida; não sei donde surge tanta energia em mim, não tenho controle,
Tenho medo das pessoas que pensam que a vida é e sempre será igual ao que é hoje;
Não consigo entender a maldade, já tentei me convencer de que não tenho medo do escuro, aprendi que amar é mais importante que os dogmas;
Aprendi que as pessoas preferem os dogmas, entendi que ninguém sabe o que é religião, que ninguém lê poesia com os mesmos olhos, sequer é possível ler poesia.
Sou completamente louco por Fernando Pessoa, tento imitar seu jeito de escrever, adoro não conseguir, adoro ser eu mesmo e toda a minha dor e solidão.
Acredito na paz e em Platão, tenho profunda reverência por São Tomás de Aquino e Virginia Woolf; amo Drummond, odeio decorar coisas conscientemente.
Gosto da sinceridade e entendo Oscar Wilde & São Boaventura, odeio pessoas iguais a mim, odeio pessoas diferentes de mim, não sei porque odeio ou amo alguém, sou descrente quanto a isso;
Não entendo o porquê de todos nós gostarmos de se matar lentamente ao longo dos dias e anos, não entendo o porquê de transformarmos crianças em monstros,
Não consigo conceber o porquê de conseguirmos e podermos fazer isso; o ser humano é livre pra errar, quão maravilhoso e diabólico somos?
Por que fujo dos meus sonhos e tenho medo de me declarar quando amo? Por que tudo que sonhamos não é cumprido nem pela metade?
Por que a minha vida é maravilhosa e mesmo assim invejo os outros que são mais infelizes?
Quanto desespero ainda cabe no meu peito, será que alguém entende quando falo desse tipo de coisa?
Aceito o infinito, aceito as aleatoriedades, aceito meu tipo sanguíneo, e desconfio das pessoas que não olham o céu na madrugada;
Quero alguém que compreenda minha insanidade e converse comigo em pensamento, gosto de pessoas que olham nos olhos e gostam da minha insanidade, pessoas que olham pra mim com os olhos brilhando;
Acredito doentiamente na poesia e em tudo que ela nos faz viver, mesmo que caquética rota vadia e suja como teus olhos língua e caralho.
Adoro palavrões & cus & jardins do Éden no mesmo verso,
Fujo das imagens quando abro meu coração, sou eu mesmo quanto mais fujo do que é belo, e gostaria de saber por que as Musas nos deram tão pouco, por que esse "tão pouco" já nos deixa demente?
Quanto ainda vou ter que sangrar até morrer de orgasmo na minha própria loucura e liberdade ferida? Por que estou preso neste patético destino grego com ares de tragédia shakespeariana?
Saúdo a você, Mestre do Absurdo, Bukowski do Olimpo, pobre poeta rico, Verlaine vazio puro vácuo & ouro do Templo de Salomão, Mallarmé silencioso, maravilhoso deus desconhecido, apóstolo Paulo da demência, ritmo e palavras de nossa dança da morte sempre à espreita;
Traga o teu último gole e saia do meu quarto, deixe-me sozinho com tuas palavras e teu pathos, fujamos de mãos dadas, toque meus versos por um segundo com toda a tua displicência dionisíaca,
Abra meus olhos para essa Noite que surge quando abro minhas janelas e encontro teu horizonte escuro para meus olhos ainda acostumados à luz clara do sol morto pálido desse mundo que dorme, Allen
 
Minhas saudações ao Profeta Allen Ginsberg

Impossível Espelho

 
Sigo minha vida com a certeza de que nada busco;
Pois nada encontrarei:
O maior dos tesouros é-me indiferente;
Prefiro morrer mil vezes a ter mil vidas!
Soluço e gozo, entre Oliveiras;
Meu paraíso cabe na mordida de uma maçã;
Lágrimas são minhas cachoeiras,
Que da caverna do meu corpo
Observo,
Transidos transeuntes cegos.
É triste ter que ser feliz,
Almejo apenas a Magnum Opus.
O Destino, esse Deus, é para mim o maior dos Sábios.
Vago só e de soslaio rezo a Deuses;
As ruas são sonhos,
Por onde sonho,
Sonhos são corpos que me tocam.
Liras dos anjos e harpas fazem-me respirar;
Absorto rio e choro,
Agito-me como vagas indiferentes
Que morrem e matam por estética,
E é só num piscar de olhos que nascemos
E que iremos morrer;
Inferno e Céu são para poucos,
Tudo é paladar.
 
Impossível Espelho

Desgosto de vinho

 
Não sei se sou incompetente
Ou tentar pôr em versos a minha dor
Que é impossível.
Confesso que já sofri com Dorian Gray,
Já chorei os reveses de Cândido,
E sofri com Fausto e Margarida.
Aprendi que a literatura é farta de vida
E que eu, hoje, estou farto de ambos.

Também tive minha vida fáustica,
Vendi minha alma a Deus e ao Diabo,
Mas minha Margarida murchou:
Secaram-me as lágrimas.

Amei além do que podia,
E o que me restou?
Agonia, saudade, desespero.
Fiz tudo que não podia,
Atravessei todo tipo de nevoeiro,
Acreditei realmente que conseguiria dobrar o Cabo das Tormentas
Para transformá-lo em Boa Esperança...
Restaram-me apenas histórias e noites insones.

Restou-me desgosto com minha arte ruim.
Restaram-me gosto de vômito e vinho.
Restaram-me solidão e fantasmas.

Quero apenas um verso que alivie minha alma,
Uma expressão que afaste de mim essa ausência de deuses...
Uma imagem que clarifique meus sonhos
Como quando apaixono-me por tudo e por todos...

Preciso de imprecisão nas percepções,
Versos novos como vida após a morte,
Um novo calendário sem datas e dias,
Ter a mente límpida como um soneto ingênuo,
Sorrir pra mim mesmo, mesmo sozinho.
 
Desgosto de vinho

Aos leitores desconhecidos

 
Sou desesperado.
Desesperado como as estrelas no céu
que brilham sem atenção.
Desesperado como nuvens carregadas
que anseiam pela liberdade da chuva.
Desesperado como as flores
Que vivem pouco, só para o amor,
e não querem nada além de algumas horas,
virar pétalas murchas de um amor eterno
que em breve fenece.
Sou desesperado como as marés,
preso ao meu destino como elas da lua.
Sou desesperado como os deuses,
que esperam até que as pessoas durmam
para dos sonhos fazer morada.
Sou como os anjos sem rebeldia,
como apaixonados sem chance de se amarem nesta vida,
passo meus dias como quem passou uma única vez pelo inferno...
conheço tanto do mundo
que o enxergo por completo
na geografia das linhas da minha mão e da tua.
Sou desesperado porque sou,
Essa espera de um final que nunca virá,
De um beijo que sacie toda minha sede,
D'um acorde que me tire do marasmo,
De algum verso que me estremeça
como espíritos que nos tocam
e aquecem o corpo inteiro:
sou espera duma possessão sem fim.
Sou interrogações e intransigências,
não é fácil ser todos os meus erros por inteiro.
Queria não ter uma face conhecida por alguém na multidão:
melhor seria ter o céu por rosto,
ser incomodado apenas pelos desatentos,
pelos sonhadores e pelos enamorados:
meus olhos seriam perdidas galáxias,
meus lábios via láctea onde habito,
meus sonhos onde perco-me nas nuvens,
meu céu seriam os olhos estrelados,
que me olham, ou que imagino:
quem sabe os olhos de leitores imaginários,
que num local qualquer do universo
vasculhem meus versos a procura de si,
encontrando apenas nós dois,
nossos olhos a piscar no mesmo ritmo e compasso,
ambos perdidos conversando consigo mesmo nesse espelho
destes versos, que nesses segundos,
que nesses instantes,
formaram a nossa mútua vida,
nosso desespero comum em silêncio.
 
Aos leitores desconhecidos

As Bailarinas das caixinhas de música

 
Morro porque os pássaros cantam seus sonhos,
E eu simplesmente ouço,
Sem ao menos saber cantar os meus,
Como se o meu canto
Fosse meu repetitivo Destino
– Melodia de uma caixinha de música.

Morro, pois não sei morrer,
Desfaleço, desfaço-me em letras,
Como lágrimas minhas no teu rosto ausente,
Lágrimas que queimam a superfície da folha,
Acalmando as ondas que não existem em mim
Mas que me arrastam até afogar-me em tantas cinzas
– Bailarinas caindo da caixinha de música.

São todas palavras não-minhas,
Não-novas,
Microorganismos vivos
Que não-vivem,
E que me matam a cada linha escrita,
Corroendo-me por dentro dos ossos
Até o âmago das músicas que ouço lá fora e em mim.

Morro, morro, morro e ainda vivo.

Não sei cantar meu tutano,
Não sei encantar-me com meu não-canto,
Não sei cantar meus sonhos:
Esses barquinhos de papel que queimo
Por ter posto as mãos no fogo
Dos teus olhos tão frios
Que vejo deslizarem suavemente
Na superfície da folha da minha pele em branco.

Os pássaros
Esses continuam cantando aqui dentro do texto
Nesse infinito tão vago
Gaiolas abertas para que não voem
Formando figuras que me desfiguram completamente
Músicas em uma harmonia desarmônica
Deixando-me a sós com o que há de mais verdadeiro em mim,
Minha imperfeita felicidade,
Minha alegria tão desumana,
Minha insanidade tão prazerosa,
Gaiolas em chamas para que eu não voe
– Rodo com as mãos a engrenagem para ouvir a música.
Bailarinas dançando comigo enquanto sonho.
 
As Bailarinas das caixinhas de música

Ganexa ou de como a Sorte pode ser Infortuna

 
Nestes tempos tão sem cor
Vejo sonhos transparentes em todos os tons:
Pessoas ricas carentes de sangue,
Riquezas vazias sem nada a dizer,
Morrendo de frio e de fome de fome de fome de sei lá o quê.

Há vozes por todos os Cantos e em todos os Cantos:
Camões, Drummonds, Pessoas enchendo livrarias...
Fotos e mais fotos, espelhos e mais espelhos...
Mas os olhares são iguais aos dos meus avôs e avós;
Aos dos Gregos e Romanos.
Mudamos de casa
Mas levamos os mesmos móveis:
Somos imóveis,
Propriedades, privadas.

Que diferença faz?
Continuamos indiferentes ao tempo que faz dentro de nós.
Repetindo que após a Primavera vem a primavera,
Após o entardecer vem o Sol nascer,
No céu, nos Quadros do mundo.

Ouço minha respiração e sinto medo.
Amanhã não estarei mais aqui: afirmo.
E mesmo assim nem agora Eu Sou O Que Sou...
Permaneço indiferente a este momento,
Mesmo este momento sendo tudo que tenho e não tenho: insônia, fome, inquietação, agonia.

Atlântida... Pérsia... Grécia... Alemanha...
Que importa sabermos latim enquanto nossas vestes ainda vertem sangue?
Continuamos vertendo Werther pelas veias...
Sofremos com o Deus Ilusão, o Imortal.

Maya, Maya, Maya...

Tudo passa, inclusive esse poema.
– A mesma ladainha, o mesmo Mesmo há 7 mil anos... –
E minha única certeza é que nem dele lembrarei:
Certeza que estes versos sumirão como castelos de areia ou granito!
Apesar de tanto desespero, solidão e ter que guardar silêncio, bater continência, eu os escrevi:
De nada adiantou. Por que, meu Deus?

Tomara que Deus exista por trás dos espelhos,
E que embaixo da minha cama existam realmente monstros.

Duvido da dúvida, e isso é tudo.
Só sei que minha mãe tem os olhos mais lindos do mundo,
E que não sei nada além;
Sou um imbecil, me orgulho: meu único álibi.
 
Ganexa ou de como a Sorte pode ser Infortuna

Meu Bardo Thödol

 
estranho ser assim
um dia sou eu mesmo
noutros dias sou ninguém
às vezes tenho nada de mim
fantoche vestido de alguém

meu destino é o meu esmo
é essa espera pelo fim da azia
dessa chama fria, inspiração,
toda ela de chamas já cinzas,
morrer na boca como mágoas
florescer na folha poesia
 
Meu Bardo Thödol

Silva

 
Quando experimento como alquimista misturar elementos, pessoas há que não entendem, baixam seus olhos, crucificam o amor e a invenção e a literatura em troca de vazios.
Então desespero-me e penduro nos versos que se seguem, como em varais onde se penduram ceroulas e calcinhas, cuecas e ursinhos de pelúcia mofados cheirando a naftalina, as minhas impressões mais chulas:

Deveras é preciso defecar asneiras para que sejamos compreendidos;
Não há salvação em argumentações corretas, é preciso vender gritos e ganhar eleições para encontrar a Verdade Universal;
Ninguém liga para a poesia, o importante é retirar o seu crachá de Poeta(c);
Importante é fazer parte da fila, entrando no rabo ou na cabeça dela;
Sempre usar palavras compreensivas para que os olhos mais sensíveis não lacrimejem e para que os ouvidos mais entupidos não cuspam suas ceras;
É preciso utilizar o carimbo-social, sem ele você é um idiota [ser um idiota para os idiotas é panegírico; adoro o dúbio];
Ame intensamente o próximo, mas não se esqueça de dar um cacete nos teus parentes e enfiar a porrada na tua filha, esposa, namorada, marido, ficante;
Só os mais torpes sobrevivem;
Temos todos a mesma opinião [canhotos ou destros] e não sabemos como isso é um mal.

De fato, é triste ter que ser cômico para ser trágico, e poucos entenderão o que se passa nestas linhas. É a necessidade, enfim, de dividir e trazer a espada, para que ainda tenhamos sobre o que lançar nossas pérolas de plástico, que me obriga a ser idiota.
Escrevi estas palavras como meditação para mim mesmo, mas como sou egoísta fiz questão de compartilhar.
Triste época em que tudo é ninharia.
Graças a Deus que a História da Cultura é vivida de trás pra frente, pois mesmo neste tempo das cavernas podemos ler Shakespeare.
 
Silva

Juízo Final

 
Uma flor nasceu do caos sentimental, como nasce a vida no universo, e a poesia em palavras vazias.
Como despertam estrelas à Noite? Como morremos no meio do Quinto Ato, contrariando o mestre Ibsen?
O que importa é que a ausência de sentido tem toda poesia ao seu dispor. Tudo e nada dançando um ritmo novo, como o delírio febril produz metáforas que mudam nossa visão do mundo e do céu!
Quem me dera rir o teu gozo e beber o teu choro!
Mas é possível! Sim! Somos diabos e anjos! Poemas escritos num livro antigo perdido, e versos não feitos ainda, mas que aqui sentimos o cheiro!
Ah! Essa maldição de ser mais que perfeitos ainda nos mata!
Essa paixão pela Noite e Orfeu nos fará imensos como as galáxias!
Esse caos fará brotar flores do lodo e lírios no fogo do inferno!
Deixa de ver e olha pro poema como se fosse tua vida inteira exposta nua pra Deus no Juízo Final — como carta de Tarô!
Crava esta Espada no peito! Enfia estas palavras como punhal na alma! Grita a dor como último orgasmo!
 
Juízo Final

7

 
Nunca precisei de drogas,
Pra sofrer tenho o amor,
Pra me sentir bem tenho o amor.
Pra que usar drogas?
O amor já destrói minha vida o suficiente,
E já me deixa aéreo o suficiente também.
A coisa mais psicodélica do mundo é o amor.
A fonte do bem e do mal,
Da mais insuportável das dores,
E da mais incontida alegria.
O amor é uma alergia que nunca passa,
Nem que você jure nunca mais se aproximar.
Você sempre vai querer tocá-lo,
Nem que seja de leve só pra provocar...
O amor sempre te pegará com seus tentáculos mórbidos,
Com suas fantasias mais poéticas...
Até as putas são capazes de amar de verdade,
Elas só não são verdadeiras quando gemem,
O resto do tempo são sinceras.
Acho que farei um poema sobre isso;
Um dia, quem sabe?
Hoje só quero voar e fugir de casa,
Com minhas asas nada seguras,
As incompreendidas e imutáveis palavras...
 
7

Pra ser engolido sem água

 
Já não sei se realmente estou no ano 2000
Se os revolucionários ainda insistem em tomar banho de sangue
Ou se os meus patrões ainda brincam de guerra de ketchup
Tudo que eu penso ou calo pertence a mim
Mas até as minhas barbas vocês querem de molho inglês
E não é preciso ter mais de 3 olhos para ver
Não é preciso ao menos saber enxergar
Pois o tiro quando ecoa é porque não te atingiu
A pele quando arde é que foi queimada por alguma pele de gelo

Ainda crucificamos cristos e pessoas
Ainda respiramos e transamos com todo tipo de veneno
E eu me pergunto quanta carne humana ainda vou comer
O meu livro da vida continuo deixando escreverem em folhas de jornal
Escritas sempre por alguém que sabe mais do que eu
E por isso mesmo mente mais do que meus pais
Acerca da vida, das cercas, cercanias e sacanagens

Ainda acredito que Dom John vai voltar para nos resgatar para uma nova jaula
Acredito que de tantos beats nosso coração vai finalmente cansar
De tanto preciosismo ficaremos todos miseráveis
E no fim de tudo restará apenas pão e pedra
Comeremos pedra, mataremos com o pão
E os poetas vão se engajar em só rimar maçã com Apple

Enquanto isso na lua ainda há silêncio
No meu peito ainda escorre sangue, amor e outros déficits
Ainda solto as minhas borboletas para que me cortem com o seu cerol
Do texto eu não guardo mágoa alguma
Não, do texto eu não guardo nem remorso
Mas não o verei jamais como um amigo em quem confiar
Eu nunca entendi o que as pessoas dizem ser felicidade
Para mim sempre foi jogar as horas fora
E plantar rios de lágrimas e sorrisos até na hora do comercial
E nunca vai adiantar nada tatuar a paz na epiderme da bomba H

Não sei como o meu eu lírico sobreviveu a tantas novelas
Deve ser porque ainda consigo respirar
Deve ser porque ainda tenho tristeza
Porque ainda escrevo o que eu quero
Fora das regras, fora de hora, fora das minhas fronteiras
Não preciso de paz, não preciso de mim
Felicidade sempre será sinônimo de lágrimas
 
Pra ser engolido sem água

Sociedade dos Papagaios

 
a última vez que vi o céu não foi pela televisão
a última vez que abracei alguém não foi em sonhos
não assisto à vida
não rio de atropelamentos
não choro com final de novelas

mulher não tem que ser romântica
homem não tem que ser canibal
poesia não precisa ser branca, livre, vermelha

democracia não é liberdade
maconha não é liberdade
foto não é fato
felicidade não é revolução

cédulas não servem de papel higiênico
Jesus não era doutor
a bíblia é ficção
a ficção é mais infinita que a lógica
deus não precisa de letra maiúscula

queimem toda a poesia
criem impérios
matem o tempo inventando a História
sejam ateus deificando boçais
inventem gênios e gemidos

só é possível ver o céu
com olhos utópicos
 
Sociedade dos Papagaios

28

 
Só cabe no que fica
Ao redor
Na aura do poema
O sentido do não-dito
Que se persegue

Não há tinta que demonstre
O que só os olhos
Do poeta
Podem

Florestas e castelos
Canto de pássaros
Paraísos
Tudo que existe
Degustado tantas vezes
Lágrima envenenada
Lágrima de desespero
Sangue humano
Boca e bafo

Foram outras vidas?
Quanto tempo durou todo esse inferno?
Onde está o meu vendedor de pastilhas?
E o homem que falava Yorubá?
O enfermeiro com gosto de soro?
Por onde morre o discípulo de Gamaliel?

Da dor formei constelações
Explosões de ódio dão origens a tantas outras
Estrelas

Do amor inventei utopias
Claro que acreditar basta
O sonho é o meu único mapa
A utopia a minha religião

Não durmo mais aquele sono
Não sonho mais aquele pesadelo
Teu corpo é real agora que virou imaginação

Continuo sedento dos meus rios
Com saudade de saber dos risos Tigre e Eufrates

Onde guardam o fim do mundo?
Aquelas trombetas realmente dão samba?
Em que gaveta ainda sangram meus versos datilografados?

É perfeito demais para ser felicidade

Só na tristeza e no mal lhe conheço de perto
Defronte ao espelho sou agnóstico de mim

Por quantos anos você vai guardar as minhas cartas?
Ainda existiremos amanhã e ontem?
Em qual vida-láctea se perderam os meus anjos?
Será que alguém me dará carona pra cama esta noite?
Ainda existem laços apertados?
Vão injetar mais granadas nas minhas veias?

Silêncio.

Imaginei aquele Algo
E voltou a Chover
Poesia dos poros
Da criancividade
 
28

Para que eu sempre me lembre

 
Sempre Eles, nunca Nós.
A culpa é deles que matam e vendem,
Nós não fazemos nada disso,
Nós não temos culpa,
Somos todos bons,
Somos todos filhos de Deus.

Nós não traímos, não mentimos,
Não roubamos mesmo quando roubamos:
Afinal a culpa é sempre deles...
Nada de termos culpa:
O mundo está ruim não é por minha causa,
Não ponham na minha conta os crimes que cometi:
Culpemos a sociedade,
O establishment, os feriados (os finados?),
O diabo, os extraterrestres, os astros,
O horóscopo, as moiras, o capitalismo...
Outro alguém que não seja quem eu conheça,
Alguém que eu inveje, melhor!,
Alguém que não esteja aqui,
Que esteja de costas.

O vizinho sempre está errado,
O próximo deve ser amado da próxima vez,
Hoje não, não nesse poema.

Meu Deus é melhor que o seu,
Mas eu te amo, te perdoo.
Minha descrença é mais inteligente que seu sentido pra vida,
Mas eu te perdoo pela tua ignorância;
Afinal Eles estão errados, nós não.

Eles escrevem livros ruins,
Eles fazem revoluções erradas,
Eles assistem televisão,
Eles não sabem amar,
E ainda leem livros traduzidos...

Nós, Nós sabemos de cor toda a Literatura,
Sabemos tudo, nunca estamos errados.
O povo que é burro,
As multidões é que são cegas.

Nós, todavia, somos inteligentes e superiores,
Por isso que fazemos tudo igual a Eles,
Vestimos as mesmas ideias,
Comemos as mesmas latas,
Usamos as mesmas drogas,
Engolimos os mesmos presidentes,
Assaltamos a mesma geladeira,
Sonhamos com o mesmo monte de dinheiro,
Resumimos nossa vida a ganhar na Loteria.

Obedecemos às mesmas Leis que eles escreveram...
Seguimos as mesmas regras,
Escrevemos os mesmos poemas,
Usamos os mesmos sinais de pontuação,
A mesma sintaxe,
Os mesmos sentimentos.

Não existem álibis, amigos.
A culpa é toda nossa.
Os méritos são todos nossos.
Só posso abrir os olhos dos outros
Abrindo apenas os meus;
Mudar o meu mundo para mudar o mundo,
Esquecer de julgar,
Lembrar de me lembrar do amor.
 
Para que eu sempre me lembre

Lira dos 23 anos

 
Nunca tive 23 anos,
Nunca vivi a minha vida,
E os meus sonhos são todos teus.
Nunca me vesti de Brasil,
Nunca cantei nada que fale do meu sangue,
Só bebo e babo lixo terno e gravata.
Meu diploma é o das lágrimas escondidas,
Minha sabedoria é a das frases feitas de máscaras carnavalescas,
Meu livro da vida só tem frases de amor ao dinheiro.
São todos teus os cachos de uvas que brotam dos fios do meu cabelo,
E as águas passadas que quebraram o meu moinho movem agora,
À duras penas,
Apenas palavras de plumas ou penas macias ou crespas.
Saibam meninos,
Que as aspas dos deuses sempre tem a embriaguez da vela e o cheiro do vinho,
Nunca e sempre são os nossos Fernandos, pessoas,
E somos apenas poeiras nos poemas de qualquer maneira.
 
Lira dos 23 anos

Poeminha sincero

 
Sou um ser humano
aprendi a falhar
sou um ser falho
não aprendi ser humano

também sei brigar
discutir com quem mais amo
sinto inveja dos outros
xingo Deus e as fadas
fico com raiva do Tempo
perco a amizade por mim

choro sozinho
rio de velhas piadas antigas
ouço vozes desconhecidas
que me chamam
– meus amores que se foram?
tenho tantas lembranças
de coisas que nunca fiz
que confundo saudade
com ser feliz

o que seria da vida sem tantos arrependimentos?
o que seriam dos anos sem tanta dor?
não que sejam necessárias as feridas
não que sejam imperativas as mágoas
mas é que sem tantas lágrimas
não haveríamos de nos descobrir tão crianças

sem tanta dor
não haveria como rir de tudo
não haveria graça de saber
que ao menos uma vez
existíamos tão contentes
sabendo que o que nos fez sofrer
foi tão passageiro
por mais que tenha sido insuportável
foi imprescindível, necessário...

estranha paz depois de tantas lágrimas
quem nunca sentiu-se assim?
satisfação por ter morrido tantas vezes
quem nunca teve?

Tenho medo de ser mais um
como todos tem
quero todavia
transformar versos de amor
em poesia da vida toda
não sei dizer o que sinto
só explico e falo o que não sei
vivendo o que sou

é impossível fugir de si
chorar e rir por qualquer coisa
é sinal de fogo
dentro d’alma de qualquer um

não dá pra apagar
o que há de Prometeu
na nossa história e natureza
 
Poeminha sincero

Homenagem às borboletas de Darwin

 
Não posso dizer que sou um aborto.
Não posso dizer que Deus me ama, que Jesus me ama.
Não posso nem garantir que alguém ame alguém.
Nem que o amor exista. Nem a piedade.
Não posso dizer que sou feliz.
Nem sei o que é felicidade.
Não posso dizer que gosto mais do azul que do amarelo.
Só tenho fé nas cores da natureza, não nos corantes artificiais.
O azul do dinheiro nunca será igual ao azul do mar.
Também não posso dar a certeza se estarei vivo amanhã, ou se estou vivo hoje.
Há algumas pessoas, porém, que prestam verdadeira adoração a coisas mortas.
Ídolos de carne e osso que em breve virarão brisa.
Brisa mais fedorenta que a de algum béque.
Alguns adoram prédios caindo aos pedaços, verdadeiras instituições falidas.
Alguns servem ao Deus feito de papel sujo e numerado.
Mas eu,
Eu não posso defender pontos de vista se não acho nem o meu ponto de ônibus.
Não posso dizer que conheço meus amigos.
Ou que eles me conhecem, pois é tudo mentira, é tudo falso...
Se pisam no meu calo quero todos eles mortos.
Não posso dizer que sou sincero.
Ás vezes digo coisas falsas só para magoar.
Ás vezes digo coisas verdadeiras para enganar, ou pra me sentir bem, simplesmente isso.
Minha coragem acaba quando a fome ou a sede chegam.
Afinal sou um animal, um macaco humano, um primata nojento.
Ou um pedaço de barro.
Escolha teu Deus.
Ambos estão mortos, mas escolha o teu Deus.
Foi o que eles me ensinaram.
Esses eternos Eles sem rosto, sem nome, sem cheiro, sem poesia.
Eternos ninguéns castrados e amorfos.
Eternos seguidores de Cristo, Darwin, ou qualquer merda nova.
 
Homenagem às borboletas de Darwin

A Última Tempestade

 
Adeus, adeus aos sonhos!
Melhor viver de realidade que de esperanças!
Como seria bom se todo canto de sereia, toda paz que já senti, pudessem realmente ter sido meus, como é minha a desesperança e a azia! Como são meus os sonhos que não vivi! Como são minhas as ilhas onde sou Deus, onde sou todo grão de mar, toda gota de areia!
Ah, quem me dera ter uma felicidade tão minha quanto meu olhar!
Sim, o olhar! Porque os olhos podem se perder pelas ruas sujas e iluminadas pela dor, mas o olhar, mas a alma, nunca irá embora!
Mesmo que passemos anos no inferno, estações no desespero, o olhar, esse nunca será de outro que não meu!
O olhar é a poesia escrita por nossa vida quando nascemos, que levamos por todos os caminhos por onde nos achamos e perdemos, e que depois da morte continua a nos dizer tudo que somos, tudo que a vida é: poucos os sabem ler, é preciso morrer e viver pela poesia para entender.
Estará sempre aqui mesmo ausente: em fotos ele se desbota, em pinturas faz-se presente, mas é só frente a frente que existe: como existem as rosas, os lírios e as cartas que perdemos pela vida, mas que deixaram em nosso palato o sal do vinho!
Perdi a vida e a alma, vendi meu tempo, beijei os lábios do ar, enfrentei tempestades e goles de loucura, mas ainda tenho meu olhar! Ainda tenho meu Céu, minhas estrelas e um pouco de inspiração: e dessa inspiração crio minha vida, tirando-a do esboço dos meus dias para transformá-la em estética imperfeita, arte de artista sem fama, sem gana, que escreve muito mais por desencanto que por alegria.
Atravesso às portas fechadas, não consigo entrar nas mais abertas, e pergunto-me: por que tanto tempo para nada?
Quantos, quantos poemas ainda escreverei de dentro desta prisão, desta liberdade fajuta que transforma minha pele em madeira e meus pensamentos em térmites?!
Serei o único a perceber que estes cupins destroem as nuvens aos poucos, restando-nos apenas pó, cinzas e chuvas ácidas? Quando teremos chuvas de papel, de poesia?
Serei o único a ver que entregaram nossas Odisséias às traças?
Ah, o último verso, onde está?!
De que são feitos os sonhos? De poesia!
E se a poesia é a geometria do mundo, o que dizer de tanta inspiração, por que viver de olhos abertos se os sentidos permanecem ausentes, se todo toque de mãos transubstanciou-se em vinho, pão e em um nada absoluto?
Melhor ter reticências que palavras...
 
A Última Tempestade

Antípodas

 
Tenho um milhão de anos de idade, e não é fácil para mim carregar tanta história em tão pouco tempo de vida. Reflito sobre tudo que sou, que fui, que nunca vivi, e percebo quão grande é minha mágoa; quão grande é minha dor diante desse silêncio que sempre me acorda dos meus sonhos mais reais; daqueles momentos em que creio que a vida é eterna; dos dias em que tenho tudo nas mãos, e que depois quando passam e vão embora, vejo como é inútil a maior das felicidades. Inúteis como sonhar em ter impérios, castelos, ou realmente tê-los.
Sou desesperado, vazio, e tenho muitas palavras. Assusta-me estar vivo muito mais do que a morte. A morte é libertação, saída, horário de finalmente descansar após tanta dor e desilusão. Horário este sem horas, sem minutos, sem tempo, horário além do horário, tempo sem tempo, vácuo pleno.
A verdadeira salvação é a morte; o paraíso é a morte, inferno é viver.
Intuo verdades universais enquanto escrevo, e não é fácil para mim afastar-me deste estado de transe e magnetismo por muito tempo. Ás vezes penso e concluo que só existo aqui, enquanto me perco neste labirinto, sem fio ou Ariadne que me espere do lado de fora, sem poeta que cante meus feitos de Teseu melancólico.
O mundo aqui é completamente feito de incompletudes, e onde pousa uma palavra, dois milhões voam para outro lugar.
Sou antípoda de mim, só existo no meu lado oposto. Escrever é encontrar-me com meu eu demoníaco e sagrado; é abraçar-me, tendo a mesma sensação de já conhecer alguém nunca antes visto, ou então de amar um desconhecido ao primeiro olhar; é o mesmo que morrer, e me é tão insatisfatória esta morte, que necessito de dez mil delas para acalmar esta pressa que faz meus dedos e pernas não conseguirem parar no lugar, como ponteiros de relógio que não conseguem descansar, tornando-me assim máquina, acessório, sentido o gosto das engrenagens e óleos na língua.
Não quero ser para sempre, não! Quero ser fugaz, quero ser como esse vento que me toca agora, como essa inspiração fraca e leve que me faz escrever essa prosa inútil, esses sentimentos em letras, literatura da minha vida, que como toda literatura, é pequena diante do mais simples olhar fixo.
Quão curta é a inspiração, quão breve é a felicidade, quão inesperado é o milagre. Tudo que tenho são milhões de dias para viver, para quando menos esperar, ser surpreendido por um milhão de estrelas no céu, um milhão de céus nos olhos de quem já amei, um milhão de milhões de milhões de sentimentos no peito.
A única liberdade é o amor. O amor, esse algo que ninguém sabe o que é, mas que todos dizem já terem sentido. É a falta de sentido mais plena de significados, é o além da razão, mais forte que a própria força, poesia possível apenas para a sensibilidade, música do universo, sussurro de Deus, melodia para anjos escrita pelo mais maldito e sentimental dos mortais.
Se eu pudesse trocava tudo que nunca tive por um segundo a mais de amor, de amor e ilusão. Morrer de amor seria a melhor das mortes. Morrer de amor para se livrar de impostos e rotinas, morrer de amor para se livrar de discursos e políticas, para se livrar da tecnologia e dos selvagens.
Divago e escrevo, os pensamentos que me vêm são maiores do que minha possibilidade de pensar, e uso apenas aqueles que mais se adaptam à minha mediocridade de raciocínio, apenas aqueles que posso focalizar com meus olhos, pois certos tipos de cores não são possíveis de serem vistas, certos tipos de sons não são possíveis de serem ouvidos, e para transpôr esse tipo de limitações, o que posso, mesmo sem conseguir sucesso, é descrever sem descrever, falar sem falar, e quanto mais digo, mais me afasto, e quanto mais longe estou de ser entendido, mais próximo estou de ser sentido.
E ser sentido sempre me bastou.
Por isso nunca escrevi, nunca usei palavras, rimas, alfabetos. Sempre estive ausente do texto, olhando atentamente junto com o leitor, tentando ser ele enquanto lê, fazendo dessa comunhão meu único álibi, minha única verdade. Transformando-nos mutuamente, nesse encontro, em um só ser, tentando afastar-nos mais e mais do estar juntos, até o ponto em que os antípodas se tocam, em que os distantes tornam-se tão íntimos como o sol e a lua. E tudo se completa e chega ao seu termo nessa ausência de ausentes, nessas palavras alheias ao dicionário, nessas imagens pálidas como sonhos e miragens, nesses corpos unidos mesmo que desconhecidos.
 
Antípodas