Poemas, frases e mensagens de Margarete

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de Margarete

carta aberta ao meu leitor

 
já nada faço para que me leias, não preciso de um público pago e, ainda assim, escrevo, escrevo e escrevo porque as letras são o meu almoço e as palavras o meu jantar, tenho ainda direito a um pequeno almoço e a um lanche que são as leituras obrigatórias. já não me interessa que me idolatres, não quero saber de autógrafos ou de frases ditas de boca em boca e creio que me morreu a necessidade de te ter desse lado. perdoa-me. perdoa-me leitor mas não me incomodo mais com o teu bem estar, afinal o que escrevo nunca foi uma sala de hospital onde te curam as feridas, nunca foi um consultório, foi a minha casa e tu não sabias estar nela. eu abria-te a porta e tu não limpavas os pés e fazias das minhas palavras aquelas que querias ouvir. perdoa-me se não te disse antes mas nada do que te escrevi te era direccionado. era apenas a minha forma de estar sozinha, o modo que arranjei de não me fazer falta e, sempre soube, a minha forma de estar viva. tu mataste-me tantas vezes que nem imaginas!... rasgavas os quadros que tinha pintado, ferias o meu amor com murros em forma de comentários de apreço. eu nunca precisei do teu apreço mas tu nunca entendeste. eu nunca precisei do embalo, eu só precisava que não fizesses de mim a vítima numa novela que eu não escrevi. perdoa-me estimado leitor, perdoa-me esta distância mas de me teres morto tanto só me restou a necessidade de me afastar um pouco, tanto que agora me sento na lua e escrevo com o cotovelo apoiado em marte. foi pena, é pena, não puder entender-te ou, quanto muito, conquistar-te mas dou pontapés à terra e só lhe vejo o pacífico.
cansei-me de pessoas, cansei-me de poemas e ainda assim não vivo sem as dizer em contos. e agora que te disse toda a mágoa que te tinha, agora que me odeias tanto que não mais me pedirás para voltar, deixa-me só recordar-te a minha sinceridade na esperança que ela ao menos me sirva de álibi no crime que eu não cometi.
fim.
 
carta aberta ao meu leitor

o senhor Éme abraçou-me.

 
encontrei o senhor Éme esta manhã, estava sentado num poste de electricidade. perguntei-lhe onde tinha passado a noite, disse-me que estavam cheias as nuvens, ia chover. que a terra húmida é mais bonita. sorri. reparei que tinha ao colo meia dúzia de paisagens. disse-me que eram memórias que guardava, de lugares onde tinha ido, de pessoas que tinha abraçado. perguntei-lhe se o podia abraçar. já no chão arrancou-me os braços, meteu-os no corpo, bem agarrados ao pescoço. depois voltou para o poste. eu sem braços fui rua acima até casa.
 
o senhor Éme abraçou-me.

Gosto-te para o Alemtagus

 
Al:

Aquecemos os corpos despidos de preconceitos, aquecemos os corpos à lareira dos mistérios e segredos que nos murmura sonhos tresloucados que já tivemos, sonhos que inventamos à pressa nas noites curtas, curtas demais para os termos... somos felizes.
Quisera eu ter-te aqui sentado, coração batendo ao compasso da vida, solene momento, ás mãos entrelaçadas e emaranhadas, a face perdida entre a luminosidade das chamas, presas as mãos, presos os corações, soltam-se carícias, soltam-se carinhos e a vida é um arco-íris de amor que surge quando menos se espera. Quisera eu ter-te aqui, sentir o calor da tua pele na minha, deixar que a noite encubra este segredo só nosso desinibido, segredo maroto, verdade nossa que acaricía a realidade inventada que esperamos um dia puder ser real.
Nesta lareira restam cinzas de um passado queimado pelas mãos da tristeza, dela renascerão verdades impossíveis de serem escondidas, verdades que o destino escreverá à pressa no livro da vida e tatuará com minuciosidade na nossa pele...
Queria eu ter-te aqui para te dizer uma ou duas palavras simples e banais ao ouvido, depois sentir-te balançar até mim e voar comigo sem rumo certo e sem destino por este mundo pequenino... caberá o nosso mundo inteiro neste mundo pequenino?

Um beijo em ti
Saudade *
 
Gosto-te      para o Alemtagus

arma dura

 
que fazer quando tudo arde. com a sala inacabada. o corpo às voltas e a aflição. não perguntar à consciência quais são os limites da fuga. ir, sem olhar para trás. o destino é morrer. é quando a porta se abre que a cabeça se fecha. já nada pensa, nem a sombra. uma mulher vê-o cruzar a rua, a barriga apertada junto ao cinto das calças. está nua, camisola curta. a mulher respira e chama o filho que conhece então o rosto do pânico e chora. a mulher corre.ele de braços abertos.sempre de braços abertos. descalço.que fazer quando tudo arde. fechar os olhos é subitamente encontrar o teu rosto. deixo cair o corpo no passeio. um pássaro pequeno, vejo, vem ao meu encontro. é o lugar de ver o corpo imóvel. mas onde encontrar a raiz do medo quando o corpo volta por onde fugiu. assim cresce uma árvore ininterrupta. não haver grades no céu nem se ouvir sequer o tempo, talvez a não existência de pequenos pássaros. como vês maior é o precipício e a queda quando o corpo não sabe fugir. se o rosto o dissesse quando regressa, corpo ao colo, pânico no ventre. talvez depois crescesse menos.
 
arma dura

a segunda.

 
pela segunda. manhã ou tarde, não estou certa. deitou as mãos à cabeça, o homem. mais à frente penso que pensou em mim, a pequena com o rosto deitado na corrente. o olhar desperto e ao largo os sapos. era a segunda, a pequena, de manhã ou de tarde. e no sorriso faltava-lhe os dentes, ao homem, estava deserto. com as mãos deitadas na cabeça desceu a rua. os pés correm-lhe à frente do corpo até ao rio. pela segunda a pele não volta. não há regressos quando o corpo parte.
 
a segunda.

o teu pai violou-te.

 
ele chegou com as botas sujas de lama, parou à porta do teu quarto e agarrou a velha maçaneta da porta, por essa altura já tu te encolhias debaixo da cama com a boca presa à almofada que amarravas contra o peito, os dentes pequenos rasgavam de gritos a fronha. ele abriu a porta e ela rangeu todos os anos que tinha enquanto tu, da tua pequenez, rezavas a deus e a todos os santos que te lembravas, preces que não findavam, memórias de outras noites e os teus anos, que eram poucos e podiam contar-se por uma mão, continuavam a ser preenchidos de noites como esta, onde o medo acanhava o quarto inteiro. ele procurou-te com os olhos sobre a cama e soube de ti, soube logo de ti, no esconderijo do costume, agarrado às tuas preces, com os olhos e os ouvidos postos numa virgem que deu há luz um menino como tu. ele agarrou-te a perna e puxou-te para fora, o soalho gritava enquanto as tuas unhas o arranhavam, as tuas mãos pequeninas a arremessar gestos, a rasgar o ar, as tuas pernas a abrir nas mãos dele e ele de calças e cuecas no chão há procura de uma infância que não teve. o teu pai, o filha da puta do teu pai.
 
o teu pai violou-te.

1987

 
1987 foi um atentado à lucidez.
um vaga
lume.
uma clarividência.
abriram a barriga a uma mãe
saiu menina.

1987 foi um tratado às pessoas.
como dar o coração
à faca.
como incendiar os dedos
no toque.
espernear a loucura dentro
da boca.
ficar sem nunca ter deixado o
cárcere da pele.

1987 abriu as pernas
pariu estrelas.
deram-lhe um nome de gente
estranha.
chamou-se um nome que durou
a vida
dela.
 
1987

seja lá o que isto for

 
sou um trapo torcido no estendal a secar, ainda ontem era vestido fino, desses que a menina compra nos chineses e só usa uma vez, desses que a senhora veste para um jantar com o chefe que na verdade é o amante, desses que o marido compra nos chineses para oferecer à amante.
é tarde e o orvalho frio, de geada em janeiro, cobre-me o tecido caro, caro como a corda velha e emendada onde agora me balanço ao sabor de um vento desnorteado.
sou um trapo torcido no estendal a secar e hoje morro de frio.
 
seja lá o que isto for

restos de r.

 
pretendia dizer-te todos os movimentos que o corpo faz no abandono. revelar a pele, as larvas dentro dela, os ossos. estou cansada. ainda ontem me lembrei de te escrever uma carta de amor, bárbara. não há rios de água salgada, não há lágrimas doces. mar. deixo-te o mar. hei-de inventar-lhe formas e texturas várias, que um dia te caiba nos bolsos. queria escrever as raizes destas árvores que me olham, altas, a sair da terra, com bichos dentro da madeira. os ramos a pesar-lhe para o chão. morre aqui a última memória que de ti tive, há cerca de dois minutos, quando o teu rosto me apareceu de entre os arbustos. não te ouvi falar, nem uma palavra, que silêncio é este que me dói tanto. que silêncio. tenho estado tão só, se soubesses, tanto dentro como fora, um desencontro tão grande com as pessoas, que conhecimento é este do mundo, que dói tanto.
 
restos de r.

escrevo-te desta despedida.

 
e é devagar, devagar e com o cheiro a partida dentro das minhas narinas, que escrevo com o coração trémulo à espera que a porta se feche e o meu corpo se torne pequeno à medida que me afasto. é devagar que fecho as persianas dos meus olhos agora repletos de lágrimas. é cedo para ir, cedo. tenho a noite a apontar-me uma saudade com os canos cerrados, tenho as estrelas em contagem decrescente e a lua em xeque-mate.
perdi o tempo que nunca tive, perdi-o dentro do meu bolso.
 
escrevo-te desta despedida.

o não barulho.

 
todas as palavras não as sabendo, se as pronunciasse, eram como chamar-te pelo segundo nome que só eu sabia. e se eu soubesse o nome que te deram as palavras, não as dizia. nem tão pouco as inventava quando me sentisse só, sem ti. e todos os silêncios seriam como lembrar-me dessas outras, as palavras, que ao teu nome levaria. e tudo isto me faria acreditar que quanto mais te esqueço mais te lembro. e lembrar e esquecer são o mesmo, quando choro.
 
o não barulho.

MARINA DESLIZE: MILÉSIMO SONETO

 
quinteto por moreno; henrique cachetas; alexis; roquesilveira; margarete.

nota: QUALQUER SEMELHANÇA COM A REALIDADE É MERA COINCIDÊNCIA.

Oi! O que é que está pegando?
É Marina Deslize na calceta
Num samba da Tijuca arrancando
"O Milésimo Soneto" da buceta.

Rolou um show de bola na buraca
E Marina toda inchada em seu rolé
No calçadão se estatelou. Caraca!
E a calcinha? Ninguém viu! Cadê?

Oba oba! A bunda toda peladinha
Sacaneando poeminhas do Brasiu
Exceto os 40% da mocinha.

Oba Oba! O bicho está pegando
Marina copiando. Alguém viu?
Não! Está todo mundo se cagando.
 
MARINA DESLIZE: MILÉSIMO SONETO

confissões a ana.

 
não sei ana se já te falei da chuva. se já te disse das flores, de ser primavera lá fora. se te contei de quando me cortei no tórax com uma tesoura - queria tirar-me do peito o coração-, de como no lugar da ferida me cresceram algas. tempos houve em que cortava o corpo, procurava em todas as feridas um pedaço de coração a abater. doía-me tão forte dentro, ana, doía-me tão forte e tão fundo dentro da pele. não sei ana se já te falei de amor, de voltar os olhos para o mundo e ver crescer-lhe flores dentro, é destas flores que te devia ter falado. de como estas flores te enchem subitamente de vida. e o amor também dói, sobretudo quando está longe e o corpo o chama para perto e ele não ouve, é que o amor às vezes não tem ouvidos ana. trouxe-te hoje um segredo, quero dizer-to quando o sol chegar mas hoje não há sol. estou terrivelmente só, ana, trago dentro de mim todas as histórias, marcas de facas e tesouras na pele, memórias que arrastam memórias, de sangue, de dor. de ter morrido já. ainda não te contei de como morri, era dezembro, engoli uma caixa de anti-depressivos, lembro-me de ter escrito um pequeno testamento, deixava-te os meus livros ana, a ti que nunca conheci, deixava-te os meus livros. o hospital é um lugar frio quando se acorda da morte. eu tinha frio e não havia nenhum corpo ali ao lado, que me aquecesse, que me abraçasse, nenhum corpo, ana, nenhum. morri e nasci sozinha. e digo-te ana ninguém deve morrer só. não há nada mais triste do que morrer só. não sei hoje ana se já te falei da chuva.
 
confissões a ana.

diz-lhe.

 
não agora que o vento corre com o corpo em direcção ao mar
mas mais tarde diz-lhe para vir aqui ter.
já no colo lê-me um poema que fale de água, de sul, de afecto.
fala-me de como as mãos se levam à língua, de como
os dedos te entram na garganta.
sabes hoje que o tempo sempre foi do que sinto,
se mais sentisse mais vento corria, mais ele vinha,
mais nos deixávamos.
trazia uma casa no bolso esquerdo do corpo
doía-lhe porque pesava como a seiva dentro das árvores.
não enquanto for noite e lhe doer estar sozinho
mais tarde quando a hora mudar. talvez
deixe o coração fugir-me.
fala-me de crescer saudade nos olhos e corre
corre muito e diz-lhe.
corre muito e diz-lhe.
 
diz-lhe.

pág.73

 
o corpo assenta-lhe bem do lado da pele onde o coração repousa, menos enrugado. a seu lado um caderno de anotações velhas e várias, onde descreve ao pormenor lugares e rostos. os dias estão-lhe numa sequência de vogais organizadas pelo encardido das folhas. na capa algumas folhas de árvore secas. a pena de um pássaro amarelado repousa na página setenta e três onde um poema encolhe os ombros.
 
pág.73

#01

 
dizes: as esperas são sítios demasiado perto, sufocam. aparto-me de ti com um parágrafo.

talvez ainda te sentes no mesmo banco, fales com os mesmos pombos, tombes a cabeça para o lado esquerdo enquanto pensas. talvez ainda te esqueças de quem és, do nome que habitas, como se te fosses indiferente, te ocupasses já de morte. ou talvez de hoje em diante não te vejam já as ruas, paralelas às que me cruzam. porque as esperas são vésperas de abraços sem cais.

digo: todos os parágrafos são esquinas de rua.
 
#01

a gorda (com freudnaomorreu)

 
Não passes por mim tão perto que ainda me apaixono e cruz-credo eu apaixonar-me por ti, logo por ti que não tens onde cair morta. Vá, passa-te mais longe que o passeio tem os meus braços de largura e entre os meus braços não cabe o teu corpo de cinderela gorda... Aconselhei-te uma banda-gástrica mas não me ouviste e agora não quero um romance de longa duração, nem de curta. Passa-me do outro lado que deste lado não há memória enxuta ó desgraçada. Ó desgraçada que bem podias ser filha-da-puta se fosses capaz de me levar o coração...

Foge ..Foge de mim, meu perneta amoroso. Raspa as minhas coxas com teu olhar em fuga…E no intervalo da cura de emagrecimento, fode-me sem me teres fodido… A tua língua dirá várias coisas cruas, mas sei ir para além das tuas lentes de míope. O que intuo? Tanto desejo recalcado por este pedaço generoso de carne. Faz-me cócegas… Troça do nosso amor… Com riso dobrado, a balança será equilibrada… Um peso abaixo, um beijo a mais! E agora…manda os passeios perderem-se na minha avenida pois deixei lá pousada e exausta a minha lingerie…
 
a gorda  (com freudnaomorreu)

quarenta.

 
um dia partiu na calmaria de um beijo, foi, primeiro pela luz fosca da manhã depois pelo sol, nunca mais a voltei a ver. às vezes procuro-a fora de mim, na imobilidade dos objectos, no caudal estático das lágrimas, já sem rosto, ou corpo que a recorde. mas é por dentro da pele que a encontro, a sua solidão a abrir-se em ferida no meu peito, o seu não jeito para o amor, como se amar-me fosse o que de mais precioso lhe entregara a vida. custa-me recordar-lhe as feições, às vezes prefiro chorá-la, só assim, chorá-la inesgotavelmente, até me afogar dela e morrer para sempre. estar só é ver crescer a humanidade nos objectos e ver morrer-nos a humanidade no corpo, ser humano é transitório. a mim custa-me sentir tudo isto, sem paz, sem nada. sinto-me sem casa, sem vida que me habite, sem um diabo que me carregue ao colo, me leve de encontro à luz solar que a levou.
 
quarenta.

até as silvas dão flores.

 
vou parir pela manhã a primeira flor na boca
uma palavra antes de ser primavera
sabes meu amor se a vida fosse minha
entregava-te as estações todas nesta
dos braços caem-me sementes gestos
sítios onde morrer de corpo aberto
até quando o amor quiser e eu for do amor
como tu és dos sítios onde não ando
como pedra fica-me o coração dentro
à espera que a pedra bata e fure o destino
e é como quando sem ti se vestem as árvores
como quando são folhas e ninhos entre elas
é onde imagino uma casa nossa
há no mundo uma beleza que te pertence
no abrir dos braços e sorrir saudade
fugir pelos carreiros nos montes dos sonhos
onde soubemos inventar a felicidade
e é a felicidade que me visita quando isto é
silêncio
 
até as silvas dão flores.

ensina-me a morrer.

 
mãe, hoje acabou. alguma coisa dentro de mim morreu, alguma maneira de eu estar sozinha, talvez o meu jeito quieto de vir à varanda e ver-te acenar ao tempo que passa. mãe, alguma coisa foi mas o quê não sei. entrou-me pela boca e entupiu-me as palavras na garganta, as muitas que tinha para dizer e que agora me caem pelo rosto em forma de lágrimas. se tu soubesses, mãe, se de algum modo pudesses adivinhar-me esta dor, cobririas o meu peito com o teu corpo num abraço. ainda espero pelo dia em que me abraces embora saiba que os mortos não abraçam ninguém.
 
ensina-me a morrer.

. façam de conta que eu não estive cá .