Poemas : 

História Sem Moral

 
Nasci,
Como diria Machado de Assis,
Como nascem as magnólias e os gatos,
Numa sexta-feira, dia aziago,
E foi bem natural o meu parto.

Já no Sábado fui batizado.
Minha madrinha era Dona Conceição.
Meu padrinho, seu marido, "Seu" Amaro.

Meu pai, feliz da vida, fez um "festaço",
E convidou toda Vila para me conhecer.
A nata da sociedade provinciana veio me ver.
Nas mesas, bem ornamentadas, faltou espaço.

E meu pai matou três bois para o churrasco;
Meu tio contribuiu com quatro tonéis de vinho.
A festa foi a mais comentada entre os municípios vizinhos.
Afinal tinha nascido o menino mais lindo do pedaço.

E, como diria Machado de Assis,
Cresci, como crescem as magnólias e os gatos.
Os empregados da casa eu fazia de meus escravos.
Na minha escola quebrei muito nariz.

Com quatorze anos meu pai me deu um carro.
Com dezesseis fui estudar nos Estados Unidos.
Lá aprendi a fumar maconha e a fumar cigarro.
Lá também foi onde eu dei o meu primeiro "tiro".

Com dezoito anos voltei para meu país de origem.
Não olhava para o passado e nem previa meu futuro.
Não criei entre mim e o mundo nenhum palestino muro.
Fiquei vadiando pelas boates. Todo dia uma nova viagem.

Até que um dia algo não previsto tocou o meu rígido coração.
Não pude me conter; nem pude o segurar na minha mão.
Não sei de onde veio e nem como meu peito foi atingido.
Mas pela primeira vez eu me senti realmente um ser vivo.

Não sei dizer com precisão a dimensão dos olhos tais.
Só posso dizer que era uma amálgama de folhas verdes,
Um misto de azul marinho com outros azuis celestiais;
O rosto? um quadro perfeito na mais perfeita das paredes.

E eu, como diria Machado de Assis,
Que sempre tive tudo que sempre quis,
Quis aqueles olhos de colorações indefinidas
Sem saber se eles queriam fazer parte da minha vida.

E quão surpreso eu fiquei quando eles me disseram não.
Justamente eu que tive o mundo e o universo na mão,
Que sempre fui bajulado, me senti um vassalo, um escravo
Daquele par de olhos que traziam em si toda minha contentação.

Só eu sei quantas noites eu passei em claro contando constelação.
Só eu sei o quanto doeu ser rejeitado por quem eu tanto queria.
Mas, enfim, eu aprendi dolorosamente naquele fatídico dia
Que nem todo coração poderia caber na palma da minha mão.




Gyl Ferrys

 
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