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Presos Políticos

 
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Do ser do contra


Vivia em prisão domiciliária.
Era um membro do partido da oposição tripartido.
José Trocaste, era como já era conhecido. Sempre que ganhou as eleições por minoria absoluta virou a casaca.
Agradava-lhe o apelido. Era, digamos que, filosófico.
As cãs e a calvíce davam-lhe um requinte respeitoso.
Por ter um metro e quarenta e nove, nunca cumpriu o serviço militar obrigatório, uma obrigação do seu tempo, e apesar de objector de consciência, foi por dois trizes que se ausentou do combate ultramarino.
Fora isso, era um vulcão do signo leão. Casado, com meia dúzia de filhos melhores do que o pai, e todos da mesma mulher. A sua esposa.
Arcaboiçado, o seu vício e fenómeno é ser do contra, negar e argumentar.
Advogado de defesa do ministério público, cerebral, tinha a fama e a história de ganhar mais do que perder, com argúcia e trabalho.
Tinha amigos dos mais variados: escultores, calceteiros e trolhas; pintores e pintores de construção e grafitters; poetas de primeira e jornalistas de segunda; aguadeiros secos; colegas, amanuenses altos e juízes baixos; futebolistas das distritais e treinadores de bancada; arquitectos ricos e engenheiros de obras feitas e por fazer; polícias, e claro está, como era advogado, ladrões.
Os seus inimigos eram todos políticos.
Até os da própria cor.
A Dona Rosa é que lhe emendava esse trejeito, com sorrisos e outras diplomacias. De nada era membro, nunca. Mas o marido, que a roubou aos pais a sopapos, tinha nela a âncora que faz qualquer navio.
Ainda que o seu Zé tivesse a lábia lapidada, esta era de desconstrução e veneno.
Rosa era vistosa. Alta de mais de metro e oitenta.
Encurvada nos sítios certos apesar de ter parido seis ao longo da sua carreira de mulher. Tinham-lhe medo as estrias e fugiam-lhe com dor as rugas. Não fosse o cabelo muito cinza que nunca pintava, fazia um quadro com o cônjuge de pai e filha.
Mas depois, se tinha a filharada atrás, era desfeito o engano.
Tinha mesmo ar de mãe, cheiro de mãe, perfil.
E Trocaste não lhe ficava atrás.
Falta referir que o sobrenome da minha personagem principal é Rocha.

Da vez que não discordou duma lei do universo que, por conselho de ministros, foi aprovada na assembleia da república com noventa e nove porcento de abstenções, chamada "aquilo que dás ao universo recebes a dobrar", teve um ataque de pânico que quase lhe custou a vida.
Se começassem a dar demasiado, como é que se ia arranjar o dobro? Eram muitos impostos!!!

Um dia um ditador bateu à porta da nação.

A mole de gente, medrosa do antecessor corrupto, deixou-o entrar.
Tinha nome de lata de conserva de atum. Tenório Serafim.
Ou, como Trocaste lhe passou a chamar depois do secretário geral da sua cor ter sido eleito, Será Fim.
Deixou de lhe poder ver a fronha, fosse nos comícios a sete metros, fosse na RTP memória.
De repente, o programa que tinha sido redigido por si enquanto defendia mendigos acusados de roubar vianinhas e cocaína a traficantes, virara do avesso.
Eram só ditados.
Tenório Será Fim punha-se a ler para as massas, duma folha de rascunho sebenta (desacreditava-se do tele-ponto, sobretudo em terriolas e ao ar livre).
Retirava poderes, sobretudo de compra a muitos e, a poucos, sorria.
Criou uma polícia nova, chamada Polícia Nova. Desmantelou as forças armadas e deu-lhes bisnagas.
Era um Carnaval triste.
Dona Rosa viu-lhe as dores e recomendou-lhe cuidado.
Na oposição, passou por reaccionário e inimigo da nação.
Sentia-se observado, além de visto e revisto.
Quando começou a palrar sozinho sobre a carta dos direitos humanos e dava aulas aos bandos de pardais, no jardim de fronte ao escritório, sobre a revolução francesa, veio o que já via a vir desde que ganhara as legislativas e foi-se embora.
Uma pessoa esbelta, doutorada, linda de morrer segurou-lhe pelo braço esquerdo e insinuou-lhe que o acompanhasse.

A arrastar os pés mais do que nunca, trocando-os um pouco depois de duas minis, às dezanove e sete entrou numa Caserna, que era o nome dado ao local da Polícia Nova.
Foi interrogado e negou tudo, como era de seu jeito.
Não e não.
Não aceito.
Não vos quero.
Não me acusem de não pensar.

Foi condenado à pena máxima, a cumprir em casa.
A pulseira electrónica era no calcanhar e branca.






Sou fiel ao ardor,
amo esta espécie de verão
que de longe me vem morrer às mãos
e juro que ao fazer da palavra
morada do silêncio
não há outra razão.

Eugénio de Andrade

Saibam que agradeço todos os comentários.
Por regra não respondo.

 
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Rogério Beça
 
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Enviado por Tópico
Rogério Beça
Publicado: 05/06/2020 12:53  Atualizado: 05/06/2020 12:55
Colaborador
Usuário desde: 06/11/2007
Localidade:
Mensagens: 1970
 Re: Presos Políticos
Parece-me ser típico de cobardes, comentarem os meus comentários a textos de outros autores, sem se referirem ao texto em questão e não terem a frontalidade de comentar os meus poemas, ou contos.

Desabafo...