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Textos surrealistas

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares da categoria textos surrealistas

FOI-SE (A VIDA)

 
Chegou
Para pintar
De negro o dia,
E derrotar
A harmonia.

Chegou
Para transformar
Corações
E derrubar
As frágeis ilusões.

Chegou
Com seu andar
Imponente,
E seguiu indiferente.

Chegou
Ao seu destino ávida de vida
E entrou sem avisar...
Com a sua acção homicida,
Fez-se anunciar!

Partiu,
Deixando um pranto frio,
Sem uma palavra de alento
Ou um esgar de ressentimento -
Indomável como o vento
Norte...

E recolhendo a Foice
- Dona Morte -
Foi-se!...

17/4/2008, NelSom Brio
 
FOI-SE (A VIDA)

A minha agenda

 
A minha agenda
Gostava e não gostava… que vissem a minha agenda telefónica que data de janeiro de 1950, quando vim morar de novo para Lisboa. Quando me casei estive em casa dos meus sogros um ano ou pouco mais e depois resolvemos ir para a nossa casa e alugamos uma na Amadora. Ao fim de um ano saturados, viemos para a capital de novo. Ao fim de uns seis anos fomos morar para o Restelo, aí sim que belos anos! Aí foi de novo reinstalado o telefone é verdade e que maravilha era nesse belo tempo, utilissimo! Então como fazia falta a agenda, era necessária para poder anotar novos números, contactar com a família, amigos, e médicos etc… naturalmente, estava sempre connosco. Os primeiros dados que apontei nela, tudo nos conformes, números redondinhos, letra certinha, belo tracto, sim, guardado na gaveta com a caneta sempre no seu posto avançado. Mas verdade é que ultimamente já nem sabia onde a caneta parava e tinha que ir arranjar outra à pressa para apontar qualquer coisa, descuido evidente. Depois o pouco tempo, muito trabalho mais crianças, começou a faltar ocasião para assentar de imediato, e comecei a pôr bilhetinhos a escrever de qualquer maneira…instalou-se a baralhada. Quando a conversa se estendia nem sempre estava muito concentrada, o tempo a passar o trabalho por fazer então começava a desenhar na coitada da agenda, caras que se calhar eram o reflexo do meu estado de alma naquele momento. Depois era difícil compreender aqueles traços, desenhos, graciosos, palermas, geométricos e tudo mais que me vinha á cabeça. Os novos números ficavam encavalitados nas linhas e difíceis de perceber, mas sempre os entendia ao fim e ao cabo. Ainda a tenho, conservo-a com carinho, a capa ainda está preta, um pouco baça e escassos os vincos dourados. Tem umas poucas braçadeiras de fita-cola a segurar a capa e as descoladas folhas. Depois do ipsolon está mais limpo, só uma coisita ou outra, todo o resto parece, Deus meu, um estudo picassiano. Papéis colados, desenhos, números riscados, rasurados, as folhas intercaladas de variadíssimos papéis velhos com gatafunhos de cores e feitios, datas antigas, apontamentos, pelos cantos e enviesados, letras, algarismos e rabiscos até no reverso das capas… uma vergonha. Veio o progresso e os telemóveis, registam tudo e lá ficam gravados todos os requisitos, mas não tenho coragem de a deitar fora embora já nem tenha telefone fixo ela continua na gaveta sem préstimo nenhum a ocupar espaço, será pateta mas verdadeiro. Gosto de a olhar e sentir nas minhas mãos. Por quê? Não sei…talvez pelo sentimento a uma companheira de horas de vida, sim é isso! …
 
A minha agenda

sintoma

 
sintoma
 
amanheço e ela ainda está lá e perco-me, quando pela vidraça, galhos retorcidos se enraízam em meus olhos. a mente agita-se muito antes do café, pois do outro lado da rua algo que foi frondoso alicia e prende-me a visão como se fosse espelho refletindo meu eu despaginado, assediando-me nua de histórias, de flores e frutos. enquanto minhas mãos erguem os emaranhados cabelos, fito o corpo ressequido se elevando ao céu - como se pedissem perdão dos pecados - suplicando a volta da carne; ramificado esqueleto sepulto em um vão do céu e estampa-se acima dos telhados como imitando meus bronquiais poluídos e en.carecidos de oxigênio colorido. não. não extinta, ainda, como aquela árvore, porém, por vezes, ergo-me hirta, desconsiderando o embalo do vento, feita espectro diurno que no recluso da noite permite pousos insistentes de pássaros florescendo asas nos pensamentos - vigias noturnos a quererem deixar festivo meu vulto que se amanhece já despido dos idílicos adornos. desvolumado pra reter luz, caminha sem silhueta que se deite sombra pra se arrastar no chão dando certeza da existência. incomoda-me, nas manhãs, a aparência falecida daquela árvore; falida e ainda assim, tão altiva. que nem eu.
 
sintoma

Miguel Angelo e a capela Sistina

 
vejo pedaços de orelhas
espalhados por todo lado

Van Gogh
com os seus girassois amarelos
e Picasso
montando a sua bicicleta de lata
soldando pedaços metálicos cortantes
para fazer a sua própria estátua

vejo Monet
com as suas formosuras belas
é impressionante o seu pincel
e aguarelas
e
Salvador Dali
perdido no tempo
marcado num relógio de ponteiros derretidos
agora vejo a crucificaçao por outro ângulo

Miguel Ângelo

Miguel Ângelo

já pintaste a capela sistina,
não ?
então pintamos nós!
 
Miguel Angelo e a capela Sistina

probabilidades

 
Qual a probabilidade de me espalhar ao comprido, sabendo de antemão que caminho sobre um chão acabado de encerar?
É pertinente o dilema sobre qual o teorema a aplicar, a fim de tal probabilidade determinar!
E no caso de me estatelar, qual será a probabilidade de algum osso quebrar?
O melhor mesmo é apurar com exactidão a probabilidade de sofrer danos colaterais!
Antes que cheguem os senhores de branco com os coletes de forças, vou jogar com a estatística!
 
probabilidades

a revolta da hipotenusa

 
Basta, Pitágoras! Não mais serei a escrava desse famoso teorema que eleva o teu nome aos píncaros. A partir de hoje, deixarei de ser a mera soma do quadrado dos catetos, desprovida de qualquer personalidade própria, para me afirmar como linha independente. Dispo-me da hipotenusa! Sou livre, ouviste bem?! Apenas lamento pelos catetos, que até se elevavam por minha causa. E agora que o teu triângulo rectângulo fica desfeito, aproveita para enfiares o dito ângulo pelo recto acima!
 
a revolta da hipotenusa

orgasmo literário

 
a noite estava fria e as atenções estavam centradas na visita de sua santidade ao santuário de fátima, não se antevendo, por isso, que uma multidão acorresse à cidade outrora rainha das termas, onde iria decorrer em pleno coração a apresentação do mais recente livro de José Ilídio Torres, professor que lecciona numa escola do concelho. para meu espanto, assim que começo a descer a avenida rumo à praça da república deparo-me com um ajuntamento anormal de pessoas. por momentos ainda pensei que tivesse acontecido alguma tragédia, mas logo que me acerquei da referida praça, as dúvidas caíram por terra. o motivo de tamanha azáfama era mesmo o evento literário em questão. era ver cartazes e mais cartazes espalhados, todos fazendo uma especial alusão ao autor que parecia minúsculo no palco montado ao fundo da praça. como rapaz tímido e reservado que sou, não me atrevi sequer a aproximar-me da plateia, ficando a admirar aquele orgasmo em tons literários que se prolongou noite dentro até altas horas da madrugada, tal o número de autógrafos, alguns em lugares muito pouco ortodoxos, que o autor distribuiu pelas fãs.
 
orgasmo literário

A tua normalidade dava uma novela mexicana

 
A tua vulgaridade é um romance de cordel. És tão normal que metes dó, divides-te em dois pedaços, um em cima o outro em baixo, com traço de fracção no meio, só para te anulares melhor. Atrevo-me até a dizer que quando se inventou o zero, já estavam a prever o teu nascimento. E quando o homem pensou o que era a esquerda e a direita, era já a prever onde te ia colocar.

És tão vulgar a falar. Jurei um dia ver um tremoço a cantarolar no meio dos teus dentes, a fazer uma gentil serenata à mini que explorava as caves do desconhecido. As tuas unhas são normais, nada mais. Julguei por momentos ver um sinal estranho no teu braço, mas depois vi que não era nada. A tua vulgaridade mete nojo mesmo.

Dizem que és vulgar na cama. Não te experimentei, de tão vulgar que és. Dizem que gemes como um disco riscado, que gritas como um botão cansado de ser carregado. Pelos vistos, até aí és mecânica, previsível. Até que chegou o dia em que percebi a tua magia. A tua vulgaridade era única. Quase especial, de tão vulgar que era. E aí, deixaste de fazer sentido. Acordei e percebi que te tinha sonhado, na mais pura vulgaridade do meu pensar imaginado. Era impossível existir alguém assim...

Mas isto não ficou por aqui. No dia seguinte, mal dormido, e queixoso da comida também, e por sinal da bebida, vi-te a passear, vulgar, no passeio dos comuns pedestres. E já te tinha visto todos os dias. Eras um enigma especial, um tesouro por abrir, um ser tentador, e por sinal tentado também. Aquele sinal da bebida, que uma coisa leva à outra, e por aí adiante.

Ficava então a questão: eras sonhada? Real? Enigma? Tremoço entalado na dentuça vulgar?

Eu acho que és tão vulgar como a minha imaginação. E tenho a certeza que nessa noite não dormi bem.
 
A tua normalidade dava uma novela mexicana

O PORTAL

 
Ela espreitava o que acontecia naquele momento:

Dois rapazes e uma moça conversavam animadamente até encontrar uma muralha branca que deveria ter sido pintada de cal.

Diante do trio ela se erguia imponente como uma fortaleza medieval.

Os rapazes avistaram uma porta (ou portal) tão imensa quanto a muralha que a incrustava.

Sem esperar, uma luz branca surgia, vinda daquela porta.

Os rapazes colocaram as mãos sobre os olhos, tal a luminosidade que saía do local.

A moça incrivelmente não fazia isso. Eles se espantaram e um deles a perguntou:

-A luz não dói em seus olhos?

- Não, vocês devem ter fotofobia. A mim, não incomoda nada!

Eles forçaram a porta para tentar entrar, em um ímpeto de curiosidade, e por mais que forçassem de nada valia...

A moça abriu caminho entre eles e apenas empurrou com suas mãos (numa leveza de fada), e a porta instantaneamente se abriu.

A moça entrou e eles ficaram de fora, surpresos com a coragem que a amiga tinha, diante do desconhecido.

Nesse momento, o portal fechou-se novamente.

A moça ficou do lado de dentro, e eles nervosos, batiam novamente na porta na ilusão que ela se abriria...

Diante deles, surgiram insetos enormes, vindos de todos os lados e cobriram o portal.

Não havia mais nada a ser feito: Era sem dúvida, um portal que somente um coração puro e destemido poderia entrar.

O de Clarisse.

E a outra moça, que a tudo assistira desde o começo, acordava do sonho*, para mais um dia no mundo sem fadas.

Fátima Abreu

*Baseado em um sonho de minha filha Catarina Abreu
 
O PORTAL

AS DEZ RAZÕES PARA SER SPORTINGUISTA. (RÉPLICA AO JOSÉ TORRES)

 
Uma réplica ao texto do José Torres, das dez razões para não ser do Benfica

Eu vou apresentar as minhas dez razões para ser do Sporting Clube de Portugal.

1º- Os adeptos do Benfica são do Benfica desde de pequeninos
Eu sou adepto do Sporting ainda era espermatozóide e quando garoto, se não fosse do Sporting, os outros miúdos tinham-me partido o nariz e não só

2º-O leão é um animal belo e nobre, rei da selva, seu rugido faz tremer as árvores e por vezes, acontece, apaga a luz, a sua bela juba seduz as leoas.

3º- A sua potência sexual: faz amor todos os 15 minutos e consegue fazer 50 vezes por dia,
eis uma das razões pela qual eu sou adepto.

4º-São animais que se adaptam facilmente em circo, para nossas delícias.

5º- Facilmente domesticáveis, até se conseguem reunir para jogar futebol

6º- Gostam de dragão de churrasco eu também

7º- Gostam de Águia no espeto e eu também

8º- Animais sociaveis, na relva jogam sem protecção e não ferem ninguém

9º-Sabem passar pelos túneis em camaradagem

10º- E porque são amigos, para não ferirem susceptibilidades, fazem-se gatos mansinhos
e deixam a vitória para o adversário, ou não fosse um animal nobre.

Aqui fica a explicação de eu ser Sportinguista, verde e acabo de saber que esta semana foi descoberto um lagarto na Indonésia, até agora desconhecido que mede dois metros.
Como o Sporting anda à procura de um defesa central alto, aqui está a oportunidade de ter um lagarto de dois metros.

A. da fonseca
 
AS DEZ RAZÕES PARA SER SPORTINGUISTA. (RÉPLICA AO JOSÉ TORRES)

dicas para ser um poeta famoso

 
Dicas para se tornar um poeta famoso:

- faça exercício, muito mesmo, até à exaustão.
(Para ser poeta é preciso suar!)

- descasque cebolas daquelas mesmo fortes, até ficar lavado em pranto.
(Poeta que é poeta, chora!)

- faça incisões pelo corpo, mas a sério, e não pequenos golpes.
(Poeta que se preze, sangra!)

- torne-se um coitadinho aos olhos da sociedade.
(Poeta que é digno, vitimiza-se!)

No caso de nenhuma das fórmulas anteriormente descritas produzir os efeitos desejados, existe sempre um último trunfo, uma espécie de ás na manga: Morra!

(Depois de morto, todo o poeta se torna famoso, ou então anda pelas bocas do povo!)

Este texto é mera ficção, alguma semelhança com a realidade é pura coincidência.
 
dicas para ser um poeta famoso

VIAGENS SENTIDAS

 
VIAGENS SENTIDAS
 
Queria que meu dia florescesse em cada palavra que o vento me traz, naquela melancolia que a chuva no telhado me musiqueia. Olho da janela e vejo lá longe na serra as gotículas de agua, dançarem no embalo que a brisa lhes dá, são minúsculas, quase não se veem, mas sentimos que existem, quando quase num beijo, nos tocam o rosto!
Meus olhos perdem-se nessa lonjura onde a chuva baila num convite que o sentimento aceita. Todo o meu ser se acalma quando o tempo esta assim e uma voz diz-me que preciso pintar, desenhar ou apenas escrever. Algo me impele para que faça qualquer coisa e neste momento as tintas seriam o meu refúgio o meu mundo fantástico onde me recolho e medito, enquanto as cores mancham o branco da tela deixando nela tudo o que a minha mente descobre, cria ou inventa, fantasias que me são tao queridas e que vou construindo a cada pincelada, a cada borrão que o dedo ajeita.
Queria, quero, desejo entrar nesse mundo que vou desbravando entrando nele todo …fazendo eu também parte daquilo que eu próprio vou construindo.

F.Serra
 
VIAGENS SENTIDAS

Deus Psicopata

 
Deus desceu sobre o planeta Terra com uma tocha na mão. Por onde caminhou e encontrou templos, igrejas, sinagogas e altares levantados para glorificar seu nome e o nome dos santos e deuses, colocou fogo. Fez isso também com todos os livros ditos sagrados onde havia menção do seu nome em diversas culturas e crenças diferentes.

Deus agiu como um psicopata, frio e sem compaixão, pois já estava cansado de ouvir seu nome usado em vão: terrorismos em nome de Deus, massacres em nome de Deus, guerras em nome de Deus, violências em nome de Deus, castrações em nome de Deus, patrocínios em nome de Deus, dízimos em nome de Deus, suicídios em nome de Deus.

Diante da ignorância dos Homens, Deus resolveu eliminar o seu nome da Terra e fez o Homem esquecer que sua fé só dependia única e exclusivamente de todos esses subterfúgios relacionados a Deus.

- Homens de pouca fé! Disse Deus.

- Não sabem que a fé não depende de Deus!? Depende somente de cada um de vocês! Quero ver como vocês conseguem viver sem usar o meu nome, sem ficar citando passagens bíblicas e de livros sagrados como escudo da sua ignorância, jogando sempre nas minhas costas as desgraças que causaram, o dinheiro que arrecadaram, as pessoas que mataram, pedindo proteção e perdão pra mim.

- Vivam por sua fé, façam o bem sem olhar a quem, mas, esqueçam do meu nome, da palavra que escreveram nos livros sobre mim, façam seus próprios mandamentos, sejam, individualmente, Deus de si mesmos.

- Então, saberei quem de vocês tem fé e pode ser chamado de filho de Deus!

Deus deixou a Terra depois de exterminar com todas as coisas que fizessem lembrar do seu nome. A partir desse momento todos os Homens teriam que viver por si só e pela fé verdadeira da sua vivência.

Deus não existiu mais na Terra.

Cada um soube de si e da fé que teve.

*Existem pessoas que acreditam que seu Deus está de acordo com a matança que fanáticos proporcionam no mundo, como se Deus fosse um Psicopata, esquecendo-se da primeira lei do Amor: "Ama o próximo como a ti mesmo". O fanatismo é um transtorno de comportamento e deve ser tratado por profissionais especializados.Este é apenas um texto de ficção, não se refere a minha crença, ele tem o objetivo de ser reflexivo e introspectivo.
 
Deus Psicopata

"and the oscar goes to?"

 
Convocam-se todos os poetas, aspirantes a tal desígnio e pseudo-poetas para a tão aguardada cerimónia de gala, onde será enfaixado o poeta mais aclamado desta nobre pátria, com a devida pompa e circunstância. A todos os interessados recomenda-se vivamente que reúnam as hostes, pois o vencedor será aquele cuja ovação alcançar um maior estrondo. Além do tão esperado galardão que irá coroar o mais elevado poeta, haverá também um enfaixamento especial para aquele poeta que conseguir arrancar um maior número de lágrimas aos presentes (é permitido o uso de carpideiras). Apela-se ao recurso a todas as armas ao dispor, no sentido de angariar reconhecimento e excentricidade junto do público.

"En garde!"
 
"and the oscar goes to?"

o polvo

 
Feliz com a vida, estava o polvo a marinar em lume brando, enrolando a cebola na volúpia dos esguios tentáculos, expelindo a negra tinta ao verde da salsa e aspirando o perfuma da folha de louro, quando aos altifalantes da rádio rebenta a notícia: "meia tonelada de polvos deram à costa na região de Vila Nova de Gaia..."
Ainda atordoado com o estrondo da informação radiofónica, o polvo suicidou-se por asfixiamento no exímio laço do tentáculo menor em volta do pescoço, por medo à usurpação do seu lugar de relevo ao jantar.
 
o polvo

Cem cavalos fora de horas

 
- o sol espreita os cascos do tempo e em cada esquina uma voz arde no corpo das árvores

- as memórias de cabelo longo esvoaçam ao silvar do combóio recolhendo nas estações as insónias do Outono

- cem cavalos arrastam o Inverno, fora de horas, em contrapeso, e a cara das moedas batem no fundo do poço, soltando as coroas para o bilhete da despedida

- dobram-se os joelhos ao luto dos vidros, e as cortinas tapam negras a garganta do medo

- os pulmões do céu escureceram por cima dos pensamentos curvos dos ladrões de luar

- a noite chegou na gravidade das pedras, e na urgência das pálpebras, engoliu o relento, num relógio disparado, pela alucinação galopante

- agora, ao longe a trovoada dá as boas-vindas ao pesadelo das facas
.
- cortam a direito na madrugada a solidão sem fim.
 
Cem cavalos fora de horas

Horizonte da alma

 
Navega o amor as águas
dos mares invisíveis...

Vejo flores no caminho,
e no horizonte da alma.
 
Horizonte da alma

Fiz uma cruz

 
Quando julguei que cabia uma cruz, comecei por invadir aquele espaço com um singelo e débil ponto final. Existia tinta na minha esferográfica, isso era um dado muito importante para avançar. Ousei meter aquela mão hábil no bolso – é claro que antes postara a caneta por sobre a mesa – e, obstinadamente, iniciei um tamborilar de dedos que mais tarde (vim a saber) se revelaria um tanto ou quanto desafortunado. Logo que libertei a mão da algibeira notei que os meus níveis de confiança estavam altíssimos, fenómeno que não pode deixar indiferente todo aquele que está habilitado a adivinhar os indícios de uma depressão. Contudo, como o ar estava sereníssimo e a luz da manhã arremetia violentamente com todo o seu potencial era bastante desculpável que eu tivesse pensado que…
Retomei a caneta, visei o papel, agora com uma surpreendente tranquilidade e sem qualquer tipo de escrúpulos avancei para o quadrilátero que se postara à direita da letra L… e também abaixo da letra T… julgo recordar-me que havia ainda por sobre a quadrícula uma ilustração onde arvorava, é quase certo, um rapazinho moreno a fugir de um cão… incrivelmente branco!
E foi nestas circunstâncias que arremeti contra o papel timbrado, risquei uma linha oblíqua, depois arrisquei uma outra que lhe era perpendicular e nesse instante senti que, uma vez que os quatro vértices do quadrilátero haviam sido tocados, uma vez que os dois traços contínuos estavam já lá e ainda por cima se cruzavam no centro imaginário do coiso… e os dois com a mesma cor…
Estava feito o negócio ou qualquer outra coisa que com ele eu o confundi. Guardei a caneta (era minha) no bolso (que ainda era meu) e resvalei para um átrio bem próximo onde duas pessoas conversavam sobre o aumento das despesas com a electricidade. A luz do dia estava cada vez mais forte e só naquele momento repararei que trazia no punho direito o relógio que afortunadamente a minha mãe me oferecera um pouco antes da hipoteca… Ato contínuo olhei para o pulso esquerdo como que antecipando o movimento que se seguiria, ao mesmo tempo que com essa mesma mão já programara a retirada do relógio do pulso errado. O que aconteceu a seguir, falta-me agora aquela caneta para o relatar, mas escrevo-o com os dedos que ao dia de hoje me sobraram. Ao mesmo tempo que divisei o relógio no meu pulso habitual tacteei, no pulso direito, uma enorme protuberância quistosa na parte dorsal do braço por debaixo da manga branca daquela amaldiçoada camisa. O que me parecera um relógio veio a revelar-se um repugnante e assustadiço inchaço amarelo, de grande relevo, muito parecido com um botão colorido de flor ou então com aqueles típicos chapéuzinhos de palha daquelas meninas do campo que…
Era um tumor muito atípico, pois à medida que nele remexia, ele tinha a faculdade de se amoldar a todos os movimentos dos dedos (independentemente da força de compressão aplicada). E não doía nada, o magano! Como que se infiltrasse por debaixo de todos os outros tecidos biológicos, ou então deixo aqui a hipótese de que o mesmo tinha a possibilidade de permear por entre todas as células e ossos. Certo é que se espalhava como às vezes se espalham as cócegas… quando são bem feitas!
Ri porquanto ao mesmo tempo observava e experimentava com avidez a natureza daquela esquisita tumefacção. As pessoas da electricidade olharam-me, não sem um certo choque inicial e logo lançaram o olhar por todo o átrio, desconfiadas à brava, como o fazem todas as pessoas sérias que são surpreendidas por um acontecimento totalmente inesperado. Aproximei-me dessas duas pessoas e elas mesmas como não mirassem nenhum olhar cúmplice ou algum trejeito consolador, resolveram transferir a sua cismada conversa tarifária para um qualquer local bem longe de mim. Talvez me tenham tomado por uma daquelas andrajosas criaturas que exibem falsas chagas nas sombras dos edifícios públicos e que em dias de muito sol se atrevem mesmo a importunar os outros cidadãos em certos locais respeitáveis mas de fácil acesso. Nem tive tempo de ripostar, pois uma já prolongada série de risadas sufocadas atravessou-se-me pelas cordas vocais e todo aquele meu espanto não foi freio capaz de travar tal involuntária algazarra.
- Por que se ri senhor? – Inquiriu, solícita, a voz acriançada de uma velhota carregada de cartões. – Não quer aproveitar a sua boa disposição e contribuir para… - não acabou a sua frase e saiu afastando-se de mim com um perplexo nojo.
- Espere…eu…- ia dizer-lhe que tinha duas moedas de vinte cêntimos e talvez, se a causa fosse… poderia contribuir de bom grado…
Abri os braços procurando mostrar veemência e ao fazê-lo cessou-se-me a tirania das cócegas e pude por fim entabular uma questão (que já me sufocava a garganta) ao primeiro funcionário que apareceu. Este olhou-me, indiferente, como o fazem a maioria dos burocratas nas suas entrevistas com o público, e cuspiu-me um muito desagradável e monocórdico: - Que lhe aconteceu? – Ia eu a responder e já ele se afastava ritmado dizendo: - Xiiiii… o que lhe aconteceu…
-O secretário? – gritei. – Não viu o secretário?
Quem, caros leitores, encontrar na sua vida uma qualquer situação com grande verosimilhança com esta minha… deverá, uf… não, não digo já! O vilão, crápula desta vida, apressou depois o passo num solilóquio monocórdico e chiante e por um momento apeteceu-me levar a mão ao bolso da caneta e…
Efectuei, diligentemente, com a serenidade possível, uma busca exaustiva pelos corredores e compartimentos acessíveis, na esperança vã de encontrar o tal secretário que me…Mas quê? Nunca ele. Misérias, apenas e só misérias: “não o vi”, “acabou de sair”, “ainda estive com ele ontem ao telefone”, “mas sabe, talvez possa encontra-lo na…”, “passe por aqui mais logo”. Comecei a sentir cócegas muito mal feitas na zona pulso (tinha entretanto apertado de novo o punho da manga da camisa). Era certo que o tumor havia crescido e se lançava imberbemente de encontro à manga já húmida.
-Estão agora a chegar umas coisas importantes. O senhor não pode estar aqui! – ouvi estas palavras repetirem-se por duas ou três vezes e só depois verifiquei que tinha o meus rosto colado a uma janela envidraçada de onde se avistavam, num amplo compartimento, largas pessoas em desalinhado burburinho. Eram tantos os papéis; inúmeras as canetas - essas espalhavam-se pelas mesas atoladas ou então apresentavam-se eriçadas no interior de objectos cilíndricos dispostos por sobre as mesas. E adivinhavam-se tantos bolsos! Tinha a cabeça em tal frenesi que já não me lembrava das palavras com que nomeavam as coisas. Nada fazia sentido. “Se também tu tivesses guardado assim a tua caneta…Agora num bolso!… Aprende pois!” A minha modorra continuou. Vieram uns sujeitos com uniformes de oleado florescente, se a memória não mente. Disseram-me: -Não pode estar nesta zona exclusiva! Venha connosco! Já! - Afastaram-me tranquilamente e eu só pude sentir um orgulho amplo de não ser como eles. O tumor, a caneta, os papéis, a camisa húmida, o relógio verdadeiro, aquela cruz bem intencionada, até a tinta… “Onde foi que falhei! Não, não é possível. Eu fiz tudo bem” foi isso que pensei. E recomecei a sorrir sem interrupção alguma (ALGUMA repito) até ao dia de hoje.
Neste momento escrevo, por isso, a sorrir, frente ao computador que ainda me resta com os poucos dedos que… ainda me sobram…
Nu, descalço, sem bolsos, sem caneta, sem camisa, relógio parado na casa hipotecada sem móveis e sem mãe (que Deus a guarde – sobretudo nestes primeiros dias). Hoje vêm cortar a electricidade cá de casa. Bem tinham razão aqueles dois interlocutores – como ela está cara! Antes que isso, porém, aconteça, vou acabar este conto no meu computador. Desculpem mas não o vou guardar em nenhuma pasta. Para quê?!
Aquele quadrilátero branco… as referências do L, do M, do cão branco… Já não existem…Interrompendo a parede o mesmo quadrilátero na minha parede…Não um ponto de experimentação, mas dois, e muito bem definidos. Hoje os homens vêm desligar a electricidade. Vêm desocupar aqueles pontos para mim.
Retiro o cabo do computador da ficha. O texto word perde-se no escuro do ecrã e portanto, para vocês, a minha história acaba aqui.
A mim, apresentam-se, inéditos, dois buracos surpreendentemente belos e simétricos – dois pontos finais nada titubeantes nem experimentais e de um alinhamento tão conveniente... Uma afirmação plena de um quadrilátero cheio de vida. Com dois olhos!
Diviso em meu membro direito canceroso apenas dois dedos. Eis o secretário, finalmente o secretário com seus dois olhinhos bem escuros e melíferos. É com esta mesma mão que te vou foder o focinho!
 
Fiz uma cruz

se ao menos tivesse umas luvas à mão

 
Uma metade do mundo adora-me e a outra metade me adora, mesmo não me conhecendo, isto porque ainda lá não chegou qualquer tipo de acesso à internet. Em cada canto do universo, existe um altar à minha pessoa, em cada alto dum monte, há uma capelinha com um poster do meu rosto onde aos pés se pode acender uma velinha. Quando saio à rua, existe uma legião de fãs em histeria à minha espera, exibindo cartazes com mensagens do género: "Moreno dá-me os teus boxers!"; "Moreno faz-me um filho!"; "Moreno és um pão!". Apenas me limito a sorrir e acenar, cercado por seguranças, antes de entrar para a limusina que me aguarda.
Isto de ser o centro do universo é entusiasmante, chega até a ser delirante, ao ponto de nem precisar de fazer sexo para ter um orgasmo. Também tem os seus aspectos menos positivos. Por exemplo, no outro dia, num centro comercial, dirigi-me ao WC para fazer uma mijinha e quando estava a desabotoar os jeans, ouço uma voz babada vinda do urinol ao lado: "Ó excelentíssimo senhor Moreno posso pegar na sua pilinha." Foi um episódio algo embaraçoso, pois sabia lá eu por onde tinham andado aquelas mãos. Com tantos vírus que por aí pairam, corria o risco de ficar contagiado. Se ainda ao menos tivesse umas luvas à mão...

O director da clínica psiquiátrica venera-me tanto que se recusa veementemente a dar-me alta...
 
se ao menos tivesse umas luvas à mão

Hoje tive um sonho ruim...

 
Hoje tive um sonho ruim...
 
Acordo de um sonho ruim.

Ainda na boca o gosto de um cálice de vinho do porto que me serviu de sonífero e o gosto ruim dos últimos seis cigarros fumados enquanto via MTV até Morfeu ter vindo dar-me boa noite.

Acordo e fico em dúvida, se aquele ambiente que eu me encontro é a realidade ou o do sonho é mais real.

Olho em volta, estranho o lugar. Um hotel barato, decorado com mal gosto. Olho ao lado os cigarros da noite anterior, o único copo vazio, o computador ao lado, na cama, ocupando o lugar do par, piscando as luzinhas para mim, simulando ter vida.

Não, aqui é a realidade!

Penso como tudo nesta minha vida é surreal. Por um minuto me passa a vida de Salvador Dali e Gala na cabeça. Penso: “Ele era fantástico!”

Queria eu poder mudar para o mundo de Dali, viver por lá, nunca mais sair. Olho o celular, e vejo-o escorrendo pelo canto da cama, junto com o tempo. O meu tempo.

Lembro do sonho, sinto um aperto no peito, lembro do Dali e Gala novamente. Ela dez anos mais velha que ele, e sua eterna musa. Eles teriam de ser felizes, ou melhor teriam de se amar, nem sempre amar é ser feliz, mas com certeza, no mundo de Dali, as realidades não são absolutas.

Sinto frio, é inverno, lá fora faz dois graus.

O quarto está sufocante com o ar viciado do ar condicionado barulhento mais os cigarros. Hoje dormi oito horas, tão diferente das minhas habituais 3 horas de sono. Sinto o corpo empastado, doído...

Dormi nua, adoro dormir assim quando estou só. Pois quando não estou só sempre tem uma criança pulando para minha cama no meio da noite. Este pensamento me trás uma onda de saudade. Os filhos na casa do pai de férias, um momento novo para mim.

Mas mesmo assim, demoro-me sentindo meu corpo embaixo das cobertas, quente, solitário.
Lembro a última noite. Tudo tão rarefeito e distante. Tudo tão surreal. Dali parece que está ao pé da cama rindo de ver meu corpo desfazer-se e ficar apenas o contorno marcado na espuma derretida . Sinto-me assim, afundada em um colchão de espuma, amortecida para o mundo. Acolchoada, isolada, embebida neste meu mundo imaginário, onde a realidade é apenas um conceito imperfeito.

O telefone desperta. Rompe o silêncio da minha filosofia e aponta-me, afinal o lado da realidade. (não sei porque ponho despertador se sempre acordo sozinha antes dele, acho que é para saber qual o lado que realmente estou, a realidade não o sonho).

Da vontade de chorar. Prefiro o mundo de Dali com o amor por Gala, a velha musa eterna.Mas não sou Dali, e Ele não é Gala.

Lembro do sonho, da noite, dos cigarros, dos programas idiotas da MTV e surge a voz do Cazuza, “eu tive um sonho ruim e acordei chorando...” E fica, rimbombando na minha cabeça.

Olho o telefone. Torço para minha mão derreter, ou ficar grande demais para eu não poder discar os números.

(Se ele soubesse a força que faço para não ligar. Valorizaria muito mais as minhas ligações. Elas são frutos de uma série de conjecturas, filosofias, análises e sempre se decidem em um impulso. Mas é todo um processo, que começa com raciocínios lúcidos e termina com um “FODA-SE, vou ligar!”)

Ligo:
-Oi amor, tive um sonho ruim...
-Sonho não existe, tudo que é subjetivo não existe, não é verdade.
-Diz apenas que gosta de mim, estou triste.
-Gosto de ti, tenho que ir trabalhar. Beijo
-Bom dia para ti, eu te...pi-pi-pi...

As lágrimas correm, queimam a face.

Olho o espelho, parece que tenho 120 anos ou talvez apenas dois ou três.

Sinto mais ainda o sufocamento do ar quente. Acendo um Marlboro (melhor estar sufocada por cigarro que pela não-vida).

Olho a sacada, o sol ainda não nasceu e eu sinto-me quase morta. O céu Azul Royal prenuncia um novo dia à guisa da minha vontade.

Falta-me o ar. Sou fumaça, sou bruma, sou sufocamento, sou lágrima, sou um sol que não nasce, sou irrealidade...

Abro a sacada, saio nua mesmo. Preciso respirar, respiro o ar da madrugada, ele petrifica meu corpo quente saído debaixo das cobertas.

Estou fria por dentro e por fora, mas é por causa do frio atmosférico. Isto me é um alento.

Nua, na rua deserta da sacada frente ao mar, o termômetro marca dois graus.

Eu rio de mim, do mundo, de tudo e penso, "penumonia não é uma boa morte".

Vejo-me escorrendo, desmanchada, apenas uma mancha escura na areia da praia. Um nada, um picolé de gente a ser lambido pelo vento da loucura derretendo-se ao tempo e à solidão auto-imposta pela sinuosidade dos giros cerebrais. Sinto-me enfim bem:

"Sou um quadro do Dali."

Entro no saguão do hotel, já vestida como uma tecnocrata de sucesso, independente e poderosa, olho as pessoas à volta, os olhares analíticos das mulheres e os de soslaio dos homens... Sirvo meu café e rio. Sentada sozinha na mesa escondida, no canto, com vista para a rua:

"Sobrevivi a mim mesma".

Agora os outros sobrevivam a mim.

Bom dia...

(E saio com o meu sobretudo preto, calças pretas, minhas botas de salto alto, cachecol. Todos olham-me, pois no lugar da minha cabeça, tem uma cabeça de tubarão).
 
Hoje tive um sonho ruim...