Samedi, 16
Um pedaço do reboco da laje desabou.
- Tá caindo! – ironizou Manelito, o curioso, irmão da vizinha e cunhado do barbeirinho.
-Deixa cair – confirmou o poeta varrendo, empurrando o entulho para o fundo da oficina.
Mudou de farda e sentou-se na cadeira abacial para ler Varga llosa e a tia Julia cunhada de seu tio – uma casito que acabou em casamento precoce – Antes colocou um das duas grades de Juvan em exposição na calçada a espera de um possível cliente. E passou, o jardineiro Baleia indagando o preço só por curiosidade.
Antes de sair da pensão e de tomar o café colocou as crônicas em dia digitando-as e mostrando ao IA para as devidas analises – um bom leitor que tem mania de querer fazer correções – mas lhe digo que esses erros fazem parte da minha técnica para provar que não foi um algoritmo que redigiu e sim, um filha da puta cheio de garra que quer ser escritor.
Na rua 17, Mano Brown com seu vistoso rabo de cavalo amarrado debaixo do boné, foi embora depois de sua performance, dublando as canções do bardo moreno com um microfone improvisado, um pedaço de cabo de vassoura, interpreta José Ramalho:
- Não admito que me fale assim... – Caboco bom que o poeta admira pela sua virtuose.
Quando fechava o atelier, uma falsa esperança – o possante do casal Juvan parou adiante e mamãe Juvan fez o sinal de positivo – o poeta alegrou-se. Mas não conversaram, mama ao celular toda autoritária, então por mimica combinaram encontrarem-se no Lasierra e assim receber o recurso das grades. Mas o poeta não acreditou muito e subiu o morro rumo ao Comercial Vila – entornou umas e outras doses e os riscos estratosféricos, passando das dez ‘castanhas’ – esperança dos cem reais esvaindo-se como éter no ar.
Negociou duas laranjas por um e cinquenta no frutaria das irmãzinhas e as levou para a pensão, antes que endoidasse – Mano Brown com os tênis na mão e uma lata de Skol atravessa a rua vindo do bar da mulher do Preguitão e entra no portão único do mercado da rua 17.
- Não rouba o meu patrão – grita a ‘secretaria’ Dona Neneca. Dentro uma discursão pacifica entre Seu Lasierra e o radialista Collorzinho.
Cururupu chega para a cobrança da loteria dos colômbias. O locutor oficial do arraial (as palhas estão chegando) depois de muitas delongas não aceitas pelo patrão, vencido bate em retirada.
O poeta desmonta a sua tenda no Lasierra, enche o copo e duas pilhas segue para a pensão.
- Doze e quarenta e oito – anuncia o locutor de um programa esportivo da Mirante News.
O poeta estendeu a rede um pouco ‘cheirosa’, sentou-se na escrivaninha de frente para a janela e a visão da rua. Levantou-se para pegar o copo de vodka na cômoda e voltou. A dor na ciática mesmo sob o efeito anestésico do álcool. É hora de trocar de pilhas. O poeta vaia geladeira apanhar o litrinho de agua no congelador. Um gato lambe o prato da pequenina em sua frente sob a mesa. E ela não toma nenhuma providencia para espanta-lo.
- É por isso que tá cheio de zig-zira – comentou, mas ninguém liga para que um bêbado fala.
A sra Vince debaixo do sol de quase uma hora da tarde lavando as roupas – a pele curtida e sulcada – a filha mais velha e o marido no quarto da pequenina. O sargento em frente abre a porta e sai com um saco e uma pá de lixo. O poeta seca o copo e deita-se. Almoça um bom fígado com azeite de coco babaçu.
Noite – Na praça das Sete Palmeiras, a preparação para um festejo pré-juninho. A sra. Vince deu-lhe dois reais.
O mestre do Copan e suas teorias evolutivas sobre a Amazonia – um grande pomar explorado pelo rei Salomão e todas as profissões terminam em eiró – carpinteiro, marceneiro e brasileiro vem daqueles que exploraram opau-brasil.