De vez em quando pergunto-me:
o que é uma coisa
ou uma cousa,
será o mesmo que objecto?
E antes de começar
a objectar
volto
será uma cousa o Homem,
será o Homem que cousa?
E como quem já não ousa,
como quem já sabe todas as respostas,
viro, à pergunta, as costas.
Entre o são e o doente
há muito estado do ente;
respira, anda, avança
é só juntar água, e esperança.
Do finito ao infinito é uma confusão
um, porque termina
o outro, porque não
mas, se podemos ser todos números,
se podemos nos contar,
que seja em histórias;
de derrotas e vitórias
e de outras notas.
Ordinais ou cardinais
sejamos
seres, que somos amados e que amamos
se somos mais
não devemos esquecer
que somos também animais
e pedaços da terra.
Todos nós
somos corridos da mesma voz -
socorridos,
sem donos -
que já se sentou em centenos tronos.
Ouço-a, intuo-a, ignoro como a sei
tem ares de oração,
tom de canção, conhecida por lei.
Paralelos
no chão, calcados
e ao ar atirados.
Não se esqueçam, de vez em quando, de sonhar...
Sou fiel ao ardor,
amo esta espécie de verão
que de longe me vem morrer às mãos
e juro que ao fazer da palavra
morada do silêncio
não há outra razão.
Eugénio de Andrade
Saibam que agradeço todos os comentários.
Por regra, não respondo.