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Poemas, frases e mensagens de APScheffer

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de APScheffer

“O poeta está mais próximo do mundo quando carrega em seu íntimo um caos.”

Canetti

A-pesares.

 
Apesar dos pesares,
Das correntes, dos mares
Eu ando mergulhando
Como nunca percebi

Apesar das dores,
Dos opostos e amores
Eu ainda sinto as flores
Que eu nunca recebi

Apesar das intrigas,
Das tarefas e brigas
Eu careço da rotina
Que eu nunca repeti

Apesar da igualdade
Da carência e reciprocidade
Eu ainda sou diferente
Do que tudo por aqui

Apesar do transtorno,
Do excesso e adorno
Eu ainda sou um pouco
Que ainda não distingui

Apesar da destreza,
Da herança e sutileza
Eu ainda me pergunto
Por que é que eu nasci?

A resposta eu ainda busco
Como quem vive o agora
Com quem ama um pouco de tudo
Pois sabe que vai embora.
 
A-pesares.

Saudade

 
Saudade
 
 
O nome é proveniente do Brasileiro,
Mas é sentimento que vaga o mundo inteiro!
E ao tentar traçá-la,
Desperta-me velozmente do imo
Adentra o pensamento e coração
E difunde-se pelo corpo com branda ilusão.

Saudade é o fazer sofrer da alma
E quando invocada
Faz-se ligeira na chegada.
E quando vinda à tona
Mesmo que por uma ingênua descrição
Machuca, fere sem qualquer afeição.

Saudade é quando nossa consciência íntima entoa,
Ao lembrar daquele gesto, daquele toque, daquela pessoa,
fazendo apontamentos palpitarem à toa.

Saudade é buscar alento nos sentidos
Ouvir vozes distintas sem um eco entoado
É repassar imagens como metragens
É sentir o toque sem ser tocado
É inspirar aromas sem odor algum
É contradizer com o cotidiano mesmo com tanto em comum.

Saudade é o poder que entra em cena
E instiga talentos da imaginação
É o atiçar de nossas frágeis carcaças
Fazendo-nos sentir a opressão estomacal
Fazendo oprimido, o pobre coração, de forma colossal
Fazendo a adrenalina exceder em nossas veias de maneira desigual
Causando-nos alucinógena comoção descomunal.

Saudade é o tentar atenuar pelo sonhar,
É fornecer alento para a vontade
Através da lembrança...
Tornando-nos ingênuos como criança.

Saudade é não poder tanger e vivenciar,
Apenas recordar.
Está sempre engatilhada
E mostra-se feroz quando invocada
A qualquer momento,
Visitando-nos através de um objeto,
Um lugar, sempre pelo indireto.
E para o desespero rotineiro
Não há tempo derradeiro
Aparece-nos o ano inteiro...

Saudade é o pressagiar
E às vezes, resulta-nos o chorar.
É o sentir e não poder possuir
É o querer e não poder viver
É a consciência do passado
Aguerrido, desbravado!
que aparece quando precisamos de atenção.
Vem, fornece-nos alento
E de brinde toda a emoção
Para reviver, despertar, chorar,
Amar e perdoar...

Mas faz bem em vir para amenizar.
É a saudade que comprova que amamos
Que nos importamos e retira-nos
Do modo inconsciente, mostrando-nos carentes
Da necessidade de gente,
Interligando sonhos, com um falso futuro à frente.
 
Saudade

Antônimos

 
Quem me dera que o teu seu sejas meu.
E que o meu “eu” sejas só teu.
Que o nosso sejas apenas eu e você
E toda minha singela vontade excite o teu querer.

Cobiço o cessar do meu pesar com o teu saber discreto...
Que me convence sempre por afeto, e faz-me almejar-te como a
Poesia carece de verso.

Que toda minha insensatez, te incite em ser meu nobre cortês.
E toda a minha religião seja vista com uma pitada de sua razão,
Sempre boa opinião, reajustando meu insano coração.

Sonho meu, quando seu beijo,
Seja o tocar dos meus lábios,
Que o teu perfume,
Seja o odor de minha essência,
Sua visão, o enfoque de meu desejar,
E que tua ira venha à tona,
Quando eu, e somente eu, a provocar.

Querer meu que minha alma,
Seja o exemplo da sua calma,
Minha maneira de atuar,
Seja o seu singelo sonhar,
Que o meu grito,
Seja o seu agito,
E meu conflito, sua, sempre simples solução.

Cobiça minha que todas aventuras
Sejam motivo de suas juras
Que o meu momento
Seja o seu evento
E que a minhas feridas estanque-se com a inclusão
Do seu pulsar em um singelo e ameno, meu coração.

Enganada eu, que o meu pressagiar,
Seja o seu realizar,
Que o meu amar, possa lhe conquistar,
E que o meu lampejo
Não soe como simples juras de um mero desejo.

Mas simpatizo eu, com esse meu encanto,
Acompanhado do meu pranto,
Que sempre me visita, pois nunca canso,
De pensar em ti, sempre, sem descanso.
 
Antônimos

Medieval

 
Se eu fosse rainha e você escravo
Não me importaria em optar por sua casta
E demonstrar o gosto por sua graça
Sem influência de cor, credo ou raça.

Se todo o encanto que me demonstras
Continuasse eterno
Lhe faria rei, mesmo sendo servo.

Trocaria meu castelo, meu requinte 
E todas as desonrosas indulgências 
Por suas, e só suas exigências.

Árabes, Vikings e Húngaros
Que venham todos!
Desbravaria o mundo pelas cruzadas
Defendendo você e não a armada.

Contrariaria o clero,
Falaria só de ti,
com palavras de esmero,
Defenderia a sua fé e a sua razão.
Em troca do seu, só seu coração!

E com instinto helenístico
Alastraria esta minha - por sua, paixão.
Lhe mostraria os encantos 
De pensar por trás da sociedade
Sem medo de ser queimada, isenta de castidade.

Por você me revoltaria, 
Por você eu converteria
Por você eu lutaria
Por você e seu futuro seguinte,
Só por você e não por qualquer pedinte!
 
 Medieval

Nostalgia e inocência

 
A pequenez do meu ser ainda esbarra
Em memórias simples que eu ainda lembro:
Acordar para ir à escola,
Comer porcarias, assistir TV e jogar bola,
Imaginar o mundo lá fora,
O afeto aqui e agora,
Sem antes ou depois de chegar a hora.

Adolescência foi uma demência
Um tiro no pé, e seja o que Deus quiser
A gente descobre que o mundo,
Não é mais aquele casulo
E que as pessoas encantadas,
Tornam-se conto de fadas.

Nostalgia e inocência,
Aquela vontade de voltar para o berço
quando o mundo aperta: eu ainda sinto.
Aquela esperança que se cria no ser humano, sem analisar racionalmente o contexto: eu ainda tenho.
Aquele mundo de magia e utopia: eu ainda esbarro.
Aquelas perguntas que se faz e ninguém explica: eu ainda faço!

É por isto que afirmo que ainda tenho uma criança fundida na minha alma,
Ana bobona e brincalhona que insiste em acreditar em gratidão.

E você aonde colocou sua infância?

Encaixotada como seus brinquedos?

Será que ela não pode e deve fazer parte de nós agora, mesmo velhos e rabugentos como a sociedade vigora?

Feliz dia das crianças meu caro, um salve a um dos "eus" que existe (Lembrando Fernando Pessoa) em mim, em nós, e pulsa, clamando por alegria e esperança!
 
Nostalgia e inocência

Desvendando a ''Vênus''

 
Para conquistar uma donzela
Não basta reverenciar-se diante dela
É necessário compreendê-la
amar, desejar, satisfazê-la.

Mulher é rosa é flor,
É peça chave que instiga o amor
E ao tentar tangenciá-la, cuidado!
A quem arrisque tocar seu caule,
E esquece que apesar de todo o brilho
Ainda é composto por espinhos.

Suas saliências podem machucar,
Podem ferir quando o assunto é amar
E caso se envolveres neste caminho,
Atice-a paulatinamente,
Não temas o que terás de encarar pela frente,
Mas evite suas forquilhas,
Mulheres, sempre cheias de armadilhas!
Chegue ao apogeu, rosa-botão
Apenas se tiveres uma carta na mão.

Antes de pretender compreender uma moça
Antes, conheça a ti mesmo,
Adentrando em teu mais profundo ermo,
Para buscar em tuas mazelas,
A distinção de casas, mansões e favelas.
Então cavalheiro, estarás pronto,
Pronto para batalhar por uma donzela!

Não são choros sem motivo
Não são risos sem um interno gemido,
Nem delicadeza apenas por classe,
Mulher sempre tem fundamento,
Mesmo com tanto disparate.

Amam na busca de reciprocidade.
Não suplicam por mera vontade,
Não demoram a trajar-se por simples vaidade,
Mulher possui no genoma a segunda intenção,
Então preste bem atenção:
Em cada gesto, movimentação,
Motivo, efeito e ação.

Ela é música que excita ouvido
E suas melodias... sempre no tom que se procura,
E como aguçam juras, de um futuro promissor,
Sonhador, encantador...amar e amor.

O sorriso e o veloz piscar
O soluço e o delirar
O sofrer por querer
O tentar e correr
O desistir e aquietar.

Hormônios-demônios,
Loucuras e mais juras!
Mulher-Vênus

Coração mole como manteiga,
E a vontade meiga de ser abraçada
Que, por vezes, é suprida com um pedaço de chocolate.
Ingerem-no por combate
de uma carência, muitas vezes, biscate!

Entenderás uma mulher quando detalhar sua alma,
O poder do gesto, da palavra e de um carinho,
O valor das atitudes
O toque, o cheiro, o olhar.

Tente compreender o que é lua e mar
E tudo que estes corpos podem insinuar
Instigue depreender o poder da natureza
Pois mulher muito possui desta proeza.
 
Desvendando a ''Vênus''

Doce Madrugada

 
Na calada da noite,
Onde quase todos se encontram em sonhos,
Eu devaneio acordada,
Imaginando-me na estrada,
E quem conduz-me? A madrugada.

Quando tudo parece penumbra,
Forneço alento,
Extasio-me com as sombras,
Divirto-me com o obscuro,
Faço juras de um futuro.

Desperto na madrugada,
Para deleitar-me com o nada,
Atiço todo o medo e fantasia
Para despi-los com o imaginário de um dia.

Olhando para o inseguro,
Procurando formas no escuro,
Contentando-me com o silêncio, seguro.

E nesta negra quietude,
Ouço a voz que vem de dentro,
Sem barulho ou tormento,
Escuto aquilo que me convêm,
Nada de opinião, nem ninguém!

E todo este céu, com pontos cintilantes,
Me faz ir mais além
Em um mundo, onde todo homem quer ser gigante
Me encontro muito mais pequena e flutuante
Tornando-me uma eterna amante,
Da natureza noite, refém.
 
Doce Madrugada

Deuses

 
Com o advento do cristianismo,

Foi-se o encanto dos Deuses

E com eles toda a magia,

Do amor antigo, do saber e a alquimia.

Ressuscito o politeísmo

Através dos versos transversos

Invocarei todos os meus Deuses

Que se fizeram no mundo, dispersos

E é por Zeus que eu, começo!

Rei do Olimpo e dos demais,

Entendedor das pessoas e seres irracionais,

Do mais casto ao mais profano,

Persuada o universo, humano

De que a própria felicidade,

É resultado da boa vontade,

Imponha que sem um sorriso,

Não haverá esperança para a humanidade.

Clamo a Poseidon,

Deus dos mares e da navegação,

Que recolha a minha apreensão,

Conceda-me o perdão,

De pensar tanto em solução.

E que acalme o pranto

Como serena as ondas com seu encanto.

Hades! Deus do inferno,

Peço-lhe calor, no inverno!

E a ira quando necessitar

Revelar ou abdicar

Das mentiras acolhidas

Pela sociedade, pela vida!

Afrodite, minha beleza,

Exiba toda a grandeza,

Do mais puro à nobreza,

Da sagrada e esbelta natureza!

E o Cronos? Deus do tempo,

Traga todo o seu alento,

Para corrigir o tormento,

De quem vive ao vento,

E ainda suplico: Encontre uma solução

Para que eu, com sabedoria,

Consiga aproveitar com energia,

Toda esta passageira dimensão.

Coração, coração!

Ares – guerra!

Coloque ordem nesta terra,

Mostre sua força, solte sua ferra!

Mas suplico-lhe que apenas,

Amenize o que não se encerra.

Atenas, Deusa do saber,

Ensine-os a amadurecer

Diga-os em cada primavera

Que não é errando que se aprende,

Mas sim, compreendendo o porquê se erra.

Apolo, o Deus da lua e do sol,

Sobreponha seus raios como lençol,

Escolha o tom, dite em bemol

Sobre o canto que liberta um rouxinol

Hebe, juventude!

Imponha-os atitude, plenitude.

Agite-os com a inquietude,

Para aflorar suas virtudes.

Cada qual protege um fenômeno real,

Nossos sentimentos, nossa natureza,

Nossa vida, nossas tristezas...

E dentre juventude, guerra, sabedoria e mar...

O importante é saber agir, não desaminar e lembrar de sonhar!
 
Deuses

A beleza de ser quem tu és.

 
Um mundo de contexto reciproco nos induz tanto ao um caráter "benevolente’’, aonde o ser Humano corre atrás de estímulos no qual faça e faça-o bem, quanto maléfico a ponto de buscar vingança, sofrendo o mal e cometendo o mal.

O sentimento de inveja parece-me surgir graças a relação da opinião de um "todo’’ (pré estabelecida e encadeada graças a coesão de ideias de uma maioria) refletida em um minúsculo grupo, ou mais possivelmente, um individuo. Em suma: a inveja surge quando você não tem o que a sociedade acha que você deveria ter, e você também acha isso, graças a essa "indução social’’.

A indução de uma maneira no seu modo de ser, o forjar de uma personalidade, a vulnerabilidade que estraga, questões estas que estão incessantemente e disfarçadamente em nosso meio sem pena e sem alma, devem ser percebidas e trabalhadas a tempo.

O Consumo e o padrão envolvem uma felicidade passageira, o flutuar da ideologia de algodão derrete e nossas infelicidades acabam por estarem constantemente nos inquietando. Não é a toa que vivemos infelizes, invejosos e superficiais, os nossos maiores objetivos estão vinculados ao modo capitalista de ser e de comprar, comprar, comprar!

Na verdade, na minha opinião, a busca pela felicidade deveria se tornar a busca pela estabilidade, pelo conhecimento do seu corpo, da suas condições mentais, do que lhe faz bem, sem ser algo e sim alguém! Ou até algum...algum sorriso, alguma flor, o vento tocando em seu rosto e talvez um bom dia!

A construção de um "eu" estruturado em reconhecer sentimentos, valorizar escolhas, descobrir e aperfeiçoar habilidades é a maneira mais óbvia de se sentir. O segredo esta no esforço que posteriormente produz o amor racional, que aprende a capturar, refazer-se, entender e sentir.
Um corpo, uma música, um estilo, só é puro quando provem do âmago e é desprovido, livre, de pensamentos secundários e influentes conscientemente.

Por isto um pedido:

Liberdade. Liberte-se.
 
A beleza de ser quem tu és.

Razão X Emoção

 
Ser racional
Evitar o irreal
Instruir-se pelo comunal
Para impedir o sentimental

Mas não me aguento
Sofro, respiro e busco alento
E sempre ao deparar-me com o tormento
Percebo que meu caráter
Nada mais é, que puro sentimento.

APScheffer.
 
Razão X Emoção

O ontem.

 
O ontem foi o agora que já passou.
(O ontem só foi embora porque ninguém reclamou)
Deixou lembranças, esperanças de um dia voltar
Pessoas e seus alentos postos a esperar.
Nada aqui ficou. Ninguém para segurar
O mundo mudou, a rotina alterou, uma história restou...
O tempo pairou, e o ontem?
Esmaeceu? O que sobreviveu? Morreu?
Não sei, não sabemos, talvez seja resposta, aquilo que ficou,
Lapida-se algo fora das dimensões tangíveis,
lembranças um tanto quanto sensíveis,
que do universo, invisíveis, representam o tempo que passou.
 
O ontem.

Dos teus pecados.

 
Pecado cometeu por querer quando não podia, por amar quando não queria, por crer que querer seria apenas alento para suas singelas utopias.
De quão valia a paixão, quando a morena índia cantava, e os íncolas entoavam-na como que com a repercussão entrelaçar-se-iam a um misero fragmento, que dela seria.
Pecado cometeu por crer que uma lança, arqueada no mais profundo de seu cerne, com o mais impetuoso toque, enfeitiçaria, volveria escrava do gentil atípico.
Pecado, dito pecado, por ser um ser mal amado, dotado de dotes centrados, sem o principal, entrega.
E pecou por crer que a alma de luz encarregaria de aclarar o que de ti era dever, subestimou-a ao prazer do nada e enrijeceu-a como pedra.
Impediu o céu estrelar-se, absteve a lua de iluminar.
Pecado cometeu em conversar com o sismo de teu ser ao tentar um ombro desejado.

''Torço do esboço que o caboclo não executou
Canto da morena moça que ele não conquistou
Jogo proibido que o cacique destemido manipulou
E de encanto matutino, de tanto zelo, nem um som restou...''

Pairou a loucura dos versos, os tenores inquietos que a tua alma ainda esbarra.
Foi-se o céu, partiu o sol, afastou-se a terra, restou o pecado, esboço de um pobre ser mal amado.
 
Dos teus pecados.

Uma dose de nada por favor.

 
A porta já estava aberta, ela adentrou no estabelecimento, a penumbra em comunhão com alguns pontos de luz distribuídos na bancada indicava o local. Seguiu em frente, sem olhar para os inúmeros ‘’rapazes’’ que a dissecavam.

Era uma banqueta macia, apesar de carecer de encosto para sua coluna vertebral. Estava bom.
-Para a senhorita?
Enquanto observava a infinidade de recados rabiscados naquela pobre madeira que compunha o balcão, tardou a perceber que a pergunta se dirigia a ela.
-Moça!
Levantou paulatinamente seu tronco, como quem não tem pressa: uma dose de nada por favor!
-Como?
-De nada.
- Nada até temos, mas não sabemos servir.
Encantou-se com a resposta, ele sabia brincar.
- Dá-me o amigo do homem engarrafado!
-Whisky?
- Este mesmo, o mais barato e o mais forte.
Ela não olhou marca, não olhou cor, não olhou ano, não era de seu feitio. Mas o sabor, este não passaria despercebido, prestava atenção em suas papilas gustativas. Era amargo. Não costumava beber, era o nada que a moça queria e não este gosto.
Depois da terceira dose ela conseguiu. O que exatamente? Discursava frases inconclusivas e sentia-se agitada:
- Uma dose de nada, uma dose de nada!
O homem que a atendeu compreendera: a moça necessitava fugir de tudo e de todos por um momento, era o nada que ela buscava, era o nada que sua mente atordoada com tanta informação lhe negava.

Grandes observações: O intuito do diálogo foi apenas refletir sobre a necessidade de, por vezes, não pensar em nada. Um estado de tranquilidade livre de perturbações, este, infelizmente, cada vez mais financiado por alternativas externas, como os fármacos por exemplo.
 
Uma dose de nada por favor.

Memórias de uma cadeira elétrica.

 
Foi em meados de 2078 que dei início a minha rancorosa reflexão. Fazia frio e tempo que não recebia uma nova visita, uma nova história e um outro fim. A goteira quantificava o tempo, fazia analogia ao tic-tac do relógio, no entanto, de modo bem mais assustador e desumano. Desumano por pingar vagarosamente uma gota que recordava-me lágrimas do choro que por aqui presenciei e todos os murmúrios e suplicas que por aqui vivenciei.

No início sentia orgulho de minha profissão, acabava com os temidos, era mais do que uma heroína, era o alento para muitos familiares que viam em mim a esperança de amenizar seu sofrimento. Fui liberada após a redução da maioridade penal, eram tempos difíceis, conflitantes, tumultuados, aonde a irracionalidade conseguiu vencer a luta, pois era muito mais fácil adotar soluções simples do que remodelar toda uma estrutura.

Aos poucos fui recebendo minhas vítimas: homens, mulheres, adolescentes e idosos. As ações se repetiam: a porta abria; eles me encaravam; sentavam-me forçadamente; alguns relutavam; outros choravam; gritavam; apertavam-me; arranhavam-me e por fim silenciavam-se, eu aguentava seu peso morto depois que tudo findava.

…Após 28 anos, resolveram me deslocar para um espaço que julgo formalmente mais interessante, situaram-me próximo a sala de observação e o meu amigo silêncio metamorfoseou-se em narrativas vindas de um aparelho televisivo…

Era 15 de Novembro, de algum ano que consegui esquecer com o tempo, aquela criatura entrou em minha sala e petrificou-se em minha memória sem ao menos pedir licença. Era aparentemente uma pessoa abominável; fria; feição marcante; olheiras dotadas de um realce escuro assustador; algumas veias ressaltavam em sua têmpora; pulsavam concomitantemente com seu coração; dava para constatar sua angústia através do seu corpo a não ser…a não por seus olhos, que dessincronizados com o todo reluziam conflitando-me.

A porta foi trancafiada sem ressalva, nunca haviam me deixado sozinha com alguém. Depois de algum tempo ele resolveu sentar, posicionou-se em um canto, tocou o piso gélido com seu quadril, escorando sua cabeça e costas na parede. Após momentos inquietantes - afinal quem é que consegue dormir na minha presença sabendo de minhas ações - ele resolveu erguer-se ir ao meu encontro, observar-me, certificar-se da minha incapacidade de ser cruel sem a presença de energia elétrica e sentou-me.

Com o passar das horas a escuridão ia contaminando o espaço e quando nada mais podia ser visto, ele baixinho começou a falar.

“Nasci em um berço de barro, assim como meus quinze irmãos. Fui mais um dos infortúnios na vida desta dita família a qual mal tinha dinheiro para comer, quem dirá para criar mais um ser. Minha mãe chorava todas às noites; chorava de dor; de fome; de raiva e meu pai bebia, bebia quando estava triste, bebia para esquecer e principalmente pela falta de dinheiro, pelo sentimento de impotência, pela tristeza que o inundava toda a vez que ele chegava em casa. Enquanto eu e meus irmãos pedíamos esmola no semáforo ao invés de ir para a escola, não sobrava tempo e nem porquê ser educado, uma vez que ninguém nos ensinou a importância disto. Foram-se os anos e permaneciam as mesmas ações a mesma trajetória.

Sete dos meus irmãos eram viciados, era quase que a mesma situação do pai, eles encontravam na droga o sustento para algo que acredito ser a alma. Três destes sete foram expulsos de casa, possivelmente, se não estão mortos ou presos, andam aprontando por ai. O restante, incluindo-me, continuavam a vender algo na rua, ajudando no sustento daquela estrutura que nomeavam de família.

Foi em um dia de muita chuva que o caçula adoeceu, não conseguiu abrigo, não tinha roupa suficiente para se aquecer e depois de alguns dias, contraiu uma doença. O postinho de saúde estava em greve, nem cogitávamos a hipótese de uma clínica particular, e o caçula foi piorando dia após dia sem chance de ser curado. Desesperada, minha mãe enrolava-o em uma coberta e rezava, orava pedindo pela salvação do filho depois da morte, pois confiava que o outro mundo seria melhor do que esta vida. Após dias de sofrimento, quando a última que morre (a esperança) havia se desvairado, ele se foi levando a última gota de felicidade da mamãe. Depois daquilo ela perambulava pela casa buscando uma explicação em sua fé.

Até o infeliz dia em que cheguei e encontrei-a rastejando no chão envolta de uma poça de sangue, minha irmã seminua só gritava, estava em estado de choque, ajoelhei-me tentando compreender algo, mas ela não me disse nada, seus olhos agradeceram a minha presença e ela descansou ali mesmo. Eu corri sem rumo em busca de vingança.

Logo após alguns quilômetros, tomado pela raiva, sentei no chão e chorei, chorei porque no mundo em que vivia não existia justiça, só havia minha impotência diante de tudo e de todos. Depois de poucos, mas intensos minutos, levantei, retomei a mísera razão que me restava e voltei à casa, precisava entender o que havia acontecido. Ao chegar, visualizei meu pai no canto da sala e minha irmã ao me ver gritou: foi ele! Eu não pensei, eu o matei.

Enterrei os corpos, o da mamãe com zelo e cuidado e o do velho jogado em um canto do terreno. Seguimos em frente, o que me continha era o medo de me matar, e não o medo de morrer, pensava dia após dia em acabar com este sofrimento, em desistir, em querer descansar finalmente em paz.

Com o tempo o sentimento de injustiça crescia de modo incontrolável dentro de mim. Meus irmãos que restaram dispersaram-se no mundo e eu andava sozinho pelas ruas observando as pessoas, os casais, as famílias e toda a felicidade que as rodeava. Sentia inveja, uma inveja que só me tornava pior. Depois de relutar resolvi apelar para as drogas: cai no mesmo poço de meus irmãos. Era confortante ter um alento quando não se tinha mais nada, me sentia seguro e tranquilo quando fumava; e fumei; assaltei; roubei; até que um dia eu matei. Matei um empresário cheio da grana que esnobava sua riqueza em plena luz do dia, matei porque o assalto deu errado, porque eu me assustei, porque eu queria estar em seu lugar, matei, pois, me senti injustiçado…”

Já começara a penetrar alguns resquícios de luz quando ele concluía, e junto a sua primeira lágrima desaguando no chão, a porta abriu, acenderam-se às luzes, os executores entraram, amarraram-no e me acionaram novamente. Ele se foi instantaneamente sem relutar e junto levou todo o meu orgulho. Após a retirada de sua carcaça, quando estava sozinha novamente, observando aquele retrato de lágrima desenhada no piso, aprisionei-me em meus pensamentos novamente…

O que estava me matando era o aparelhinho, aquele que durante trinta e quatro anos substitui o meu silêncio por notícias sobre a realidade brasileira, sobre a corrupção, sobre os milhões e bilhões desviados da educação, saúde e segurança. Dinheiro que poderia salvar vidas, gerar grandes futuros, mas que acabava sendo redirecionado para suprir a soberba humana.

Não conseguia pensar mais em nada, a não ser em uma única questão, uma única dúvida, minha única pergunta: quem deveria realmente receber o meu colo?
 
Memórias de uma cadeira elétrica.

Discutível vida.

 
A vagareza do meu passo destoa,
com o absoluto comunismo do pensamento corrente.
Fora de ritmo, alimento-me do questionamento da luz.
És tu vida, que me apronta sem frescura,
Traz-me proezas na contracultura,
Tira-me os passos com fervura,
e sois discutível, oh vida!
O teu amor a tua compreensão...
Tudo parte de uma concepção,
Que quando bem composta
Qualquer objeção verte resposta
Unta-se ao pensamento, gera foco
que mesmo discutível situa-nos in loco.
Mas, quando mal fundamentada,
tanta teoria, converte-se em nada.
 
Discutível vida.

Presente

 
Meu encanto desvairou-se em pranto
Foi como poucos emergindo
E convergindo
Com algo estranho que vinha vindo...

Colidiu com o futuro
Dinâmico e obscuro,
E que eu nem juro
Que consigas pular o muro!

Meu encanto foi-se em pranto
uniu-se com o passado...
com armaduras, agarrado!
em pensamentos fechados.

Foi-se com o vento, foi-se com a
Descoberta, de que no mundo
Não existe presente puro
Sem auxilio de passado e futuro.

APScheffer.
 
Presente

Encargo de ALMA

 
Ah! Esta tal de alma.
Surge do além
Se adentra em alguém
E sem nenhum porém
Nos faz sentir além.

Puras e brancas
Envolvem-se com lembranças
E soam com seus soturnos versos,
Conhecem todo o encanto do universo
Que nós, meros humanos
Apenas contestamos.

Almas desgraçadas,
Que fazem sofrer o corpo
Buscando um ao outro
Por mero prazer ou gosto.

Talvez se atraiam por um objetivo
Talvez por possuírem a forja de um destino
Ou seria apenas encanto
Que se encontrem em pranto
E façam da coincidência
O inicio de toda existência?

Judiam de nosso tronco,
Extasiam-se ao deparar com análogos
Almejam os corpos, o cheiro, o tato...
Alimentando-se de um intrínseco contato.

Somos compostos por raça
E mesmo assim não distinguem por carcaça.
Buscam seu complemento sem olhar por fora
Encontram, amam e vão embora...
A procura de quem sabe em outro planeta
Na areia, no mar ou até em um cometa.
Outro efêmero corpo.

E como são safadas,
Quando amam, descaradas!
Buscam a própria compreensão
Aliciam humanos
Cometem uma gama de enganos
E se acaso encontram uma singela explicação
Metabolizam toda a reação
Da alma ao humano
Fixando a união.
 
Encargo de ALMA

Forma Pronta

 
Enganados por pensamento de outrem
Acreditam nas crenças alheias
Sem ao menos escutar a voz que os anseia.
Pobre! Humano que não peleia...

Viver em sociedade,
Sem almejo diverso da vontade,
Evitar o ser curioso,
Por preguiça ou medo de algo enganoso.

Não adentram nos males do universo,
Estão cegos diante dos versos
Impostos por seres ditos “corretos”
Que os convencem por decretos.

Cada cabeça uma sentença,
Sendo assim, cada crença uma cabeça,
Cada corpo uma unidade,
Cada qual com sua singularidade.

Não deixes que a forma pronta
Te convences com tua afronta.
E quando vier de escolta,
Mostres toda a tua revolta.

Tudo é distinto, modelo de visão,
Podemos e devemos divergir opinião,
Entendas o que para você é, e pode ser verdade,
Cogite sempre inúmeras possibilidade.

Talvez, pelo ócio ou falta de orientação,
Fantasmas oriundos da sociedade,
Que não presenciam o prazer da contestação
Que encaram tudo como pronto,
Perdem todo o encanto e dissipam descobertas,
Singelas, belas e incertezas,
As quais, fornecem o sustento para a curiosidade,
E fazem com que a vida seja vestida de autenticidade.
 
Forma Pronta

Antes Fosse.

 
Antes fosse meu cansaço
Ao perceber tua indiferença.
Antes fosse um consenso
Do teu querer na minha percepção.
Antes fosse dois que apenas um
Unindo tua sabedoria ao meu senso comum.
Antes fosse um sorriso só pra mim, teu
Do que uma boca que já pereceu.
Antes fosse teu olho no meu
Que meu olho no seu, sem o teu.
Antes fosse duas piadas
Do que uma mal acabada.
Antes fosse algo mutuo
Do que um incompleto conjunto.
Antes fosse minha opinião
E a tua aceitação.
Antes fosse só meu imaginário
Sem esta realidade sem razão.
 
Antes Fosse.

Corra Carolina.

 
Vai-te em pranto,
E quem sabes descubra o encanto
De um merecido descanso.
Quem sabes encontres o teu alguém
Em uma viagem ao além.

Corra Carolina,
Vai-te aventurar em lugares inóspitos
No mato, junto ao ar, faça contato
Adentre na selva selvagem
Desbraves leões, cite Camões,
Entendas corações.

Corra Carolina,
Teu período merecido começa
Não me faças apenas promessas
Busques a tua sonhada adrenalina
Desbraves o tempo, o sol e a neblina.

Corra Carolina, não cogite mais amar
A não ser a natureza e o sonhar.
Estás de férias - de corpo e alma,
Vá atrás com toda a calma
Mas tenhas cautela!
almeje apenas o que tanges tua palma.
 
Corra Carolina.