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Memórias de uma cadeira elétrica.

 
Foi em meados de 2078 que dei início a minha rancorosa reflexão. Fazia frio e tempo que não recebia uma nova visita, uma nova história e um outro fim. A goteira quantificava o tempo, fazia analogia ao tic-tac do relógio, no entanto, de modo bem mais assustador e desumano. Desumano por pingar vagarosamente uma gota que recordava-me lágrimas do choro que por aqui presenciei e todos os murmúrios e suplicas que por aqui vivenciei.

No início sentia orgulho de minha profissão, acabava com os temidos, era mais do que uma heroína, era o alento para muitos familiares que viam em mim a esperança de amenizar seu sofrimento. Fui liberada após a redução da maioridade penal, eram tempos difíceis, conflitantes, tumultuados, aonde a irracionalidade conseguiu vencer a luta, pois era muito mais fácil adotar soluções simples do que remodelar toda uma estrutura.

Aos poucos fui recebendo minhas vítimas: homens, mulheres, adolescentes e idosos. As ações se repetiam: a porta abria; eles me encaravam; sentavam-me forçadamente; alguns relutavam; outros choravam; gritavam; apertavam-me; arranhavam-me e por fim silenciavam-se, eu aguentava seu peso morto depois que tudo findava.

…Após 28 anos, resolveram me deslocar para um espaço que julgo formalmente mais interessante, situaram-me próximo a sala de observação e o meu amigo silêncio metamorfoseou-se em narrativas vindas de um aparelho televisivo…

Era 15 de Novembro, de algum ano que consegui esquecer com o tempo, aquela criatura entrou em minha sala e petrificou-se em minha memória sem ao menos pedir licença. Era aparentemente uma pessoa abominável; fria; feição marcante; olheiras dotadas de um realce escuro assustador; algumas veias ressaltavam em sua têmpora; pulsavam concomitantemente com seu coração; dava para constatar sua angústia através do seu corpo a não ser…a não por seus olhos, que dessincronizados com o todo reluziam conflitando-me.

A porta foi trancafiada sem ressalva, nunca haviam me deixado sozinha com alguém. Depois de algum tempo ele resolveu sentar, posicionou-se em um canto, tocou o piso gélido com seu quadril, escorando sua cabeça e costas na parede. Após momentos inquietantes - afinal quem é que consegue dormir na minha presença sabendo de minhas ações - ele resolveu erguer-se ir ao meu encontro, observar-me, certificar-se da minha incapacidade de ser cruel sem a presença de energia elétrica e sentou-me.

Com o passar das horas a escuridão ia contaminando o espaço e quando nada mais podia ser visto, ele baixinho começou a falar.

“Nasci em um berço de barro, assim como meus quinze irmãos. Fui mais um dos infortúnios na vida desta dita família a qual mal tinha dinheiro para comer, quem dirá para criar mais um ser. Minha mãe chorava todas às noites; chorava de dor; de fome; de raiva e meu pai bebia, bebia quando estava triste, bebia para esquecer e principalmente pela falta de dinheiro, pelo sentimento de impotência, pela tristeza que o inundava toda a vez que ele chegava em casa. Enquanto eu e meus irmãos pedíamos esmola no semáforo ao invés de ir para a escola, não sobrava tempo e nem porquê ser educado, uma vez que ninguém nos ensinou a importância disto. Foram-se os anos e permaneciam as mesmas ações a mesma trajetória.

Sete dos meus irmãos eram viciados, era quase que a mesma situação do pai, eles encontravam na droga o sustento para algo que acredito ser a alma. Três destes sete foram expulsos de casa, possivelmente, se não estão mortos ou presos, andam aprontando por ai. O restante, incluindo-me, continuavam a vender algo na rua, ajudando no sustento daquela estrutura que nomeavam de família.

Foi em um dia de muita chuva que o caçula adoeceu, não conseguiu abrigo, não tinha roupa suficiente para se aquecer e depois de alguns dias, contraiu uma doença. O postinho de saúde estava em greve, nem cogitávamos a hipótese de uma clínica particular, e o caçula foi piorando dia após dia sem chance de ser curado. Desesperada, minha mãe enrolava-o em uma coberta e rezava, orava pedindo pela salvação do filho depois da morte, pois confiava que o outro mundo seria melhor do que esta vida. Após dias de sofrimento, quando a última que morre (a esperança) havia se desvairado, ele se foi levando a última gota de felicidade da mamãe. Depois daquilo ela perambulava pela casa buscando uma explicação em sua fé.

Até o infeliz dia em que cheguei e encontrei-a rastejando no chão envolta de uma poça de sangue, minha irmã seminua só gritava, estava em estado de choque, ajoelhei-me tentando compreender algo, mas ela não me disse nada, seus olhos agradeceram a minha presença e ela descansou ali mesmo. Eu corri sem rumo em busca de vingança.

Logo após alguns quilômetros, tomado pela raiva, sentei no chão e chorei, chorei porque no mundo em que vivia não existia justiça, só havia minha impotência diante de tudo e de todos. Depois de poucos, mas intensos minutos, levantei, retomei a mísera razão que me restava e voltei à casa, precisava entender o que havia acontecido. Ao chegar, visualizei meu pai no canto da sala e minha irmã ao me ver gritou: foi ele! Eu não pensei, eu o matei.

Enterrei os corpos, o da mamãe com zelo e cuidado e o do velho jogado em um canto do terreno. Seguimos em frente, o que me continha era o medo de me matar, e não o medo de morrer, pensava dia após dia em acabar com este sofrimento, em desistir, em querer descansar finalmente em paz.

Com o tempo o sentimento de injustiça crescia de modo incontrolável dentro de mim. Meus irmãos que restaram dispersaram-se no mundo e eu andava sozinho pelas ruas observando as pessoas, os casais, as famílias e toda a felicidade que as rodeava. Sentia inveja, uma inveja que só me tornava pior. Depois de relutar resolvi apelar para as drogas: cai no mesmo poço de meus irmãos. Era confortante ter um alento quando não se tinha mais nada, me sentia seguro e tranquilo quando fumava; e fumei; assaltei; roubei; até que um dia eu matei. Matei um empresário cheio da grana que esnobava sua riqueza em plena luz do dia, matei porque o assalto deu errado, porque eu me assustei, porque eu queria estar em seu lugar, matei, pois, me senti injustiçado…”

Já começara a penetrar alguns resquícios de luz quando ele concluía, e junto a sua primeira lágrima desaguando no chão, a porta abriu, acenderam-se às luzes, os executores entraram, amarraram-no e me acionaram novamente. Ele se foi instantaneamente sem relutar e junto levou todo o meu orgulho. Após a retirada de sua carcaça, quando estava sozinha novamente, observando aquele retrato de lágrima desenhada no piso, aprisionei-me em meus pensamentos novamente…

O que estava me matando era o aparelhinho, aquele que durante trinta e quatro anos substitui o meu silêncio por notícias sobre a realidade brasileira, sobre a corrupção, sobre os milhões e bilhões desviados da educação, saúde e segurança. Dinheiro que poderia salvar vidas, gerar grandes futuros, mas que acabava sendo redirecionado para suprir a soberba humana.

Não conseguia pensar mais em nada, a não ser em uma única questão, uma única dúvida, minha única pergunta: quem deveria realmente receber o meu colo?

 
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APScheffer
 
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