https://www.poetris.com/

Poemas, frases e mensagens de Paulo de Carvalho

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de Paulo de Carvalho

Nascido no ano de 1955, na cidade de Niterói, RJ, Paulo de Carvalho iniciou desde cedo suas incursões no cenário artístico-cultural.
Ator e sonoplasta – co

Ressuscitar-te

 
RESSUSCITAR-TE

Chamo pelo silêncio,
Silêncio dos ventos.

                         (Faz silêncio minha dor)

Silêncio de todas as cores.
Chamo pelo silêncio do mar.

                        (Faz silêncio minha voz)

Silêncio, fez-se em minha alma,
Solo que jaz em mim.

                         (Faz silêncio minha paixão)

Silêncio te peço que faça, Sol...
A noite nela se deitou.

                        (Urge que deites em minhas mãos
                         do fogo de tuas chamas)

Silêncio te peço, Lua,
E de todos os corpos do céu.

                         Mas deita em minhas mãos
                         da tez de tua luz)

Silêncio, peço ao silêncio!
E a todas as conchas do mar...

                         (Mas deita em minhas mãos
                         todo som dos maremotos)

Silêncio de versos, poeta,
E de todo fervor de tu’alma...

Mas retendes, em tuas mãos, sopros-poesia.

Soem agora em uníssono,
Do todo deitado retido contigo:

                         Liberte de alma o espírito em paixão!

Soem... Soem... Soem...
Timbales, fagotes, cellos...

                         Sopre teu Sopro naquela que jaz...

Soem todos os sons...
Urge o rugir da sinfonia e harmonia...

                         Liberte do barro todo vermelho-vinho.

Soem... Soem todas as artes!
Faz mister da criação

                         Tudo que tens será pouco
                         se pronto não ressuscitar-te...
 
Ressuscitar-te

Valhacouto

 
Valhacouto

Longe de eu obscurecer nos tugúrios
entre betumes e azorragues.
Afasta a azáfama das asas
— todo deserto é um pio insólito
no labor fátuo de teus vôos.

Alaridos! Becos, vácuos e átrios
Lastro! Vasta semeadura do pó.
Interiores de aços frios e baços
— opacos de meus cantos
ao pranto porcelana dos anjos.

De um alpendre pende o bronze
zoar dos dias lidas fadigas.
Prumo sonoro guia-me
— carismático morcego
mensageiro de meus cantos.

Nas marés esvoaçam tuas azáleas
apregoadas nas escamas.
Olores outrora prometidos
— esmaecidos convés
lírios casquilhos viés andrajos.

Perdem-se nos templos uma pluma
vácuo contido nos silos.
Limbo solene vão da falta
— entoam perenes coristas
regência de minhas odes lástimas.

Decifram-me as garatujas sábias gruas
empedernidas dermes.
Estátuas sacras sargaços
— cantam a fala do rouco
deitam na vala o louco da falha.

Lábios empalhados clamam do vime
ao sustenido chamado.
Sustos decanos enganos
— escusam ouvidos e só
castas legiões inversos portais.
 
Valhacouto

Prelúdio para uma esfera triste

 
Prelúdio para uma esfera triste

Teu espelho de barro
                             [tão raro... tão caro
Absorve dos lábios
Pergaminhos vencidos.

                             tempo dos ícones
                             instransponíveis sinais.

Absorve uma lágrima
                             [tão lírio... tão casta
Abasta-se da trama
Falésia carpida na fala.

                             reflexo das sancas
                             talhadas gruas vestais.

Inexatas âmbulas de saibro
                             [tão pias... tão vinhos
Amálgamas inexatos
Dançavam loas na pira.

                             imagens óbvias
                             um rosto nódoa e palha.

Ao solo a fenda da sombra
                             [tão sóbria... tão hóstia
Nas salas entrelinhas
Cruzada trôpega espia.

                             o dorso ao solo
                             elegia pousada na linha.

Esparge embargada imagem
                             [tão nobre... tão presto
Sisal amarra espumas
Prosaicas arcas de gelo.

                             seiva e argilas
                             uma esfera triste espera.

Ilusório ardil no barro espelha
                             [tão peixe... tão lastro
 
Prelúdio para uma esfera triste

ELES COMEM AZUIS

 
ELES COMEM AZUIS

Cavaleiros de distantes terras
a viajar por infinitas estradas.

Entradas de estrelas e brilhos
percorrem caminhos tão claros

sempre repletos de fome
(Azuis comem e seguem,

deixando restos de escuros:
sobras de tons acinzentados.

Sim, eles comem azuis.)
Pregam pratas palavras

em púrpuras esperanças,
promessas e abastanças,

abastados fidalgos amantes
transportam na garupa de seus corcéis

elegantes senhoras
(De fomes iguais comem

de fomes a mais
de bela estética compõem-se:

trazem nos alforjes tratados canônicos
de idôneos autores —

e falam da ética com a mesma elegância
com que cuidam a fonética).

Comem azuis
certos de que o mal não lhes entra

o coração repleto de tons.
Falam palavras azuis:

Belos altruístas, performistas,
artistas de refinadas retóricas,

Teóricos clérigos carregam verdades
(E comem azuis...)

Afinados ouvidos em cristais, diapasão,
ouvem atentos ao que lhes sopra o vento...

Atentos... Sempre atentos...
Ouvem e apregoam, proféticos,

o sopro supremo e extremo
da chegança liberdade,

sempre a favor (sem dor ou clamor).
Elegantes, sempre, em seus corcéis

(Sob seus galopes ávidos estão
aqueles que azul não têm.

Sobram-lhes migalhas fartas
daquele escuro deixado caído ou tombado

por descaso ou larga cortesia
das benfazejas senhoras

que, prenhes, estão de azul).
E a terra. Ah! a terra que não se encerra

encharca-se de verde e musgos
e limos e lamas dos restos

e restos de sobras e sombras
gestando no seio, esteio do peito,

da carne que se avermelha em barro.
O lírico alvo (delirante meta)

completa ode como encanto
sem engano ou desencontro.

Sopra vento forte de escuros:
Azul não brilha (prata esfria)

onde luz não há:
Brotará refulgente, urgente,

Vermelhos reflexos iguais.
 
ELES COMEM AZUIS

REMISSIVOS OMISSOS

 
REMISSIVOS OMISSOS
                                                                                                                      [a uma prosa burlesca...

Em verdade, nem noite era... apenas os escuros onde as almas deitavam suas sombras ressonantes a meus ouvidos, espargindo ocos amorfos em meus olhos. Ecos em fantasia de minhas cirandas nas danças alecrim (vestia-me das verdes Artemísia debruadas em sianinha verdadeiras).
Mas tu que sabias as entranhas de minhas fomes e das forjas do trigo às formas das pedras; o mais-que-perfeito em tradução de meus ritos inscritos aos umbrais, tinha-me Sulamita. Esfinge fui-te ao absorver-te as miragens... antropofágicos enigmas de minhas ânsias. Dei-te meus delicados lábios de mármore em indecifráveis conflitos, contritos das sendas nas tendas. Dei-te Teu Nome nas pelejas dos pássaros entre os cacos espargidos — coelhos de vidros — mosaicos adornados ao chão nos prumos afagos em lenda das portas.
                                                                                                                [Quando sair era inevitável...

Ah! E tantos foram os momentos de minhas atrições nas ofertas dos beijos... Infiel viés das pontes nas insustentáveis noites-vítreas; dei-te visgo nas espumas das falas que nem mesmo sabias.
                                                                                                                                [E dizia-te mel...

Sedutora, nas danças, convites fiz-te aos indevassáveis lugares de minhas missas nas homilias das dores arcanas. Clamei-te em guias vazias, aos meus labirintos. Teus olhos se me negaram aos escuros, pois teus castanhos, já entronizado nas eras, intentavam a luz.
                                                                                                                      [E ardia-te archotes...

Meus choros mais castos ofertei-te nas teias; trama das danças nas sombras, entre brumas mescladas ao éter das lágrimas e da cevada. Mas você jamais entendeu... Falei-te da agonia das horas (e foram tantas) de um corpo ancho imiscuído às ranhuras do chão... e das vozes armadas, compadecidas do ato, em auto final. Mas você não atendeu minhas danças.
                                                                                                                      [Gargalhadas nas piras...

Consagrei-te! Oh, quão incomensurável os mistérios de minha face aos candelabros! Revelei-te minhas lágrimas deitadas em fios das ceras ao destino do chão. Sombras de velas pálidas... cálidas... sempiternas e de mosto sabor. Pasodoble! Banderillera sedutora, convidei-te as minhas arenas. Gitana das marcas, de meus seios ofertei-te cravos... em minhas ancas absorvi-te os lírios.
                                                                                                                         [Enganos miosótis...

Hoje assino-me máculas, a ferida fendida nas páginas de um livro que não te servi.
                                                                                                                                         [Eleison...
 
REMISSIVOS OMISSOS

Adágio

 
ADÁGIO


Pousa em meu peito
Um canto escuro qual gema:
Oculto encanto de um melro.

Fazia-se hora plena nas tardes-jardins.
Um casulo cor das sedas sequiosas,
Envoltórios falam faunas bromélias:

Voa aos passados magésticos
Singulares plurais, imagens, sabores,
Lamentos doces, ocra em sons...

Uma lágrima, eugenia furta-cor.
Sabores, pomares, manjares, ceias
Sobejam... Harpejam-me adágios.

Voa... Voa-me teus escuros,
Macios, suaves, queridos lugares.
Seduza-me vento, asas e sol:

A cor mais bela da dor, fulgor
Colore-me de aves, areias e flores;
Lugares-jades, centeal sempiterno

O tênue do peito acalanta um ninho.
Escura, cintilante gema – raro canto:
Abrigo, encanto oculto... Revogares.

Voa na tarde um melro...
 
Adágio

Sanctus

 
Sanctus

És!
O Nome dentre os nomes
Altares de meus ofertórios
espargido sangue communio
ao corte das hóstias; máculas
de minhas taças, louvam-te

És!
Dentre os homens o Nome
Manto de espadas às noites
páscoa das carnes frementes
lancinante e frio grito conflito
contrito às paredes na arca

És!
Dentre as tendas o Nome
Ceias ao mogno e ao cravo
serve-me de tua fome; tantas
pomo aos silêncios esperantos
honro-te em exauridas ceias

És!
O Nome dos nomes dentre
Templário de meus átrios
sisais limítrofes cercas adros
adorno-te o Nome nas horas
trança hedera em aura loas

És?
 
Sanctus

Uma nota tardia

 
Uma nota tardia

Deitam-se orvalhos às sombras
lágrimas nuvens de meus passos

Eras vívidas aos lapsos ponteiros;
pautadas em cifras desarrimadas,
cantam bravios mares e suas naus

[naufrágios

a dor – messe; lamentos nos céus,
marejadas escamas flamas de luz,
na porta das ceifas a falha marcada

[conjuras

compõem-se odes onde tardias
nas tintas vãs de minhas mãos

As cores cristais; por céu acalanto,
revestem caladas – cantatas líricas,
oníricas sobras ao chão – opus coral

[consagradas

instantes silêncios retidos na íris
re-desenham miragens despidas;
imagem prelúdio, noites de bronze

[...
 
Uma nota tardia

Luzes

 
LUZES

De vê-las não lembro
Querê-las foi intento.
Era escuro
Um escuro intenso
De silêncio denso.

Ressonava tão somente
Um pássaro rouco.

Falavam-me de pássaros,
Cantos e cores,
Tons azuis-claros,
Pétalas de flores.

De vê-las não lembro
Querê-las foi intento.

Todo medo era prata
Lâmina, corte de adaga:
Corte frio no sangue,
Coragem que desbarata,
Luz que desacata...

Falavam-me de pássaros —
Cantos e cores.

Toda possível coragem
Retórica, distante imagem:
Viver era o pouco —
Um porão, beco ou garagem —
Rio seco sem leito... Sem margem,

Retórica, distante imagem
(Viver era o pouco)

Literaturas queimadas,
Histórias desbotadas,
Amarela tensão.
Imagens desgastadas,
Calças velhas... rasgadas.

Histórias desbotadas,
Amarela tensão...
De vê-las não lembro,
Querê-las foi intento.
Falavam-me de pássaros,
De cantos e cores
Retóricas, distante imagem.

Viver era o pouco...
Ressonava tão somente
Um pássaro rouco.
 
Luzes

Tânatos

 
TÂNATOS

Perene!
Cortesã das noites e mantos. Cantos e sopros brilham as eternidades; irresistíveis negros de teus véus. Senhora dos céus e fios — finos e tênues silêncios entre as cores e húmus.

Perene!
Indelével nas danças – harmonia ao lúdico dos jogos. Faceira, tramas em compassos teus ritos solenes. Dama eterna dos joios e trigos e mostos ao gozo dos pastos... logos & cálices.

Perene!
Inconteste das lidas cruzadas – soberana nas fainas, revigoras as chamas nas hastes extintas. Refulgente e bela ao coro-sopro dos Verbos.

Perene!
Indissoluta és nos lumes e gumes — luzente nos breus. Irônica e plena à sedução dos lábios. Calores incisos em ranhuras nas pedras... beijas os sopros à resta do frio.

Perene!
Incólume dançarina entre pêndulos e areias. Ápice do não nas ofertas, consagram-te — enigmas perpetuados à sina; morrer-te quereres.

Perene!
 
Tânatos

KATHAROI

 
KATHAROI

Ao insólito das ceias vulgares invitas aos damascos hauridos nas tendas.
Seduz-me teus nomes em fomes, marcas a dança entre miragens e mirras;
tens o domínio dos ventos e o segredo da pele das noites. Incita-me!

Sendas tão tuas! Conheces os tons e sons... os toques. Sabes meus veios —
anseios ao zelo dos olhos. Colhe-me às íris-lis.

Aos minutos incomensuráveis, faço-te mesuras em ofertas... estendo-te minha pele;
plena te sinto aos brocados lavrados — relevos revelados às pratas e às presas no mosto
mesclado dos sopros.

Inscritas árias — opus das sagas, clamo-te a regência. Dança das águas –
esteiro – deslizo, pele. Invés das fontes bebe-me... E, fêmeas, se fazem as
horas às tâmaras da alcova.

Sei-te em mim ao sabor das marcas quando te clamam os vazios. Minha dor.

Sei-me quando emudecidas tuas falas... claves ausentes nas pautas.

Sei-te, espírito, ao ter-me em teus lábios, substanciada aos tintos odres.

Tornar-se-nos vinho.
 
KATHAROI

A nódoa das heras

 
A nódoa das heras

Do princípio indefinido das eras
confirmadas eram as noites:
o clarão anunciado das trevas

                                [suspeitas da luz
                               à oferta do fruto

omitido equilíbrio nas ramas
firmadas nas fomes já ditas

                               — ao bem
                               tanto mal

frio de sal nas ranhuras do barro
jarro perpétuo plenas areias:
voa a folha; a página solta

                                [revés dos mares
                               re-voltas marés

heras
                e elos
feras
                e aço
árduo
                e cal
selo

                                [a nódoa
da noite
 
A nódoa das heras

FALTA: FALA

 
FALTA: FALA

Perscrutando vazios
[desconstrução do todo]
Inverso do pleno,
Razão de ver avesso.

Insano jogo de composição
Decompondo posições.

Movimentando em vazios [da fala]
Pedaços de brancos
Mosaicos prosaicos da falta.
Incide a fome falta
                          – do objeto

Quem sabe trigo?
Quem sabe tido?

Por ora dado – decerto!
Como olhos que não vêem
A pintar de luz
O escuro, de fato, visualizado.

E do branco pinçar residentes cores
como anil para a fome agora,

Vermelho por miragem
[imagético reflexo]
- Concreto, palpável
Indelével e palatável
Como o oposto que assume onde
O ronco no estômago,
                          - Pela ausência do alimento,
Provoca dor e
Denuncia a fome.
                          Quem te grita é a falta
                          Em real (r)existir!
 
FALTA: FALA