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Poemas, frases e mensagens de nunorita

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de nunorita

A vida é muito mais bonita quando temos por companhia uma bela poesia

Desprezado!

 
Eis o Desprezado!
Um pai natal caído do trenó,
abandonado pelas renas,
sem prendas para dar ou receber.

Eis o Pedinte!
Um anjo maltratado,
despejado de uma nuvem
num soluço de tragédia.

Eis o Barbudo!
Pêlos queimados pelo tabaco,
paraíso de parasitas que o acham
mais parasita dos que eles.

Eis o Rasgado!
Com as calças, os sapatos
e o casaco a sorrirem
com suas bocas de chagas desdentadas.

Eis o Viciado!
Que se desinfecta com álcool,
ingerido para fazer efeito por dentro
e poder mover-se por fora.

Eis o Mal cheiroso!
Repugna os que o sentem
na distância de um sopro
mais vigoroso do vento.

Eis o Mal Amado!
Infecta a rua conservadora,
do bairro onde não tem
o direito de ser gente.

Eis o Vergonhoso!
Incomoda os orgulhosos
que se sentem superiores
em géneros e números.

Eis o Vadio!
Figura de gente
em forma de animal
acossado pelas moscas.

Ei-lo que se aproxima!

Deslizando no visco do seu rastro.

Guardem os vossos filhos em casa.
Tranquem as portas das moradias.
Fechem os bolsos das esmolas!

Ignorem-no!

Porque a ignorância é a protectora dos que preferem não ver.
 
Desprezado!

Sem ti não sei ser eu

 
Amo-te com a serenidade de um rio.
Mas por vezes sinto-te a escapar como areia pelos dedos.
 
Os teus olhos embarcam em viagens para onde não fui convidado,
lugares só teus, para os quais não forneces bilhete
e para onde precisas de ir, 
só Tu.
 
Mas regressas, regressas sempre.
 
Minha vida, minha pele.
 
Sem ti não sei ser Eu, seria outro.
 
Ainda não compreendi ao que vim mas contigo sou Eu e não outro
e quero ser Eu e não outro.
 
Se é exagero amar-te então deixa-me ser exagerado.
Se é exagero querer ser Eu e não outro,
por favor, deixa-me ser Eu.
 
Junto de ti.
 
Regressas sempre, bem sei.
Aguardo.
Mas receio…
 
Sem ti não sei ser eu

Impressão digital de um beijo.

 
Inscreve na minha boca uma impressão digital,
que eu inscreverei na tua o meu sabor natural.

Pressiona em meus lábios os teus feitos cor,
duas rosas suaves, brilhantes, com traços de amor.

Saboreia lentamente o meu gosto particular,
mordo as palavras dos beijos dados no teu ar.

Refresca minha palidez com a tua pura saliva,
trocamos fluidos alegres numa atitude festiva.

Encerramos os olhos num segredo de contacto,
acaricio-te a alma com ligeirezas de tacto.

Na curva deste beijo, nas linguas encontradas,
repousam finalmente as nossas almas cansadas.

Por isso
inscreve na minha boca uma impressão digital
que eu inscreverei na tua o meu amor fundamental.
 
Impressão digital de um beijo.

Não é para os Pardais

 
Não sinto nada…

Abril já passou e as andorinhas verdes partiram há muito…

Os poleiros que tinham a alegria dos vestidos de cravos,
encheram-se de Abutres e de Aves de Rapina que espreitam e governam…

Não há liberdade para os Pardais!

Apenas calma…
Apenas o dia sereno, que avança, sereno.
Tudo sereno e tudo manso.
Bem mandado o dia avança cansado.

E os poleiros, que de cheios, até vergam…
E as andorinhas verdes que partiram…
E os Pardais sem liberdade para serem pardais!

Ah, a liberdade não é para os Pardais!

O primeiro milho não é para eles,
O segundo, também não.
E se ele faltar, eles o pagarão!

A liberdade não é para os Pardais!
Não há liberdade para os Pardais!

Entalados entre o ferro e a bigorna que adorna…

Apenas mansidão,
Apenas serenidade,
Apenas tolerância.
Não, não é para os Pardais, a liberdade!

Para pôr Portugal a refletir.
 
Não é para os Pardais

Ah! se eu tivesse...

 
Ah! se eu tivesse filosofia
corrente ou mania
Mestre ou simples fantasia...
Seria
como se a Lua soubesse
o que fazia.
 
Ah! se eu tivesse...

O Amor

 
Morri-o...

mas ele seguiu-me e estacionou o seu corpo na minha rua...

Vigilante, Expectante

pelo momento certo de

ressuscitar-me
 
O Amor

Pensamento

 
NADA ESPERO,
TUDO ALCANÇO.
 
Pensamento

Útero

 
Despeço-me do útero com gestos apertados...

A violência do momento, não deixa dúvidas...

É a Hora! Está na Hora!

e uma luz que me guie....
 
Útero

Qual a tua profundidade?

 
Qual a tua profundidade?
- És charco? És mar?
Ou tens marés? Períodos de seca e de cheias?
Qual o vento que enche as tuas ondas?
- O do norte? O do sul? Ou todos? Ou nenhum?

Qual a minha profundidade?
Uso o submarino interior
para me conhecer.
As janelas estão baças.
É difícil de ver...
O sonar é reflectido pela alma,
O sinal é forte, é fraco, é doce calma.
Quanto mais fundo
mais escuro e negro fica.

Sou complexo(s)
 
Qual a tua profundidade?

Falta-me tudo e nada me falta...

 
Falta-me tudo e nada me falta...

Tenho as mãos cheias de vento
mas falta-me o ar,
tenho livre o pensamento
mas falta-me pensar,
tenho amor ao momento
mas falta-me arriscar...

Tenho uma mesa cheia
mas falta-me o que comer,
tenho o meu pé-de-meia
mas falta-me o saber,
tenho de mim uma ideia
mas falta-me o que dizer...

Tenho os pés firmes no chão
mas falta-me o compasso,
tenho o mar no coração
mas falta-me vontade de aço,
tenho casa, roupa, e pão...
mas falta-me saber o que faço.

Tenho tudo e o nada me falta...
Porque o tudo não me faz falta.
E a ti, o que te falta?
 
Falta-me tudo e nada me falta...

Viagem no vento

 
Em silêncio,
esperando pela porta fechada
que abrirá os braços para os receber,
aguardam pela passagem de um vento tubular
que os levará para onde não querem ir.

Estes olhos, conformados, realistas,
desistiram de sonhar os sonhos da infância
onde eles se perdiam no imenso mar da imaginação,
em que a alma navegava de ilha em ilha,
procurando os segredos particulares
que cada uma delas guardava
nos tesouros enterrados pelos piratas do sentir.

Em cada tesouro havia sempre um mundo novo
pleno de cores e de cheiros desconhecidos,
habitado por gente que era bonita e interessante
e de onde não apetecia sair nunca.

Por lá encontraram estes olhos outros olhos,
que procuravam olhos amigos para partilhar
estes mundos novos e alegres.

E naquele momento, o mundo foi feliz.

Mas estes olhos não estavam destinados
a ver os outros olhos a envelhecer...

Separaram-se encharcados nas lágrimas dos olhos
que se julgavam juntos para sempre e que sem querer aumentaram o tamanho do mar que um dia os uniu.

Estes olhos juraram nunca mais esquecer os olhos que partiram...

Agora, estes olhos desfocados aguardam
pelo vento metálico tubular que os levará
como folhas varridas num jardim,
sem vontade de encararem outros olhos
igualmente deslavados que estão no rosto cansado
que habita o vulto imóvel à sua frente que lhe sorri.

Com esforço reconhecem naqueles olhos que o miram,
os olhos perdidos no antigo mar das emoções.

Reconhecem os contornos ovais e a cor de avelãs
torradas pelo sol do verão, reconhecem o brilho da determinação que sempre fascinou estes olhos que olham os outros que lhe sorriem.

Mas estão diferentes, tais como estes olhos, os outros perderama inocência e a doçura que os caracterizavam tão vincadamente.
O tempo, a vida e a distância encarregaram-se de as apagar destes olhos que se olham espantados e reencontrados.

Lágrimas correm destes olhos que durante muito tempo correram como loucos procurando os olhos que agora os foram encontrar sem que eles estivem a procurá-los.

Agora é tarde para voltarem a procurarem tesouros escondidos em ilhas imaginárias, no antigo mar das brincadeiras de crianças.

O mar já não separa os olhos que sempre se quiseram encontrar...

Esse mar já não existe...
 
Viagem no vento

vizinho das nuvens

 
As horas que passei sentado à espera...

Um dia compreenderás porque trago uma lança
atravessada lado a lado...

Vizinho das nuvens,
vivo algures entre o céu e a terra
e não sei de que terra sou,
pois nas minhas mãos não existe lama que me possa identificar.
Terra minha, meu céu.

Por debaixo dos meus pés, só basalto e calcário, chão
demasiado hermético para me identificar.

E eu que gosto tanto de andar sem ferir as pedras...

Queria ter granito e terra e lama e flores e arte e amores,
tocar em farrapos de nuvens que lentamente se desprendem
do lado do mar
e formam formas que atemorizam os bandos de andorinhas
que voam cá dentro, no céu de mim...

Um dia...

Um dia saberás o que te quis dizer...
 
vizinho das nuvens

No pouco céu que me rodeia

 
No pouco céu que me rodeia
envolvo o sono em dívida.

Porque insisto em deambular pelas
paisagens do pensamento,
resisto, resisto...

As unhas ao crescerem indicam o tempo
que passou entre o inicio e o fim.
Tantas vezes foram aparadas...

Sei que a sabedoria é um abraço de estrelas
pela manhã dos povos,
mas na minha mão nunca dançaram as pernas
de uma delas.

Talvez eu seja proporcionalmente simétrico,
e de simetrias estão as prateleiras cheias.

Assim resta-me ser oval como órbita do teu planeta.
 
No pouco céu que me rodeia

NU

 
Estou nu...
sem máscara e sem par,
sem terra para me ligar,
enrugado, roxo e curvado
que não sei se morro ou se nasço
e entre o nascer e o morrer está a poesia

Estou nu...
sem identidades ou mentiras,
sem falsidades ou intrigas
simplesmente nu...
com as minhas cicatrizes, arranhões,
nódoas negras e contusões...
marcas registadas, códigos de barras.
e entre o cair e o levantar está a poesia

Estou nu
em pêlos e pele creme
segurando um sexo que treme
com secreções a pesarem em mim,
qual tela em branco, mar sem fim,
despido das opacas camadas de roupa
que tanto se curvam no meu guarda-roupa.
Nu mas vivo.
Nu mas EU
NU no céu
 
NU

Para onde foi?

 
Para onde foi o Mar
que nem arroio já é,
e me deixou seco
esgravatando seixos da inspiração?

Para onde foi o Sol
que nem brilho tem,
buraco negro sugador de toda inspiração?

Para onde foram as Mãos
que não param de tremer
como rochedos quebrados em areias salgadas?

Para onde fui nublado
que nem Mar, Sol ou Mãos vejo,
sem pinga de tinta
no sangue da inspiração?
 
Para onde foi?

Persigo um poema

 
Persigo um pensamento
pelas vielas onde eles se escondem,
com a rede da razão numa mão e a outra encher-se de espanto.
Sempre que passam persisto na perseguição,
mas apanho apenas algumas letras espaçadas, palavras soltas.
E por vezes a pele seca de frases incompletas, lá, nos becos esconsos onde o pensamento mudou de pele, mudou de rumo,
esquivando-se das minhas armadilhas, das minhas vâs tentativas
para o prender.
Persigo um pensamento na cadeira do barbeiro
e no caminho de casa,
quase apanhando a sua linha dourada.

Aqueles que eu mais desejo prender
são os mais esquivos
cheios de artimanhas e volteios
fintas e maranhos.
 
Persigo um poema

Quando a lua empurra o mar...

 
Quando a lua empurra o mar
eu beijo água que me deu vida.
Quando a lua sorri no céu
eu acendo-lhe uma despedida.

Quando a terra se espreguiça
eu espreguiço-me com ela.
Quando a terra se emociona
eu pinto-lhe uma aguarela.

Quando o vento afaga troncos
eu sorrio de alegria.
Quando o vento corre louco
eu fico louco de poesia.

Quando o fogo dança dentro
eu acendo chamas de esperança.
Quando o fogo queima novo
eu transpiro a confiança.

Quando dois lábios se tocam
eu gotejo força de paixão.
Quando dois lábios se querem
eu entrego o meu coração.
 
Quando a lua empurra o mar...

Nasci...

 
Nasci,
Cresci,
Morri,
Sem que tu desses por mim.

Sonhei,
Cantei,
Gritei,
Sem que tu desses por mim.

Amei-te na sombra
Duma parede gigante
Que se punha entre nós.

- Sem que tu desses por mim.

Corri o espaço todo
À procura de alguém
Como tu.
- Não achei.

Colei-me à tua porta
Para que desses por mim.
Mas a parede cresceu
Novamente e cobriu-me
De sombra outra vez.
- Assim se passou a vida,
sem que tu desses por mim.
 
Nasci...

Choro...

 
Choro...
E não sei porque choro,
mas choro com vontade,
chorando porque choro.

Choro...
Porque preciso de chorar
o choro da ansiedade
de rir para não chorar.
 
Choro...

Exibes perante mim...

 
Exibes perante mim uma nódoa negra sentimental,
como se fosse coisa só tua,
como se fosse um troféu mental.
Tão latente mas tão patente,
que nem é preciso um registo
ou lente de aumento
para ver de onde vem esse teu mal.

Insistes perante mim numa ilusão monumental,
como se fosse coisa tua,
como se fosse algo pessoal.
Tão crescente, tão demente,
almejando querer ser bem-visto
num futuro advento
da nódoa negra fundamental.
 
Exibes perante mim...

NR