Poemas, frases e mensagens de AnaMartins

Seleção dos poemas, frases e mensagens mais populares de AnaMartins

Nada De Nós

 
Odeio o lado vazio da cama onde me deito. Durmo de braços atados para que não transponham os limites do encaixe silencioso que o meu corpo moldou no colchão. Preciso de tréguas da dor da tua ausência que envenena cada inspirar expirado.
Porém, mal adormeço, o meu coração implora aos braços que se estiquem e te procurem na infinitude do vazio, na esperança inútil de te sentir. Acordo cada dia com o sabor caústico da saudade no peito e os braços debulhados em lágrimas. Nesse árido instante a realidade castra-me os sentidos. Não há mais beijos. Não há mais sorrisos suados. Não há mais frémitos de emoções, nem palavras exaladas em murmúrios. Nada de nós.
A inútil existência de mim remeteu-me a um vácuo mórbido que dilata a cada hora que passo sem ti.
E o vazio do outro lado da cama olha-me pétreo e inabalável.
 
Nada De Nós

Presente

 
Na minha incapacidade de te irradiar a tristeza dos olhos, queria com toda a garra criar uma fórmula balsâmica que te arrancasse um sorriso à dor que se aproxima. Melhor, queria desviá-la para outra direcção, como se fosse vento e tu, branca nuvem! Todavia, apenas posso estender-te a mão.
A verdade inevitável, que não vou decorar com palavras bonitas, é que vais sofrer com a borrasca que se avizinha. Axioma por demais óbvio, eu sei. Mas não tão já. O presente é o presente que a vida te confia nos braços. Acarinha-o, gozando o que podes receber, amplificando o que ainda podes (te) dar.
A secura pétrea destas palavras um dia será pó. O que te restará de mais precioso é o que souberes guardar do outro. E serás imensamente rico.

26 de Março, a caminho de Braga.

Aqui está o abraço que não te dei em Campanhã. Há sempre o dia a seguir.
 
Presente

VALSINHA

 
Dotado de certa astúcia que eu te percebi, mas fingi ignorar, finalmente conseguiste que fossemos jantar fora. Não fomos sós, mas só estávamos um com o outro. O resto que importava? Senti-te entusiasmado porém tenso, como se aquela fosse a tua grande oportunidade de auto-promoção, de te dares a conhecer, tentavas falar naturalmente, mas consciente do peso que casa frase teria em mim. Em nós.
Pediste ao dono do restaurante que pusesse o “teu” cd e entusiasmado apresentaste-me o Martinho, o da vila, claro. No início apenas apreciei o ritmo samba. Sorrias dizendo que o melhor ainda estava para vir. E veio. Fiquei maravilhada com a “Valsinha”! E os nossos olhares dançaram, afagados um no outro. Acho que se fosse hoje, dir-te-ia talvez que era lamechas, mas naquele momento… era tudo o que sentíamos: “o mundo compreendeu/ e o dia amanheceu/ em paz…”
Terminado o jantar caminhámos à beira do rio profundamente inebriados com o aroma da maré vaza, ou seria como o hálito um do outro? Faz diferença? Recordo com exactidão que naquele espaço de tempo entre o restaurante e os carros (nota: odiei e odeio aquele restaurante mas para estar contigo, qualquer sítio serve se tu lá estiveres)fumaste precisamente três cigarros. Recordo que caminhávamos lado a lado colados um no outro como se os nossos casacos estivessem cosidos e bem rematados. Recordo de pensar que já não queria ir a mais sítio nenhum sem ti.
Enquanto nos ríamos de umas anedotas de ocasião, observei o teu perfil: percorri o teu nariz largo e ligeiramente arrebitado, os teus lábios carnudos com promessas de sabor a aventura, apreciei a tua silhueta elegante e o teu porte de homem que sabe o que quer.
Subitamente uma vaga electrizante percorreu o meu corpo de uma estremidade à outra, deixando-me um rubor no rosto e o coração que tentava fugir pela ponta dos dedos...
E foi assim que soube que ias ser tu. Porque tu eras ainda antes de te saber, a razão da minha espera. Essa vaga, realizei depois, chamava-se desejo.
Semeamos sonhos naquela noite, amor, que mais tarde colheste em botão pela vez primeira e em cada vez como primeira.

http://www.youtube.com/watch?v=Bg5nSELduD4
 
VALSINHA

DUETO BEIJA- FLOR76 & ANA MARTINS

 
Poupa-me aos teus joguinhos de palavras e aos teus clichés de algibeira rota. Preserva-me do teu ser excessivamente pensado que não se equilibra. Deixa que o teu corpo esferográfico me desenhe na pele os poemas de raiva que não escreves, e que de uma desgraçada vez deflagre em nós este desejo ferino que nos une e nos separa na intermitência fervorosa da nossa pele.
Sente-me folha de papel e silencia no meu corpo as tuas inquietações, planta no meu ventre a raiz dos teus medos e verte em mim teu raciocínio liquefeito. Se calares esses pensamentos histéricos, verás que no eco da tua insatisfação sombria resta apenas o respirar de dois corpos. Exaustos.
Este é o grito que não sabia ser capaz de rasgar. Irrompe-me pelas artérias sangue pulsante em ânsias de ti. Não me remetas à fragilidade de um vidrinho de Murano susceptível de quebrar a cada gesto teu. Sente-me. Olha-me com o enlevo a que debalde renuncias. Deixa que as tuas palavras brotem em êxtase por entre as ervas daninhas do teu desassossego.
O marasmo incipiente dos inexpressivos dias cinzentos, fenece a cada frémito de desejo que desabrocha na minha pele, e com aliviosas nuances, este torpor inesperado liberta-me das amarras do azedume que exangue vai dando tréguas aos dias que me atravessam. Não deixes que retorne à concha onde me fiz cinza e acre, e dos meus dias noites de savana sem luar.
Encara a mais premente realidade que se desnuda perante o teu olhar fugidio e inquieto: há uma mulher que acorda em mim. E com implacável disposição para pagar o preço da desilusão, para sofrer as lástimas e as penas dos sentimentos vindouros, deponho o meu escudo de indiferença e, rasgados os véus do pudor e da descrença, assumo e enfrento este querer desejoso de ti.

Não me condenes numa mecânica encravada e lancinante, emanada pela fervura vinhesca e agre das percepções, sabias-me reticente nos minados campos do douto amor, derramando em gorjeios de insegurança, toda a seiva envenenada do meu pródigo passado.
Queria tatuar-te as noites da solidão, encharcar-te os dias das incertezas, deitar-me nu e entorpecer quieto no leito morno do teu coração, apesar da dose exacerbada de passado, que me amarrava sem lamento.
Ainda sinto em mim, o eviterno desejo de me ser em ti, cruzando-te os mares da tez rosada, atracando-me de cansaço, em teu porto seguro. Este desejo exequível, irrompe impertinente, me esgaça as dúvidas sombrias do teu olhar, e pede-me que busque no teu corpo a perfeição.
Só hoje senti veemência em tua voz paulatina, abrindo portas e janelas, escancarando o meu mundo de muralhas e defesas, tombando as ameias indisciplinadas do meu casto orgulho, só hoje saboreei o brilho mais cadente e pueril do teu olhar...
Quero-te folha de papel, sim, no silêncio auspicioso de dois mundos, na consumação secreta das palavras mudas, deixa ressoar em mim o vibrar garrido do teu fértil solo, terramoto de loucura exausta na junção elementar da consumação final.
Silenciados os gritos da revolta, resta apenas o respirar isento de dúvidas entre dois corpos acabados de nascer.

Meu querido Amigo, agradeço-te este momento único de partilha. Um beijo enorme!
 
DUETO BEIJA- FLOR76 & ANA MARTINS

POEMA FATELINHA

 
Guardo-te no peito,
semente de luz.
Serei útero seguro
da tua fertilização,
serei ventre maternal
de tão ansiado embrião,
serei coração fecundo
sustentando tuas raízes.
Brotarás, enfim, esplendorosa.
E em refulgente germinar,
Serei mulher.

Repousa no embalo
deste acontecer da vida
Segreda-me, serena, a alma...
… ainda não é o teu tempo.
 
POEMA FATELINHA

MOTIM

 
Geme o verso
na gota de chuva,
sulca o rosto vencido
rumo à foz revoltada.
Clama o corpo em fúria
amotinado
E no dilúvio implacável,
o poema acontece

23/02/2010
 
MOTIM

INSCRIÇÃO

 
ANA

Semente inesperada em ventre mimoso
Criança de sorriso fácil e folia em riste
Adolescente que sempre se achou pouco
Menina moldada mulher nos teus braços
Respeitável esposa, amante enlouquecida
Perdida na escuridão da tua ausência
Obstinada na procura do Sol em si
Mãe de um sonho em forma de rapazinho

Aquela que Nunca soube não te Amar
 
INSCRIÇÃO

CANTATA

 
Maviosa pela manhã,
A tua voz enche a casa.
Irradia a força vibrante
que falta aos raios de sol
neste final de estio.
Canta sempre!
Porque me afagas a alma
e o meu coração sorri-te
com leveza…

Numa manhã de Setembro, enquanto espalhavas Peter Gabriel pela casa, e eu troçava do “Carpet Crawlers”...
 
CANTATA

TOP DO VI ENCONTRO DO LUSO-POEMAS

 
TOP DO VI ENCONTRO DO LUSO-POEMAS

(Post com data-valor de 06/12/2009 )

- A persistência da Vony e a realização de um sonho que depois foi de todos nós! Mulher de garra!

- A procura de um lugar para estacionar em plena hora de mercado

- O (des)contro no comboio com o Rogério, ou Caopoeta para quem preferir, e a nossa conversa sobre música finlandesa.

-Os “tios” adoráveis que ganhei de presente. Pena não ter vindo o primo glp.

- A vitela acompanhada pela gata, pelo capachinho do outro… e pela salsicha do Moreno.

- A reinação e cumplicidade com a horroriscausa, a Mathilde Conceição e o Moreno… e com a Isabel que não escreve mas comenta.

- Os miminhos dessa mulher de fogo chamada Rosa. Que mulher!

- As gargalhadas à chuva. Momentos que ficarão.

- A doce Catarina com a sua afabilidade e os seus cachinhos.

- (Os manos Saiote e a esposa que me perdoem) O Minixis!!! Portou-se como um homenzinho, e de facto, foi a presença masculina mais linda do evento.

- A ternura e a cumplicidade do meu querido Rolim e da doce Mariazinha. Vocês são do melhor, meninos!

- A simpatia e a simplicidade da Mim, da Cleo e da Vanda.

- A euforia das pilinhas, isto é, do digestivo.
Animaram os senhores a fizeram corar as senhoras…

- As declamações maravilhosas do Armindo Cerqueira.

- A organização. É certo que não esperava outra coisa em tratando-se de malta minhota, mas que foram do melhor, ai isso foram.

- Os projectos e/ou ideias do José Torres para o site. Agradou-me particularmente quando o ouvi falar em “oficinas de escrita”…

- A algazarra no armazém do Café, aí já éramos todos velhos camaradas!

- Conhecer aquele que para mim é o melhor cronista do site: Flávio Silver. O tipo é um mimo!

- A promessa de até logo.

Vocês não acharam que isto ia ser um TOP 10, pois não??? Exclusão de partes aqui é impossível!

Pelo contrário, lanço o desafio de acrescentarem o top…
 
TOP DO VI ENCONTRO DO LUSO-POEMAS

AQUÉM

 
Esquálidos versos
cinzelam minhas mãos
Nunca uma rima
mitigará a pena
gravada no peito
Nunca uma estrofe
espelhará a dor
da tua ausência
Nunca um poema
será um hino
justo e perfeito
ao nosso amor.

13/01/2010
 
AQUÉM

SEM ESPAÇO

 
Preenches cada célula
do meu corpo
Deslizas em cada fio
do meu cabelo
Ocupas cada poro
da minha pele
E eu, habituada
à falta de espaço,
Caminho ao meu lado
…naturalmente.
 
SEM ESPAÇO

LEVE SOPRO

 
Enquanto os lençóis esterilizados te abafam e a sonda te conspurca o corpo, diz-me o instinto que neste momento estás amplamente rendido, e vencido pelos fragmentos orgânicos que vais vomitando em golfadas de agonia, te estás marimbando para os teus que tanto sofrem por ti. “Que se danem, não sabem o que isto é!” pois não, meu amigo. Não fazemos a mais ténue ideia do teu sofrimento.
Também tu não sabes da angústia da mãe, da mulher e da família que de olhos postos no céu se sente inoperante e reza aturdida. Não sabes do pânico de quem tanto te queria dizer algo e do medo que essas palavras nunca cheguem a ti. Não sabes de mim que de olhos fixos no nada, sei o que se avizinha, mas me recuso a aceitar. Não sabes, amigo, das piores e mais terríveis recordações que despertas em mim. Mas isso já foi, hoje estou aqui a torcer por ti com todas as minhas forças. Porque ainda acredito!
Não te esqueças tu, meu amigo, que enquanto exalares o mais leve sopro de vida terás sempre a última palavra a dar. A nós, seres inúteis e incapacitados neste mister de te ajudar, resta-nos dizer que te amamos e que aguardamos que decidas viver. Ainda.

Dedicado com muita ternura a um amigo que espero ainda ver brincar com o meu filho

18/04/2010
 
LEVE SOPRO

Ana, minha Ana

 
Era tão mais fácil responder-te há uns anos atrás quando não eras tão exigente. Como quando me perguntaste porque é que as Torres Gémeas tinham caído, lembras-te? Respondi-te que ainda eras muito pequenina mas que quando fosses maior te explicaria (como dizer da maldade humana a uma menina de 5 anos?) então tu satisfeitíssima retorquiste que no próximo ano já ias ter seis anos e aí sim, irias compreender!
Ainda és aquela menina de sorriso traquina que me esperava todas as noites antes de dormir, que fazia questão de beber do mesmo copo que eu, de ouvir as mesmas músicas. Ainda sinto o teu cheirinho de bebé, o conforto dos teus abraços. És a filha que não nasceu de mim, mas tão minha... tão minha que até dói.
Nem sempre te poderei dar respostas que te aconcheguem, mas espero sempre as tuas perguntas pois estou aqui para ti. Sempre estive, mesmo quando a vida me fez ausentar um pouco de nós. Porque tu ainda não percebeste uma coisa fundamental, independentemente do que te façam sentir e pensar, tu és melhor que o mundo e maior que a vida. És a minha menina.

P. S. - Eu sei que sentes saudades do tempo em que a vida sabia a bolo de mousse de chocolate, mas se fechares os olhos é esse o sabor que ainda sentes no coração. É o "nocho xegêdo"!
 
Ana, minha Ana

POESIA É STEREA

 
A poesia é estrela
dançando ao vento
É frágil caravela
vogando o sentimento
É melopeia em sinfonia
com triste lamento
É sorriso em dó maior
de rude frágua
Canção em tom menor
de sentida mágoa

A poesia és tu, sou eu
É eternidade em cada cor
Desdita entoada sem véu
Poesia é alma
... É Amor.

Dedicado à minha querida Mommy com profundo carinho. Por vezes escasseiam as palavras quando toca a falar de quem tanto admiramos.
 
POESIA É STEREA

OLD PARR & BAILEYS

 
Dá às palavras a liberdade de não serem. Toma-as gentilmente como se as levasses numa dança e põe-nas a dormir. Aconchega-as com um cobertor que o frio hoje aperta. Mas deixa-as.
Já viste que mesmo sem elas continuamos juntos olhando o infinito sem nada falar e no olhar tudo dizer? Deixa as palavras! Porque elas castram, obliteram, ferem, obrigam, falham em promessas que não poderão ser cumpridas e, no fim dos tempos, serão esquecidas.
Eu sei que é uma visão muito parcial, injusta até, porque o verbo também existe para libertar, para salvar, para aproximar, para curar… Mas para nós, que hoje faz frio lá fora, esta é a nossa verdade. A quietude é a nossa doutrina.
No silêncio também se vencem batalhas e se conquistam cidades. No silêncio acolho todas as palavras que me acenas com um sorriso, com um gesto. E no silêncio, respiro a menta que exalas e me refresca a alma.
E se juntos no silêncio, juntos em qualquer ruído e em todas as melodias.
Cheers to us!

Para ti, J., que me devolveste a serenidade do silêncio.

15/02/2010
 
OLD PARR & BAILEYS

DESENGANO

 
Não queiras abrigar uma gaivota de asa ferida porque mesmo guinchando de dor, buscará seu poiso no rochedo sulcado pelo mar. Sozinha.
Não queiras uma metade de laranja se não puderes sorver igualmente a outra metade.
Não me queiras. A vida fez-me onda selvagem embalada na força das marés e na folia dos ventos, não tenho costa nem mar. Sou nómada e feita de sal. O meu brilho perdeu-se na cinza.
Não me queiras porque te encanta meu sorriso, é o único que tenho, não o sei esboçar de outra forma.
Não me queiras porque te faço sentir menos só. Eu sou solidão trajada de mulher. Sou dor apaziguada por vezes ao por-do-sol, mas regresso todas as manhãs quando a vida se ergue.
Não me queiras pelo luar nos meus olhos. Sou perpétua amante da mais bela estrela, ao seu brilho minha alma consagrei.
Não me queiras, não... vidro não é cristal.
 
DESENGANO

PERMISSÃO

 
Chora! Chora tudo o que queres!
Solta a nascente dos teus olhos
Deixa que as lágrimas quentes
Sarem as feridas
Que te ardem ainda.
Deixa que o rio siga o seu curso
No horizonte do que já foi.
Deixa que a corrente
Lave as mágoas
Da tristeza que não passará.
Deixa que o leito te acolha
Em sorrisos de ternura,
E afagos de esperança.
O tempo não to disse mas…
As lágrimas salgadas pela dor,
Adoçam com as recordações.

19/08/09

"As lembranças têm a estratégia da luz
Caminham para a frente"- Manuel Rivas
 
PERMISSÃO

SOL

 
 
Um dia vou escrever-te as mais fantásticas histórias dos teus heróis preferidos e de meninos como tu. Ao ler-tas, vou fazer as vozes das personagens para me deliciar com cada gargalhada tua. Amo o teu riso solto e alegre! Vou inventar, só para ti, uma selva cheia de animais para conheceres as suas aventuras!
Até que chegará, enfim, a poesia, e da ponta dos meus dedos deslizarão para o papel os mais belos poemas que só uma mãe poderia algum dia dizer a um filho.
Por ora, sou incapaz de te escrever uma linha, ainda emudeço de fascinação pelo azul traquina do teu sorriso e, 3 anos volvidos, continuo perdida no esboço do teu rosto de traços tão familiares e incrivelmente perfeitos. O meu coração estoura com a luz que incides em mim. Sinto que falar de ti às vezes é um verdadeiro acto pecaminoso e a simples ideia de te partilhar é um tormento. És tão meu, tão vida, tão tudo, que qualquer palavra de amor esmorece a cada tentativa.
Assim, hoje, neste dia tão especial, apenas te sei dizer:

Parabéns, Filhote! És Sol em forma de rapazinho!
 
SOL

TATUAGEM

 
A casa estava habitada há pouco mais de um mês. A noite trovejava pecados velhos, e eu, encolhida a um canto, petrificava de pavor.
Gentilmente, a tua mão levou-me à janela e, numa voz firme mas doce, tentaste chamar-me à razão do fenómeno. Carinhosamente, explicaste tudo tim-tim por tim-tim: as faíscas, os relâmpagos, os choques das nuvens. Escutei, ausente. Como me estava a saber bem aquela tua ternura...o teu braço protector nos meus ombros... e o teu cheiro diluído na brisa enfurecida era ainda mais doce!
Amor, sabes que a ciência sempre me aborreceu! Do que eu gostava mesmo era das tuas explicações, tudo era simples e mágico na tua voz! A cadência das tuas palavras tranquilas serenava-me a alma.
Foi nesse momento que surgiu a mais profunda revelação: Tu estás ao meu lado! O que recear agora que somos indivisos? Subitamente, dissiparam-se os medos e até as trovoadas se tornaram melodias jocosas dentro de mim.

Hoje, sozinha na nossa janela, acolho os troares das nuvens com nostalgia e doçura, porém jamais assustada. Contigo tatuado no meu coração não há espaço para medos. Só amor desmedido.

Nesta data tão especial tinha que te beijar um Olá!
 
TATUAGEM

Coisas Parvinhas

 
(ao K)

Hoje pintei as unhas de vermelho carmim. E senti-me tão próxima de ti!
Tu odiavas vernizes de cores fortes! Quando me ias buscar ao salão olhavas sempre de viés para as minhas mãos a ver a surpresa que te aguardava.
Ah! E depois havia o pormenor do nome do verniz que eu anunciava como uma sobremesa: “hoje temos cereja”, “apeteceu-me chocolate”, “mandei vir amora”.. Um atentado à tua boa disposição!
Mas tu eras terrível, dizias sempre num forçado tom indiferente: “se tu gostas...”, ou um lacónico "são gostos".
Nunca criticavas e nunca rugias o “Tira essa porcaria, por favor” que te ia na alma. Não, tu eras um sonso, deixavas o verniz sair (bem, eu também andava no máximo dois dias com o verniz) e mais tarde, num tom terno e paternalista, vinhas com um “não estava mau, mas tu sabes que eu prefiro vernizes clarinhos. Mas isso tu é que sabes…”. Filho da mãe!
Sabes uma coisa? Eu fazia de propósito duplamente! Primeiro porque se estivesse picada contigo, sabia que era meio caminho andado para te provocar. E como eu gostava de te provocar!
E depois porque eu achava que era importante manter a minha pose de mulher-independente-que-faz-o-que-quer. Uma treta, eu sei, mas era necessário de vez em quando fazer valer a minha vontade, sobretudo para que tu não te apercebesses da verdadeira influência que tinhas na minha vida.
Na verdade o verniz garrido representa todo o resto das coisas que eu fazia para te provocar. Coisas parvinhas, admito.
E hoje, percebi que também tenho saudades do mar contrariado dos teus olhos e da tua expressão de desagrado porque ainda assim é encantadora, então resolvi colocar um verniz vermelho carmim. Em homenagem à minha rebeldia de mulher apaixonada, mas não dominada pelos teus gostos (?!).
Graças ao carmim das minhas mãos vejo-te nitidamente aqui ao pé de mim: um olhar revolto entre as minhas mãos e o volante, um suspiro de resignação, um catarro de ira…
Consigo até ouvir a contrariedade na tua respiração... No pulsar da tua pele... Que bom que ainda usas o mesmo perfume!

Deixa lá querido, amanhã já tiro isto. Ou se calhar não, estou mesmo a gostar de te ver ver irritado.
 
Coisas  Parvinhas

"A vida é um acto de resistência e de reexistência" - Manuel Rivas